13 julho 2015

Resenha Crítica: "Güeros"

 Entre planos fixos elaborados de forma meticulosa e uma câmara na mão pronta a fazer-se sentir e a acompanhar os sentimentos, "Güeros" é um road movie que se deixa guiar muitas das vezes pelos seus personagens, à deriva pelas estradas da Cidade do México, em busca de um cantor cuja carreira e vida encontram-se no ocaso. A busca pelo cantor, em particular, Epigmenio Cruz (Alfonso Charpener), um nome obscuro do folk-rock mexicano, surge praticamente como o MacGuffin que move os personagens principais para um conjunto de episódios que contribui para a sua jornada de crescimento pessoal e espiritual, quebrando a rotina eivada de tédio e monotonia, onde os grandes feitos do dia passavam por convencerem a vizinha de baixo, uma jovem rapariga, a emprestar um cabo sem os pais descobrirem, algo que permitia a Sombra (Tenoch Huerta) e Santos (Leonardo Ortizgris) utilizarem a electricidade do outro apartamento. Sombra e Santos são dois estudantes universitários que se encontram com a vida estagnada, ou a narrativa não estivesse situada em 1999, durante a morosa e fervilhante greve de estudantes da Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) devido à introdução de uma taxa de inscrição numa instituição considerada até então gratuita. Os protestos e o espaço da Universidade vão ser explorados durante o desenrolar do enredo, com "Güeros" a facilmente contrastar temáticas, cenários, modos de filmar, sempre sem descurar o essencial, os relacionamentos e desenvolvimento dos personagens ao longo da narrativa. Numa espécie de prólogo, encontramos Tomás (Sebastián Aguirre), o irmão mais novo de Sombra, a atirar um balão de água do topo do prédio onde habita, acertando em cheio no berço de um bebé, molhando por completo a criança e a mãe do mesmo, algo que gera a fúria desta e da vizinhança. Segue-se uma corrida intensa, descontrolada, enquanto a câmara acompanha este jovem aparentemente sem rumo. Os movimentos de câmara surgem praticamente descontrolados, provavelmente como o batimento cardíaco e respiração deste jovem, com Alonso Ruiz Palacios, o realizador, em colaboração com o director de fotografia Damian Garcia, a procurarem que a primeira seja uma figura interveniente da narrativa. O próprio trabalho de montagem exibe bem o jogo de contrastes do filme, entre planos de longa e curta duração, por vezes com jump-cuts a cortarem a narrativa em momentos que a espaços nos fazem recordar a irreverência de alguns dos cineastas da Nouvelle Vague como Jean-Luc Godard. Se a corrida de Tomás traz à memória a célebre corrida de Antoine Doinel em "Les quatre cent coups" de François Truffaut, já a cena onde assistimos Sombra a mexer o café numa chávena, mesclado com outra bebida, com os líquidos a reunirem-se enquanto giram, faz-nos recordar a icónica cena de "2 ou 3 choses que je sais d'elle" do já citado Jean-Luc Godard, onde assistimos ao café a rodar num momento belíssimo e cheio de significado. Os cineastas da Nouvelle Vague parecem ter sido uma forte influência para Alonso Ruiz Palacios, um estreante em longas-metragens, embora o próprio procure muitas das vezes descartar "Güeros" de ser hipoteticamente rotulado de "filme de arte ou de festival", algo que fica latente em alguns diálogos sardónicos a meio da obra cinematográfica, com o cineasta a espaços a recorrer a alguma metalinguística. Veja-se quando os personagens encontram Oso, um colega de faculdade, e questionam o que este acha do argumento do filme e recebem a seguinte resposta: "(...) Pessoalmente, acho que é muito mau. Parece-me um filme de perseguição (...) Saem do bairro e são perseguidos. E, para além de serem perseguidos, o carro não pega. Vão ao liceu ou à assembleia e são perseguidos. E além disso, são os heróis do filme" ao que lhe respondem "Claro, somos os güeros, os anti-heróis".

