22 julho 2015

Resenha Crítica: "Far From the Madding Crowd" (Longe da Multidão)

 A certa altura de "Far From the Madding Crowd" podemos encontrar Bathsheba Everdene (Carey Mulligan) a cantar, maioritariamente à luz das velas, enquanto toca piano, com a protagonista a parecer hipnotizar quase todos os presentes com a sua voz, até William Boldwood (Michael Sheen), um dos seus pretendentes, acompanhá-la na cantoria. Os close-ups, certeiros e bem elaborados, aproveitam a capacidade de Carey Mulligan em parecer simultaneamente sedutora, frágil e misteriosa, com a actriz a ter um desempenho que permite explorar o seu talento para a representação como esta jovem mulher que desperta a atenção dos homens, procurando inicialmente ser independente e desafiar as convenções da época apesar de, em alguns momentos, nem sempre tomar as decisões mais acertadas. Esta é uma jovem órfã de pais que, quando a conhecemos nos momentos iniciais de "Far From the Madding Crowd", encontra-se a trabalhar na quinta da sua tia, não tendo problemas em tratar das colheitas, ordenhar as vacas, entre outras tarefas, exibindo uma independência e desenvoltura que contrastam com outras das personagens femininas que nos são apresentadas. Inicialmente delicia-nos com a forma descomplexada e completamente natural como praticamente rejeita o pedido de casamento de Gabriel Oak (Matthias Schoenaerts), um pastor que regularmente passeia as ovelhas na companhia dos seus dois cães, Old George e Young George. Os dois não se parecem conhecer, até Bathsheba ter deixado cair o seu lenço e Gabriel chamado a mesma à atenção para esta situação. Trocam alguma conversa, pouca, é certo, mas o suficiente para o personagem interpretado por Matthias Schoenaerts sentir interesse nesta mulher a ponto de lhe oferecer um cordeiro e pedir a mesma em casamento. Bathsheba não aceita a proposta, mas também não a descarta na totalidade, para surpresa deste indivíduo bem intencionado que vai fazer parte da vida desta mulher ao longo de boa parte do enredo, embora a relação entre ambos nem sempre seja fácil, com o estatuto social e até o estado civil destes dois personagens a variarem ao longo da narrativa. Estamos em plena Inglaterra durante a época Vitoriana, com a narrativa a iniciar-se em 1870, em Dorset, com "Far From the Madding Crowd" a brindar-nos com todo um cuidado guarda-roupa e um conjunto de cenários interiores que procuram reproduzir, com algumas liberdades à mistura, uma ideia de como terá sido a vida naquela época, bem como uma belíssima banda sonora composta por Craig Armstrong que contribui para a atmosfera algo melancólica, a espaços dramática e por vezes romântica, de uma obra cinematográfica baseada no relevante livro homónimo da autoria de Thomas Hardy. O livro já fora adaptado outrora ao grande ecrã, quer por Laurence Trimble (1915), quer por John Schlesinger (1967), com Thomas Vinterberg a tomar uma opção ambiciosa para a sua carreira após a aclamação de "The Hunt", uma das grandes obras cinematográficas a estrear nas nossas salas de cinema em 2013. Nem tudo corre bem a Vinterberg em "Far From Madding Crowd", mas o cineasta consegue realizar um drama de época relativamente satisfatório (falta-lhe alguma da capacidade de Joe Wright, para dar um exemplo relativamente recente, em obras como "Pride and Prejudice" e "Atonement" para nos fazer absorver de forma indelével para o interior do enredo que nos apresenta e conseguir que acreditemos no mesmo, reunindo a estética e a substância), elevado por interpretações acima da média de elementos como Carey Mulligan, Matthias Schoenaerts e Michael Sheen, que compensam muitas das vezes o tom aparentemente apressado e recheado de coincidências que nem sempre soam de forma verdadeira com que o cineasta apresenta alguns dos episódios da narrativa, inclusive na construção inicial dos relacionamentos. Esta situação é desde logo notória na relação entre Bathsheba e Gabriel, com esta a ser eficazmente desenvolvida ao longo do filme, embora inicialmente tudo pareça demasiado extemporâneo para o realizador expressar a procura da jovem em ser independente em relação às figuras masculinas.

