29 junho 2015

Resenha Crítica: "Sound of the Mountain" (Yama no oto)

 No papel a premissa de "Sound of the Mountain", uma obra cinematográfica realizada por Mikio Naruse, tendo como base o livro "Yama no oto" de Yasunari Kawabata, poderia parecer excessivamente melodramática mas o cineasta facilmente introduz uma enorme dose de humanidade e complexidade que evitam essa possível colagem. "Sound of the Mountain" é mais uma das obras de Mikio Naruse onde assistimos aos relacionamentos intrincados de uma família numa sociedade japonesa em mudança entre a tradição e a modernidade, onde um pai procura chamar o filho à razão e inesperadamente forma uma relação de enorme proximidade com a sua nora. Este indivíduo é Ogata Shingo (So Yamamura), um homem de meia idade (já a caminhar para os seus sessenta anos), casado com Yasuko (Teruko Nagaoka), de quem tem uma filha e um filho. O filho de Shingo é Shuichi (Ken Uehara), um indivíduo que trabalha na empresa do progenitor e vive na casa dos pais, sendo casado com Kikuko (Setsuko Hara), uma mulher que parece muitas das vezes desprezar, apesar desta ser quase sempre gentil e cuidadosa para com o mesmo e os sogros. Setsuko Hara, colaboradora habitual de Yasujiro Ozu e também de Mikio Naruse, consegue como poucas actrizes expressar-se imenso através dos seus gestos, transmitindo a enorme candura da personagem que interpreta, uma mulher que reprime muitas das vezes os seus sentimentos, mesmo quando está em enorme sofrimento e sabe que se encontra a ser traída. Shuichi trai a esposa com Kinuko (Reiko Sumi), uma costureira, viúva de guerra, algo que é do conhecimento de Tanizaki Hideko (Yoko Sugi), a secretária da empresa de Ogata Shingo, uma mulher que por vezes acompanha o protagonista. Diga-se que praticamente nunca vemos Shuichi com Kinuko, com esta mulher apenas a surgir no último terço da narrativa, algo que permite a Mikio Naruse surpreender-nos em relação à personalidade da mesma, com esta a também ter sido alvo do lado menos recomendável do personagem interpretado por Ken Uehara, tendo decidido afastar-se do mesmo. Esta procura de Mikio Naruse em surpreender-nos em relação ao carácter dos personagens é algo que remete desde logo para obras como "Wife! Be Like a Rose!", onde a filha descobre que a amante é que se encontra a sustentar o pai, bem como o facto deste ser mais feliz com a mesma, entre vários outros exemplos, com o realizador a procurar exibir a complexidade inerente às relações humanas. No caso de "Sound of the Mountain" encontramos ainda algo nem sempre comum nas obras de Mikio Naruse, uma família de classe média capaz de viver sem grandes dificuldades financeiras a atormentá-la, algo visível na própria alimentação destes personagens, sem grandes restrições. Veja-se no início do filme com a mesa a contar com camarões, lagostas e caracóis verdes, bem como o facto da própria empresa de Shingo não ser notícia de problemas. Já a representação do lar como um local onde por vezes os sentimentos aquecem em demasia e fica desconfortável para alguns elementos é transversal a diversos filmes do cineasta, tais como "Inazuma", "Older Brother, Younger Sister", "Meshi", entre outros, algo latente em "Sound of the Mountain". No caso, assistimos ao crescente desconforto de Kikuko em relação ao desprezo do esposo, algo que esta nem sempre demonstra mas vai culminar com um acto da parte desta que é considerado incompreensível pela parte de Yasuko mas facilmente é compreendido por Ogata. Apesar de ser descrito pela esposa como um homem que não compreende as mulheres, Ogata é dos poucos que parece profundamente preocupado com a nora, formando laços de enorme amizade com esta, surgindo algo angustiado em relação à forma pouco digna como o filho trata Kikuko. Veja-se quando Kikuko tem uma hemorragia nasal, algo que desperta a preocupação de Ogata e a indiferença de Shingo, mas também a procura do veterano em conseguir que o filho deixe a amante. Kikuko procura cuidar dos sogros e das lides da casa, esforça-se para agradar a todos, mas claramente encontra-se presa a um casamento cuja felicidade parece ser algo que ficou pelo passado e assaz difícil de reacender no presente.