 O diálogo acima citado é um dos vários momentos onde o argumento de Alonso Ruiz Palacios e Gibrán Portela sobressai pela naturalidade incutida nas mais variadas situações, para além de saber explorar as dinâmicas entre os protagonistas. No caso do exemplo mencionado, não falta ainda a presença de uma claquete e a dúvida se Oso está a falar do seu filme ou se assistimos a um claro quebrar da quarta parede por parte dos personagens, com Alonso Ruiz Palacios a não ter problemas em correr riscos em "Güeros", a sua primeira longa-metragem como realizador. Essa situação é ainda visível naquele que é um dos diálogos mais mordazes e geniais do filme, onde Sombra salienta "A merda do Cinema Mexicano. Pega num bando de pelintras, filmam-nos a preto e branco e dizem que estão a fazer cinema de arte (...)", algo que não deixa de ser completamente irónico ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica mexicana filmada a... preto e branco, protagonizada por um trio que tem de roubar a electricidade da habitação dos pais de Aurora, a vizinha, para poderem ver TV e ouvir rádio em casa. Diga-se que esta situação vai ainda servir para um comentário ao cinema mexicano, algo comentado por Alonso Ruiz Palacios em entrevista ao Indiewire: "Lately, Mexican cinema has been very present at international film festivals, my film included, but I also have to say that “Güeros” is also a self-parody regarding this. You can’t create a parody if you don’t make fun of yourself first. The films we make in Mexico are often made thinking on their foreign potential rather than for Mexican people to enjoy.  In some of these films we sell an image of Mexico, as “Sombra” says in the film, in which we are portrayed as cheaters, atheists, “putañero” (whoremongers),“malacopas” (bad drinkers), insecure". Nesse sentido, "Güeros" surge como um filme onde o humor está muito presente, embora não seja para nos fazer gargalhar a bandeiras despregadas, contando ainda com algum drama humano e uma representação dos protestos que procura ficar entre o respeito pelo tom de época e a criação de algo atemporal. O drama humano é marcado por situações como as inseguranças de Sombra, algo que o conduz a ter ataques de pânico e alucinações ao ponto de ter medo de enlouquecer. Sombra teme a presença de um tigre imaginário, uma situação que o leva a ter noites mal dormidas, chegando a contactar a vizinha de baixo para expor a situação. Essa condição psicológica frágil é ainda visível quando encontramos Sombra a fumar e o seu rosto revela alguma perturbação e inquietação, com a noite a parecer trazer algum pânico a um personagem mais frágil do que inicialmente pode dar a entender. A chegada do irmão ao seu apartamento não quebra inicialmente o marasmo do seu quotidiano, com tudo a parecer praticamente imóvel. A própria câmara de filmar quase não se move, acompanhando a rotina pouco dinâmica de Sombra, Tomás e Santos no interior da habitação, com os planos a serem compostos com um cuidado que contrasta com a imprevisibilidade daquilo que o trio vai encontrar fora do lar. Estes dialogam sobre assuntos banais ou ficam calados durante longos períodos, apresentam preguiça para se levantarem do sofá e irem sair, interrogam-se sobre o "pequeno almoço mediterrâneo" mas pouco fazem para além de procrastinar parecendo exemplos de uma geração que não sabe bem aquilo que quer. Tomás ainda pergunta ao irmão se este é um fura-greves, uma expressão que ofende Sombra embora não esteja assim tão longe da realidade, ou talvez este acredite mesmo que está a fazer greve à greve. A casa é de dimensões relativamente pequenas, com uma divisória aberta para a zona da cozinha, enquanto a janela expõe os elevados edifícios que povoam o bairro onde moram. Este não é um filme sobre a arquitectura local, embora esta se faça sentir, com os prédios elevados a serem expostos, as longas estradas e o trânsito infernal a serem exibidos, numa obra que no seu primeiro terço foca-se imenso no interior da habitação de Sombra. O espaço está completamente desarrumado e sujo, com alguns planos mais rápidos a não terem problemas em exibirem uma barata que circula à vontade no local, os pratos por lavar ou um cinzeiro que teima em não ser esvaziado, um conjunto de exemplos que expõem paradigmaticamente o descuido destes jovens, bem como o cuidado no design dos cenários e aproveitamento dos mesmos.

