27 julho 2015

Resenha Crítica: "Gangs of New York" (2002)

 Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio): "My father told me we was all born of blood and tribulation, and so then too was our great city. But for those of us what lived and died in them furious days, it was like everything we knew was mightily swept away. And no matter what they did to build this city up again... for the rest of time... it would be like no one ever knew we was even here". Esta fala proferida pelo protagonista de "Gangs of New York" resume paradigmaticamente alguns dos objectivos de Martin Scorsese ao realizar esta obra cinematográfica: exibir um pedaço da História da fundação da cidade de Nova Iorque e da Democracia dos EUA, bem como as transformações ao longo da mesma. Martin Scorsese regressa aos filmes de gangsters, desta vez tendo como pano de fundo os EUA na entrada para a segunda metade do Século XIX, em particular no território do bairro de Five Points, exibindo-nos a violência reinante na época, ao mesmo tempo que assistimos a fenómenos como a imigração para o território, em particular dos irlandeses, os efeitos do início da Guerra Civil e uma mescla diversificada de gangs. Assistimos a gangs como os nativistas, liderados por Bill "the Butcher" Cutting (Daniel Day-Lewis), um nativo-americano que é contra a vinda de chineses, irlandeses e negros para o "seu" território, para além dos "Dead Rabbits", um grupo de irlandeses católicos, entre vários outros elementos que facilmente utilizam a violência para conseguir os seus objectivos. Martin Scorsese mais uma vez consegue que a violência seja sentida, com este épico a conter algumas batalhas viscerais, seja pela posse do território, seja para marcar uma posição, seja por uma vingança ou simples prazer, ritmadas por um trabalho quase imaculado a nível de câmara, montagem e da utilização da banda sonora, ao mesmo tempo que assistimos a interpretações dignas de relevo de nomes como Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis e até Cameron Diaz. Logo no prólogo assistimos a um duelo que envolve Cutting e Vallon (Liam Neeson), respectivamente os líderes dos nativistas e dos Dead Rabbits, com o primeiro a eliminar o segundo, algo que gera uma enorme comoção junto de Amsterdam, o filho do personagem interpretado por Liam Neeson. Divergem a nível da religião e da posse da terra, com Cutting e o seu gang a considerarem que o território de Five Points lhes pertence. A batalha decorre em plena Paradise Squad, com a neve a permear o território, várias lâminas e facas são utilizadas, enquanto a morte envolve os cenários bem como a defesa acirrada dos valores de parte a parte. Os momentos que antecedem o conflito são memoráveis, com Vallon e o seu grupo a saírem de uma espécie de catacumbas, enquanto a banda sonora exacerba o fervilhar de sentimentos a que vamos assistir. Estamos em pleno ano de 1846, com "Gangs of New York" a brindar-nos com um conjunto elevado de valores de produção, não faltando cenários elaborados para dar maior veracidade ao enredo, notando-se todo um trabalho de pesquisa, algo visível a nível dos edifícios públicos, das habitações, dos esconderijos dos personagens, mas também no guarda-roupa e até nos penteados. Os cenários foram recreados no estúdio Cinecittà, em Itália, com Dante Ferretti, o designer de produção, a inspirar-se na pintura de George Catlin para representar Five Points. Todo este cuidado permite dotar a obra de enorme realismo, com Martin Scorsese a conseguir criar toda uma atmosfera que nos parece transportar para Five Points no período de tempo representado, enquanto o cineasta liga o nascimento da Democracia dos EUA ao mundo do crime e violência.

As próprias interpretações e cuidado nos sotaques dos personagens contribuem para este retrato credível de um período conturbado da história de Nova Iorque. A narrativa logo avança para 1862, data que representa o regresso de Amsterdam a Five Points, agora em idade adulta, após ter estado em Hellgate, surgindo pronto a não levantar inicialmente grandes ondas e manter-se no anonimato em relação ao seu apelido, apesar de no seu âmago desejar ardentemente pelo dia em que poderá vingar o assassinato do progenitor, qual Edmond Dantès pronto a cozinhar a sua vingança em "O Conde de Monte Cristo". Amsterdam depara-se com um território relativamente mudado, embora continue marcado pela mesma corrupção de valores, com Leonardo DiCaprio a conseguir expor a miríade de emoções que passam por este personagem no regresso ao local onde outrora tivera um dos episódios mais nefastos da sua vida. A narração de William na primeira pessoa, uma técnica utilizada de forma sublime por Martin Scorsese em "Goodfellas" e "Casino", é essencial para que percebamos as mudanças que ocorreram, tais como a criação de novos gangs consoante os seus estatutos e etnias, a crescente vinda de imigrantes da Irlanda, a presença chinesa e dos negros no local, bem como a enorme teia de influências criada por Bill Cutting, algo que conduziu a que o termo "Dead Rabbits" tenha sido proibido. Mesmo um elemento como "Happy Jack" Mulraney (John C. Reilly), antigo membro dos "Dead Rabbits", tornou-se um polícia corrupto que presta alguns favores a Cutting, enquanto todos os gangs são obrigados a pagar um tributo a este último. Daniel Day-Lewis tem em Bill Cutting mais uma criação demonstrativa do seu enorme talento, transfigurando-se por completo no personagem, quer a nível de comportamentos, quer a nível vocal, quer nos seus gestos, surgindo num registo coerente ao longo de todo o filme, protagonizando alguns momentos intensos ao lado de Leonardo DiCaprio. Cutting é um indivíduo conservador, xenófobo e violento, que procura evitar a todo o custo a presença estrangeira no território mesmo que para isso tenha de tomar atitudes completamente extremistas e violentas. Este é conhecido pela utilização exímia do cutelo e das facas, numa fase onde as armas são cada vez mais utilizadas, comemorando todos os anos a morte de Vallon, aquela que considera ter sido a sua única vítima memorável. O personagem interpretado por Daniel Day-Lewis caracteriza-se ainda pela lealdade a aqueles que lhe são leais, cabelo marcadamente oleoso, um olho de vidro, um bigode ostensivo e um longo chapéu preto, uma imagem de marca do seu grupo. No território, Amsterdam encontra ainda Walter "Monk" McGinn (Brendan Gleeson), um barbeiro que supostamente procurou receber uma verba que Vallon tinha em dívida, poucos momentos depois da sua morte, embora aos poucos percebamos que este era um leal defensor do personagem interpretado por Liam Neeson. Amsterdam encontra ainda Johnny Sirocco (Henry Thomas), um elemento que outrora o procurara ajudar aquando da morte do seu pai, com este último a integrá-lo no seu gang. Estes praticam pequenos furtos, entre os quais a um prédio em chamas, algo que efectuam com sucesso pois, como é explicado, existiam trinta e sete brigadas de incêndio voluntárias e rivais, algo que conduzia estes elementos a entrarem em conflito antes de resolverem apagar os fogos. O momento é completamente caricato, com estes desacatos entre aqueles que supostamente deveriam garantir a segurança a exibirem o quão mal organizado e preparado está este território. Amsterdam, Johnny e o grupo chegam ainda furtar o corpo de um indivíduo recentemente morto, tendo em vista a vender o mesmo para a Faculdade de Medicina, algo que gera algum escândalo. Johnny tem um fraquinho por Jenny Everdeane (Cameron Diaz), uma ladra de forte personalidade que seduz tudo e todos. No entanto, esta fica impressionada é com Amsterdam, algo que aos poucos conduz a uma relação improvável entre os dois, após esta tê-lo furtado e convidado o protagonista para dançar consigo no baile, algo que desperta o ciúme de Johnny.

