08 julho 2015

Resenha Crítica: "Black Swan" (Cisne Negro)

 Arte, loucura, obsessões, insegurança, egos incontroláveis, mutilações corporais, terror, bailado e desejos reprimidos preenchem parte da narrativa de "Black Swan", uma das obras cinematográficas mais populares de Darren Aronofsky, com o cineasta a ter contribuído para um dos grandes papéis da carreira de Natalie Portman. Esta interpreta Nina Sayers (Natalie Portman), uma bailarina de vinte e oito anos de idade que trabalha numa prestigiada companhia de ballet de Nova Iorque, onde almeja alcançar uma maior preponderância, após Beth Macintyre (Winona Ryder), até então a principal estrela deste grupo, ser forçada a "sair de cena" para dar lugar a alguém mais jovem. Nina é uma mulher algo fria, rígida e inflexível para consigo própria, cujas feições apresentam um misto de fragilidade e vacuidade, que aos pouco revela enormes desequilíbrios do foro emocional, sobretudo quando é colocada diante do maior desafio da sua carreira. Esta habita com Erica (Barbara Hershey), a sua mãe, uma antiga bailarina algo agarrada ao passado que procura a todo o custo impor à sua filha um conjunto estrito de regras tendo em vista a que Nina alcance o sucesso que esta nunca teve. No fundo, Erica parece ver em Nina o seu duplo, uma situação que não é assim tão descabida num filme onde os espelhos são presença constante e a distorção da realidade um elemento que aos poucos parece fazer parte do quotidiano da protagonista. Neste jogo de duplos e reflexos, encontramos desde logo a própria procura de Thomas Leroy (Vincent Cassel), o director da nova adaptação da peça "Swan Lake", em busca de uma intérprete capaz de protagonizar quer o Cisne Branco, quer o Cisne Negro. A primeira faceta é frágil, doce e sensível, a segunda selvagem, sedutora e traiçoeira. Leroy mantém uma relação ambígua com Nina, parecendo atraído pela sua habilidade para a dança e não só, mas também inseguro em relação às reais capacidades desta em conseguir interpretar o Cisne Negro. Ela quer o papel, tendo dedicado todo o seu quotidiano a aperfeiçoar a sua arte e a viver de acordo com um conjunto de regras. Ele pretende que esta se solte definitivamente e deixe de lado uma excessiva rigidez que apenas parece prejudicar a sua carreira, uma situação que parece ficar notória no teste que efectuam. Uma conversa entre ambos parece fazer mudá-lo de ideias. Thomas diz que já seleccionou Veronica (Ksenia Solo), uma ambiciosa colega da mesma, ficando surpreendido com a facilidade com que Nina fica resignada com a decisão. Beija-a e é mordido, assistindo pela primeira vez a um lampejo do lado negro de Nina, com esta a acabar por ficar com o papel. Assistimos a um lado distinto de Nina, mas também à faceta manipuladora de Thomas, com este a procurar fazer de tudo para extrair o que de melhor a bailarina tem para dar, independentemente de isso poder prejudicá-la do ponto de vista mental ou não. Nina tem no papel de protagonista desta nova adaptação de "Swan Lake" o maior desafio da sua carreira, com esta a sentir gradualmente a pressão do ponto de vista psicológico. A sua mente é frágil, algo latente no arranhão nas costas, provocado pela própria durante um sonho. Estes momentos onde Nina confunde ilusão e realidade vão ser cada vez mais comuns com o desenrolar de "Black Swan", algo que é intensificado pelas suas inseguranças, com estas a serem ainda adensadas pela chegada da bela Lily (Mila Kunis) à companhia, para além da constante pressão colocada por Erica. Lily é tudo aquilo que Nina não consegue ser de forma natural: jovial, liberta, expansiva e espontânea. As próprias roupas de Lily, negras, associadas a uma personalidade mais forte e menos dada a puritanismos, contrastam com as de Nina, mais claras e simbolizadoras das fragilidades desta bailarina.

A relação complicada entre estas duas mulheres é exposta praticamente desde os momentos iniciais, com a cinematografia a contribuir para explorar as fragilidades emocionais de Nina ao distorcer propositadamente a imagem quando esta observa a chegada de Lily pela primeira vez aos bastidores. Darren Aronofsky exibe a chegada de rompante de Lily, atrasada, com Nina a observá-la atentamente, até a câmara apontar para o espelho e exibir a imagem da primeira algo distorcida, correspondendo quase ao olhar da protagonista. O jogo de espelhos, reflexos e duplos é algo latente ao longo do filme. Neste caso, Lily e Nina são expostas como polos opostos, enquanto a segunda e Beth surgem quase como elementos semelhantes, tal a instabilidade emocional que apresentam. Beth é apresentada como uma mulher impulsiva, que logo entra numa discussão com Nina após saber que esta foi seleccionada para o seu lugar, com Winona Ryder a ter poucos mas bons momentos para sobressair como esta mulher impulsiva, mas frágil do ponto de vista emocional que apresenta um claro ressentimento em perder o estatuto, tal como a protagonista irá ter receio de ser ultrapassada por Lily, sobretudo quando esta é nomeada como sua substituta. Natalie Portman tem aqui um dos grandes desempenhos da sua carreira ao dar vida a esta personagem aparentemente frágil, com o rosto da actriz a exprimir a rigidez de Nina, mas também as suas inseguranças e personalidade algo introvertida. É ambiciosa mas tem dificuldades em soltar-se, surgindo como uma mulher complexa que parece repercutir a rigidez com que foi educada, com Lily a surgir como a faceta distinta de Nina. Se Natalie Portman tem uma das melhores interpretações da carreira em "Black Swan", já Mila Kunis tem provavelmente aquele que é o seu melhor desempenho no grande ecrã, com a actriz a conseguir expressar as diferentes vertentes da sua personagem, em particular aquilo que Lily é na realidade e aquilo que esta bailarina representa na mente da protagonista. Não são poucas as vezes em que a ilusão se acerca da existência de Nina, com Darren Aronosfsky a explorar como a mente perturbada da bailarina coloca-a muitas das vezes em situações onde as alucinações parecem tomar a sua alma e rebentar por completo com a realidade. Veja-se logo nos momentos iniciais quando sonha estar a dançar com um cisne negro, encontrando-se arranhada por si própria nas costas, ou o momento em que alucina com um tórrido momento sexual com Lily, com Darren Aronofsky a criar uma cena de estranha sensualidade e loucura entre estas duas mulheres. A cena surge na sequência de uma saída nocturna entre Nina e Lily, com ambas a parecerem ter poucas afinidades, embora a primeira encare a segunda como uma força libertadora das amarras impostas por Erica. Lily sabe seduzir e do seu poder de sedução, não tendo problemas em meter conversa com os homens, enquanto Nina é sempre mais introvertida, começando aos poucos por recear que a colega possa tomar o seu lugar na peça ao vê-la sobressair constantemente em relação a si. Neste jogo de espelhos e duplos, Lily surge como o lado selvagem que Nina queria ter ou ser e nunca consegue, o Cisne Negro que o Cisne Branco tem dificuldades em encarnar. As inquietações de Nina são visíveis nos próprios ensaios, com os revezes a surgirem em pequenos símbolos: uma unha que se parte, outra que é cortada em demasia, feridas inerentes aos arranhões cada vez mais salientes, entre outros exemplos. No último terço assistimos ao descalabro e à glória, à perdição e à conquista, com Nina a expor todos os seus desequilíbrios, enquanto Darren Aronofsky deixa-nos diante de alguns momentos simultaneamente belos e vertiginosos onde as alucinações e a realidade parecem tomar conta do mundo da protagonista. O mundo profissional de Nina é marcado por uma enorme pressão, seja imposta pelo director do bailado, seja aquela que esta incute a si própria, para além de toda uma rivalidade entre colegas que nem sempre é benéfica para o ambiente interno da companhia, existindo a noção de que todos querem o papel que coube à protagonista de "Black Swan".

Ficamos diante de obsessões e treinos rigorosos, rivalidades perigosas e amizades impossíveis de serem mantidas, mas também uma noção do quão exigente o mundo do bailado profissional pode ser, independentemente de "Black Swan" tomar algumas liberdades para servirem os propósitos da narrativa. Os números de bailado são coreografados de forma exímia, com "Black Swan" a denotar que existiu todo um cuidado a nível da preparação dos mesmos (e pesquisa), quer na exposição dos ensaios, quer no espectáculo que marca a estreia de Nina no papel, com a atmosfera criada em volta desta companhia a ser credível no âmbito do enredo. Os ensaios são marcados pelas dúvidas em volta de Nina, inerentes aos comportamentos da própria. Esta parece ter vivido para ser o exemplo de perfeição. O seu quarto, marcado por tonalidades cor de rosa, parece ser uma casa de bonecas onde esta foi educada pela sua mãe para conseguir aquilo que esta última teve de abdicar ao ter a filha, com ambas a terem uma relação complicada. Barbara Hershey surge como uma mulher de sentimentos nem sempre discerníveis, pronta a querer ver a filha no topo, sufocando a mesma com os seus constantes cuidados embora pareça ser a única pessoa próxima da mesma. Se o quarto da personagem interpretada por Natalie Portman é marcado por tonalidades cor de rosa, parecendo uma sala de bonecas, já o de Erica parece ser um culto a si própria, com esta mulher a não poupar nos retratos da sua pessoa. Portman e Hershey sobressaem nas cenas em conjunto, com a primeira a surgir em quase todos os momentos da narrativa, tendo a oportunidade de destacar-se ao lado de diversos elementos do elenco. As relações criadas pela personagem interpretada por Natalie Portman vão ser quase sempre marcadas por uma enorme ambiguidade e alguma irrisão, com esta a surgir como uma figura maioritariamente isolada de tudo e todos. Ainda esboça uma tentativa de amizade com Lily mas a realidade é que Nina surge como uma figura isolada, muitas das vezes por culpa própria e das suas inseguranças, tendo no bailado a sua melhor companhia. Thomas, no intuito de a soltar, ainda sugere que esta se masturbe, que viva e descontraia, procurando uma forma de espicaçar esta mulher para a mesma conseguir encarnar o Cisne Negro, apesar de ficar latente algum machismo e poder de manipulação deste homem que acima de tudo procura que Nina corresponda ao serviço da arte. É uma tarefa que parece difícil, gerando ainda mais instabilidade em Nina com esta a procurar um meio de se soltar das amarras que lhe foram colocadas quer pela mãe, quer pela própria, com a sua personalidade problemática a ser explorada de forma sublime por Darren Aronofsky. O cineasta coloca-nos perante uma obra cinematográfica onde o ballet surge como pano de fundo para um estudo de uma personagem complexa, onde as alucinações acercam-se da sua realidade e deixam Nina e em alguns momentos o espectador sem saber no que confiar. A cinematografia contribui para estes momentos, com a câmara de filmar a acompanhar de forma amiúde os personagens, bem como os seus estados de espírito, existindo ainda uma utilização exímia dos close-ups. Estes permitem muitas das vezes às actrizes e a Vincent Cassel, o elemento masculino em maior destaque, exprimirem os estados de espíritos das personagens que interpretam, com Natalie Portman e Mila Kunis a sobressaírem neste quesito. A queda no abismo de Nina, e a paranoia criada por esta mulher em relação aos outros, quase que nos faz recordar obras como "Repulsion", "Rosemary's Baby" e "The Tenant", ou seja, a trilogia (informal) do apartamento de Roman Polanski, com o próprio aproveitamento dos espaços fechados como o quarto ou o palco da companhia (quase a funcionar como a segunda casa da protagonista) a remeter para isso mesmo. Diga-se que Aronofsky citou mesmo "The Tenant" como referência, com a paranoia dos protagonistas em relação às figuras que os rodeiam a ser um ponto em comum, para além de que a menção do cineasta à obra "The Double" de Fyodor Dostoyevsky parece fazer todo o sentido se pensarmos na relação entre Nina e Lily.

 Existe quase sempre este jogo de duplos em "Black Swan": Nina e Lily; a mãe de Nina e esta última; Nina e Beth; o Cisne Negro e o Cisne Branco. Essas dualidades são visíveis ainda no jogo de espelhos (sempre muito presentes ao longo do enredo) mas também nas personalidades destas personagens, com estas a serem desenvolvidas com alguma argúcia ao longo da narrativa. Tudo isto é explorado tendo como pano de fundo a preparação desta nova adaptação da peça "Swan Lake", com a pressão entre os envolvidos a ser imensa, enquanto Natalie Portman e Mila Kunis convencem como estas duas bailarinas. Embora exista trabalho dos duplos de corpo em alguns momentos, ambas as actrizes protagonizaram diversas cenas de bailado, tendo mantido um treino específico para a interpretação de Nina e Lily. Portman começou a treinar seis meses antes do início das filmagens, enquanto Kunis esteve meses a treinar quatro horas por dia ao longo de toda a semana, algo revelador do empenho de ambas para interpretarem estas personagens que estão entre os papéis mais marcantes das respectivas carreiras. A criação destas duas personagens resultou de um trabalho de pesquisa prévio efectuado por Darren Aronofsky, junto de bailarinas quer no activo, quer já fora das funções, algo que parece notório na atmosfera credível que este cria em volta da companhia, enquanto a banda sonora de Clint Mansel dita muitas das vezes o ritmo do enredo. A banda sonora teve como inspiração elementos de Tchaikovsky, embora parte da mesma tenha sido trabalho de Clint Mansell, algo salientado por Darren Aronofsky em entrevista à Empire: "Well, it's not purely Tchaikovsky, it's Tchaikovsky via Clint Mansell, my composer. He took Tchaikovsky and he pulled it apart. Because if you just put Tchaikovsky music over the movie, it would be way, way too up and down and too fast. Classical music is not movie music". A música tem ainda um papel de relevo numa das várias cenas marcantes do filme, em particular quando Nina e Lily estão numa discoteca, num espectáculo de luz e cor, mas também de uma montagem e movimentos de câmara frenéticos que exibem bem o estado caótico em que se encontra a protagonista após a companheira ter colocado substâncias estupefacientes na sua bebida. Temos ainda alguns momentos associados ao terror e ao fantástico, onde uma mulher se pode transformar num cisne ou pele ser dolorosamente arrancada diante dos nossos olhos (o terror surge muitas das vezes inerente à mutilação corporal), com Darren Aronofsky a não poupar os espectadores a alguns arrepios enquanto assistem a esta narrativa fervilhante de emoções. A câmara de filmar acompanha atentamente as sensações e os movimentos, contribuindo para alguma dessa inquietação, com a própria paleta cromática a ter alguma preponderância para a transmissão desses sentimentos (veja-se as tonalidades vermelhas inerentes às luzes na exibição da peça no último terço, a transmitirem calor e inquietação, ou o quarto de Nina marcado pelos tons cor de rosa, associados ao ballet). No final, a busca de Nina pela perfeição pode terminar em glória ou tragédia, ou até em ambas em simultâneo, mas o maior triunfo é o de Darren Aronofsky ao realizar uma obra cinematográfica intensa, marcada por interpretações acima da média, números de bailado bem coreografados e um argumento coeso, com a maioria dos elementos a funcionar de forma orgânica e sublime.

Título original: "Black Swan".
Título em português: "Cisne Negro".
Realizador: Darren Aronofsky.
Argumento: Mark Heyman, Andres Heinz, John McLaughlin.
Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder.

Sem comentários: