14 junho 2015

Resenha Crítica: "Testament of Youth" (Testemunho de Juventude)

Baseado no livro de memórias homónimo de Vera Brittain, uma escritora e pacifista britânica que presenciou de perto as agruras da I Guerra Mundial e testemunhou ainda a II Guerra Mundial, "Testament of Youth" procura acima de tudo exibir as transformações que esta mulher conheceu no período a rodear o primeiro conflito. Existe sobretudo uma procura de James Kent, um realizador com larga experiência em séries televisivas e telefilmes (quer documentários, quer de ficção), em procurar transmitir a forma como Vera Brittain sentiu o conflito e as perdas daqueles que lhe foram mais próximos, ao mesmo tempo que explora a forte personalidade da protagonista. No início do filme, encontramos Vera meio atordoada enquanto quase todos correm em euforia devido à assinatura do Armistício. O olhar de Alicia Vikander transmite de forma paradigmática algum vazio que espelha o facto de Brittain ter sofrido imenso durante a I Guerra Mundial, com as perdas que conheceu a fazerem-na questionar se tudo aquilo valeu a pena. Diga-se que a actriz é fundamental para elevar uma narrativa nem sempre inspirada, mas sensível, com Alicia Vikander a convencer-nos das transformações de Vera Brittain perante aquilo que observa de perto durante a I Guerra Mundial mas também a procura desta mulher em ultrapassar as barreiras que a sociedade da época impunha às figuras femininas. Após este prólogo, a narrativa recua quatro anos, com "Testament of Youth" a deixar-nos diante de Vera a nadar no lago, tendo a companhia de Edward (Taron Egerton), o irmão, bem como de Victor (Colin Morgan), um amigo deste último e pretendente da primeira. O espaço verdejante fica nas imediações da casa dos pais de Vera e Edward, um casal (interpretado por Dominic West e Emily Watson) de algumas posses, algo latente na habitação dos mesmos, com esta a ser marcada por dois andares, uma decoração permeada por diversos quadros, objectos decorativos de alguma valia e um piano que o progenitor da protagonista resolvera oferecer à mesma. Vera fica irritadíssima com este presente, considerando o mesmo uma afronta devido a preferir que a verba fosse disponibilizada para o seu ensino em Oxford, algo em que o seu pai não parece estar muito interessado, com o personagem interpretado por Dominic West (completamente desaproveitado) a parecer pouco satisfeito com a ideia da filha poder vir a ser uma intelectual. É no meio do reboliço de uma enorme discussão entre Vera e os pais, onde esta revela que não pretende casar, atira com os seus livros pela janela, demonstra a sua impetuosidade e forte personalidade, que chega Roland Leighton (Kit Harington), um amigo de Victor e Edward. Este facilmente fica fascinado por Vera, uma jovem sardónica, inteligente e impetuosa, com ambos a pretenderem ser escritores e estudarem em Oxford. Na época, uma mulher estudar em Oxford era tarefa complicada, com Vera a procurar conseguir quebrar essa barreira, tendo na escrita de poemas um hobbie descoberto por Roland (a correspondência entre os dois, ou a falta de cartas enviadas vai ser um tema recorrente).

 O personagem interpretado por Kit Harington vai ter uma especial relevância na vida de Vera, com ambos a acabarem por se apaixonar, uma situação que conduz a alguns momentos de candura e humor, com excepção para Victor que se encontrava apaixonado por esta, enquanto assistimos a uma mudança da protagonista em relação aos homens, em parte devido a Roland ser uma figura algo distinta daquelas que a rodeiam. Os momentos do primeiro terço são marcados por um tom relativamente leve, com "Testament of Youth" a procurar deixar bem claro que Roland, Victor e Edward são amigos de longa data, para além de exibir o interesse gradual entre Vera e o personagem interpretado por Kit Harington. A química entre Harington e Vikander é relativamente convincente, com a decisão do personagem que este interpreta em participar na I Guerra Mundial, até então exposta praticamente através de notícias nos jornais, a interromper os momentos algo idílicos entre o casal de protagonistas, uma situação que vai afectar Vera de forma indelével. O conflito bélico é exibido sobretudo a partir do ponto de vista de Vera Brittain, com "Testament of Youth" a explorar como esta viveu a I Guerra Mundial e viu partir algumas das figuras mais importantes da sua vida, entre as quais Roland, Edward e Victor. Esta é sempre uma situação fulcral de "Testament of Youth", com James Kent a tentar explorar como Vera viveu o conflito bélico e como se sentiram aqueles que ficaram para trás, sem saber se os familiares e amigos iriam ou não sobreviver, com a chegada de notícias a tanto permitirem o esboçar de um sorriso como o triste choro pelo falecimento de um elemento querido. Após estabelecer o romance entre Roland e Vera, bem como o ingresso desta em Oxford, o filme aborda a entrada deste no conflito militar, expondo a procura dos vários jovens em alistarem-se, a ponto da protagonista tentar convencer os pais a deixarem Edward participar na I Guerra Mundial. Vera acredita que o conflito vai ser breve. O pai da protagonista apresenta mais reticências, com este a, infelizmente, surgir como aquele que tem a visão mais acertada. Aos poucos, Vera começa a ver tudo e todos a partirem e a ficarem com as suas vidas em risco, decidindo abandonar Oxford temporariamente e ajudar as freiras como enfermeira, algo que a vai deixar a lidar de perto com a morte e as agruras da I Guerra Mundial. Pelo caminho, um interlúdio, com o regresso de Edward e Roland do conflito, enquanto Victor reúne-se com os mesmos apesar de inicialmente não ser aceite para participar na guerra devido a problemas de visão, uma situação que posteriormente deixa de ser impeditiva, com o personagem interpretado por Kit Harington a apresentar traumas claros em relação àquilo que vira. São provavelmente dos momentos mais duros do filme, com "Testament of Youth" a colocar-nos diante das transformações e traumas que estes conflitos podem provocar, uma situação que conduz Vera a aceitar casar com o amado, até receber a notícia da sua morte (seria spoiler se não estivéssemos a abordar um filme inspirado em episódios e figuras reais). Ficam de lado alguns elementos de candura entre Vera e Roland, tais como aquele em que procuram escapar à guarda da tia (Joanna Scanlan) da primeira, com esta a vigiá-los a mando da mãe da protagonista, ao mesmo tempo que a banda sonora incrementa estes momentos de maior leveza. É então que a personagem interpretada por Alicia Vikander decide partir para França, para o meio do Front, procurando reencontrar-se com o irmão, embora lide com uma realidade completamente distinta. Lida com a morte mas em maior número, incluindo de soldados alemães, com o filme a explorar que num conflito estão em confronto seres humanos contra outros seres humanos que cumprem ordens, algo latente quando Vera trata de um militar germânico que nos momentos finais apenas pensa na namorada e perde perdão por não poder voltar para ela. É um momento doloroso de observar, com a cinematografia a adensar ainda mais esta situação, criando uma enorme proximidade entre Brittain e o soldado, com esta a sentir a dicotomia entre estar a ajudar o "inimigo" mas também de se encontrar diante de um ser humano em sofrimento.

 As cenas de Vera Brittain em França são as mais intensas do ponto de vista emocional, sobretudo quando tem de salvar um elemento que lhe é próximo, com James Kent a concentrar as atenções nos sentimentos e transformações vividos pela protagonista. Esta começa como uma jovem impertinente que pretende ser escritora e entrar em Oxford, apela junto dos pais para deixarem o irmão participar na I Guerra Mundial, deixa de lado os seus objectivos pessoais associados à universidade e vai colaborar com as freiras como enfermeira, perde diversos elementos que lhe eram queridos, até regressar a Oxford e assumir-se como uma reconhecida pacifista. Alicia Vikander demonstra mais uma vez o seu talento ao exprimir com facilidade as diferentes variâncias que a personagem que interpreta vai tendo ao longo do filme, com a actriz a ser fundamental para "Testament of Youth", com James Kent a centrar quase tudo em Vera Brittain, uma situação que exige uma intérprete capaz de explorar a complexidade desta figura. O enfoque de boa parte da narrativa em Vera Brittain é uma das forças e problemas de "Testament of Youth", com James Kent a procurar abordar a I Guerra Mundial através da perspectiva desta relevante figura feminina, acabando muitas das vezes por descurar os personagens que a rodeiam e até o próprio contexto histórico. Veja-se o caso paradigmático de Victor, com Colin Morgan a ficar-se quase sempre como o eterno pretendente da protagonista, uma figura sensível que entra e sai da narrativa com uma facilidade enorme, algo que também acontece com os pais de Vera. Por sua vez, Taron Egerton, recentemente alçado a algum sucesso com "Kingsman: The Secret Service", consegue a espaços sobressair como o irmão e confidente da protagonista, um indivíduo bem intencionado e afável, que se corresponde muitas das vezes com esta por cartas. Já actrizes como Hayley Atwell, Joanna Scanlan e Alexandra Roach surgem demasiado à margem, com esta última até a interpretar Winifred Holtby, uma mulher que também trabalhou como enfermeira durante a I Guerra Mundial, tendo formado amizade com a protagonista em Oxford. Apesar deste fraco desenvolvimento de alguns dos personagens secundários, da sua estrutura narrativa meio pastelona que parece muitas das vezes não saber quando avançar e das célebres liberdades históricas, "Testament of Youth" consegue explorar com sucesso a forma como uma mulher de personalidade forte viveu e sentiu os dolorosos episódios da Guerra, numa obra cinematográfica de pendor feminista dotada de bons valores de produção. Veja-se desde logo o guarda-roupa de Brittain, marcado muitas das vezes pela sua boina e algum cuidado, até ir servir como enfermeira e passar a utilizar a farda, com James Kent a procurar transmitir o ambiente da época e as transformações desta mulher. Os próprios cenários interiores são marcados por bons valores de produção, sobretudo a casa da protagonista, sobressaindo ainda o aproveitamento dos espaços exteriores, em particular o local verdejante que rodeia o rio onde Brittain, Edward e Victor nadavam no início do filme. É um filme interessante não só pela proposta que nos faz em abordar a I Guerra Mundial através do olhar de uma mulher que aos poucos vê partir todos aqueles que lhe são queridos (independentemente desta "proposta" ser inovadora ou não), mas também por alguns valores de produção, uma cinematografia cuidada (os close-ups são extremamente bem aproveitados) e pela interpretação digna de realce por parte de Alicia Vikander, embora falte alguma acutilância e maior crueza na exposição dos eventos. Veja-se quando Vera encontra-se em França e "Testament of Youth" foca as atenções na procura desta por Edward quando descobre que o mesmo está ferido, parecendo que a multidão de corpos anónimos que se encontram ali amontoados não servem para nada, algo que se percebe tendo em conta a presença de um familiar próximo, mas tira poder ao conjunto de moribundos que povoam o cenário.

