04 junho 2015

Resenha Crítica: "The Third Man" (O Terceiro Homem)

 Mais noir "The Third Man" não poderia ser. Ou talvez até pudesse mas estão lá muitas das características deste subgénero marcante, expostas com um requinte notável por parte do realizador Carol Reed: um protagonista fumador, nas lonas, propenso a envolver-se em situações problemáticas, que mantém uma relação complicada com as figuras femininas e as autoridades; personagens de personalidade duvidosa ou de carácter dúbio; identidades trocadas; uma brilhante utilização do chiaroscuro; utilização de ângulos inusitados na composição dos planos; relações pessoais atribuladas; falas sardónicas; um personagem principal marcado por poucas amizades, entre diversos outros elementos que podem ser apontados àquela que é considerada (merecidamente) uma das obras-primas de Carol Reed, a par de "Odd Man Out". A história desenrola-se na cidade de Viena, algo desoladora após a II Guerra Mundial, durante a ocupação aliada, com Holly Martins (Joseph Cotten), um escritor de westerns numa complicada situação financeira, a deslocar-se a esta território a convite de Harry Lime (Orson Welles), o seu melhor amigo, um indivíduo que não encontra desde o período anterior ao conflito bélico. A chegada de Holly é acompanhada pela notícia da trágica morte de Harry, com este a ter sido atropelado acidentalmente pelo seu próprio motorista, uma ocorrência testemunhada por dois amigos do falecido, o barão Kurtz (Ernst Deutsch) e Popescu (Siegfried Breuer). Holly logo é avisado pelo porteiro do prédio onde habitava Harry que vários elementos tinham partido em direcção ao cemitério. No funeral, Holly depara-se com Kurtz, mas também com Anna Schmidt (Alida Valli), uma actriz e namorada de Harry, para além de encontrar o duro Major Calloway (Trevor Howard), um agente da autoridade britânico que não apresenta grande simpatia em relação ao protagonista e ao falecido. Calloway logo procura convencer o protagonista a partir, salientando desde cedo que Harry encontrava-se ligado ao contrabando, tendo contribuído para a morte de vários seres humanos. Holly entra em confronto com Calloway apesar de aos poucos perceber que este não se encontra assim tão distante da verdade em relação a Harry, sobretudo após tomar a decisão de contrariar a sugestão do segundo de partir de regresso aos Estados Unidos da América. Nem todos são avessos à presença de Holly em Viena, algo visível na figura de Paine (Bernard Lee), um agente da autoridade fã dos livros do escritor que o coloca em contacto com Crabbin (Wilfrid Hyde-White), um indivíduo que dirige uma espécie de clube do livro que logo convida o protagonista a participar numa conferência. O personagem interpretado por Joseph Cotten acaba por permanecer no local, sobretudo pela curiosidade que tem em relação a desvendar as reais causas da morte do amigo, com o falecimento a estar marcado por algumas incongruências por parte do discurso de vários elementos. Primeiro entra em contacto com Kurtz, uma estranha figura que facilmente desperta a nossa desconfiança devido aos seus comportamentos suspeitos, que logo salienta que Popescu se encontra fora, desaconselhando Holly a falar com Anna, utilizando a desculpa que falar sobre Harry não traria nada de bom a esta jovem actriz.

Escusado será dizer que o protagonista se dirige até ao teatro onde trabalha Anna, uma mulher algo misteriosa que parece ainda manter uma enorme gratidão e amor por Harry, um indivíduo que lhe conseguiu um passaporte falso tendo em vista a esta poder permanecer no território e não ser expatriada para a Rússia devido a ser oriunda da então Checoslováquia. Logo no início do filme é-nos apresentado que "A cidade estava dividida em quatro sectores distintos: o americano, o britânico, o russo e o francês. Já o centro era policiado por patrulhas formadas por soldados dos quatro países", uma situação que é explorada ao de leve pelo filme, bem como o contrabando, algo revelador da confusão reinante, contribuindo para alguma melancolia e desilusão. É nestes negócios ilegais que Harry se encontrava envolvido, em particular o do tráfico de penicilina roubada nos hospitais militares, diluída para render mais dinheiro, algo que conduzia a situações danosas para os doentes, algo latente quando Calloway conduz Holly a um hospital onde se encontram internados doentes que tomaram a famosa substância fornecida pelo amigo do protagonista. O contacto de Harry era Joseph Harbin, um indivíduo que se encontrava desaparecido e Calloway procura encontrar, tendo em vista a detê-lo. Inicialmente, Holly não se quer acreditar na possibilidade do amigo poder cometer actos tão hediondos que colocam em perigo as vidas de outros seres humanos, procurando antes descobrir as reais causas da morte do mesmo. Nesse sentido, começa a inquirir elementos como Popescu, com este a confirmar a versão da história de Kurtz, bem como o Dr. Winkel (Erich Ponto), o médico do protagonista, um indivíduo que se encontrava estranhamente nas imediações quando se deu o crime supostamente involuntário. Já Karl (Paul Hörbiger), o porteiro do prédio onde ficava situado o apartamento de Harry, salienta que viu um terceiro homem a acompanhar Kurtz e Popescu, apesar de não ter revelado esta situação às autoridades, para não se envolver em confusões. No entanto, Karl promete dar mais informações a Holly, algo que não se concretiza com o porteiro a ser misteriosamente assassinado. De surpresa em surpresa, Holly acaba por começar a estabelecer uma relação de afinidade com Anna, apesar desta estar sempre a confundir o seu nome, com o envolvimento entre ambos a dever-se em grande parte à proximidade que mantiveram no passado com Harry e ao desejo de apurarem a verdade sobre a sua morte, enquanto Carol Reed, tal como em "Odd Man Out", coloca-nos diante de uma miríade de personagens a permearem a narrativa, entroncando muitos destes elementos na história do protagonista, dando espaço para que vários dos actores secundários consigam sobressair. Veja-se o caso de Ernst Deutsch como Kreutz, com este a incutir uma malícia e mistério latentes a este elemento que guarda um conjunto de segredos sobre Harry. Não faltam ainda figuras como Calloway, um major pronto a fazer cumprir a lei que inicialmente despreza o protagonista, com os personagens interpretados por Trevor Howard e Joseph Cotten a formarem uma relação de respeito gradual; Alida Valli como a namorada de Harry, uma actriz que procura não trair o amado, seja em que circunstância for, envolvendo-se gradualmente com Holly apesar de parecerem nunca estar fadados a serem felizes ou não estivéssemos num filme noir onde os sentimentos mais calorosos geralmente dão espaço à desilusão e solidão; Paine, um admirador da escrita do protagonista, surgindo com uma atitude sempre mais pacífica do que Calloway; Siegfried Breuer como o enigmático Popescu, um suposto amigo de Harry, entre vários outros elementos que sobressaem ao longo do enredo. No entanto, as interpretações de maior destaque vão para Joseph Cotten, o típico protagonista dos noir, e Orson Welles, com a entrada deste em cena a dotar a narrativa de um tom ainda mais negro e inquietante, com Carol Reed a exibir que só quando assistimos à presença dos corpos é que devemos confiar na morte dos personagens que integram a narrativa.

A dinâmica entre os personagens interpretados por Orson Welles e Joseph Cotten é sublime, marcada por um misto de desilusão (por parte de Holly) e cinismo (por parte do personagem interpretado por Welles). É praticamente impossível abordar a interpretação de Welles como este indivíduo frio, calculista, que se deixou seduzir pelo dinheiro fácil sem revelar a sua identidade, naquela que é uma das maiores reviravoltas da narrativa. Ou seja, eu a analisar um filme deste calibre já é praticamente um atentado, sem abordar a entrada em cena do personagem de Welles e as transformações que estas incutem na narrativa, o texto torna-se ainda mais pueril. No sentido, de analisar estas transformações, apesar de não revelarmos o destino dos personagens, vamos ter esse SPOILER no texto, pelo que ficam desde logo avisados em relação a esta situação (de qualquer das formas estou a abordar um filme lançado em 1949, tiveram mais do que tempo para ver o mesmo). Orson Welles interpreta Harry, o amigo de Holly, com este contrabandista a ter forjado a sua morte de forma a escapar às autoridades. Mais do que aliviado, o protagonista fica atormentado, enquanto Carol Reed transfigura a narrativa e exibe uma enorme capacidade de nos surpreender. Até então as dúvidas centravam-se na morte de Harry e na identidade do "terceiro homem" que acompanhava Popescu e Kreutz. A partir daqui assistimos a uma desilusão enorme por parte de Holly, enquanto este pende entre ser fiel ao amigo ou ceder aos seus valores morais e ajudar Calloway a capturá-lo. Harry facilita-lhe quase sempre a vida, surgindo como um elemento mordaz, sem remorsos de lucrar com as mortes dos outros, tendo uma das falas mais marcantes e geniais do filme: "Don't be so gloomy. After all it's not that awful. Like the fella says, in Italy for 30 years under the Borgias they had warfare, terror, murder, and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci, and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love - they had 500 years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock. So long Holly". É um momento de pura genialidade, com Orson Welles a dotar esta fala de uma mordacidade ímpar, tendo na sequência na montanha russa um diálogo mais tenso com o protagonista, temendo-se quase sempre o que acontecerá quando estes se encontram nas alturas. Os sentimentos giram a uma velocidade maior do que esta montanha russa, enquanto os dois colocam a conversa em dia e Holly parece claramente ter a certeza que está numa história mais intrincada do que aquela que poderia imaginar para os seus livros. O que não deixa de ser curioso, já que a investigação relacionada com a morte de Harry iria ser utilizada, ou pelo menos é o que Holly prometera para o seu novo livro, tais as reviravoltas rocambolescas e novos elementos que entram na vida do protagonista. Carol Reed gere as reviravoltas da narrativa e a entrada de novos personagens com uma perícia notável, algo revelador da sua capacidade a conduzir um enredo, embora beneficie imenso do arguto argumento de Graham Greene (baseado no livro homónimo do próprio). O argumento é coeso e capaz de atribuir espessura a vários dos personagens, enquanto a cinematografia adensa esta atmosfera negra, de sombras salientes, luzes difusas, ângulos inusitados, close-ups com objectivos precisos, com as ruas de Viena a serem palco de uma história convulsa bem ao jeito deste subgénero cinematográfico.

"The Third Man" coloca-nos diante das ruas de Viena, dos seus locais mais turísticos mas também do seu sistema de esgotos, com este cenário a ser palco de uma intensa perseguição e fuga no último terço. A banda sonora ritma muitas das vezes os acontecimentos, mas o maior maestro é Carol Reed, com este a conseguir ainda extrair o que de melhor o seu elenco tem para dar, transfigurando a sua narrativa de uma investigação sobre uma morte para uma desilusão a nível de amizade masculina e perseguição policial, com algum mistério, perigos e mortes pelo meio. A inquietação é latente ao longo do filme, com o perigo a poder surgir quando menos esperamos, sobretudo num caso que envolve contrabando, criminosos e personagens imorais. Veja-se quando um táxi transporta Holly para um local incerto, com o motorista a avançar a grande velocidade, até o personagem interpretado por Joseph Cotton perceber que é levado para a conferência no clube do livro. Joseph Cotten é essencial para o filme funcionar, com o actor a mesclar sempre o estilo meio durão dos protagonistas noir com as dúvidas morais quando descobre Harry. Holly deslocara-se até Viena para procurar melhorar o estilo de vida, ou não fosse um dos depauperados protagonistas dos noir. Não é um detective numa espelunca mas é um escritor pouco reconhecido, cujo conhecimento (ou falta dele) e referências literárias vão proporcionar uma deliciosa conferência no clube do livro. Este momento de aparente leveza logo é contrastado com a entrada de Popescu, conduzindo o protagonista a entrar em fuga e a ter a certeza que a sua vida está em perigo. Holly fica num impasse entre entregar o antigo amigo à polícia ou deixá-lo escapar, parecendo certo que não aprecia as actividades actuais do personagem interpretado por Orson Welles, com o primeiro a ficar diante de um dilema de difícil resolução que conduzirá sempre a escolhas complicadas de tomar. A dinâmica entre Joseph Cotten e Orson Welles é sublime, com as falas trocadas entre ambos a espelharem as diferenças que os dividem. Outrora também já tiveram as suas desavenças mas, no presente, estão mais divididos do que nunca, com Holly a não ter nos seus planos colaborar, ainda que indirectamente, na morte de vidas alheias. Diga-se que Cotten sobressai ainda ao lado de Alida Valli e Trevor Howard. Com Valli, assistimos a uma relação formada por sentimentos algo difusos entre a personagem interpretada por esta e o protagonista, com a dupla de actores a atribuir uma dinâmica credível a estes dois personagens que se aproximam e afastam com o decorrer da narrativa. Apesar de não concordar com os seus actos, Anna parece manter-se fiel a Harry. Já Holly parece distanciar-se e apresenta-se disponível para colaborar com o personagem interpretado por Trevor Howard, com quem apresentara uma enorme inimizade no início do filme.

As alianças vão sendo trocadas ao longo de "The Third Man", enquanto a entrada em cena do personagem do título vem modificar o rumo de uma narrativa com traços de brilhantismo. As reviravoltas são introduzidas com engenho, a banda sonora parece adequar-se a cada momento, a cinematografia é típica dos noir, enquanto assistimos a uma atmosfera melancólica, de alguma malaise, típica do pós-Guerra e deste subgénero. O contrabando domina o território, bem como as memórias da guerra e a incapacidade das autoridades em travarem o crime. Harry representa esse lado do crime, enquanto Holly surge como o elemento que vem de fora que, tal como o espectador, embrenha-se por esta cidade adentro e prepara-se para viver uma miríade de emoções e sensações. Orson Welles, um realizador brilhante, exibe níveis igualmente elevados de talento a interpretar Harry, dotando o personagem de um cinismo e humor negro difíceis de esquecer, bem como de alguma malícia, com este a ficar algo surpreso com as atitudes do protagonista. Cotten interpreta o contraponto deste elemento, um personagem que se deixa afectar pelas dúvidas morais, que não consegue colocar os interesses individuais acima dos colectivos. Gera-se um duelo de vontades entre ambos, enquanto a polícia procura capturar Harry, com as ruas de Viena a serem testemunhas destes episódios. A cidade é cenário e protagonista do filme, com Carol Reed a transportar para este local a atmosfera desencantada dos noir que se desenrolam nos Estados Unidos da América, utilizando vários elementos associados a este subgénero. Ficamos diante das ruas de Viena, pelos seus cafés, pelos seus becos, pelos seus monumentos, mas também diante dos seus esgotos, onde um momento aparente simples pode ser acompanhado de uma revelação surpreendente. Com um argumento coeso, marcado por algumas falas recheadas de brilhantismo, uma cinematografia capaz de adensar a atmosfera negra do filme, um conjunto de reviravoltas introduzidas de forma coerente na narrativa e personagens marcados por alguma espessura, "The Third Man" é um dos grandes filmes noir da História do Cinema... perdão um dos grandes filmes da História do Cinema, com Carol Reed a evidenciar um brilhantismo semelhante àquele que apresentara em "Odd Man Out".

Título original: "The Third Man".
Título em Portugal: "O Terceiro Homem".
Realizador: Carol Reed.
Argumento: Graham Greene.
Elenco: Joseph Cotten, Alida Valli, Orson Welles, Trevor Howard.

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