 Setsuko Hara e Ken Uehara já tinham interpretado um casal a viver uma fase problemática em "Meshi", de Mikio Naruse, mas em "Sound of the Mountain" este último interpreta um indivíduo praticamente incapaz de despertar simpatia. Em "Meshi" existia uma crise na relação. Em "Sound of the Mountain" nem parece existir grande relação entre ambos, com Shuichi a chegar tarde a casa e a ignorar o esforço da esposa para lhe agradar, não conseguindo compreender bem como o pai nunca traiu a mãe. Diga-se que mais tarde descobrimos que Shingo era apaixonado pela irmã da esposa, uma mulher que faleceu ainda bastante jovem, algo de que Yasuko está consciente, embora este ressentimento tenha sido habilmente reprimido ao longo dos anos. No entanto, este nunca descura os cuidados com a esposa, procurando manter o casamento estável, apesar de um ou outro arrufo, tal como toda a sua vida pessoal e profissional. A casa de Yasuko e Shingo, para além de contar com Shuichi e Kikuko, irá ainda receber a visita de Fusako (Chieko Nakakita), a outra filha do casal, com esta a chegar com a sua filha e o seu filho. Fusako encontra-se também a atravessar uma fase menos positiva do casamento, procurando apoio junto dos progenitores, quer a nível pessoal, quer a nível financeiro (esta sim faz parte das personagens típicas dos filmes de Naruse que padecem de problemas a nível monetário). Esta parece ressentir-se um pouco pelo facto do pai mais facilmente dar atenção à nora do que a si, com o filme a abordar a complexa relação entre pais e filhos, mas também entre os primeiros e os cônjuges destes últimos. Yasuko também parece agradada com a presença de Kikuko, tal como quase todos os elementos, excepção feita a Shuichi. Ken Uehara é exímio em tornar o seu personagem como alguém pouco simpático que, por vezes, esperamos que venha a mudar, mas continua a manter um caso extra-conjugal e a tratar a esposa com um desprezo notório parecendo por vezes difícil compreender como esta relação se mantém. Nesse sentido, é fundamental a companhia dos sogros para Kikuko não se sentir sozinha, com estes a surgirem como um baluarte da sua existência, proporcionando-lhe o carinho que não é dado pelo esposo. Shingo procura ajudar Kikuko como pode, chegando até a reunir-se com a amante de Shuichi, algo que mais uma vez o vai surpreender em relação aos comportamentos incorrectos do filho em relação às mulheres. "Sound of the Mountain" é, também, uma das várias obras de Mikio Naruse onde este demonstra a sua real preocupação pelas mulheres e em exibir a forma como por vezes são tratadas de forma inferior numa sociedade supostamente mais moderna, ao mesmo tempo que exibe a relevância das figuras femininas na mesma. Ficamos ainda perante as célebres cenas de dois personagens a dialogarem enquanto caminham pela rua, típicas das obras de Mikio Naruse, em alguns momentos fundamentais do enredo, com a câmara de filmar a acompanhar delicadamente os protagonistas, algo que podemos encontrar no último terço numa conversa entre Kikuko e Shingo, onde tudo é elaborado e exposto de forma harmoniosa. Existe um enorme cuidado na composição dos planos, mas é na sobriedade na abordagem dos relacionamentos humanos que Mikio Naruse mais sobressai, algo latente neste filme onde nos deixa perante várias gerações da mesma família, uma situação ainda mais notória quando chega Fusako acompanhada pelas netas de Shingo e Yasuko. Fusako também passa por alguns problemas no casamento, parecendo algo indecisa em relação ao próximo passo a tomar, embora ainda ame o esposo. No entanto, os únicos elementos que parecem relativamente estáveis são mesmo Shingo e Yasuko, com estes a contarem com a experiência de vários anos em comum a ajudar a que percebam melhor cada cônjuge, embora também pareçam ter vivido alguns problemas no passado (algo latente quando Yasuko que se refere à irmã).

