24 julho 2015

Resenha Crítica: "Goodfellas" (Tudo Bons Rapazes)

 O ritmo de "Goodfellas" é praticamente imparável e delirante, com Martin Scorsese a deixar-nos perante os meandros do mundo da máfia, numa obra violenta e intensa naquele que é um dos grandes filmes de gangsters da História do Cinema. A narração na primeira pessoa é utilizada de forma exímia, o trabalho de montagem é essencial para manter o ritmo imparável do filme, enquanto ficamos perante um enredo baseado em factos reais onde assistimos à ascensão e queda de Henry Hill (Ray Liotta), um indivíduo que sempre admirou o estilo de vida dos elementos pertencentes ao gang da família Lucchese (Cicero no filme) que habitam e dominam o seu bairro em Brooklyn. Os momentos iniciais do filme não enganam. Estamos em Nova Iorque, em 1970, com Henry Hill, Tommy DeVito (Joe Pesci) e James Conway (Robert De Niro), três mafiosos, a ouvirem um barulho estranho no porta-bagagens. Param o carro. Saem do mesmo. As luzes vermelhas do veículo permeiam os corpos do trio e expõem todo o significado desta tonalidade, com o porta-bagagens a contar no seu interior com Billy Batts (Frank Vincent), um indivíduo que estes agrediram violentamente e julgavam morto. Tommy esfaqueia-o com enorme raiva e fulgor. James tira a pistola e dispara várias vezes sobre Batts. Scorsese dá desde logo o mote para o que vamos encontrar na narrativa, com a brutalidade e a morte a permearem a vida destes elementos, indo mais tarde expor-nos aos acontecimentos que rodearam o assassinato de Batts. Após este aviso de "Goodfellas", a narrativa logo recua até 1955, para a pré-adolescência de Henry Hill (interpretado por Christopher Serrone durante a juventude do personagem) e a sua ascensão no interior do Mundo da máfia, algo que vai sendo efectuado de forma gradual, com este a ganhar a confiança de Paul Cicero (Paul Sorvino), um indivíduo aparentemente calmo que controla o bairro e presta "protecção" a vários elementos. Como salienta Hill durante a narração: "O Paulie podia ser lento mas era só porque não tinha de se apressar por ninguém". Os momentos que se seguem ao prólogo são essenciais para "Goodfellas" estabelecer desde logo o fascínio que Henry Hill apresenta pelo estilo de vida destes homens, mas também a forma como estes controlavam e dominavam o território, com cada elemento a ter tarefas específicas para efectuar. Martin Scorsese traça-nos um retrato bem vivo deste mundo que fascina Henry Hill, com estes homens a regerem-se por leis e medidas muito próprias, surgindo quase como uma grande família onde as traições são punidas com a morte e as alianças podem ser desfeitas consoante as conveniências. "Goodfellas" consegue dar dimensão à miríade de personagens que rodeiam o enredo, embora tenha sempre como elemento central Henry Hill. Este é um indivíduo de ascendência irlandesa e italiana, que durante a infância decidiu largar por completo a escola para trabalhar para Paul e os seus homens, algo que desagrada por completo aos seus pais. Paul tem um papel fundamental junto do protagonista, surgindo quase como uma figura paternal que o procura iniciar neste mundo, enquanto Martin Scorsese retrata este bairro localizado em Brooklyn com um enorme realismo, atenção ao pormenor e capacidade de expor as idiossincrasias dos elementos que o habitam. Henry começa a tratar dos negócios destes elementos, seja a cobrar dívidas, seja a rebentar com um conjunto de carros, seja a vender maços de tabaco roubados, ao mesmo tempo que passa a integrar este meio onde a violência e o espírito de entreajuda parecem andar lado a lado. Estes não se regem pelas regras da sociedade e pela lei, procurando controlar as autoridades ao subornar as mesmas, algo que explica a forma como os seus crimes passam de forma impune, enquanto roubam, contrabandeiam, matam e protagonizam episódios deveras caricatos. 

Quando Henry é detido por contrabandear tabaco, logo é felicitado por James e pelos vários elementos da máfia, não só por ter "perdido a virgindade" nestas lides de detenções, mas também por não ter revelado para quem trabalhava, algo representativo da sua lealdade para com o grupo. Estes momentos iniciais são de algum entusiasmo e vivacidade, marcados por alguma leveza que vão contrastar com os frenéticos episódios do último terço do filme. Sem tempo a perder a narrativa logo avança para 1963, onde ficamos perante os assaltos que o grupo montava no Aeroporto de ldlewild, mais uma vez narrados pelo protagonista: "Quando cresci, passavam 30 biliões por ano em mercadorias pelo aeroporto de Idlewild, e nós tentávamos roubar tudo. É que crescemos perto do aeroporto. Pertencia ao Paulie. Os nossos amigos e familiares trabalhavam lá. Avisavam-nos de tudo o que entrava e saía". Nesta fase já encontramos o protagonista na idade adulta, surgindo como um dos homens da confiança de Paulie, ao mesmo tempo que efectua vários golpes ao lado de Tommy e James. Henry é um gangster frio, leal para com os seus companheiros, aparentemente calmo, que tem um enorme prazer neste estilo de vida que lhe permite ter todos os luxos e extravagâncias que um emprego normal não possibilitariam. Ray Liotta tem em Henry um dos grandes personagens da sua carreira, um gangster fascinado com esta vida, sagaz no cumprimento das regras pelas quais se regem estes homens ao mesmo tempo que parece apresentar sempre algum incómodo no que à matança diz respeito, embora utilize a violência quando esta é necessária. Ao longo do filme vamos assistir a Henry a casar com Karen (Lorraine Bracco), uma mulher judia que inicialmente não parece apreciar a presença deste homem mas aos poucos começa a sentir um enorme entusiasmo pelo estilo de vida do mesmo; a ter amantes como Janice (Gina Mastrogiacomo); a participar em furtos como o da Air France e da Lufthansa que lhes permitem apropriarem-se de uma quantia elevada; a passar boa parte do seu tempo com os gangsters; a ser preso; a envolver-se no negócio de tráfico de droga enquanto a escalada de violência parece rodear o seu quotidiano. A narrativa desenrola-se entre 1955 e os anos 80, um espaço alargado de tempo cujas mudanças e permanências são expostas de forma eficaz por Martin Scorsese, ou não tivesse ele durante a sua juventude vivido em Little Italy, em Nova Iorque. Quando regressamos ao episódio do início do filme descobrimos que Billy Batts é um perigoso e poderoso gangster da família Gambino, que foi eliminado por estes após ter insultado Tommy. Diga-se que este não é o primeiro elemento a ser eliminado por Tommy, com Joe Pesci a conseguir explorar com enorme facilidade o lado agressivo e incontrolável do seu personagem, um indivíduo que nunca sabemos quando está a falar a sério ou quando está a brincar, que não tem problemas em tirar a arma do bolso e matar quem acha que o ofende. Isso explica que elimine um indivíduo protegido pela máfia, algo que lhe trará repercussões gravosas. É provavelmente o indivíduo mais descontrolado e intempestivo do grupo que envolve Henry, ao mesmo tempo que Martin Scorsese procura apresentar com enorme realismo o quotidiano destes elementos. É verdade que temos os fatos e carros caros, a violência e os roubos associados aos filmes de gangsters, bem como a ascensão e queda destes criminosos, mas também temos elementos como a exploração da vida familiar dos mesmos e a forma como estes se integram ou não no mundo exterior ao "casulo" que criaram. Veja-se quando Tommy decide ir buscar uma pá a casa da mãe para ir enterrar Batts, acabando por ficar a jantar com a progenitora, acompanhado por Henry e James. Os momentos chegam a ser algo cómicos, sendo contrastados com a violência do assassinato, mas também com o episódio em que têm de desenterrar Batts devido ao terreno onde o cadáver foi colocado ter sido vendido, com Scorsese quase a deixar-nos perante o cheiro putrefacto dos restos do corpo, enquanto Tommy se diverte a ironizar com o facto deste estar partido em partes.

 A própria banda sonora por vezes traz alguma ironia aos acontecimentos do enredo. Veja-se quando temos Tommy e Jimmy a espancarem brutalmente Billy Batts e Martin Scorsese brinda-nos com "Atlantis" de Donovan, uma música que transmite sentimentos completamente dicotómicos daqueles que nos são expostos no grande ecrã. A utilização da banda sonora, por vezes de forma provocativa e para se adaptar às diferentes épocas, é utilizada de forma exímia por Martin Scorsese, com este a procurar respeitar o período de tempo representado. Temos ainda a utilização de Layla (Piano Exit) dos Derek and the Dominos, enquanto ficamos diante dos assassinatos cometidos por James a vários elementos que participaram no assalto ao Lufthansa, ao mesmo tempo que Ray Liotta narra os episódios. A narração de Ray Liotta e a espaços de Lorraine Bracco é essencial para acrescentar informação ao enredo, mas também para nos colocar praticamente como cúmplices destes personagens que nos parecem tão reais. Martin Scorsese consegue atribuir um enorme realismo a este universo narrativo, ao mesmo tempo que avança com o enredo a uma velocidade notável (muito mérito para o trabalho de Thelma Schoonmaker na montagem) e ficamos perante este grupo de gangsters e o seu quotidiano. Veja-se o casamento de Henry com Karen, com a narração desta a expor a estranheza do acontecimento, com todos a parecerem ter nomes e gestos semelhantes, enquanto assistimos ao quotidiano de uma enorme família da máfia. Este é um grupo fechado, algo que torna a integração de novos elementos como uma situação rara, com Karen a formar amizade apenas com as esposas dos vários mafiosos, enquanto procura aprender a lidar com o lado menos agradável da vida de Henry apesar de apreciar os luxos inerentes à mesma. Lorraine Bracco tem uma interpretação convincente como esta mulher que não tem problemas em enfrentar a amante do marido, numa obra marcada por excelentes interpretações, onde Joe Pesci, Ray Liotta, Paul Sorvino e Robert De Niro têm espaço para se destacar. Se Pesci e Liotta já foram realçados, vale a pena destacarmos Robert De Niro como James, também conhecido como Jimmy, um gangster calculista e violento, pronto a controlar um grupo alargado de homens, que tem uma relação de relativa amizade e confiança com Tommy e Henry. Jimmy não tem problemas em eliminar aqueles que considera serem empecilhos para os seus objectivos, algo comum aos vários personagens que rodeiam o enredo de "Goodfellas" para os quais as traições são punidas de forma implacável. Já Paul Sorvino surge como um personagem aparentemente calmo, conseguindo transmitir a aura de respeito que envolve o mesmo, formando uma relação quase de pai e filho com Henry apesar deste último no final trair o seu mentor, num filme que atravessa várias décadas da história dos EUA e destes homens. É por isso que nos anos 80 encontramos o protagonista envolvido com drogas, com Martin Scorsese a não poupar nas cenas de consumo de cocaína (algo que viria a repetir e muito em "The Wolf of Wall Street"), violência e algumas falas memoráveis, para além de algum humor. Veja-se quando encontramos Joe Pesci a proferir a célebre "Funny like I'm a clown? I amuse you?", após Henry ter dito que este era engraçado, com Tommy a revelar toda a sua imprevisibilidade. Estará a brincar ou a falar a sério? Percebemos que levou a fala de Tommy como brincadeira se não lá o personagem teria ido desta para melhor no interior do bar de Paul, com os espaços nocturnos a serem locais onde decorrem alguns episódios relevantes do enredo. Tommy é o paradigma da violência, visceralidade e imprevisibilidade que rodeiam o filme, com a morte a parecer quase sempre o destino mais provável destes personagens. Temos ainda figuras secundárias como Morrie Kessler (Chuck Low), um jogador inveterado, que participa em anúncios de venda de perucas, com este a entrar num dos grandes golpes dos mafiosos, embora os seus comportamentos considerados pouco adequados facilmente gerem algumas animosidades, entre outros elementos que povoam uma narrativa onde assistimos estes gangsters a irem desde assaltos a mercadorias e divisas, até passarem ao tráfico de droga, com o argumento a explorar as mudanças nos EUA e na vida destes homens.

O argumento, escrito por Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, a partir do livro "Wiseguy: Life in a Mafia Family", escrito pelo primeiro, é baseado em factos reais, nomeadamente sobre a história da ascensão de Henry Hill no interior dos Lucchese, uma família do crime, até cair em queda e ver-se na contingência de funcionar como informante das autoridades contra aqueles de quem outrora fora aliado, algo que o desilude por completo já que traiu os seus ideais. É um regresso de Martin Scorsese aos filmes da máfia depois de "Mean Streets", embora "Goodfellas" seja uma obra que marcou de forma indelével este subgénero ao qual o cineasta voltaria em "Casino" e "The Departed". Diga-se que "Casino" apresenta vários elementos transversais a "Goodfellas", tais como uma cena inicial que nos remete para um episódio mais avançado da narrativa, um protagonista fascinado pelo mundo da máfia, uma utilização paradigmática da narração na primeira pessoa, Joe Pesci a interpretar um gangster violento e imprevisível, uma enorme violência e realismo, um exímio trabalho de montagem de Thelma Shoonmaker, um aproveitamento notável dos cenários, entre vários outros elementos. "Goodfellas" remete ainda para uma longa tradição dos filmes de gangsters dos EUA, com Martin Scorsese a apresentar-nos à ascensão e queda de um gangster, uma premissa que já valeu obras magníficas a Hollywood como "The Roaring Twenties". Curiosamente, o filme foi distribuído e produzido pela Warner Bros., um estúdio com uma longa tradição neste subgénero nos anos 30, tendo lançado obras como "Little Caesar", "The Public Enemy", "Dead End", o já citado "The Roaring Twenties", entre outros. No caso de "Goodfellas", este marcaria ainda a reunião de Scorsese com Robert De Niro, com quem colaborou em algumas das suas obras mais memoráveis, tais como "Taxi Driver", Raging Bull", entre outras, ao mesmo tempo que nos deixa perante um enredo por vezes apresentado de forma quase documental, marcado por uma miríade de personagens com personalidades muito próprias. No entanto, são Ray Liotta, Robert De Niro e Joe Pesci quem mais sobressaem, enquanto Scorsese avança com o enredo de forma imparável, sempre sem descurar o desenvolvimento dos personagens e temáticas que aborda. O sonho de Henry de ser um gangster torna-se real, com este mundo a fasciná-lo mais do que a repeli-lo, enquanto Martin Scorsese embrenha-se de forma visceral pelo mesmo, não tendo problemas em exibir assaltos, assassinatos, traições, com estes elementos a criarem regras que logo quebram quando sentem necessidade, sendo capazes tanto de dar um sorriso como de logo de seguida disparar uma bala quando se sentem em perigo. Tommy é o incontrolável do grupo, enquanto James é o calculista e Henry procura manter-se cauteloso e no apogeu. A câmara de filmar acompanha os acontecimentos de forma sublime e dinâmica, ficando na memória planos-sequência como aquele em que Henry leva Karen a um clube nocturno e entra pela cozinha de forma a passar pela fila, enquanto ficamos perante a sensação de poder transmitida por este momento onde o gangster procura expor a relevância e respeito que conquistou. Diga-se que o respeito é algo de muito querido a Henry, algo que este salienta desde o início, quando os jovens da rua levam as compras a sua casa em sinal de deferência por este trabalhar para a máfia. Nem tudo são bons momentos para estes elementos, com Martin Scorsese a não ter problemas em embrenhar-se pelo lado negro destes personagens, sendo raro o protagonista de "Goodfellas" que não comete o seu pecado e não ambiciona ascender o mais rapidamente possível. Estes desprezam o estilo de vida dos trabalhadores comuns, conseguem condições aprazíveis quando são presos, parecendo à prova de tudo e todos, ou pelo menos é o que estes pensam, ao longo de um filme onde a prosperidade destes gangsters chega a ser latente embora temporária e ilusória. As cenas alucinantes de Henry ao longo de um dia no último terço do filme em que pensa estar a ser observado por elementos que se encontram num avião, consome cocaína, vai buscar o irmão ao hospital, tem de preparar a refeição, ir buscar a dose de cocaína para vender, visitar a amante, entre vários outros episódios que vão culminar na sua detenção, são simplesmente delirantes e deliciosas de observar, enquanto Ray Liotta tem alguns dos melhores momentos do filme, exibindo um turbilhão de sentimentos, ao mesmo tempo que Martin Scorsese não poupa em jump-cuts, movimentos bruscos de câmara e todo um conjunto de recursos que adensam toda a loucura deste dia do personagem. É a história destes elementos que acompanhamos ao longo deste violento, intenso e dinâmico filme sobre a máfia, com Martin Scorsese a exibir-se no topo das suas capacidades e a realizar algo de simplesmente memorável, delirante e inesquecível.

Título original: "Goodfellas".
Título em Portugal: "Tudo Bons Rapazes".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese.
Elenco: Ray Liotta, Robert De Niro, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino.

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