Tomás foi viver para este apartamento obrigado pela mãe, após o célebre episódio do balão de água, com esta a sustentar os filhos apesar dos dois serem relativamente distintos, inclusive no que à cor da pele diz respeito, algo que conduz alguns personagens a questionarem os mesmos sobre esta situação. Sombra é moreno, algo que o leva a em alguns momentos ser tratado de forma distinta, com a própria alcunha a trazer toques de racismo. Tomás é um jovem de tez branca, de doze anos de idade, que gosta de tirar fotografias e tem numa cassete de música de Epigmenio Cruz, um objecto que o une ao passado, ao irmão e ao falecido pai. Talvez por isso, a notícia de que Epigmenio pode estar à beira da morte, devido a um caso crítico de cirrose, o transtorne a ponto de pretender encontrar o músico para este autografar a cassete oferecida pelo falecido pai. Inicialmente o irmão não parece ligar muito ao desejo, mas a descoberta por parte dos pais da vizinha de que estes voltaram a utilizar a electricidade da sua casa conduz a que saiam rapidamente do apartamento, tendo em vista a fugirem do progenitor de Aurora, enquanto este avança em fúria. A câmara descontrola-se, o som e os protagonistas também, com o carro a inicialmente não pegar, algo que dificulta o início da fuga. Os tempos em que ficavam a olhar para a televisão ou para "o dia de ontem" terminam e começa uma aventura que de forma amiúde ganha novos contornos e "camadas" que a enriquecem. Inicialmente dirigem-se a um hospital, onde Sombra consulta o médico devido ao seu ataque de pânico e descobrem a carteira deixada por Epigmenio Cruz no local, procurando devolver a mesma ao seu dono. A carteira contém um cartão que permite perceber que Epigmenio é um vigilante no Jardim Zoológico de Chapultepec, uma informação que logo os conduz a pretenderem dirigir-se ao local. Pelo caminho encontram um grupo de rufiões pouco amigáveis, entre os quais um indivíduo que entra no carro em busca de boleia e bebida, com estes a procurarem enganá-lo e fugirem, tendo como próximo passo irem para a UNAM onde se encontra a decorrer uma fervorosa assembleia estudantil nas vésperas de um protesto. Quem tem um papel preponderante nessa assembleia estudantil é Ana (Ilse Salas), uma estudante de "Literatura Tropical" que é a locutora da Contrabanda FM, uma rádio pirata de "onda curta e de intensa resistência". Este é o primeiro momento em que encontramos fisicamente Ana, após termos ouvido a mesma de forma amiúde no rádio do trio masculino, com Sombra a parecer manter sempre um fraquinho por esta personagem de olhos largos e expressivos, algo demonstrado na forma como procura ouvir a mesma. Na assembleia, Ana procura expor de forma viva os seus ideais embora seja alvo de alguma misoginia (o filme não tem problemas em abordar algumas questões do foro histórico, social e económico) e nem sempre seja compreendida, entrando em conflito com Furia (Raúl Briones), o seu namorado ou, pelos vistos, prestes a tornar-se ex-namorado. Sombra sempre teve um fraquinho por esta jovem embora não o tenha revelado antes desta iniciar o caso com Furia, uma situação que será questionada com o avançar da narrativa. Ao contrário de Sombra, um jovem adulto que parece apresentar uma enorme inércia, Ana é uma personagem que gosta de participar nos eventos e expor as suas ideias, procurando que a sua voz seja ouvida, ao mesmo tempo que apresenta uma enorme irreverência e gosto pela discussão e debates acalorados. Após a assembleia, Ana vai exibir o seu estilo de vida na UNAM, durante este período de luta, a Sombra, Tomás e Santos, com o espaço a parecer praticamente um acampamento, marcado por diversas divisórias entre os estudantes de cada departamento. Ana acaba por inesperadamente partir com Sombra, Tomás e Santos em busca do cantor, numa jornada pelas estradas, permitindo a "Güeros" explorar os espaços circundantes da Cidade do México, num road movie que envolve uma cidade de largas dimensões e espaços como uma festa marcada pela presença de uma piscina utilizada pelos protagonistas num momento de descontração, um Jardim Zoológico, entre outros, com a aventura aos poucos a parecer servir mais para estes elementos fortalecerem os laços entre si do que para encontrarem o músico, embora tenham esse objectivo sempre em vista. A relação entre Ana e Sombra conhece alguns avanços, com a personalidade algo insegura e pouco decidida do segundo a parecer conjugar com a irreverência da primeira, uma situação que beneficia da boa dinâmica entre Tenoch Huerta e Ilse Salas, uma dupla com um desempenho convincente.

