03 junho 2015

Resenha Crítica: "The Treasure of the Sierra Madre" (1948)

 A certa altura de "The Treasure of the Sierra Madre", Howard, o personagem interpretado por Walter Huston, salienta "Ah, as long as there's no find, the noble brotherhood will last but when the piles of gold begin to grow... that's when the trouble starts". Conhecedor dos efeitos provocados pela "febre do ouro" no ser humano, Howard logo apresenta uma visão desencantada e fatalista das buscas pelo ouro efectuadas pelos garimpeiros no México, algo que logo é contrastado com algum desdém por parte de Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart), com este a expor que seria capaz de trazer apenas a quantia estipulada no início da missão. O desdém de Dobbs surge pouco tempo depois de Howard comentar que "(...) Not even the threat of miserable death would keep you from trying to add 10,000 more. Ten, you'd want to get twenty-five; twenty-five you'd want to get fifty; fifty, a hundred. Like roulette. One more turn, you know. Always one more". Dobbs é algo ingénuo e pouco experiente no que diz respeito à corrida ao ouro, algo que explica os seus comentários iniciais entre o naïve e o despeitado ou não fosse este o personagem que vai ceder do ponto de vista mental com o desenrolar do enredo, a ponto de entrar numa paranoia que coloca em perigo todos aqueles que o rodeiam. Dobbs é um indivíduo que encontramos no início do filme a pedir esmola para comer, que é como quem diz, para comprar tabaco, fazer a barba e cortar o cabelo no barbeiro, calhando sempre efectuar este gesto junto do personagem interpretado por John Huston, também ele um indivíduo oriundo dos EUA, embora financeiramente estável, ao contrário do protagonista. Este vive de esmolas no México, sem que ninguém lhe ofereça trabalho, assim como Curtin (Tim Holt), com estes dois elementos oriundos dos EUA a conseguirem inesperadamente um empregador na figura de Pat McCormick (Barton MacLane). No entanto, este revela-se um charlatão que, após o trabalho estar feito, deixa-os praticamente sem dinheiro em Tampico. Pelo caminho encontram Howard, numa espelunca onde vão dormitar, um indivíduo já a caminhar para os seus sessenta anos, ou provavelmente até já os tem, que fala abertamente sobre as suas aventuras na caça ao ouro e como estas missões afectavam os seres humanos, sobretudo se descobrissem este metal precioso. Walter Huston atribui um estilo afável e simpático a este veterano nas andanças da busca pelo ouro, construindo um personagem que será muitas das vezes um barómetro moral, embora o próprio não esteja livre de defeitos e continue sem ter a sua situação financeira resolvida. A conversa deixa Dobbs e Curtin com "a pulga atrás da orelha", com ambos a ficarem com a "semente" colocada nos seus cérebros que vai germinar na busca de ouro que vão encetar assim que conseguirem os fundos suficientes para poderem cumprir tal desiderato. Quando iam a andar pela rua, Dobbs e Curtin encontram Pat McCormick, com o trio a reunir-se num café onde logo se desenrola uma escaramuça com o primeiro a tirar o dinheiro do pagamento da carteira do vigarista, exibindo alguns valores morais ao deixar na mesma aquilo que não lhe pertencia. 

Ao vencer uma fracção da lotaria comprada a um garoto, Dobbs consegue reunir o dinheiro suficiente para encetar a missão até às montanhas de Sierra Madre, com Curtin e Howard a contribuírem com a quantia restante para a compra de burros, peles, armas e mantimentos, com o terceiro a alertar para os perigos provocados pelos criminosos. Se inicialmente Dobbs e Curtin duvidavam da capacidade de Howard, posteriormente percebem que este é aquele que está melhor preparado para a missão, com o personagem interpretado por Walter Huston a demonstrar não só um enorme conhecimento sobre estas buscas mas também uma grande agilidade física, com este a avançar pelas matas e florestas com uma genica impressionante. A relação entre o trio parece inicialmente pacífica, mas a descoberta do ouro, associada ao desolador e perigoso cenário montanhoso, logo conduz a algumas divergências, cabendo a Dobbs ser a figura em maior destaque ou não fosse este o primeiro a duvidar de tudo e todos. Humphrey Bogart tem em Dobbs um dos personagens mais marcantes e complexos da sua carreira, não ficando em nada a dever a protagonistas carismáticos a quem este deu vida, tais como Rick Blaine em "Casablanca", Phillip Marlowe em "The Big Sleep", Sam Spade em "The Maltese Falcon", Dixon Steele em "In a Lonely Place", Charlie Allnut em "The African Queen", entre muitos outros, com o actor a demonstrar um talento ao alcance de poucos. Dobbs é um indivíduo complexo, inicialmente bem intencionado, mas incapaz de resistir às tentações provocadas por uma súbita riqueza financeira após um quotidiano marcado por diversas privações. Humphrey Bogart consegue transmitir de forma intensa as alterações conhecidas pelo personagem que interpreta, com o trabalho a nível de caracterização a contribuir também para expor a crescente perturbação e dificuldades do mesmo no território, com a sua barba e cabelo a crescerem notoriamente, representando as poucas condições que tinha nos meses em que esteve nas montanhas. A relação que Dobbs manteve inicialmente com Howard e Curtin era de amizade, com este até a parecer ficar ofendido quando o acusam de egoísmo, embora pretenda desde o início que cada um tome conta do seu ouro. Aos poucos torna-se notório que o egoísmo e a ganância se acercam da sua mente e do seu corpo com este a ser incapaz de controlar os mesmos. Diga-se que inicialmente este já nos tinha sido apresentado como um personagem nem sempre confiável e algo duvidoso, embora parecesse ser alguém que tivesse bons princípios, ou pelo menos não tinha o objectivo de enganar os outros. O personagem interpretado brilhantemente por Walter Huston (o pai de John Huston), no alto da sua sabedoria e experiência, já tinha previsto algo do género, embora Dobbs e Curtin duvidassem das profecias deste indivíduo em relação ao facto do ouro poder mudar a personalidade dos homens. Howard surge como um indivíduo algo fatalista em relação ao destino, parecendo adivinhar aquilo que se seguiria, enquanto o instinto de sobrevivência destes personagens é colocado muitas das vezes em alerta, quer por culpa própria, quer por interferência alheia. 

Capaz de nos expor com enorme crueza as intrincadas relações humanas diante da enorme cobiça e solidão, "The Treasure of the Sierra Madre" tem na dimensão atribuída pelo argumento ao trio de protagonistas uma das suas maiores qualidades, bem como a capacidade dos intérpretes em elevarem o material que lhes é dado. A Dobbs cabe cair em desgraça, enquanto o personagem interpretado por Walter Huston surge muitas das vezes como a voz da razão, com o próprio a assumir que já contou com os seus erros no passado e já não tem a energia e velocidade necessárias para se dar ao luxo de tentar sequer imaginar uma forma de enganar os parceiros. Também Curtin tem espaço para sobressair, com este a parecer sempre mais sóbrio em relação aos efeitos provocados pelo ouro e às privações que passam durante os momentos em que se encontram a garimpar. Este é um personagem que se mantém relativamente estável do ponto de vista emocional, embora tenha de lidar com a constante desconfiança de Dobbs, algo que promete ter repercussões violentas. Embora o seu personagem tenha um arco mais constante do que o do Dobbs, Tim Holt consegue atribuir a credibilidade necessária a Curtin, um indivíduo sem grandes perspectivas de futuro que toma a decisão de se aventurar pelas montanhas, neste drama com características de western realizado por John Huston onde o cineasta aproveita o território praticamente selvagem e isolado para explorar a forma como este afecta os seus personagens. As montanhas e as matas encontram-se praticamente isoladas embora estejam longe de ser locais livres de perigos, quer aqueles provocados pelos elementos do trio, quer pelos seres humanos estranhos ao mesmo. Veja-se o ataque dos bandidos que pretendem as armas ou a chegada do misterioso James Cody (Bruce Bennett), com este a colocar os personagens diante de um dilema moral difícil de resolver. A primeira vez que encontramos Cody é numa espécie de drogaria onde Curtin se abastece, com o personagem interpretado por Bruce Bennett a procurar descobrir o que este se encontra a fazer no território. Perante a procura de Curtin em fugir às questões, salientando que se encontra no território devido a ser um caçador, Cody decide seguir o protagonista até ao esconderijo onde este se encontra com Dobbs e Howard. Ficam na dúvida se o aceitam ou se o eliminam, com o destino a fazer das suas e a resolver o problema, embora a presença temporária de Cody proporcione não só mais um momento de tensão para o grupo mas também de erosão, com as ideias de cada um a parecerem variar embora a moralidade nem sempre domine. A tensão começa a ser cada vez maior, tal como as noites destes elementos passam a ser cada vez mais mal dormidas, com cada um a esconder o seu quinhão de ouro, enquanto as armas que utilizam para se defenderem podem causar mais problemas do que soluções. Escusado será dizer que mais tarde ou mais cedo a situação vai rebentar, com John Huston a não poupar os seus protagonistas numa busca que se prepara para trazer consequências quase "tão simpáticas" como a descoberta do falcão de malta em "The Maltese Falcon", enquanto o cineasta explora os dilemas morais e as alterações comportamentais destes personagens. 

A febre do ouro é um dos temas, mas também a solidão gerada pela presença num território que exige uma enorme força mental para se sobreviver no mesmo. Os seres humanos que se aproximam podem ser criminosos, os perigos naturais são mais do que muitos, a recolha do ouro é desgastante, enquanto que a crescente riqueza conduz a um aumentar do receio em perdê-la, sobretudo por parte de Dobbs. O trabalho de Ted D. McCord na cinematografia é exímio a explorar os locais montanhosos, muitas das vezes dominados pelas sombras que envolvem os personagens, com John Huston a incutir uma atmosfera noir mesclada com western ao longo da narrativa, reunindo três indivíduos solitários para uma missão que será mais complexa do que parece a nível inicial. A própria elaboração de "The Treasure of the Sierra Madre" também foi intrincada ou não estivéssemos diante de um dos primeiros filmes de Hollywood a ser filmado fora dos EUA (no terreno, ou seja, sem ser num estúdio estrangeiro), com parte das cenas a ter sido filmada em Durango e Tampico (México), para além de vários momentos gravados em estúdio, com John Huston a procurar atribuir algum realismo a esta jornada protagonizada por Dobbs, Howard e Curtin. Diga-se que a representação do território e o trabalho de câmara merecem os mais variados elogios, com James Agee a chegar a salientar que "This is one of the most visually alive and beautiful movies I have ever seen; there is a wonderful flow of fresh air, light, vigor, and liberty through every shot, and a fine athlete's litheness and absolute control and flexibility in every succession and series of shots". John Huston procurou ainda transmitir, por vezes de forma bastante crua, a atmosfera de violência do México nos anos 20 (a história começa em 1925), ainda a lidar com os efeitos da Revolução Mexicana, algo notório na representação dos Federales, a polícia local que apresentava uma dura forma de reprimir os criminosos ao executá-los sem grandes problemas, embora nem por isso o crime deixasse de assolar o território, algo bem exposto na figura do bando que ataca os protagonistas e, posteriormente, Dobbs. A violência é exposta muitas das vezes de forma crua, contrastando com uma subtrama relacionada com Walter e os índios que não funciona de forma homogénea na narrativa, embora permita mais uma vez realçar o carácter algo simpático deste personagem. Walter Huston viria a vencer o Oscar de Melhor Actor Secundário pelo papel de Howard, algo revelador do impacto que o filme causou na época, com este a conseguir incutir uma enorme sinceridade nos gestos e atitudes do personagem que interpreta. Howard surge mais desencantado em relação à procura do ouro, ao contrário dos outros dois elementos que inicialmente revelam uma enorme inexperiência algo que aos poucos se pode revelar fatal e contribuir para a quebra psicológica de Dobbs. As noites que passam nos esconderijos passam a ser mais árduas de aguentar, tal como as relações de confiança parecem difíceis de manter ao longo de um filme brilhante na forma como nos expõe estas temáticas. Ficamos assim diante de um drama humano que procura reunir a história dos protagonistas com o contexto histórico que os envolve, ao mesmo tempo que assistimos aos episódios que protagonizam. A febre do ouro ataca Dobbs, com os efeitos da ganância a serem sentidos no mesmo, algo que irá afectar e muito a dinâmica do grupo, com o personagem interpretado por Humphrey Bogart a desconfiar de tudo e de todos. Esta foi a segunda de cinco colaborações entre Humphrey Bogart e John Huston, com a relação de amizade e profissional entre ambos a ter conduzido a obras como "The Maltese Falcon", "Key Largo", "The African Queen" e o magnífico "The Treasure of Sierra Madre". Tal como no caso de "The African Queen" e "The Maltese Falcon", também o argumento de "The Treasure of Sierra Madre" é adaptado de uma obra literária, em particular do livro homónimo escrito por B. Traven, com John Huston a construir mais uma vez um filme capaz de deixar marca. 

Curiosamente, ou talvez não, "The Treasure of the Sierra Madre" foi visto inicialmente como uma aposta de risco por parte da Warner Bros, sobretudo devido à derrapagem do orçamento do filme com este a ter chegado aos três milhões de dólares, uma quantia elevada para a época. Estas derrapagens deveram-se não só às filmagens nos locais mexicanos, algo que por vezes permite atribuir um tom quase documental ao filme, mas também aos atrasos constantes de John Huston devido ao seu bendito perfeccionismo. Diga-se que os constantes atrasos chegaram a causar alguns atritos entre Bogart e Huston, algo resolvido de forma peculiar: "In response, Huston reached across the table, grabbed Bogart's nose between his two fingers and twisted hard. Tears came to the actor's eyes, but not one word was spoken, and Bogart never complained about the film schedule again". O perfeccionismo de John Huston (quer como realizador, quer na escrita do argumento), aliado ao talento do elenco e ao magnífico trabalho de fotografia de Ted D. McCord, contribuiu para o desenvolvimento de uma obra-prima que conheceu a aclamação do público e da crítica, tendo ainda desafiado a passagem do tempo. Poucos filmes conseguiram apresentar com o mesmo engenho uma história relacionada com a ganância gerada pela febre do ouro e as mudanças comportamentais num grupo de garimpeiros, com "The Treasure of the Sierra Madre" a dar a Humphrey Bogart a oportunidade de nos expor quer à faceta mais dura que apresentara em obras como "The Petrified Forest", quer ao seu carisma e capacidade de atribuir alguma ambiguidade aos seus personagens como "In a Lonely Place". Dobbs é um tipo complexo. Não é muito inteligente como comprova o acto de pedir três vezes dinheiro ao mesmo indivíduo no início do filme, mas também não é parvo, encarando na busca pelo ouro uma oportunidade única para finalmente sobressair na vida. Veja-se quando Curtin e Howard apresentam intenções de abandonar o território, devido a considerarem ter a quantia suficiente, mas Dobbs logo procura convencê-los a ficarem mais tempo tendo em vista a granjear uma fortuna que lhe permitisse viver de forma folgada para o resto da vida. No final, o destino riu-se de Dobbs e do espectador, com o desfecho a parecer atribuir uma certa justiça poética à perda de valores morais que o ouro trouxe aos protagonistas. Eficaz na construção das dinâmicas entre o trio de protagonistas e a explorar as suas personalidades, "The Treasure of the Sierra Madre" deixa-nos diante de uma história onde a ganância e a solidão se preparam para fazer estragos ao longo de uma obra cinematográfica marcada por interpretações brilhantes de Humphrey Bogart e Walter Huston, com John Huston a elaborar um filme que roça a perfeição.

Título original: "The Treasure of Sierra Madre".
Título em Portugal: "O Tesouro da Serra Madre".
Realizador: John Huston. 
Argumento: John Huston.
Elenco: Humphrey Bogart, Walter Huston, Tim Holt, Bruce Bennett.

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