17 julho 2015

Resenha Crítica: "Casino" (1995)

 "Casino" marca o regresso em grande estilo de Martin Scorsese aos filmes da máfia após "Mean Streets" e uma das suas obras-primas, "Goodfellas". As semelhanças entre "Goodfellas" e "Casino" são notórias. Ambos são baseados em factos reais, ambos contam com o argumento de Nicholas Pileggi e Martin Scorsese, ambos desenrolam-se num período alargado de tempo, em ambos os filmes a narração na primeira pessoa é essencial para adicionar elementos e incrementar a narrativa, nas duas obras contamos com falas memoráveis, actores como Joe Pesci e Robert De Niro surgem em grande destaque nos dois filmes, para além de voltarmos a ter a exibição de um episódio de enorme relevo numa espécie de prólogo. Scorsese começa desde logo por nos desarmar ao apresentar um elemento relevante do último terço, acompanhado de uma posterior narração em primeira pessoa, onde Sam Rothstein (Robert De Niro) se apresenta e logo Nicky Santoro (Joe Pesci) nos coloca perante o facto de ter colaborado com o protagonista e de terem falhado na grande oportunidade que tiveram em Las Vegas, nos anos 70, quando tinham tudo para dar certo. Como salienta Nicky: "(...) no fim lixámos tudo. Poderia ter sido tão bom. Mas acabou por ser a última vez que uns vadios como nós alguma vez teriam acesso a algo tão valioso". Está dado o mote para "Casino". Martin Scorsese deixa-nos desde o início perante a certeza que estes personagens no final vão falhar ou terminar mal, algo que gradualmente nem se torna assim tão surpreendente, sobretudo se tivermos em linha de conta o estilo de vida marcado pelos excessos e transgressões que estes personagens levam. A cidade de Las Vegas por onde deambulam os personagens de "Casino" surge marcada pelo jogo e o glamour do Tangiers, o casino do título, que aparece em contraste com o deserto que rodeia estes espaços, escondendo corpos e segredos, enquanto o crime e a violência permeiam o universo narrativo, com o sangue e a morte a parecerem ser uma constante. O próprio protagonista foi colocado a gerir o Tangiers, um casino financiado pela máfia do Midwest, quando estava proibido de conseguir uma licença devido a problemas que tivera outrora, participando num esquema que parecia ter tudo para dar certo, onde o dinheiro fluía com enorme facilidade. O esquema é o seguinte: estes gangsters controlavam o Sindicato dos Camionistas, uma organização essencial para quem precisasse de dinheiro para comprar um casino, tendo colocado Andy Stone, um indivíduo maleável capaz de apresentar uma imagem séria para a opinião pública, como chefe do Fundo de Pensões dos Camionistas, utilizando este como testa de ferro para abrir o casino. Noutro local Sam seria um jogador ilegal perseguido pela polícia, mas em Las Vegas este jogador brilhante, calculista e ponderado foi colocado à frente dos destinos do Tangiers, um casino que nos é apresentado logo no início do filme, surgindo representado como um espaço luxuoso, onde o dinheiro surge em grande quantidade, os clientes jogam os seus sonhos e fundos, enquanto a casa vai lucrando e o seu funcionamento é pensado (e exposto ao espectador) ao pormenor. Martin Scorsese consegue desde os momentos iniciais estabelecer Sam e Nicky junto do espectador, bem como o espaço do casino, deixando-nos conscientes das personalidades dos personagens e os objectivos deste estabelecimento cheio de cor, luz, glamour e muitos segredos. Desde dinheiro para a máfia e sindicalistas corruptos, passando pela violência praticada por Nicky para cobrar algumas apostas em dívida, vários são os episódios escondidos neste casino, onde tudo e todos se controlam para nada poder falhar. Sam e Nicky surgem como os personagens principais do filme, relatando muitas das vezes os acontecimentos através da narração em off, enquanto Scorsese mostra-se bastante eficaz a expor-nos a este mundo violento e corrupto, onde a morte parece ser o destino mais provável e um grupo de seres humanos procura singrar na vida pelo caminho mais fácil. 

Tendo em vista a contornar a lei, Sam procura mudar regularmente de cargos, sem nunca assumir oficialmente a gerência, de forma a adiar constantemente a rejeição da licença de laborar num casino, tendo em Billy Sherbert (Don Rickles) o gerente fictício do local. É neste casino que Sam conhece Ginger (Sharon Stone), uma mulher espalhafatosa, vigarista, dada a luxos e a paixões, que forma com o protagonista uma relação onde o interesse amoroso e financeiro parecem andar de braço dado, casando e tendo uma filha com este. O momento em que Sam vê pela primeira vez Ginger é paradigmático da capacidade de Martin Scorsese em utilizar a banda sonora ao serviço do enredo, brindando-nos com "Love is Strange" dos Lowrider Oldies, enquanto esta mulher faz um enorme frenesim no local. No entanto, nem tudo corre bem para Sam, tendo de lidar com a crescente violência e megalomania de Nicky, a criação de uma inimizade com o comissário distrital Pat Webb devido a ter despedido o cunhado deste do casino, algo que o levará a cair nas malhas do Conselho de Fiscalização de Jogo devido a não ter uma licença para dirigir um casino. Junte-se a isso um deteriorar da relação com a esposa que constantemente consome droga e procura regressar para Lester Diamond (James Woods), um proxeneta e ex-namorado de Ginger, a criação de um clima de crispação com Nicky, entre outros revezes que ocorrem ao longo do enredo e deixam latente a possibilidade do estado de graça de Sam poder estar prestes a terminar. Também Nicky parece ver tudo a começar a sair de controlo, sobretudo quando a sua megalomania não parece ter limites, quebrando as regras dos seus superiores na máfia, inclusive ao ter um caso com Ginger. Nicky cria um grupo criminoso organizado, onde se encontram elementos como Frankie Mariano (Frank Vincent), que não têm problemas em roubar, matar e extorquir seja quem for, mesmo quando o personagem interpretado por Joe Pesci é colocado na lista negra pelas autoridades. Martin Scorsese deixa-nos assim diante dos luxos e excessos de Las Vegas até aos seus podres e lado negro, ao mesmo tempo em que exibe o brilho e queda destes homens e mulheres que povoam a narrativa. Embora esteja longe de poder ser considerada uma das obras mais consensuais de Martin Scorsese, sendo acusado de ser demasiado parecido com "The Goodfellas", "Casino" surge como um poderoso filme sobre a máfia, que nos coloca perante um dos bons papéis de Robert De Niro antes de entrar numa fase mais preguiçosa da sua carreira, um Joe Pesci simplesmente arrasador, uma Sharon Stone sensualíssima e um enredo potente a nível visual e emocional, onde a violência, o luxo e a ganância parecem estar sempre presentes. Depois de "Mean Streets" e "Goodfellas", Martin Scorsese regressa ao mundo da máfia, tendo como base "Casino", um livro inspirado em factos reais de Nicholas Pileggi, para nos transportar para outros tempos de Las Vegas, onde a máfia exercia um enorme controlo e personagens como Sam Rothstein e Nicky Santoro prosperavam. Sam Rothstein e Nicky Santoro foram baseados em dois personagens reais, Frank Rosenthal e Anthony Spilotro. Rosenthal dirigiu durante vários anos os casinos de Las Vegas, tais como o Stardust, Fremont, Marina e Hacienda, tendo várias ligações com a máfia, enquanto Spilotro foi um gangster com vasta influência em Las Vegas. Estes personagens surgem representados com uma complexidade considerável e interpretações de grande nível de Joe Pesci e Robert De Niro (na oitava colaboração com Scorsese), com a dupla a interpretar dois protagonistas que parecem ter chegado ao paraíso dos mafiosos mas facilmente estragam tudo e transformam este espaço num inferno.

 Joe Pesci tem em Nicky Santoro um personagem marcante, dando a este mafioso uma ferocidade e violência arrasadoras e imprevisíveis, sendo capaz do pior e dos crimes mais atrozes e sanguinolentos. Seja a enfiar violentamente uma caneta num pescoço, seja a furar as partes baixas de uma vítima ou a esmagar a cabeça de um indivíduo num torno, este facilmente revela um sadismo e niilismo impressionantes, enquanto Pesci se destaca como um personagem que nos faz recordar e muito Tommy, um dos protagonistas de "Goodfellas". Por vezes dá uma humanidade e leveza ao personagem que fazem com que este indivíduo incontrolável nunca nos consiga repelir por completo, embora aos poucos Nicky se prepare para pagar as consequências pelos seus actos. Já Robert De Niro deixa-nos a pensar no que a sua carreira é nos dias de hoje e o brilhantismo que teve no passado, tendo em Sam Rothstein um director de casino que procura conciliar as suas responsabilidades com as falcatruas, enquanto tem de lidar com um amor não correspondido por Ginger, indo gradualmente destruir os seus relacionamentos, ao mesmo tempo que tenta navegar por águas seguras no meio do mundo do crime. O seu próprio guarda-roupa e estilo de vida assumem características mais espalhafatosas com o desenrolar da narrativa (quanto mais caótico vai ficando o seu quotidiano mais berrantes ficam as cores dos seus fatos), com este a procurar cada vez mais assegurar o seu conforto e bem estar, algo difícil de conseguir com Nicky por perto. Diga-se que o próprio Sam está longe de ser um exemplo imaculado, tal como vários dos personagens que permeiam o enredo de "Casino". Sam não tem licença mas é director de um casino, controlando uma vasta rede de influências que vai desde a polícia a políticos, passando por sindicatos e máfia; Nicky lidera um grupo mafioso em Las Vegas, eliminando pelo caminho todos aqueles que o irritarem ou deverem dinheiro; Ginger apenas quer dinheiro e droga, mesmo que para isso tenha de estar num casamento por interesse e não cuidar da sua filha. Sharon Stone tem uma interpretação dinâmica e arrasadora como esta personagem meio selvagem e indomável que procura manipular todos à sua volta, conseguindo conquistar Sam apesar do sentimento não ser recíproco. As transformações da actriz são simplesmente notáveis, indo desde a luz que irradia nos momentos iniciais, até se transformar num farrapo humano que procura a todo o custo o divórcio. É mais um exemplo do magnífico trabalho de caracterização e guarda-roupa de “Casino”, com Ginger a surgir com roupas bem mais joviais e coloridas no início do filme, até mudar de corte de cabelo, passar a utilizar roupas que transmitem a violência que assola o seu estado de espírito, algo visível nas vestes de couro que utiliza quando procura invadir a sua casa, após ter sido proibida de entrar na mesma, numa discussão que envolve muita gritaria, polícia e um carro completamente amolgado. Esta envolve-se ainda com Nicky, embora Lester pareça ser o grande amor da sua vida, com James Woods a conseguir transmitir a imoralidade do seu personagem, um tipo aproveitador cujas roupas são tão falsas e estranhas como os seus comportamentos. Diga-se que o filme é bastante rico em personagens secundários que conseguem sobressair. Veja-se Don Rickles como o sério gerente de fachada do Tangiers, mas também Frank Vincent como o contacto de Nicky com os elementos da máfia do Midwest, entre vários outros actores. Estamos assim perante um conjunto de personagens movidos por uma ânsia de sobressaírem em relação aos outros, de viverem no luxo e de se auto-destruírem, enquanto Martin Scorsese explora a dicotomia entre os casinos cheios de classe e o deserto que esconde os corpos e os segredos negros destes estabelecimentos.

No caso do casino do filme, o ficcional Tangier, as filmagens decorreram parcialmente no interior do Riviera, um espaço que é explorado paradigmaticamente ao serviço da narrativa, composto por jogadores ansiosos por enriquecerem, donos prontos a aproveitarem-se destes elementos, uma ostentação notória e excessos que escondem as ilegalidades que decorrem no local. No caso do deserto este surge marcado pela aridez e vazio, onde a morte pode surgir a qualquer momento e as covas indicam que brevemente um corpo irá parar a este espaço. Estávamos em finais dos anos 70, início dos anos 80, com Scorsese a colocar-nos perante uma Las Vegas diferente dos tempos de hoje, embora não deixe de estabelecer uma irónica comparação com o facto de a máfia ter deixado de financiar os casinos para estes passarem a ser adquiridos com obrigações especulativas, enquanto elementos como Rothstein deixavam de sobressair. Scorsese deixa-nos ainda perante a ascensão do crime organizado no território a partir da figura de Nicky Santoro, com este a conseguir arregimentar um conjunto de elementos aparentemente fiéis, enquanto "Casino" coloca-nos diante da violência brutal dos seus actos. Nicky, a par de Sam, é um dos personagens principais do filme, com Martin Scorsese a não ter problemas em mudar o ponto de perspectiva do enredo para um personagem distinto, não se focando exclusivamente em Sam. Essa situação permite desenvolver vários dos personagens secundários, enquanto Scorsese volta a envolver-se pelos meandros da máfia, desta vez dos escalões mais elevados, sempre com grande estilo e capacidade de criar um universo narrativo credível, a ponto de nos conseguir fazer despertar interesse por um grupo de personagens que tinham tudo para nos repelir. Se em "Goodfellas" estávamos perante uma espécie de "classe média" dos gangsters, já em "Casino" ficamos perante os luxos e a ganância destes elementos, algo que culmina de forma desastrosa. O último terço é marcado por um ritmo frenético, com Martin Scorsese a ancorar-se mais uma vez no magnífico trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker, capaz de dinamizar uma obra cuja duração de praticamente três horas quase não se faz sentir. Ao longo desta duração vamos assistir à ascensão e queda do Tangiers, ao domínio de Sam do local, à procura de Nicky em dominar o mundo do crime de Las Vegas, enquanto ficamos perante um universo narrativo onde a violência e o glamour andam muito lado a lado. A própria banda sonora é exímia em adequar-se ou contrastar com os episódios do enredo, ficando particularmente na memória a utilização da canção "The House of the Rising Sun" dos The Animals, enquanto assistimos à procura de vários gangsters ligados a Sam em tentarem sair incólumes das teias da lei. A violência é visível e sentida, com Martin Scorsese a deixar-nos perante uma exposição visceral da mesma, numa obra cinematográfica marcada por uma banda sonora cheia de estilo, um guarda-roupa pensado ao pormenor, interpretações de bom nível e uma história capaz de prender a nossa atenção ao longo das suas quase três horas de duração.

Título original: "Casino". 
Realizador: Martin Scorsese.
Argumento: Nicholas Pileggi e Martin Scorsese.
Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Frank Vincent. 

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