 Ao estarmos diante da adaptação de um livro de memórias de Vera Brittain, também não seria de esperar que James Kent descurasse a mesma, mas por vezes fica a ideia que o filme ficaria muito a ganhar se procurasse explorar um pouco mais o meio que rodeia a protagonista ao invés de se concentrar em demasia nesta mulher. Apesar de algumas limitações apresentadas e de algum melodrama excessivo, nem por isso deixa de ser notório que James Kent conseguiu elaborar uma obra cinematográfica que gradualmente nos envolve para o interior da dramática história da sua protagonista, contando com Alicia Vikander como uma aliada de peso para não deixar "Testament of Youth" cair do patamar da mediania. Diga-se que esta tanto nos convence do idealismo da personagem que interpreta, como sobressai a exibir o lado mais romântico de Vera, com a relação entre esta e Roland a ser um dos elementos fulcrais da narrativa. Vera e Roland formam uma forte ligação, com Kit Harington a interpretar um indivíduo inicialmente espirituoso, habituado a lidar com mulheres de personalidade vincada ou não fosse filho de uma figura feminina que conseguiu vencer na vida como escritora. Também Vera procura sobressair neste meio, com ambos a trocarem correspondência, apresentando uma sensibilidade muito própria nas palavras e nos gestos, com as agruras da Guerra a privarem a protagonista de mais alguns momentos de felicidade ao lado de Roland, com o romance entre os dois a nem sempre ser devidamente aproveitado, ou melhor, foi interrompido pelo conflito bélico, embora seja fulcral para muitos dos acontecimentos do enredo. No fundo, "Testament of Youth" deixa-nos perante a forma como a vida se torna ainda mais incerta durante estes conflitos militares, com Vera a ver cada um dos elementos que foram relevantes para a sua vida a serem eliminados, algo exposto de forma sentida por James Kent. Diga-se que o cineasta nem sempre consegue dinamizar o enredo e em alguns momentos parece ter alguma dificuldade em discernir entre o que interessa para a narrativa e aquilo que considera interessante, parecendo existir uma excessiva reverência para com Vera Brittain, numa obra que tanto tem de dramática como de bela e romântica, mesclando elementos de melodrama, filme de guerra, biográfico e de época, faltando-lhe sempre uma capacidade de correr alguns riscos para sair da mediania, embora também não consiga despertar total indiferença. A sua mensagem anti-Guerra, exposta no discurso emotivo de Vera Brittain no último terço, expõe algo que continua a ser relevante, com o filme a explorar como o entusiasmo de alguns jovens em participarem na Guerra logo é contrastado pela realidade. A James Kent pouco parecem interessar os bombardeios e os combates, procurando antes exibir os efeitos da Guerra, algo visível na figura de Vera Brittain, com esta a lidar com a perda de vários elementos que lhe foram próximos. Embora tenha alguns tropeços, "Testament of Youth" consegue explorar com alguma competência o quão dolorosa pode ser a guerra para aqueles que assistem aos seus familiares partirem, com Vera Brittain a perder vários elementos queridos a ponto de se tornar numa conhecida pacifista, algo que permite a Alicia Vikander explorar as diferentes facetas de uma mulher que deixou a sua marca na História numa obra cinematográfica que conta com uma protagonista cujo talento é cada vez mais uma certeza.

Título original: "Testament of Youth". 
Título em Portugal: "Testemunho de Juventude". 
Realizador: James Kent.
Argumento: Juliette Towhidi.
Elenco: Alicia Vikander, Kit Harington, Colin Morgan, Emily Watson, Hayley Atwell, Dominic West, Miranda Richardson.

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