 Bathsheba não é avessa ao casamento mas também não pretende ser praticamente tratada como se fosse mercadoria, procurando impor as suas ideias de forma firme, pelo menos até conhecer Frank Troy (Tom Sturridge), um sargento algo impulsivo que outrora pensara ter sido abandonado no altar por Fanny Robin (Juno Temple), o suposto grande amor da sua vida. Frank é um dos três homens com especial relevo no período da vida de Bathsheba que nos é exposto ao longo da narrativa, com este a ser também aquele a quem a protagonista se parece entregar com mais facilidade, apesar dos avisos em contrário de Gabriel, com este último a contar não só com sentimentos amorosos reprimidos em relação a esta mas também uma enorme amizade e lealdade. O relacionamento entre Bathsheba e Gabriel é um dos pontos fulcrais da narrativa, com Carey Mulligan e Matthias Schoenaerts a convencerem facilmente o espectador da relação intrincada destas duas figuras. Inicialmente Bathsheba rejeita Gabriel, mas logo o contrata para trabalhar para si após a vida de ambos conhecer algumas mudanças que alteram o estatuto de cada um, uma situação que promete contribuir para alguns episódios algo desconfortáveis entre os dois. Pouco tempo depois de rejeitar o casamento, Bathsheba descobre que o seu tio faleceu, com a jovem mulher a receber como herança a vasta propriedade agrícola do mesmo. Já Gabriel depara-se com uma reviravolta bem mais complicada de enfrentar, nomeadamente o facto das suas ovelhas terem caído da montanha, durante uma noite, com o novo cão-pastor, ainda inexperiente, a contribuir para essa situação, algo que o conduz a abandonar o local onde vivia e trabalhava, vender todos os seus bens para pagar as dívidas, partindo sem glória nem dinheiro nos bolsos. Na sua caminhada, Gabriel encontra militares a recrutarem elementos para o exército, embora não encare a opção como algo sério para o seu futuro, com Fanny, a então noiva de Troy, a aconselhá-lo a procurar emprego numa propriedade das proximidades, em Weatherbury, já que se encontram a precisar de uma pessoa para trabalhar numa quinta, uma situação que percebemos acontecer devido à personagem interpretada por Juno Temple ter fugido para casar com o segundo. Temple interpreta uma personagem mais dependente da figura masculina, surgindo como o grande interesse amoroso de Troy embora Fanny pouco seja desenvolvida ao longo do enredo, com o argumento a dar pouca atenção às personagens femininas, com excepção de Bathsheba. Gabriel segue o conselho desta mulher, tendo desde logo de ajudar a apagar um incêndio que deflagrou no local que, por coincidência, é a nova propriedade de Bathsheba, com esta a chegar e a descobrir que o antigo pretendente ajudou a salvar este espaço. É uma das muitas coincidências que rodeiam o enredo, com "Far From the Madding Crowd" a não poupar nos acasos para colocar os personagens em contacto, algo ainda latente na forma como a protagonista conhece William Boldwood (Michael Sheen) e Frank Troy. Esta depara-se com William numa feira onde se encontrava a vender os produtos oriundos da sua quinta, enviando posteriormente uma carta de São Valentim, numa atitude impetuosa e pouco séria que este indivíduo enigmático, e de fama de ser pouco dado a relações duradoiras ou a demonstrações de afecto, toma como verdadeira, pensando que Bathsheba tinha mesmo interesse na sua pessoa. Gera-se alguma obsessão por parte de William, com este a demonstrar um interesse latente em Bathsheba, enquanto esta não rejeita totalmente o seu pedido de casamento mas também não deixa grande abertura em relação a aceitar o mesmo. É mais um dos momentos em que Carey Mulligan sobressai ao lado de um dos elementos masculinos do enredo, com esta a transmitir a confiança e irreverência de Bathsheba, que não tem problemas em deixar bem claro a William que os bens que este tem para oferecer, como um piano, já esta os possui, numa demonstração da sua independência, uma situação que não faz desarmar o personagem interpretado por Michael Sheen. Se Matthias Schoenaerts interpreta um indivíduo que transmite uma enorme seriedade e afabilidade que facilmente o tornam num dos pretendentes de Bathsheba que mais despertam a nossa simpatia, bem como a da parte da própria, já Michael Sheen incute no personagem a quem dá vida uma frieza inicial que aos poucos se vai diluindo, com William a surgir como uma figura lacónica que quase todos parecem simultaneamente temer e respeitar, embora seja mais frágil do que dá inicialmente a entender.

 Gabriel inicialmente não parece ficar muito agradado com o interesse de William em Bathsheba, procurando alertar esta mulher para os perigos de um possível envolvimento da mesma com o próspero proprietário rural, sobretudo devido ao facto da protagonista não parecer apresentar firmeza em relação aos sentimentos que nutre pelo personagem interpretado por Michael Sheen. O conselho não é lá muito bem aceite por Bathsheba, com esta a demitir Gabriel, apesar de rapidamente chamá-lo de volta, necessitando dos seus serviços como pastor e fazendeiro. A relação entre estes dois personagens é complexa, mudando com o decorrer da narrativa, enquanto muitos sentimentos parecem ser reprimidos, com o rosto de ambos, os seus gestos e palavras a denunciarem isso mesmo. Inicialmente é Gabriel quem tem um estatuto social e financeiro mais sólido, mas a morte do tio de Bathsheba e o desastre que conduziu à perda das suas ovelhas conduziram a que esta ganhasse um ascendente que a espaços se torna desconfortável, inclusive quando a protagonista exige que o personagem interpretado por Matthias Schoenaerts a trate pelo apelido. Gabriel procura cumprir serviço, com Matthias Schoenaerts a atribuir uma enorme afabilidade a este pastor e fazendeiro que revela uma apetência latente para a sua actividade mas também um amor reprimido pela protagonista. Tenta manter a lealdade e amizade para com esta, mesmo quando se nota que se sente desconfortável com uma visita de William à propriedade e ainda mais quando esta casa com Frank. A noção que Gabriel tem da hierarquia, com "Far From Madding Crowd" a exibir a estratificação social, é visível quando todos se encontravam à mesa e cede o seu lugar a William, no célebre momento de cantoria, onde os close-ups são utilizados de forma exímia para expor os sentimentos distintos que assolam cada um dos elementos do trio, enquanto Thomas Vinterberg ignora praticamente o desenvolvimento das restantes figuras que se encontram a povoar a quinta. É nessa noite que, num acaso, Bathsheba depara-se com Troy. O sargento é uma figura que desde cedo gera a nossa desconfiança, embora estranhamente cause um enorme apelo em Bathsheba, talvez por ter sido dos poucos que procurou inicialmente cortejá-la com galanteios ao invés de falar sobre propriedades e aquilo que esta poderia ficar a ganhar do ponto de vista material. No entanto, a lábia do personagem interpretado por Tom Sturridge não é sinónimo de boas intenções, com o actor a sobressair como este indivíduo que gradualmente desperta o desprezo do espectador após as dúvidas iniciais em relação à sua pessoa. O elenco principal é competente a explorar as intrincadas relações dos personagens que interpretam, com Carey Mulligan a estar quase sempre no centro das atenções, conseguindo dar bem conta do recado e exibir as razões para a personagem que interpreta ser especial ao ponto de mexer com os sentimentos de tantos homens. Tal como já foi realçado, Mulligan mescla um misto de sensualidade e fragilidade, tanto convencendo nos momentos de maior simplicidade e ingenuidade da personagem que interpreta, como não deixa dúvidas que esta mulher pode ser capaz de liderar uma propriedade rural, dar ordens e mostrar alguma irreverência para a época. Bathsheba procura mostrar a sua independência em relação aos homens, embora também não seja indiferente em relação aos mesmos, procurando acima de tudo casar por amor e não por ser conveniente. As diferentes relações de Bathsheba com Gabriel, William e Frank marcam o enredo, com Carey Mulligan a estar no centro das mesmas. Com Gabriel parece existir amizade e respeito mútuo, mas diferenças que provavelmente nem os dois saberão explicar bem afastam-nos, bem como uma certa inabilidade deste em expor por palavras aquilo que reprime, uma situação que Matthias Schoenaerts consegue explorar com alguma facilidade. Com William notamos um respeito mútuo de parte a parte, com ambos a parecerem figuras de forte personalidade, ou o personagem interpretado por Michael Sheen não fosse conhecido por ser um solteirão inveterado, embora também conte com as suas fragilidades emocionais, com o actor a interpretar uma figura que nos surpreende ao longo da narrativa. Já a relação com Frank parece ser marcada pelos galanteios deste e o perigo que o sargento pode ou não trazer, surgindo como a figura mais instável e irresponsável do trio masculino, com uma demonstração com a espada a parecer simultaneamente amedrontar e seduzir Bathsheba. O próprio guarda-roupa parece definir alguns traços das personalidades destes personagens. Gabriel utiliza vestes mais simples, enquanto William geralmente conta com roupas formais. Por sua vez, Troy surge inicialmente com a sua farda de militar até a trocar e expor também facetas menos apolíneas da sua personalidade.

 A Carey Mulligan cabe ter o guarda-roupa mais diversificado, sobressaindo desde logo o vestido vermelho que utiliza quando parte da quinta da sua tia até à sua nova propriedade. A tonalidade vermelha do vestido parece indicar o poder desta personagem mas também a sua afirmação, com esta a tanto aparecer deslumbrante e marcada por uma classe latente como a não ter problemas em chafurdar as suas roupas a trabalhar ao lado dos funcionários, procurando dar o exemplo. Quando se encontra vestida de preto, percebemos que a sua alma já conheceu momentos mais radiosos, com as roupas de couro em tom avermelhado a indicarem fases mais radiosas, incluindo num trecho do último terço que promete apelar ao romantismo de alguns espectadores. Bathsheba tem em Liddy (Jessica Barden) uma funcionária e companhia, e em Gabriel um indivíduo que promete marcar a sua existência. Ao longo do filme, raro é o momento em que não achamos que estes personagens foram feitos um para o outro, apesar de alguns arrufos e reviravoltas que nos fazem por vezes esquecer temporariamente essa ideia, com Gabriel a ser uma constante na vida de Bathsheba, pese as diversas mudanças que as suas vidas vão conhecer, com o argumento e a dupla de intérpretes a saber explorar esta situação. O romantismo está algo presente, mas também uma procura em emular a atmosfera da época, com "Far From the Madding Crowd" a exibir as relações distintas entre Bathsheba e estas figuras masculinas que povoam o seu quotidiano, tal como a sua procura em afirmar-se numa sociedade onde apenas os homens parecem ter posições de relevo. A cinematografia de Charlotte Bruus Christensen (também de "Jagten") contribui muitas das vezes para alguns momentos marcados por alguma beleza, mas também da ferocidade, da natureza. Veja-se logo nos momentos iniciais a exposição dos terrenos verdejantes e luzidios a coincidir com o encontro entre Bathsheba e Gabriel Oak, ou a cena marcada pela pouca iluminação e a tristeza por parte deste último quando encontra as ovelhas a caírem da montanha. Temos ainda exemplos como a tempestade que se abate e promete estragar a colheita da propriedade de Bathsheba, com Gabriel a ir contra Troy para salvar algo essencial para a personagem interpretada por Carey Mulligan. Diga-se que este acto de Gabriel, contra tudo e todos, é paradigmático da devoção e amizade que este mantém para com a protagonista, mas também serve mais uma vez para demonstrar a capacidade física desta figura que nem sempre parece conseguir expressar os seus sentimentos da forma mais polida ou adequada. Gabriel vai ainda ganhar o respeito de William, com o trabalho do primeiro a parecer ser reconhecido por tudo e todos, embora os seus sentimentos por Bathsheba nem sempre sejam correspondidos. Esta é uma protagonista feminina forte, que procura manter a sua independência embora nem sempre consiga ser fiel aos seus ideais numa sociedade onde as mulheres dificilmente conseguem atingir o mesmo estatuto dos homens. A forma como entra de rompante na propriedade que fora outrora dos seus pais e dos seus tios é exemplo disso, com esta a despedir o bailio Pennyways (Victor McGuire) sem grandes problemas devido a este ter descurado o cuidado da propriedade durante o período do incêndio, deixando todos perplexos diante da sua forte personalidade. A irreverência da personagem é visível quando percebemos que ela, acompanhada por Liddy, são as únicas mulheres no mercado a venderem os seus produtos, com o argumento a explorar esta faceta feminista da personagem interpretada por Carey Mulligan numa sociedade onde os homens parecem pouco habituados a encontrar figuras femininas em situações de relevo. A própria forma como Gabriel e William lhe pedem em casamento, ao fazerem sobressair aquilo que esta poderia ganhar do ponto de vista material, exibe bem todo um contexto diferente de encarar o matrimónio e a mulher, bem como aquilo que parece desagradar a Bathsheba nas propostas, com "Far From the Madding Crowd" a apresentar-nos a um drama humano marcado por bons valores de produção e algumas interpretações que facilmente se destacam, pese alguns tropeços, sobretudo na forma por vezes algo apressada e convencional como parece impor e expor as situações, para além de pouco explorar as figuras secundárias que envolvem estes espaços rurais. Vale ainda a pena realçar os cenários externos, marcados pelos terrenos e propriedades de diversos personagens, mas também os cenários interiores, sobressaindo não só a habitação de Bathsheba mas também a casa de largas dimensões de William. A cena inicialmente descrita por esta pessoa, ainda que de forma superficial, é também marcada por uma cinematografia cuidada a aproveitar este espaço, com a iluminação a criar uma estranha atmosfera que exacerba a diversidade de sentimentos que percorrem William, Gabriel e Bathsheba. Drama competente, marcado por relações sentimentais nem sempre fáceis de julgar, "Far From the Madding Crowd" dá a Carey Mulligan mais uma oportunidade de demonstrar o seu enorme talento num filme de época que longe de ser extraordinário também não causa total indiferença.

Título original: "Far From the Madding Crowd". 
Título em Portugal: "Longe da Multidão".
Realizador: Thomas Vinterberg.
Argumento: David Nicholls.
Elenco: Carey Mulligan, Matthias Schoenaerts, Michael Sheen, Tom Sturridge, Juno Temple.

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