 So Yamamura, colaborador habitual Yasujiro Ozu, é a par de Setsuko Hara um dos elementos que mais se destaca no elenco, com este a conseguir transmitir o carisma, presença e sapiência do personagem que interpreta (por vezes a fazer recordar alguns dos personagens interpretados por Chishu Ryu nos filmes de Yasujiro Ozu), um elemento que nem sempre parece compreender tudo o que o rodeia mas procura sempre tomar a atitude mais sensata. Por vezes queixam-se que este dá mais atenção a Kikuko do que à filha, mas a verdade é que este é dos poucos que está ao corrente dos actos praticados pelo filho, uma situação que o transtorna tendo em conta o comportamento sempre correcto da personagem interpretada por Setsuko Hara. A dinâmica entre Setsuko Hara e So Yamamura é latente, com os dois a interpretarem personagens muito próximos, ambos algo conservadores nos seus valores em relação à família. Também Yasuko aprecia a presença de Kikuko, embora não compreenda uma decisão desta no último terço do enredo, desconhecendo que o filho engravidou a amante. É perante este lar meio fervilhante que Mikio Naruse nos deixa, enquanto mais uma vez se revela exímio a abordar as relações familiares e a atribuir uma notória densidade aos personagens principais. Mesmo a amante do personagem interpretado por Ken Uehara está longe de ser como esperamos, com "Sound of the Mountain" a surgir como um drama competente, capaz de nos exibir a forma distinta como Shuichi e Fusako encaram o matrimónio em comparação com os pais, com o primeiro a ter numa amante uma forma de encontrar algo que não tem no casamento e a segunda a ter muitas dúvidas em relação ao futuro da relação matrimonial. Por sua vez, Shingo e Yasuko procuraram sempre manter o casamento, existindo um claro confronto de gerações na forma de lidar com o matrimónio, algo mais uma vez revelador de um território em mudança onde as tradições encontram-se a ser esbatidas diante da modernidade. Fusako já conta com dois filhos, enquanto Shuichi e a esposa ainda não contam com um rebento, algo que, tal como em "Meshi", permite ao casal ter uma maior facilidade no acto de reavaliar o estado da (não) relação. Diga-se que Kikuko ainda chega a engravidar mas opta por abortar ao invés de ter o filho, preferindo apenas ter uma criança numa fase estável que reflicta o desejo do casal e não num momento em que serviria apenas para segurar uma relação matrimonial que se encontra a atravessar uma grave crise. O próprio lar onde vivem está longe de ser propício a que tenham momentos de maior intimidade, com a presença dos pais a ajudar, mas também a muitas das vezes parecer que pode ser um empecilho para que marido e esposa se reúnam e procurem resolver de forma adulta os seus problemas. Diga-se que esta é uma conclusão à qual o próprio Shingo parece chegar, embora pareça incerto que alguma vez Shuichi e Kikuko possam atingir a felicidade. Ficamos assim diante de um drama competente, onde um casamento se encontra prestes a ruir e um sogro forma uma forte ligação de amizade com a sua nora, num território do Japão a conhecer diversas mudanças, embora o fulcro da narrativa esteja mesmo é no fervilhante lar de Shingo e Yasuko.

Título original: Yama no oto.
Título em inglês: "Sound of the Mountain".
Realizador: Mikio Naruse.
Argumento: Yoko Mizuki.
Elenco: Setsuko Hara, So Yamamura, Ken Uehara, Yoko Sugi.

Sem comentários: