14 julho 2015

Resenha Crítica: "10.000 Km" (Long Distance)

  "10.000 Km" é uma agradável surpresa, que nos arrebata para o interior da intimidade de um casal que se vê na contingência de ter de seguir com a relação à distância, algo que retira o contacto físico entre ambos e permite abordar questões que estão cada vez mais intrinsecamente associadas à sociedade contemporânea. Quantos de nós vamos ter de sair para o estrangeiro ou para locais distantes do nosso lar para trabalhar? Quantos já não tiveram de emigrar para encontrar uma situação laboral melhor ou simplesmente porque alcançar um trabalho remunerado pode ser uma tarefa aparentemente hercúlea? Para quem é solteiro a situação pode ser complicada devido a situações como a necessidade de adaptação a um novo território, deixar a família e os amigos para trás. Para quem tem relações do foro sentimental, certamente irá procurar que estas sobrevivam à distância sabendo que muitas das vezes o sucesso desse desiderato poderá ser de difícil alcance, com as longas ausências a poderem esfriar sentimentos anteriormente calorosos. "10.000 Km" coloca-nos diante de um casal que se encontra nesta contingência quando Alexandra (Natalia Tena) recebe uma proposta para trabalhar durante um ano em Los Angeles, após ter sido seleccionada para uma residência artística que lhe permite voltar a exercer a função de fotógrafa, tendo casa e despesas pagas. Sergi (David Verdaguer) esboça inicialmente alguma felicidade pela proposta até perceber realmente as implicações da mesma e o facto da sua cara metade não lhe ter contado que tinha submetido o pedido para a bolsa. Alexandra salienta que foi Marta, uma amiga curadora, que submeteu a proposta, algo a que a protagonista não deu muita importância devido a parecer uma situação remota de se concretizar, embora não tenha descartado a ideia. A confirmação chega via e-mail, após alguns momentos sexualmente mais calorosos entre Alexandra e Sergi, num Domingo de manhã, onde estes não só expuseram a sua enorme intimidade na cama mas também no quotidiano, encontrando-se inclusivamente a planearem ter filhos, chegando a discutir o nome de uma possível rapariga. Estes habitam num apartamento em Barcelona, com Alexandra, uma fotógrafa, a dar explicações de inglês para poder pagar as contas, algo que não a satisfaz a nível profissional, enquanto Sergi trabalha como professor substituto. Ambos parecem viver de forma relativamente estável, sem grandes luxos, é certo, embora a intimidade dos momentos iniciais seja um dos últimos trechos em que os dois estarão fisicamente próximos durante boa parte da narrativa (que corresponde a um plano-sequência superior a vinte minutos). O último momento que encontramos entre ambos antes de Alexandra partir acontece quando dançam ao som de "Nothing Matters When We're Dancing", uma canção belíssima dos "The Magnetic Fields" que parece ter uma importância especial para o casal, algo que se vai repetir numa fase mais adiantada da narrativa. Carlos Marques-Marcet expõe inicialmente os momentos de maior proximidade carnal entre Alexandra e Sergi, aproveitando a química e à vontade de David Verdaguer e Natalia Tena a interpretarem este casal, tendo em vista a deixar o espectador com a noção do estado da relação de ambos, até nos colocar diante da rotina desgastante onde apenas comunicam através da câmara do portátil no chat, por telemóvel e e-mail, com estas duas realidades distintas a serem inteligentemente contrastadas.

Os dois fazem planos para se reencontrarem nas férias de Sergi, com este a perceber que Alexandra pretende agarrar a oportunidade, tendo finalmente a hipótese de efectuar algo a nível profissional que a estimula, uma situação difícil de dizer que não, sobretudo quando as hipóteses em Espanha parecem ser complicadas. Diga-se que o argumento do filme aproveita ainda para abordar esta questão da saída dos jovens do país, com Alex (como é conhecida Alexandra) a salientar que vários amigos já saíram de Espanha em direcção aos mais variados territórios, algo notório quando comenta que Biel foi para a Dinamarca, Johnny para a Argentina, Oscar e Cristina foram para Berlim. Esta situação reflecte a realidade complicada a nível laboral em Espanha que, por sua vez, é facilmente identificável com o mercado de trabalho em Portugal. Ou seja, existe a noção de que os objectivos profissionais terão de ser alcançados noutro país, já que no interior da própria nação não existem condições para os mesmos, com "10.000 Km" a abordar temáticas que reflectem uma realidade nos dias de hoje, num drama humano bastante consciente daquilo que nos apresenta e do Mundo que nos rodeia. O afastamento é complicado apesar de Alex e Sergi inicialmente ainda procurarem meios de contornar a situação, embora seja notório que, mais cedo ou mais tarde, vai existir algum desgaste na relação. "10.000 Km" coloca-nos diante de planos dos personagens a olharem ao monitor enquanto falam um com o outro, ou com as imagens pixelizadas e a travarem como se estivéssemos a ver directamente o ecrã de um dos portáteis, algo que inicialmente estranha-se e posteriormente prende-nos a esta relação que passa a estar num limbo. Os diálogos passam a ser mantidos à distância, com a falta de companhia na cama a ser inicialmente compensada com o portátil virado para o lado, como se cada um dos elementos estivesse a falar lado a lado na outra almofada, embora estes planos suscitem ainda mais a sensação de melancolia que aos poucos se parece assomar na alma dos protagonistas. O sexo é substituído por um momento de troca de diálogos e estímulos masturbatórios que diferem em relação à cena bastante carnal exibida no início do filme. Uma dança é feita através do portátil, com a cara metade a estar apenas virtualmente presente, com as novas tecnologias a permitirem uma aproximação mas também a triste certeza de que a outra pessoa está distante. Mais uma vez, vale a pena reforçar a inteligência do argumento, num filme feito com uma simplicidade de recursos e enorme criatividade, desenrolando-se praticamente em dois apartamentos, ao mesmo tempo que são abordadas temáticas como a dificuldade em conciliar uma relação sentimental com as ambições profissionais, a necessidade de sair do país para encontrar uma vida melhor noutro local, a falsa sensação de aproximação dada pelas novas tecnologias, as mudanças que vamos conhecendo ao longo do tempo, entre outras. Alex e Sergi contactam todos os dias mas aos poucos começa a tornar-se notório que se afastam gradualmente, com os diálogos a adensarem ainda mais a solidão. Alex tem de decorar a casa (publicidade à bruta ao IKEA), aprender a cozinhar (tarefa que era de Sergi), enquanto procura tirar diversas fotografias pelos locais que visita tendo em vista a organizar uma exposição fotográfica. Raramente a encontramos fora do cenário do apartamento, algo que também acontece com Sergi, com "10.000 Km" a saber utilizar a escassez de recursos para proveito próprio ao mesmo tempo que consegue surpreendentemente apresentar um enredo bem estruturado e marcado por um bom trabalho de montagem, onde as quase vinhetas que marcam diversos dias do casal separado pela distância do título (ou algo semelhante) surgem reunidas de forma homogénea e capazes de explorarem a situação em que se encontra a dupla de protagonistas.

Inicialmente procuram conciliar as agendas e falarem imenso. Posteriormente começam a sentir um desgaste e a certeza que as imagens oriundas das câmaras dos respectivos computadores não chegam para substituir a presença física, com as dúvidas e alguns actos nem sempre reflectidos a colocarem em causa tudo aquilo que construíram. Os sorrisos são trocados por silêncios, com Alex a questionar o porquê de só falarem da relação quando anteriormente falavam dos mais diversos assuntos, algo que é contraposto por Sergi da seguinte forma "(...) antes conversar não era uma obrigação". As conversas entre ambos ao computador deixaram de se tornar um elo de ligação para adensarem uma rotina que expõe a solidão que sentem e uma quase obrigação de estarem no portátil a contemplar que não estão presencialmente juntos, com Sergi a parecer mais afectado. Não lhe conhecemos grandes hobbies, procura estudar para os exames que lhe podem dar o estatuto de professor de forma permanente ao invés de leccionar como substituto, parecendo certo que não está inicialmente muito disposto a partir para a aventura em Los Angeles. Alex embrenha-se no trabalho, tem em Lisa uma amiga embora nunca vejamos a mesma, tendo nos momentos ao computador a trabalhar no tratamento das fotografias que capta um dos grandes consumidores do seu tempo. A paciência que apresentam a lidar um com o outro é cada vez menor, embora pareça certo que Alex e Sergi ainda continuam a manter alguma daquela chama que tinham no início do filme, quando planeavam ter um filho e viver em Barcelona durante mais tempo. Uma proposta de trabalho mudou tudo, com estes personagens aos poucos a terem de aprender a conviver um sem o outro, pelo menos a nível físico. A aprendizagem deriva de uma perigosa habituação de parte a parte, com ambos a encontrarem-se numa situação complexa que coloca a relação no fio da navalha, ou não estivessem cada vez mais a ficar rotinados a estarem longe um do outro, enquanto Carlos Marques-Marcet consegue embrenhar o espectador para o meio deste relacionamento, quase que despertando em nós um espírito algo voyeurista, com o quotidiano destes personagens aos poucos a tornar-se num pedaço das nossas pessoas, ou pelo menos daquelas que não ficaram indiferentes à história de Alex e Sergi. Aos poucos sorrimos com algumas brincadeiras entre os personagens, percebemos que existem pequenos sinais de que algo não vai bem, até sermos completamente assolados pelos sentimentos angustiantes que por vezes invadem a dupla de protagonistas, com "10.000 Km" a surgir como uma obra simultaneamente gratificante e desgastante do ponto de vista emocional. Deixa marca pela forma como nos coloca diante de uma história que tanto tem de ficcional como de imensamente real, reflectindo algo que poderia ou pode já ter acontecido a qualquer um de nós, ou se quisermos até podemos extrapolar para os casos das amizades que vamos mantendo sem contactar presencialmente com as pessoas. Alex e Sergi procuram manter o contacto, mas este nem sempre é fácil, com a própria procura em dialogarem todos os dias a mantê-los presos a uma rotina solitária no interior dos respectivos apartamentos. Os cenários são utilizados e decorados com engenho, com Carlos Marques-Marcet a revelar uma maturidade que surpreende quando nos apercebemos que é a sua primeira longa-metragem de ficção, com o realizador a explorar com competência as diferentes variantes e o desgaste de uma relação a longa distância. No caso dos cenários, aos poucos tornam-se cada vez mais essenciais para percebermos as modificações nos personagens. Alex começa a decorar cada vez mais a sua casa, inicialmente pouco mobilada e impessoal (só ao quinto dia começa a colocar livros numa estante), com o último terço a deixar-nos a certeza que aos poucos este tornou-se o seu espaço. Por sua vez, num assomo de fúria, durante uma discussão com Alex, encontramos Sergi a partir móveis, discos e objectos que o fazem recordar da amada, com David Verdaguer a destacar-se neste momento emocionalmente mais intenso.

A dor de Sergi é latente, com a sua permanência em Barcelona, devido a razões profissionais, a deixá-lo angustiado não só por razões inerentes à solidão mas também por tudo em sua volta fazê-lo recordar de Alex, encontrando-se diante de uma situação que não sabe como resolver, apesar de também parecer demonstrar uma enorme resistência em mudar. Como suportar a dor do afastamento quando até continuamos a lidar directamente com alguém que nos é próximo? "10.000 Km" não nos dá respostas peremptórias, procurando antes levantar ainda mais questões sobre as relações à distância, sejam amorosas ou de amizade, com as novas tecnologias a permitirem uma falsa aproximação que, gradualmente, apenas parece aumentar a solidão e fomentar o afastamento. A situação de Alex e Sergi é semelhante a diversos exemplos de pessoas que me são próximas que procuraram manter as relações à distância. Primeiro é difícil, mas o contacto online e por telemóvel parece suprir algumas lacunas, aos poucos a disponibilidade parece começar a ser menor, até a incerteza começar a assolar a relação e eventualmente poder minar a mesma. Sergi e Alex amavam-se, pretendiam ter filhos mas depararam-se com uma situação comum a diversos seres humanos nos dias de hoje, com o argumento a saber explorar as diferentes variantes que a relação vai conhecendo ao longo do filme. A estrutura algo episódica que o filme toma, desde o prólogo onde assistíramos ao casal em momentos de alguma intimidade em Barcelona até Alex receber a notícia e discutir a possibilidade de partir com Sergi, é unida de forma surpreendentemente homogénea, com "10.000 Km" a colocar-nos diante de fragmentos dos dias dos personagens, em particular quando comunicam ou procuram comunicar entre si. A certa altura encontramos Alex a procurar enviar um mail para Sergi. Esta começa a escrever e apaga trechos do texto, num processo repetitivo que exprime as dúvidas da mesma em relação ao que fazer, algo que mais uma vez joga com as experiências que o espectador já pode ou não ter vivido ao longo da sua vida, ou esta indecisão da personagem interpretada por Natalia Tena não fosse algo que poderia acontecer ou já ter acontecido a qualquer um de nós. Natalia Tena e David Verdaguer dominam as atenções de “10.000 Km”, ou não fossem os dois protagonistas do mesmo e interpretassem os únicos personagens humanos que encontramos no filme. A dinâmica entre ambos é convincente, quer quando estão presencialmente juntos, quer quando dialogam através dos respectivos portáteis, com os actores a transmitirem uma enorme franqueza na exposição dos sentimentos e na troca de diálogos. Verdaguer interpreta um personagem algo indeciso em relação ao próximo passo a tomar após a partida de Alex, que pretende assentar e ter um filho, embora ir para Los Angeles de forma definitiva não esteja nos seus planos iniciais. Sergi tem ainda de completar os exames de foro profissional, algo que também não corre de forma esperada com a sua vida a parecer estar cada vez mais complicada. O actor consegue expressar a solidão deste personagem, bem como a procura do mesmo em manter viva a relação, surpreendendo o à vontade que Natalia Tena e David Verdaguer apresentam como este casal que aos poucos arrebata a nossa atenção. Tena interpreta uma fotógrafa de origem britânica a viver na Catalunha (é o primeiro papel da actriz num idioma espanhol), mais destemida do ponto de vista profissional do que o namorado de longa duração (num diálogo Sergi salienta que procuram ter um bebé há sete anos), que faz uma escolha que sabe poder trazer consequências difíceis para a sua relação e modificar a mesma, com o filme a procurar explorar também como os objectivos de Alex aos poucos parecem ter mudado.

É nesta adaptação aos novos objectivos de Alex que se joga também o futuro da relação, com o casal a ter de tomar decisões difíceis, algo que os obrigará, mais cedo ou mais tarde, a perceber se terão a força necessária para superarem as adversidades e conciliarem aquilo que ambos pretendem. Ainda procuram ter momentos de alguma diversão e manter a intimidade à distância, algo visível quando brincam com a roupa interior de Alex ou Sergi diverte-se inicialmente a comentar sobre a necessidade da namorada ter de aprender a cozinhar. Diga-se que, a certa altura, Alex pede ajuda a Sergi para este a ajudar num cozinhado para um casal convidado, com este a mostrar paciência mas também algum cansaço, algo inerente à diferença de horários e ao esforço cada vez maior que estes diálogos à distância exigem dos protagonistas. É certo que poderia existir uma maior exploração das relações dos protagonistas com outros personagens ou até uma maior abordagem às suas vidas profissionais, mas Carlos Marques-Marcet procura confinar quase tudo aos dois apartamentos e aos ecrãs dos computadores de Alex e Sergi, algo que praticamente nos torna cúmplices desta relação. As imagens exibidas como se fossem filmadas em câmaras de computador e as habituais travagens que algumas destas conversas apresentam são exemplo não só da procura do cineasta em que tenhamos a mesma perspectiva que os personagens têm um do outro, mas também de uma tentativa para dinamizar o enredo, algo que é conseguido. Ficamos ainda diante dos personagens a observarem os respectivos computadores ou em silêncio, com "10.000 Km" a engenhosamente aproveitar os cenários dos apartamentos, algo que permite não só criar uma atmosfera de intimidade entre os protagonistas e o espectador mas também elaborar uma narrativa que decorre em parte em dois países diferentes, sem que as filmagens necessitassem propriamente de decorrer nos EUA já que boa parte do enredo desenrola-se nos lares de Alex e Sergi (as filmagens ocorreram em dois apartamentos da Catalunha). Nesse sentido não vão faltar conversas por computador, seja através de câmaras, via Facebook, a exibir espaços via Google Maps, sempre com a noção de que estes diálogos à distância não atingem o poder de quando estes dois personagens se podiam tocar como no plano de longa duração do início do filme que nos estabelece algumas das dinâmicas de Alex e Sergi, duas figuras de personalidades distintas que se pareciam complementar na perfeição. A distância dificulta a intimidade, apesar de ainda terem alguns momentos ternos ou de maior romantismo, até a situação ficar mais complicada, embora também valha a pena realçar que a relação poderia sofrer algum revés se ambos permanecessem na Catalunha. "10.000 Km" é também um filme sobre a necessidade das relações se adaptarem às diferentes circunstâncias e episódios que ocorrem ao longo do tempo, num drama humano marcado por algum romantismo que é arquitectado de forma sublime. As novas tecnologias são utilizadas de forma assertiva, tendo em vista a explorar as variantes de uma relação a longa distância, embora o cerne da história seja universal e atemporal: um casal que procura manter o seu relacionamento apesar das dificuldades. Os rostos de Sergi e Alex ficam na nossa memória, os seus gestos tardam em esquecer-se numa obra cinematográfica que, vale a pena repetir várias vezes, foi uma agradável descoberta. No final, fica a incerteza se Alex e Sergi voltarão a conseguir ser felizes e conciliar os objectivos que têm para a vida, mas também a certeza que Carlos Marques-Marcet teve uma estreia imensamente feliz na realização de longas-metragens.

Título original: "10.000 Km".
Título em inglês: "Long Distance".
Realizador: Carlos Marques-Marcet.
Argumento: Carlos Marques-Marcet, Clara Roquet, Natalia Tena e David Verdaguer.
Elenco: Natalia Tena e David Verdaguer.

Sem comentários: