11 junho 2015

Resenha Crítica: "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives" (O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores)

 Apichatpong Weerasethakul não é um realizador consensual, algo inerente à sua procura em elaborar filmes muito próprios, abertos a múltiplas interpretações e prontos a causar alguma estranheza no espectador. Em "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives" ficamos diante da realidade e da fantasia, das vidas que partem e das almas que regressam, de seres humanos comuns e indivíduos que voltam numa forma antropomórfica, de princesas e servos, de animais irracionais e seres humanos, de espaços florestais e um apartamento num território urbano, numa obra cinematográfica que é um deleite para os sentidos, onde nem tudo pode ser discernido ou facilmente entendido, com Apichatpong Weerasethakul a criar algo sublime, capaz de nos intrigar e questionar. Para facilitar a vida àqueles que não sabem pronunciar o seu nome ou, tal como esta pessoa, por vezes escrevem o mesmo com gralhas, Apichatpong Weerasethakul salientou que o podem tratar por "Joe", algo que será efectuado ao longo deste texto sobre esta peculiar e envolvente obra cinematográfica que surge diante de nós quase como se fosse um sonho no qual vivemos uma miríade de emoções. "Joe" teve como inspiração o livro "A Man Who Can Recall His Past Lives", escrito por Phra Sripariyattiweti, um monge de um templo budista que fora abordado por um indivíduo chamado Boonmee que revelou o facto de se recordar das suas vidas passadas, algo que conduziu o elemento religioso a elaborar a obra literária. No caso de "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores" (ou "Loong Boonmee raleuk chat" ou "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives"), "Joe" não procurou efectuar uma adaptação literal do livro, nem um filme biográfico, mas sim uma obra cinematográfica mais pessoal, por vezes com uma estrutura narrativa algo fragmentada, marcada por um tom a espaços experimental, onde assistimos a diversos episódios que nem sempre se encontram relacionados com o personagem do título, ou talvez até estejam (se quisermos encarar a princesa e o búfalo como vidas passadas deste elemento). Boonmee (Thanapat Saisaymar) é um indivíduo já na casa dos seus sessenta anos de idade que se encontra a viver os últimos dias da sua existência, padecendo de um grave problema nos rins, algo que o leva a ter de constantemente efectuar um tratamento para drenar os mesmos. Este possui uma vasta quinta, onde tem tamareiras, produz mel, lidando de perto com a natureza, tendo um conjunto de funcionários oriundos, aparentemente de forma ilegal, do Laos (algo revelador de uma situação real que envolve a Tailândia contemporânea), dos quais destaca-se Jaai (Samud Kugasang), um elemento fiel ao protagonista. O personagem interpretado de forma sublime por Thanat Saisaymar é um indivíduo calmo e perseverante, que nos transmite uma enorme sensação de sossego, embora também conte com os seus fantasmas do passado, quer no sentido literal, quer no sentido figurado, uma situação visível quando recebe a visita do espírito de Huay (Natthakarn Aphaiwong), a falecida esposa, para além dos momentos em que se recorda dos pecados de outrora, entre os quais quando eliminara comunistas num conflito militar e insectos. Boonmee lida com a certeza de que a morte poderá chegar a qualquer momento, com a doença a agravar-se gradualmente, enquanto este reúne-se com diversos familiares. A visita de Huay surge durante um jantar onde se encontram ainda presentes Jen (Jenjira Pongpas), a cunhada do protagonista e irmã mais nova da primeira, bem como Tong (Sakda Kaewbuadee), o sobrinho da personagem interpretada por Jenjira Pongpas, com estes elementos a efectuarem uma visita a Boonmee.

 O jantar é acompanhado pela presença dos sons naturais oriundos do vasto terreno que circunda a propriedade de Boonmee (provavelmente aumentados no trabalho de design sonoro), com este a ter recebido a visita de Jen e Tong, dois elementos que habitam num espaço citadino distinto deste território rural onde a fantasia e a realidade e o misticismo parecem reunir-se. Esta situação é visível na presença do espírito da falecida, com "Joe" a mesclar todo um enorme realismo com elementos associados ao fantástico e ao espiritismo, algo que ganha contornos ainda mais salientes quando surge Boonsong (Jeerasak Kulhong), o filho de Boonmee e Huay, que desaparecera seis anos depois da morte desta, reaparecendo como um estranho ser de olhos vermelhos, completamente peludo, uma figura algo antropomórfica que fica entre o ser humano e o animal selvagem, que desperta não só a surpresa dos presentes mas também a do espectador. O momento aparentemente calmo e marcado por episódios aparentemente banais, tais como diálogos sobre a comida, é conspurcado por estas figuras místicas, associadas ao passado de Boonmee. A esposa salienta que perdera a noção de tempo, embora comente que recebera as oferendas e ouvira as preces que foram efectuadas em sua homenagem no templo. Parece carregar consigo alguma nostalgia, com o olhar de Boonmee a não esconder a surpresa e algum contentamento por finalmente reencontrar a esposa, com o filme a abordar a possibilidade das almas dos mortos poderem visitar os vivos. Diga-se que um dos poucos momentos onde encontramos Boonmee algo assustado é protagonizado ao lado da esposa, com este a sentir o aproximar da morte e a procurar algum conforto junto da amada. Por sua vez, Boonsong salienta que a presença de espíritos e de outras criaturas que "farejam" a doença de Boonmee e o aproximar da morte do progenitor conduziram-no a deslocar-se de novo ao local, explicando ainda como adquiriu esta forma. Amante da fotografia, tal como "Joe", Boonsong deparara-se com uma estranha criatura no topo de uma das fotos que revelara, procurando encontrar a mesma, algo que acontece, embora este se transforme num estranho ser acabando por desaparecer até este dia. Boonmee acaba por ver reunida boa parte da sua família, algo que já não acontecia há algum tempo. Não deixa de ser uma estranha reunião, onde assistimos à união entre o passado e o presente, entre a vida e a morte, entre o real e o misticismo, com "Joe" a atribuir um tom "mágico" a um momento aparentemente anódino. Diga-se que o cineasta procurou transportar para o filme alguns dos seus ideais, algo exposto no press kit: "I believe in the transmigration of souls between humans, plants, animals, and ghosts. Uncle Boonmee’s story shows the relationship between man and animal and at the same time destroys the line dividing them". O próprio filho de Boonmee parece transgredir essa linha entre o Homem e os animais irracionais, com a relação entre ambos os seres vivos a ser exposta de forma amiúde ao longo de "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores". Veja-se o momento em que um personagem procura conduzir um animal semelhante a um búfalo, ou a procura de Boonmee em desviar as abelhas para poder retirar uma placa com mel para poder dá-la a Jen para esta provar. Jen não parece estar habituada a este ambiente, tal como não parece conhecer totalmente o protagonista, apresentando uma certa desconfiança em relação aos empregados de Boonmee devido a serem oriundos do Laos, apesar de não descurar o envolvimento com algum indivíduo deste país (fica aqui presente algum preconceito existente em relação aos elementos oriundos do Laos, algo salientado por "Joe" quando abordava "Mekong Hotel": "(...) after the civil war in Laos, it became a mysterious country, semi-isolated. The Mekong River is no longer a bridge, but a barrier. Prejudice towards Lao people grew in central Thailand and in the media. I guess because of this isolation and the wayward nationalism in Thailand"). Esta fica surpreendida pela presença da irmã ao jantar, com Huay a efectuar esporadicamente companhia a estes personagens, incluindo quando Boonmee decide que o tratamento aos rins já não está a fazer efeito e pede para ser transportado para uma gruta onde considera ter nascido.

A gruta é vista pelo protagonista como uma máquina do tempo, com este a salientar que sabe ter nascido no local noutra vida, embora não pareça apresentar certezas se terá sido um homem, uma mulher, uma outra espécie animal, com este cenário a ganhar ainda mais misticismo e significado com este discurso. Este discurso na gruta remete-nos para diversas dúvidas em relação a algumas sequências que pareciam meio aleatórias. Por exemplo, a sequência onde encontramos uma princesa (Wallapa Mongkolprasert) cujo reflexo aparece mais jovem junto da água, com esta a ter uma estranha relação sexual com um bagre que fala, uma situação que evidencia paradigmaticamente este círculo entre humanos e animais que "Joe" nos apresenta. Será que este bagre era Boonmee noutra vida? Ou será que Boonmee era o súbdito da princesa? Ou será que este era a princesa? Temos ainda no início de "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores" uns momentos que parecem saídos de um documentário ("Joe" mescla diferentes registos de estilo ao longo do filme) onde é dada especial atenção a um búfalo, algo que nos faz questionar se este poderá ser o personagem do título noutra vida ou reencarnado. Estes momentos surgem aparentemente desgarrados da narrativa, com "Joe" a brindar-nos ainda com uma colagem de fotografias reunidas através do referido discurso de Boonmee, numa obra cinematográfica que se apresta a múltiplas interpretações e pede diversas visualizações. Tem um poder hipnótico, capaz de despertar algum fascínio para o meio deste realismo fantasioso que nos é colocado diante do nosso olhar. Os sons naturais são aproveitados de forma exímia, o espaço da floresta é exposto como algo entre o banal e o místico, a gruta carrega no seu interior o misticismo inerente ao discurso de Boonmee, enquanto o inesperado surge muitas das vezes diante de uma narrativa que nos apresenta a relações humanas aparentemente comuns. Veja-se a relação entre Boonmee e Jen, com os momentos entre os dois a serem de alguma cumplicidade, embora difiram a nível de ideais e pensamentos, com o jantar onde participam a ser marcado por um conjunto de episódios peculiares ou se preferirem deveras surreais. As interpretações são na maioria bastante eficazes, sobressaindo sobretudo Thanapat Saisaymar, Natthakarn Aphaiwong e  Jenjira Pongpas (uma colaboradora habitual do cineasta), com os dois primeiros a serem amadores que conseguem sair-se bastante bem nesta "fábula" de "Joe" sobre a reencarnação. O regresso das almas em novos corpos, sejam humanos ou de animais, é uma temática presente, bem como o regresso dos espíritos e a relação do ser humano com a natureza, algo realçado pelo próprio cineasta para além de expor a sua ideia de cinema: "The film is not about Boonmee, but about my take on the idea of reincarnation. It naturally developed into an homage to the cinema I grew up with. A cinema that’s also dying or dead". Nesse sentido, vale a pena realçar a presença de personagens como Jen e Tong, duas figuras exteriores a este mundo de Boonmee que surgem quase como duplos do espectador, embora "Joe" não poupe ainda em estranhos momentos no último terço.

Tong supostamente é sobrinho de Jen, sendo o cozinheiro de serviço, mantendo uma relação de proximidade com esta última. Este também é um monge, ou pelo menos aparece vestido como tal no último terço, protagonizando alguns momentos que nos deixam com mais dúvidas do que certezas, com "Joe" a mostrar mais uma vez que a sua obra também se apresta a várias interpretações nas diferentes reencarnações que tem a cada nova visualização. O cineasta aborda ainda questões relacionadas com a mortalidade, para além de efectuar um comentário político sobre o seu país, uma situação notória não só no arrependimento de Boonmee em ter eliminado muitos comunistas, ainda que por ordens superiores. O próprio salienta isso mesmo no press kit: "The film is part of the Primitive Project in which I tried to capture some memories of the north-east. I ended up working with the teens in a village that had a violent political history". O "Primitive Project" consiste num projecto multi-plataforma que resultou não só nesta longa-metragem, mas também nas curtas "A Letter to Uncle Boonmee" e "Phantoms of Nabua", com estes trabalhos a terem como pano de fundo a região de Isan, em particular o território de Nabua em Nakhon Phanom. "Joe" coloca-nos sobretudo diante das especificidades dos territórios rurais, atribuindo um tom místico aos mesmos, com a entrada numa gruta a poder simbolizar uma morte, um nascimento ou um renascimento, conseguindo captar a quietude que por vezes rodeia o quotidiano daqueles que habitam estes espaços. Existe uma enorme calma a rodear alguns episódios do enredo, quase a remeter para uma certa passividade em aceitar o destino, com os planos, na maioria fixos, a transmitirem essa sensação. Veja-se quando Boonmee está a receber o tratamento, com uma enorme calma, ou quando recebe a visita da falecida esposa e do filho desaparecido, mantendo sempre um tom de voz calmo e sereno. É um espectáculo à parte este que "Joe" nos apresenta, onde a fantasia se acerca da realidade de forma estranha, por vezes bela, por vezes grosseira, por vezes delicada, por vezes crua, enquanto o cineasta cria uma obra cinematográfica marcada por diversas metáforas e uma interpretação do Mundo e da vida que nem sempre compreendemos mas sentimos, que merece alguns dos vários elogios que recebeu, embora tenha dividido o público e a crítica, tal como diversos trabalhos do realizador. É uma obra onde parece latente que a maioria dos personagens acredita-se na existência de espíritos e na transferência da alma, uma situação que ajuda a explicar a quase normalidade com que encaram o aparecimento de Huay. Entre o misticismo, a fantasia e o realismo, "Loong Boonmee raleuk chat", o primeiro filme tailandês a vencer a Palma de Ouro em Cannes, surge como um espectáculo estimulante para os sentidos, capaz de abordar temáticas como a mortalidade e a reencarnação, mas também a relação dos seres humanos entre si e com a natureza, naquele que é um trabalho belíssimo de Apichatpong Weerasethakul.

Título em inglês: "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives".
Título original: "Loong Boonmee raleuk chat".
Título em Portugal: "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores".
Realizador: Apichatpong Weerasethakul.
Argumento: Apichatpong Weerasethakul.
Elenco: Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee, Natthakarn Aphaiwong, Jeerasak Kulhong.

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