25 junho 2015

Resenha Crítica: "Scattered Clouds" (Midaregumo)

 Última longa-metragem realizada por Mikio Naruse, "Scattered Clouds" deixa-nos perante uma história onde nos deparamos com a dor de uma perda irreparável e a formação de uma relação destinada ao fracasso muito ao estilo daquelas que encontramos nas obras do cineasta. Diga-se que no seu último filme Mikio Naruse coloca-nos diante de uma espécie de compêndio de várias das temáticas que surgem transversais às suas obras cinematográficas, para além do seu habitual interesse em explorar as complexidades dos seus protagonistas. Não falta a personagem feminina complexa e marcada pelo seu papel ainda inferior na sociedade, o choque entre a modernidade e a tradição (veja-se a publicidade à Coca-Cola, bem como a televisão, símbolos de modernidade e ocidentalização do território, em contraste com o facto da protagonista, uma viúva, não querer assumir um romance devido à "vergonha" em que viveria com o amado), a relação amorosa destinada ao fracasso e marcada pelo desejo reprimido, um protagonista que adoece gravemente e é alvo de cuidados da cara metade, as relações familiares complicadas (veja-se que a viúva perde o nome da família do falecido esposo devido aos sogros pretenderem ficar com a totalidade da pensão inerente à morte do mesmo), as descobertas efectuadas num território rural, os personagens a caminharem imenso, o aceitar do destino, entre vários outros temas e elementos que povoam "Scattered Clouds" e diversas obras de Mikio Naruse, tais como "Apart from You", "Wife! Be Like a Rose", "Floating Clouds", "Inazuma", entre outras. Em "Scattered Clouds" os momentos iniciais aparentemente idílicos vão contrastar com a dor de uma perda para Yumiko (Yôko Tsukasa), a protagonista do filme. No início de "Scattered Clouds" encontramos esta a trocar diálogos bem humorados com Hiroshi (Yoshio Tsuchiya), o esposo, um indivíduo que trabalha para o Ministro da Indústria e Comércio, tendo sido recentemente promovido. A promoção envolve a ida deste personagem e de Yumiko para Washington, com Hiroshi a ironizar com o facto da esposa não ter aprendido a falar inglês, algo que terá de fazer rapidamente para se adaptar ao local. A juntar a tudo isto, Yumiko encontra-se grávida de Hiroshi, com a felicidade a parecer rodear estes personagens. No entanto, esta dura pouco. Muito pouco. Hiroshi tem de ir para o trabalho em Hakone, enquanto Yumiko desloca-se a casa de Ayako (Mitsuko Kusabue), a sua irmã, e Ishikawa (Yû Fujiki), o cunhado. Quando a protagonista sai da casa da irmã, Ishikawa atende o telefone e recebe a notícia de que Hiroshi foi atropelado, tendo falecido devido a este acidente. Os momentos de felicidade transformam-se em dor. O ambiente no funeral é pesado, sobretudo quando aparece Shiro Mishima (Yûzô Kayama), o motorista que atropelou o marido da protagonista, um elemento claramente afectado pelo episódio pouco feliz e completamente acidental. Shiro ia em serviço para a empresa comercial Meiji, o seu local de trabalho, tendo sido temporariamente suspenso pelo seu chefe até terminar o processo em tribunal, apesar do superior saber que este se encontra inocente. O chefe de Shiro obriga-o ainda a ser transferido para a sucursal em Aomori, não só devido a evitar levantar publicidade negativa para a sua empresa, mas também para conseguir terminar de vez o envolvimento do funcionário com a sua filha. Shiro é ilibado em tribunal de qualquer culpa em relação ao acidente, não tendo a obrigação legal de pagar uma indemnização à família do falecido. No entanto, decide que tem de doar uma parte do salário a Yumiko, uma mulher que não esconde o desprezo pelo elemento que matou o seu esposo, apesar de ser notório que o protagonista ficou completamente abalado com o episódio. Yumiko rejeita inicialmente o dinheiro, diga-se que mal consegue olhar nos olhos de Shiro, mas a irmã desta logo aceita o acordo, enquanto a primeira tem de enfrentar ainda mais revezes. Os sogros revogam o nome  de família do esposo de forma a esta não ter direito à pensão, perde o bebé e o local onde trabalha foi encerrado, algo que torna o apoio financeiro de Shiro como algo absolutamente necessário. 

A vida não está fácil para Yumiko. Os sorrisos doces iniciais são trocados por expressões taciturnas, com Yôko Tsukasa a conseguir expor paradigmaticamente o estado de espírito pouco feliz da personagem que interpreta. Tsukasa consegue ainda transmitir imenso com as suas expressões faciais e movimentos corporais, com Mikio Naruse a saber explorar os momentos de silêncio entre os personagens, algo que vai resultar em cenas de grande impacto no último terço. Perante tantas adversidades, Yumiko decide aceitar a oferta de Katsuko (Mitsuko Mori), outra das suas irmãs, para ir viver e trabalhar no hotel desta. A ideia não agrada inicialmente a Yumiko, mas parece ser a decisão ideal e pragmática a tomar. Coincidências do destino, e para adensar ainda mais a narrativa, o hotel fica perto do Lago Towada, tendo sido o local de nascimento da protagonista, mas o que interessa é que o estabelecimento fica muito perto do trabalho de Shiro. Ela bem tenta esquecer o episódio e procurar que este desapareça mas, ou as deslocações de Shiro, ou o destino fazem questão de os juntar em diversos momentos. Shiro leva uma rotina completamente destrutiva, surgindo como mais um dos personagens de Mikio Naruse que bebe mais do que a conta, embora no caso deste homem seja claramente um sinal de fragilidade, procurando entorpecer a sua alma da realidade quotidiana ao sair do trabalho. Yûzô Kayama expõe paradigmaticamente a dor do seu personagem, um elemento que parece sentir um certo vazio em relação ao seu quotidiano, encontrando-se claramente atormentado pela morte que provocou acidentalmente. Bebe muito, trabalha imenso, viu o seu romance com a namorada terminar e esta ficar noiva de outro homem, enquanto todas as medidas para tentar mudar a opinião de Yumiko em relação à sua pessoa parecem falhar. A mãe deste ainda tenta convencer Yumiko a mudar de opinião, mas esta compreensivelmente continua bastante magoada com Shiro, procurando esquecer a existência do mesmo. Yumiko desperta a atenção dos homens que frequentam o hotel, incluindo Inohue (Naoya Kusakawa), um elemento financeiramente abastado, mas procura rechaçar todo o tipo de interesses. Já a relação desta com Shiro é mais complexa. Reúne-se com este no café onde recebeu a notícia de que o marido foi promovido, com os momentos de felicidade a serem contrastados com a dor provocada pela perda, com esta a rejeitar inicialmente o dinheiro de Shiro. Os dois voltam a reunir-se, incluindo no hotel, com ambos a acabarem por expor algumas palavras desagradáveis um ao outro até se iniciar uma inesperada relação de afecto. É algo que se desenvolve de forma gradual, com Mikio Naruse a mais uma vez explorar com enorme subtileza o quão complicadas e contraditórias podem ser as relações humanas. Estes personagens pareciam ter tudo para se afastarem para sempre mas, um pouco como os protagonistas de "Floating Clouds", acabam quase sempre por se reunir. Mesmo quando Shiro sai de Tóquio para Aomori, o destino acaba por conduzir a que Yumiko acabe por ir viver para perto do local. Os dois têm diversos momentos marcados por enorme dramatismo, mas também algo idílicos, ficando particularmente na memória quando Yumiko se encontra a colher plantas num espaço verdejante, quando Shiro se reúne com a mesma, ou quando ambos estão num barco a remos, pelo menos até este adoecer neste meio de transporte, com as nuvens cinzentas a terem dado o mote para algo de pouco apolíneo. O espaço verdejante permite a Mikio Naruse explorar a cor ao serviço da narrativa, com as tonalidades verdes, símbolo de esperança, a deixarem no ar que estes elementos podem ser felizes (diga-se que os tons verdes e castanhos dominam os espaços da narrativa). Ela encontra-se relutante em relação a assumir os seus sentimentos, tal como este parece saber que existe uma enorme cicatriz devido a uma ferida no passado de ambos que pode abrir a qualquer momento. 

Mikio Naruse volta a deixar-nos perante um amor impossível, iniciado no mais improvável dos momentos por um casal cujos elementos pareciam ter tudo para sentir um enorme ressentimento em relação um ao outro. A dinâmica entre Yûzô Kayama e Yôko Tsukasa é convincente, não só nos momentos em que estes personagens se encontram a dialogar, mas também nos longos silêncios. É sobretudo nos silêncios onde muito encontramos a ser transmitido, algo notório quando estes se deparam com um acidente de viação no último terço e as consequências do mesmo, um episódio que vai representar paradigmaticamente o quão facilmente a relação destes pode estar destinada ao fracasso. Inicialmente este queria apenas dar-lhe dinheiro, mas aos poucos procura compreender o ódio desta por si e fazer com que a mesma o perdoe. Diga-se que o dinheiro e a falta dele é uma temática muito comum às obras de Mikio Naruse, algo que volta a ser explorado em "Scattered Clouds". Veja-se como é o dinheiro que potencia as divisões de Yumiko com os sogros, mas também é a quantia monetária oferecida por Shiro que conduz a que este escreva sempre pequenos recados à protagonista, tal como será um dos motivos para esta mais tarde reunir-se com o personagem interpretado por Yûzô Kayama. É também o dinheiro que conduz Katsuko a procurar manter amizades com elementos como Inohue, mas também um caso com Hayashida, um homem casado. Diga-se que Katsuko apresenta sempre uma postura mais dependente aos elementos masculinos do que a protagonista, com ambas a apresentarem claras diferenças comportamentais na forma como encaram a viuvez e a relação com os homens. No entanto, e regressando ao tema do dinheiro, não são os yenes que fazem Shiro pedir a transferência de Aomori para outro local, mas sim cumprir aquilo que foi inicialmente pedido pela protagonista. Shiro e Yumiko são dois personagens marcados por uma desgraça passada. Ela perdeu o esposo. Ele matou acidentalmente um homem. A complicar a tarefa desta em desprezá-lo encontra-se o facto de Shiro estar longe de ser alguém completamente inconsciente, com este a saber o mal que provocou a esta mulher. Do ressentimento e dor entre ambos parece nascer algo mais, embora estes personagens procurem ao máximo restringir os seus sentimentos. "Scattered Clouds" é também um exemplo da restrição a nível sentimental da dupla de protagonistas, mas também de Mikio Naruse em não cair em momentos melodramáticos excessivos. Tudo parece fluir de forma natural, as elipses são bem utilizadas, os planos compostos de forma cuidada, enquanto ficamos perante interpretações dignas de relevo por parte de Yûzô Kayama e Yôko Tsukasa, uma dupla capaz de nos convencer da complexidade que envolve a relação dos personagens que interpretam. A própria banda sonora por vezes parece atribuir alguma melancolia ao enredo, enquanto a cinematografia de Yuzuru Aizawa destaca-se pela sobriedade e beleza que concede a alguns momentos da narrativa. Ficamos assim perante um terminar de carreira em beleza para Mikio Naruse, com este a exibir várias temáticas e qualidades que marcaram as obras que realizou, com "Scattering Clouds" a exibir-nos o quão maravilhoso pode ser assistir a um filme deste cineasta. Pode não dar o final que queremos, nem rodear o enredo de momentos açucarados para fazer as nossas vontades mais românticas, procurando antes apresentar-nos a uma relação complexa, marcada por um realismo muito próprio onde os sentimentos expressos pelos protagonistas conseguem causar ressonância junto do espectador, ou pelo menos junto da pessoa que escreve este texto.

Título original: "Midaregumo".
Realizador: Mikio Naruse. 
Argumento: Nobuo Yamada.

Elenco: Yûzô Kayama, Yôko Tsukasa, Mitsuko Kusabue, Mie Hama, Mitsuko Mori.

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