Mais inesperado do que este romance inserido no interior desta trama, que envolve as fundações de Nova Iorque e uma vingança preparada em lume brando, é a improvável relação de proximidade entre Cutting e Amsterdam, com o segundo a ganhar a confiança do primeiro que aos poucos começa a tratá-lo quase como se fosse o filho que nunca teve. Amsterdam não tem problemas em enfrentar McGloin, um antigo "Dead Rabbit", agora ao serviço de Bill, quando este o insulta, surpreendendo tudo e todos pela sua desenvoltura para o combate. Este gesto surpreende Cutting, bem como a audácia e inteligência do jovem, capaz de resolver problemas como transformar um combate de boxe ilegal em algo legal ao passar o mesmo para o interior de um barco. Bill e Amsterdam formam uma relação de aparente confiança, algo que a espaços até nos leva a questionar se o segundo terá a frieza necessária para eliminar o assassino do seu pai, com Daniel Day-Lewis e Leonardo DiCaprio a protagonizarem alguns momentos de cinema que ficam na memória. Veja-se quando Cutting ensina Amsterdam a esfaquear correctamente o seu oponente através de um porco, algo que o protagonista procura absorver de forma a utilizar contra o personagem interpretado por Daniel Day-Lewis. Enquanto isso vamos assistindo a algumas mudanças no território, com Tweed (Jim Broadbent), um político corrupto que procura conquistar o eleitorado a todo o custo, a procurar controlar o antagonista, um aliado que toma atitudes que fogem muitas das vezes dos planos do primeiro. É uma cidade em construção, com Tweed a procurar pelo menos manter a ilusão da lei, algo visível no enforcamento de quatro inocentes para parecer que a cidade faz algo contra os criminosos. Tudo parece correr bem a Amsterdam até Johnny revelar a Cutting a identidade do protagonista, de forma a vingar-se do amigo ter conquistado a bela Jenny. A relação entre Jenny e Amsterdam é marcada por avanços e recuos, com Martin Scorsese a conseguir inserir este romance de forma harmoniosa no enredo, ao apresentar-nos mais uma vez a uma personagem feminina de personalidade duvidosa. Foi assim em "Mean Streets", em "Goodfellas" e sobretudo "Casino", embora Jenny esteja longe da versão da barbie transviada interpretada por Sharon Stone neste último. Cameron Diaz tem aquela que é provavelmente uma das melhores interpretações da sua carreira, com Martin Scorsese a efectuar o que fez a Sharon Stone e desafiar os aparentes limites interpretativos da actriz, algo que permite termos uma personagem feminina forte, marcada por uma enorme confiança na hora do roubo, embora conte com um passado problemático, incluindo uma ligação a Bill. Esta parece ser independente e à prova de qualquer homem, com excepção de Amsterdam, um elemento que a vai desafiar. Leonardo DiCaprio consegue expor as inquietações do seu personagem, um indivíduo com fortes valores morais, que procura vingar a morte do seu pai embora aos poucos acaba por se envolver com Jenny e fique sob a alçada de Cutting. A química entre Leonardo DiCaprio e Cameron Diaz é convincente, com ambos a interpretarem personagens com passados complicados e personalidades difíceis. Já a relação entre os personagens interpretados por Leonardo DiCaprio e Daniel Day-Lewis surge quase sempre vincada pela inquietação criada por Martin Scorsese em volta dos mesmos, parecendo certo que mais cedo ou mais tarde estes homens vão enfrentar-se e colocar fim a uma contenda que remonta ao prólogo. Por vezes parece que Amsterdam chega a desenvolver alguma afinidade com o rival do progenitor, mas o ressentimento cedo toma o lugar, com o último terço a ser rodeado de enorme violência, algo que advém não só do ansiado confronto, mas também dos distúrbios ocorridos em Nova Iorque entre os dias 13 e 17 de Julho de 1863, devido à revolta popular contra o recrutamento para a Guerra Civil. Seria necessário pagar trezentos dólares para ficar isento, algo que tornava este conflito apenas obrigatório para a "raia miúda" que aos poucos apercebe-se do seu poder quando age em conjunto. Existe um certo comentário de Martin Scorsese que pode ser adaptado até aos dias de hoje, com a revolta popular a surgir também associada às assimetrias sociais, ao mesmo tempo que assistimos a uma representação pouco simpática dos políticos e até da polícia local, com quase tudo e todos a parecerem passíveis de serem corrompíveis.

Martin Scorsese volta ainda a conseguir dotar a narrativa de um conjunto de personagens secundários dignos de interesse, algo que eleva a narrativa e, tal como em obras como "Mean Streets", "Goodfellas" e "Casino", permite dar maior impacto ao enredo em volta dos protagonistas. Veja-se o caso de Brendan Gleeson como o barbeiro que guarda vários segredos sobre o passado, um homem com enorme jeito para a oratória e a política, para além de Jim Broadbent como um político oportunista cujos interesses flutuam ao sabor do vento, John C. Reilly como um polícia corrupto, entre muitos outros elementos. Temos ainda a representação da mescla cultural em que se transforma o território, com elementos da cultura irlandesa e chinesa a serem inseridos aos poucos nos hábitos dos americanos, ao mesmo tempo que assistimos ainda a uma enorme descriminação em relação aos negros. Ficamos perante uma representação bem viva deste espaço de Five Points, com a cinematografia de Michael Balhaaus a contribuir para alguns planos belíssimos, mesmo quando a violência conspurca o território, algo visível no belíssimo contraste entre luz e sombras notório em momentos como no esconderijo do gang onde se insere Amsterdam. Veja-se ainda as cenas iniciais, marcadas por enorme violência, quer na batalha, quer na montagem feroz de Thelma Shoonmaker, quer na banda sonora, proporcionando desde logo uma espécie de prólogo intenso e inquietante cujos episódios estabelecem desde logo o universo narrativo destes personagens, muito marcado pela violenta defesa daqueles que consideram ser os seus valores. O orçamento elevado de "Gangs of New York" e o papel coercivo de Harvey Weinstein não fizeram temer Martin Scorsese, que defendeu com unhas e dentes um dos projectos dos seus sonhos desde os momentos iniciais da carreira que passava por adaptar o livro "The Gangs of New York: An Informal History of the Underworld" de Herbert Asbury  ao grande ecrã. Existe todo um enorme cuidado na construção de uma narrativa pungente, marcada por uma diversidade de temáticas que na sua maioria são exploradas assertivamente, para além de toda a criação de um conjunto de cenários magníficos não só pela atenção ao detalhe mas também pela forma como são inseridos no enredo, ao mesmo tempo que Martin Scorsese consegue envolver-nos para um trabalho apaixonado e capaz de despertar os mais variados sentimentos. No final, não parecem existir vencedores ou vencidos, com "Gangs of New York" a exibir-se como um épico de diversas facetas. É um pedaço da história de uma cidade que nos é contado ainda que de forma ficcional. É uma história de vingança exposta de forma sentida e marcante. É um filme de época marcado por elevados valores de produção que nos transporta para as alterações ocorridas nos EUA durante o período representado. É um romance que nos envolve de forma surpreendente. É o resultado da paixão de um realizador por um projecto e a exibição da sua capacidade em explorar o talento do elenco que tem à disposição. Assistimos ainda à violência existente na época, ao racismo e à presença de diferentes grupos étnicos que povoavam o território, com Martin Scorsese a não poupar ainda em elementos do quotidiano destes personagens. Entre o filme de época, o romance e uma história de vingança, "Gangs of New York" transporta-nos para outro período dos EUA, com Martin Scorsese a não poupar na violência e na atenção ao pormenor, exibindo-se mais uma vez como um dos grandes cineastas do nosso tempo. 

Título original: "Gangs of New York". 
Título em Portugal: "Gangs de Nova Iorque".
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento:
Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz, Liam Neeson, Jim Broadbent, John C. Reilly, Henry Thomas, Brendan Gleeson.

Sem comentários: