02 julho 2015

Resenha Crítica: "Blue Valentine" (2010)

 Derek Cianfrance é simultaneamente genial e um sacana em "Blue Valentine", a sua segunda longa-metragem como realizador. Não existe grande volta a dar. Simultaneamente romântico e cru, "Blue Valentine" apresenta-nos à união e separação de um casal, deambulando entre o presente e o passado, ao mesmo tempo que nos deixa diante de fragmentos do relacionamento. Arrasa-nos emocionalmente ao fazer com que geremos empatia com os protagonistas ao ponto de não os querermos ver separados, exibindo o quão bela era a sua união, com "Blue Valentine" a não poupar nos momentos de romantismo, mas também numa crueza avassaladora, numa mescla reunida de forma harmoniosa que resulta num pedaço apaixonante de cinema. No presente, parecem procurar manter viva a relação apesar desta estar a diluir-se diante das habituais rotinas, das transformações que foram conhecendo ao longo do tempo e de vicissitudes que nem sempre se conseguem explicar, que contribuem para o findar de uma relação. Será possível explicar de forma razoável tudo o que se encontra relacionado com o amor e as relações amorosas? Como se pode explicar de forma completamente racional os elementos que contribuem para uma união ou separação? "Blue Valentine" demonstra que não é possível responder a estas perguntas de forma paradigmática, tal como exibe mais uma vez que é possível um filme mexer com as emoções do espectador de forma indelével e renovar as razões para este continuar a sentir-se apaixonado pelo cinema. Derek Cianfrance envolve-nos para o interior desta relação a diluir-se ao mesmo tempo que nos faz torcer gradualmente para que os protagonistas consigam resolver os seus problemas. O cineasta não se limita a apresentar-nos à separação entre Dean Pereira (Ryan Gosling) e Cindy Heller (Michelle Williams), mas também ao iniciar do envolvimento entre ambos, explorando a enorme química da dupla de protagonistas ao mesmo tempo que conta com um magnífico trabalho de montagem que permite um investimento exponencial do espectador na relação destes dois elementos. Aos poucos ficamos a conhecer mais sobre Dean e Cindy, com episódios no presente que nem sempre compreendemos inicialmente, tais como o momento em que a segunda revela que encontrou Bobby Ontario (Mike Vogel) no supermercado, algo que desperta algum desassossego e raiva no personagem interpretado por Ryan Gosling, a serem expostos em flashbacks. No dito flashback percebemos que Bobby fora namorado de Cindy, sendo potencialmente o pai da filha desta e Dean, com o último a saber dessa possibilidade, embora essa situação não o tenha impedido de se casar com a personagem interpretada por Michelle Williams. Nos momentos iniciais encontramos Dean com Frankie (Faith Wladyka), a filha, uma jovem com cerca de quatro ou cinco anos de idade, a acordar Cindy, bem como a brincar com a petiz, com a protagonista a nem sempre parecer ter muita paciência para estas paródias. No presente, Dean encontra-se algo calvo, mais desgastado pela passagem do tempo, trabalhando como pintor, apesar de não ter perdido totalmente o bom humor. Cindy trabalha como enfermeira, parecendo menos sonhadora e sorridente do que nos flashbacks. No passado, estes apresentam uma ingenuidade muito própria, com Dean a apaixonar-se à primeira vista por Cindy, após tê-la visto enquanto transportava os móveis de um cliente idoso. Cindy encontrava-se na casa da avó, enquanto Dean aproveitou desde logo para meter conversa com a mesma. Esta queria ser médica. Dean apenas queria ganhar o suficiente para poder viver de forma estável, não parecendo ter grandes ambições para o seu futuro profissional.

A certa altura do filme, Dean procura descrever junto de um colega da empresa de mudanças onde trabalha aquilo que sentiu ao ver Cindy pela primeira vez: "She just seems different, you know? I don't know, I just got a feeling about her. You know when a song comes on and you just gotta dance?". Dean sente uma pulsão enorme para amar quando conhece Cindy, com o reencontro entre os dois, após se terem conhecido no dito episódio da mudança, a ser marcado por alguns momentos de enorme romantismo, cumplicidade e até humor, a contrastar com a saída no presente a um motel onde ficam no "quarto do futuro". No passado, ela dança de forma descontrolada, conta anedotas que nos fazem rir pela sua falta de piada, enquanto ele toca instrumentos musicais e canta, com Michelle Williams e Ryan Gosling a apresentarem uma química latente, explorando os diferentes estados do relacionamento entre os personagens que interpretam de forma sublime. No passado são os sorrisos, a música dos próprios, com "You and Me" de Penny and the Quarters a ser a canção seleccionada por Dean para ser a música do casal, enquanto a banda sonora original composta pelos Grizzly Bears contribui para o tom muitas das vezes nostálgico do filme. A banda sonora, tal como a cinematografia, adapta-se na perfeição aos ritmos do filme e aos estados de espírito, algo latente nas cenas no "quarto do futuro". Estamos no presente, a relação parece ter esfriado de vez, Dean procura ter alguma intimidade com a esposa e recuperar um pouco do passado, algo que não deixa de ser irónico tendo em conta o nome do quarto seleccionado pelo protagonista. O passado destes, apesar de alguns percalços, apresentou momentos radiantes, já o futuro não parece antever nada de bom. No "quarto do futuro", estes não parecem conseguir regressar àqueles momentos apaixonantes, com Cindy a apresentar um afastamento latente, uma situação visível quando está na banheira, enquanto Dean não parece aceitar as mudanças inerentes à passagem do tempo, bem como o facto que a relação parece ter atingido um ponto de ruptura irrecuperável. As tonalidades a marcarem estes momentos são azuis, simbolizadoras dos sentimentos menos fulgurantes do casal, com a própria iluminação a ser discreta. Segue-se uma discussão, ou melhor, várias, enquanto o presente destes é entrecortado com as memórias do passado, onde o amor floresceu e um casamento aconteceu. Nesse sentido, vale a pena repetir que Derek Cianfrance é um sacana ao exibir a união e separação de um casal, praticamente em simultâneo, expondo-nos sem pudores aos sentimentos mais quentes e mais frios de um relacionamento entre dois seres humanos. Michelle Williams e Ryan Gosling agarram a narrativa, enquanto Derek Cianfrance pontua-a com alguns retoques de classe, enorme humanidade e delicadeza, conseguindo mesclar de forma harmoniosa os momentos do passado com o presente. Ryan Gosling exibe os efeitos da passagem do tempo no personagem que interpreta, com as diferenças a irem mais além do que aquelas evidenciadas pelo trabalho de caracterização. Dean apresenta feições mais carregadas, palavras mais contidas, um tom ainda menos ambicioso em relação à vida, mas também alguma agressividade ao lidar com os fracassos que envolvem a sua pessoa no presente, algo distinto do espírito jovial e entusiasmado do passado onde comparara Cindy a uma canção que o deixara pronto a dançar. Bebe desde manhã cedo, fuma muito, parece amar profundamente a filha, algo que é recíproco, tal como pretende manter o casamento com Cindy, pese as dificuldades pelas quais passam. Michelle Williams exibe de forma sublime como Cindy deixa de lado aquelas estranhas danças e piadas, mas também um maior calor humano, apresentando uma maior rispidez e maturidade no presente. Esta parece expor de forma mais clara o desgaste da relação, mas também as suas dúvidas em relação à mesma e à falta de ambição do esposo, tendo ainda de lidar com uma proposta no local de trabalho que envolve mais do que uma simples mudança, ao mesmo tempo que parece perdida numa rotina que necessita de novos estímulos.

No fundo, existe a noção da parte de Dean e Cindy de que já se amaram e provavelmente até nutrem sentimentos um pelo outro mas estes deixaram de ter aquela força capaz de os fazer ultrapassar as adversidades, fossem estas uma gravidez cuja paternidade é desconhecida, a austeridade a nível sentimental do progenitor da protagonista ou um ex-namorado violento que logo procura espancar o personagem interpretado por Ryan Gosling. O argumento é sagaz a explorar as questões quotidianas que envolvem Cindy e Dean. Veja-se o perfeccionismo que este coloca a decorar a casa de um idoso, mas também os cuidados que apresenta para com o mesmo, numa das cenas do passado que nos ajudam a perceber um pouco mais das ideias e ideais deste personagem. No passado este chega a salientar que "I feel like men are more romantic than women. When we get married, we marry, like, one girl, 'cause we're resistant the whole way until we meet one girl and we think, "I'd be an idiot if I didn't marry this girl. She's so great". But it seems like girls get to a place where they just kinda pick the best option... 'Oh he's got a good job.' I mean they spend their whole life looking for Prince Charming and then they marry the guy who's got a good job and is gonna stick around". Esta teoria parece desfazer-se quando conhece Cindy, embora pareça notório que a encara como aquela que pretende ter a seu lado para toda a vida, uma situação que o conduz no presente a parecer estar demasiadas vezes preso ao passado sem perceber totalmente que o tempo transforma os seres humanos. Podemos não mudar totalmente mas é praticamente impossível dizermos que somos hoje exactamente iguais em relação ao que éramos há cinco anos ou dez anos. Dean parece algo naïve em relação ao futuro, tendo claramente como objectivo ficar ao lado de Cindy para toda a vida, uma das poucas metas que parece ter traçado para os tempos mais próximos. Claro que isto foi provavelmente aquilo que idealizara mas o próprio também não está livre de ter defeitos, com a relação com Cindy a conhecer um desgaste gradual, a ponto de no último terço o fogo de artifício parecer contrastar por completo com os sentimentos que se apagam no interior de duas almas feridas. Ou melhor, nunca saberemos se estes encontram-se totalmente apagados mas parece certo que Cindy e Dean nunca mais voltarão a recuperar aqueles momentos únicos que partilharam no passado. Momentos esses que partilharam com o espectador, tal como aqueles mais duros, com "Blue Valentine" a transportar-nos para a intimidade de um casal e fazer-nos "viver" os seus sentimentos. Derek Cianfrance coloca-nos diante da anatomia de uma relação no passado e no presente, explorando como esta pode mudar com a passagem do tempo e como os sentimentos podem ser voláteis embora não sejam esquecidos, com Dean e Cindy a surgirem como um casal complexo, ou melhor, profundamente humano, que vive situações que de uma forma ou de outra permitem não só questionar e envolver o espectador mas também fazer com que este se reveja em algumas das situações. Entre momentos de maior romantismo e de alguma crueza, acompanhados por uma belíssima banda sonora e interpretações sublimes de Michelle Williams e Ryan Gosling, "Blue Valentine" é um romance apaixonante, tocante e incrivelmente arrasador que tem o efeito magnético de fazer com que regressemos de forma amiúde a esta obra cinematográfica marcante e delicada. 

Título original: "Blue Valentine".
Título em Portugal: "Blue Valentine - Só Tu e Eu". 
Realizador: Derek Cianfrance.
Argumento: Derek Cianfrance, Cami Delavigne, Joey Curtis.
Elenco: Ryan Gosling, Michelle Williams, Faith Wladyka, John Doman.

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