Ana e Sombra caminham juntos, falam, beijam-se num momento exibido em close-ups extremos, vivem momentos intensos e marcantes numa aventura onde a maior procura parece ser a de quebrar o ciclo da solidão por parte do trio masculino. Essa situação é visível na forma como Sombra e Tomás começam a apresentar uma união cada vez maior, após um período inicial onde pareciam revelar pouca proximidade, com estes novos ciclos que se abrem na vida dos protagonistas a surgirem muitas das vezes oriundos de episódios abruptos que quebram avassaladoramente com o status quo. Entre esses episódios que quebram ciclos temos o balão de água atirado por Tomás num momento irreflectido, a procura do pai da vizinha de baixo em querer espancar Sombra e Santos, bem como um tijolo lançado para o veículo do quarteto principal quando passavam por uma ponte. São momentos fulcrais do filme, mas também o reencontro com Ana, ou a percepção de ambos os irmãos que nesta jornada construíram algo que vai muito para além da busca de um cantor, num filme que tanto tem de boa disposição como de algum drama humano e até alguns momentos mais tocantes. Essa situação fica particularmente visível num momento em que assistimos a Sombra no meio da multidão, a olhar para o irmão enquanto este tira uma foto, com "Güeros" a transmitir-nos que estes perceberam que são as pessoas mais importantes na vida um do outro. É um momento delicado entre dois irmãos cujas vidas nem sempre parecem ter sido marcadas por uma enorme felicidade ou grandes facilidades financeiras. Tomás é um rapaz traquina que ainda não mede bem os seus actos e pragueja como gente grande. Sombra vive com os constantes receios das partidas que a sua mente poderá pregar-lhe. A chegada de Tomás obriga Sombra a sair da rotina que criara para si, sendo aos poucos compelido a combater os seus maiores receios, com o argumento a saber mesclar de forma relativamente eficaz o contexto histórico e social que envolve estes personagens com a sua vida pessoal. Alonso Ruiz Palacio aborda ainda a questão da greve e das divisões sociais no interior dos alunos, em trechos como na assembleia, os protestos que decorrem nas ruas, mas sempre sem tirar o foco de Tomás, Sombra, Santos e a espaços Ana, com "Güeros" a procurar explorar a vida de um conjunto de pessoas que fica num cantinho inferior dos grandes episódios da História mas que tem uma enorme relevância no enredo do filme. É um filme bem vivo a explorar as relações e o período histórico, embora não tenha problemas em utilizar alguns anacronismos, ou elementos tão típicos dos anos 90 como os walkmans, ou a cassete das músicas de Epigmenio não fosse ouvida num destes aparelhos. "Güeros" permite ainda a certeza de que vale a pena estar atento aos próximos trabalhos de Alonso Ruiz Palacios como realizador, com este a não ter problemas em cometer riscos e a acertar em diversos momentos. Veja-se o trabalho com a câmara a coincidir com os estados de espírito dos personagens, a magnífica utilização da iluminação e o aproveitamento do facto do filme ter sido filmado a preto e branco, ou a coragem que mostra quando Ana e Sombra estão a ter um diálogo relevante e pura e simplesmente decide não deixar o espectador escutar o mesmo, seguindo-se o acto gerado por essa troca de palavras (diga-se que vai fazer algo semelhante ao colocar Sombra a ouvir a música de Epigmenio no walkman e apenas exibir a reacção do rosto do jovem). O cineasta procura ainda explorar o espaço da Cidade do México, quebrar fronteiras e tabus, expor a sua visão sobre o local e as suas gentes, mesmo que toque em assuntos considerados melindrosos, algo salientado ao Indiewire: "I think that when making a film about Mexico City you can’t avoid portraying the class differences, the classism, and racism that exists (...) People are still racist, in a way dark skinned people dissociated themselves from the “güeros” [Light-skinned people], and vice versa, the “güeros” dissociated themselves from dark-skinned people ". Os grupos sociais parecem desde logo começarem a ser iniciados em espaços como a faculdade, onde os alunos de cada departamento parecem formar um micro-cosmos, mas também se torna visível nos comentários de Sombra de que Ana não precisa de lutar já que os pais dela têm dinheiro para pagar as propinas.

 As relações entre os pais de Ana e esta não parecem ser muito próximas, embora estes fossem representantes da Geração de 68, a par do cantor que procuram, com o filme a mencionar duas lutas distintas. A diferença de classes e raça é ainda visível na figura de Sombra, devido a ter um tom de pele mais escuro, mas também em Tomás, um "güero", um jovem de tez pálida, com o termo a ser por vezes utilizado no filme de forma pejorativa, com "Güeros" a não ter problemas em abordar algumas temáticas mais melindrosas sobre o México, sempre sem perder a consciência de que o foco é a jornada do trio de protagonistas. Premiado na edição de 2014 do Festival de Berlim como Melhor Primeira Longa-Metragem, "Güeros" revela-se uma grata surpresa que ultrapassa e muito o mero exotismo de termos uma obra cinematográfica oriunda do México a estrear nas salas de cinema portuguesas. Diga-se que neste quesito a Legendmain Filmes tem vindo a fazer um trabalho meritório, ao trazer para as nossas salas obras cinematográficas como "Cães Errantes", "A Temporada do Rinoceronte", "Ciúme", "Ciclo Interrompido", com "Güeros" a ser mais uma cartada acertada que, esperamos, não fique confinada a uma sessão ou outra numa salinha pequena a um horário nem sempre fácil de assistir. É uma obra que merece algum destaque, capaz de ter temáticas que provavelmente vão dizer mais a uns do que a outros, embora para o caso desta pessoa seja impossível não gerar alguma identificação com estes personagens e os estímulos que por vezes necessitam para quebrar as suas rotinas e a monotonia. "Güeros" explora esse quebrar de ciclos, contando com um elenco competente, sobressaindo nomes como Tenoch Huerta, Sebastián Aguirre, Leonardo Ortizgris e Ilse Salas, mas também Alfonso Charpener nos pequenos momentos em que surge como Epigmenio ou o personagem que este interpreta não fosse uma das pedras-basilares para alguns dos episódios do filme. Reza a lenda que este terá feito chorar Bob Dylan, mas a maior importância da cassete e do cantor para Sombra e Tomás centra-se na forma indelével como os une ao passado e ao pai. Estes são dois irmãos nem sempre faladores, que têm os seus problemas e gradualmente parecem aproximar-se cada vez mais e redescobrir laços que os unem às suas raízes, com "Güeros" a surgir como um road movie capaz de abordar com eficácia algumas das suas temáticas, sobressaindo pela forma sagaz com que nos apresenta a esta jornada, muitas das vezes realizada no interior de um carro, sempre com alguma irreverência à mistura. O espaço do carro é fulcral ao longo do enredo, com este a ser simultaneamente um meio de transporte, um cenário e um personagem, com muitos dos episódios relevantes do filme a ocorrerem no interior do mesmo, incluindo um acto mais quente entre Sombra e Ana. Esta carrega consigo algumas contradições inerentes à juventude e ao seu idealismo rebelde, tanto defendendo causas anti-capitalistas como logo de seguida se maquilha para uma festa, exibindo a complexidade inerente a estes personagens que facilmente nos conquistam. Sombra e Santos parecem a antítese dos jovens idealistas que se encontram na faculdade a procurar lutar pelos seus direitos, procurando viver à sua maneira, enquanto Ana tenta lutar pelos seus objectivos e Tomás encontra-se a formar a sua personalidade. No final, é indesmentível que vivem uma miríade de episódios e emoções, transmitindo as mesmas para o espectador, numa obra que compensa sempre alguns dos seus pequenos tropeços com a audácia e irreverência de um cineasta que, tal como os protagonistas, está a procurar vincar a sua voz num meio nem sempre fácil de vingar. Aborda temáticas falsamente simples como os laços familiares, bem como outras tão complexas como a necessidade de ter de encarar a vida e os desafios de frente, aprender a lidar com o crescimento e a responsabilidade inerente ao avançar da idade, ao mesmo tempo que explora a greve estudantil e algumas das suas repercussões, para além de nos colocar diante de uma busca que parece muitas das vezes levar a lado nenhum e ao mesmo tempo conduzir a tantos sítios, com a Cidade do México a ter um papel fundamental no decorrer destes episódios ou "Güeros" não tivesse como outro elemento em destaque a forma eficaz como explora os cenários interiores e exteriores. Entre a busca por um cantor no ocaso da sua vida e da sua carreira, a procura de dois irmãos em fortalecerem os seus laços, a tentativa de um grupo de jovens em quebrar o ciclo de monotonia que atravessa a sua vida, "Güeros" procura explorar a Cidade do México e o contexto que envolve a narrativa, sempre com alguma boa disposição e diversos diálogos marcantes à mistura, algo que consegue de forma eficaz, numa obra sem medo de correr riscos e conquistar pelo caminho o respeito do espectador.

Título original: "Güeros". 
Realizador: Alonso Ruiz Palacios.
Argumento: Alonso Ruiz Palacios e Gibrán Portela.
Elenco: Tenoch Huerta, Sebastián Aguirre, Ilse Salas, Leonardo Ortizgris, Alfonso Charpener

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