05 junho 2015

Resenha Crítica: "Odd Man Out" (1947)

 No final de "Odd Man Out", batem as badaladas, bate o coração do espectador, pára o de alguns intervenientes da narrativa, parte um barco e duas almas, a banda sonora enche-se de emoção, enquanto sentimos a agradável sensação de termos assistido a um filme noir de eleição ao mesmo tempo que somos devastados do ponto de vista emocional. Seria de esperar mas não de ansiar que a morte chegasse a alguns personagens, ou não estivéssemos num filme noir onde os romances nem sempre são bem sucedidos e acabamos por torcer por figuras moralmente questionáveis num universo narrativo marcado por algum pessimismo, onde o crime faz parte do quotidiano de alguns dos elementos que povoam o enredo. Ficamos diante de uma pequena cidade da Irlanda do Norte, onde os fortes nevoeiros e chuvadas se fazem sentir pelas suas ruelas e becos, enquanto a alma de alguns personagens ferve e a cinematografia de Robert Krasker atinge níveis de brilhantismo. Seja nos planos marcados por nevoeiros intensos, seja na utilização do chiaroscuro, seja nas cenas de alucinações típicas dos noir, seja a explorar as possibilidades proporcionadas pela neve que cobre o solo, existe um trabalho notável a nível das imagens, com "Odd Man Out" a mesclar estilo e substância, colocando-nos perante pertinentes dúvidas morais em relação ao protagonista. É difícil defendê-lo sem reservas tendo em conta que este cometeu um assassinato, após um assalto, apesar de anteriormente ter revelado o desejo junto do grupo que lidera de actuar de forma pacífica. Os seus desejos não são atendidos e acabamos por ficar com a polícia em busca de um criminoso, uma mulher a procurar pelo seu amado, enquanto o personagem principal perambula ferido, procurando esconder-se de tudo e todos até reencontrar a amada. Má fortuna a daqueles que amam mas que se encontram nas circunstâncias de Johnny McQueen (James Mason) e Kathleen Sullivan (Kathleen Ryan). Eles já deveriam saber que os sentimentos que nutrem um pelo outro não poderiam durar muito ou não estivessem numa organização nunca especificada (embora não seja mencionado parecemos estar diante de um grupo nacionalista semelhante ao IRA), considerada criminosa pelas autoridades, com os próprios actos dos seus elementos a contribuírem para a fama e o proveito da mesma. Johnny é o líder da célula deste grupo na cidade, tendo fugido há alguns meses da prisão e encontrado refúgio na casa de Kathleen e da avó desta. O grupo é constituído ainda por Dennis (Robert Beatty), Pat (Cyril Cusack), Nolan (Dan O'Herlihy) e Murphy (Roy Irving), com estes três últimos a participarem num assalto ao cofre de uma fábrica tendo em vista a conseguirem fundos para as actividades da organização e para as despesas correntes dos seus elementos. Johnny mostra-se algo avesso à violência, alertando os integrantes do grupo para tentarem não disparar sobre ninguém, despertando a desconfiança dos vários elementos em relação ao seu estado psicológico e capacidade de poder participar no roubo. Dennis ainda se oferece para ir no lugar de Johnny mas este último, como líder, rejeita mostrar fraqueza. O assalto começa e termina da pior maneira para Johnny, com este a confirmar que a sua participação no mesmo não foi a melhor ideia, revelando todas as suas fragilidades emocionais.

No carro, começa a ver as ruas e os prédios distorcidos, por vezes enevoados (mais uma vez vale a pena realçar o excelente trabalho na composição dos planos e no trabalho das imagens em movimento), algo que se repete quando se encontra a sair da fábrica, já com o dinheiro do cofre nas mãos, acabando por ter uma paragem vertiginosa que o leva a ser agarrado por um guarda. Os dois acabam por se envolver num confronto físico, com o guarda a disparar no ombro do protagonista, deixando-o gravemente ferido, enquanto Johnny, anteriormente visivelmente afectado pela prática de violência, elimina o oponente, ainda que a sua intenção não parecesse essa. No entanto, vai ser perseguido como um homicida, enquanto se encontra ferido e perturbado pelo acto que cometeu. Johnny ainda é puxado pelos companheiros através da janela do carro, para o interior do veículo, mas parte do corpo fica de fora, com Pat, o condutor, a exagerar na velocidade a atravessar uma curva, algo que conduz à queda do protagonista no meio da estrada. Estes ainda pensam em voltar atrás mas, após a aparatosa queda, Johnny começa a correr para esconder-se das autoridades, acabando por se perder do grupo. A partir daqui assistimos à procura deste em reencontrar-se com o grupo e regressar ao esconderijo, enquanto Kathleen teme pela vida do amado, Dennis parte em busca do protagonista e os outros três elementos são enviados à central da organização. Dennis procura ludibriar as autoridades ao fingir que se encontra ferido, tendo em vista a que o confundam com Johnny, uma medida que, no caso de encontrar este último, poderia servir para ajudá-lo a fugir. Pat e Nolan ainda se dirigem a casa de Theresa O'Brien (Maureen Delaney), quando fogem da polícia, após serem detectados pelas autoridades, mas esta mulher expressa de forma exímia que poucos são os elementos de confiança que vamos encontrar ao longo do enredo. Theresa entrega a dupla à polícia, com os dois a serem assassinados, com esta mulher a revelar ainda as imediações por onde Dennis se encontra a procurar por Johnny. Enquanto isso, as buscas das autoridades tendo em vista a capturarem Johnny, continuam, com este a esconder-se inicialmente num beco escuro, mal iluminado, onde alucina com os tempos em que esteve preso, num dos momentos típicos dos filmes noir. Este ainda irá reencontrar Dennis, contar com ajuda de elementos inesperados ou ser abandonado como se fosse um monte de esterco, ao mesmo tempo que assistimos a Kathleen a encetar uma busca pelo personagem interpretado por James Mason, apesar da polícia também a ameaçar de represálias. Aos poucos geramos uma certa empatia em relação a Johnny, com James Mason a contribuir para esta situação ao conceder ao seu personagem uma humanidade digna de atenção, com Carol Reed, o realizador, a adensar a inquietação em volta do destino deste homem. É certo que mais tarde ou mais cedo este parece estar perdido, quer pela gravidade da ferida, quer pela perseguição das autoridades, mas nem por isso deixamos de gerar alguma inquietação em redor daquilo que poderá estar destinado a este indivíduo inicialmente bem intencionado. Johnny cometeu um crime grave e merece ser punido por isso, embora o filme explore que este é muito mais complexo do que um mero criminoso, com o personagem interpretado por James Mason a surgir representado como um indivíduo que prefere a via pacífica de expressar as ideias do grupo, tendo em Kathleen o seu interesse amoroso e "anjo da guarda". Se Maureen Delaney interpreta uma mulher fria e sorrateira, já Kathleen Ryan dá vida a uma jovem de personalidade aparentemente frágil, doce e algo cândida que procura a todo custo salvar o amado ou morrer ao lado deste, algo que promete momentos intensos no último terço.

Durante boa parte do filme, Kathleen e Johnny encontram-se separados. Este procura lutar pela sua vida, deparando-se muitas das vezes com o desprezo daqueles que o rodeiam. Ela procura ludibriar os elementos da polícia que a perseguem, procurando ainda contactar o padre Tom (W. G. Fay), um indivíduo geralmente bem informado em relação às questões do bairro. O padre Tom tem objectivos distintos em relação ao protagonista, pretendendo dar um pouco de paz à sua alma e convencê-lo a entregar-se às autoridades de forma a ser punido pelo crime cometido, com "Odd Man Out" a abordar ainda questões ligadas à religião, à fé e à alma, entre outros assuntos relacionados com a condição humana, com o caso de Johnny a permitir as mais variadas divagações por parte do argumento. Poderemos considerar Johnny um indivíduo de má índole? É verdade que cometeu um assassinato no decorrer de um assalto, mas ao longo do filme exibe mostras de humanidade suficientes para Carol Reed nos deixar quase a querer que este indivíduo escape das autoridades e do destino. Carol Reed tem um enorme mérito na forma como conduz a narrativa de um filme que muitas das vezes fica injustamente na sombra de "The Third Man", aquela que é considerada a sua obra prima, com o cineasta britânico a elaborar um filme noir intenso, marcado por vários elementos deste subgénero. Não faltam as relações perigosas, os personagens moralmente ambíguos, a cidade como local marcado pela insegurança e o crime, a utilização expressionista das sombras, as alucinações sentidas por um elemento, a noite como espaço primordial dos episódios onde se desenrolam o enredo, a relação complicada entre o protagonista e as autoridades, entre muitas outras características, para além do facto de estarmos diante de uma adaptação deu ma obra literária (algo comum nos noir), em particular o livro "Odd Man Out" de F. L. Green. A própria relação entre Kathleen e Johnny, fadada ao fracasso e à destruição dos seus elementos, é típica deste subgénero, embora esta mulher seja a antítese da femme fatale. Os momentos finais são violentos, sobretudo do ponto de vista emocional, com a neve a dar o mote para a frieza, embora os sentimentos sejam bem vivos e os corpos caídos indicadores que Carol Reed não está ali para nos apresentar um final à “Stranger on the Third Floor", "His Kind of Woman", "Bodyguard", entre outros exemplos mais leves do que é useiro e costumeiro neste subgénero. Já a representação do espaço citadino é exemplar e típico de algumas destas obras, a começar desde logo pela forma como Carol Reed aproveita o território circundante da superfície industrial onde foi cometido o crime. O protagonista é praticamente obrigado a manter-se em cativeiro, num local onde se depara com uma jovem rapariga em busca de uma bola, bem como com um casal que recua nas intenções de namoriscar por ali, com este espaço sombrio, marcado por uma luz difusa e sombras carregadas, a parecer paradigmaticamente simbolizar o destino incerto de Johnny. Quando sai dali, as ruas parecem estreitar-se, com este a andar de forma meio descoordenada, conseguindo muitas das vezes salvar-se da polícia por mero acaso, seja por duas mulheres o recolherem sem saberem inicialmente quem este é, seja por entrar num táxi sorrateiramente, seja por ser recolhido por Shell (F. J. McCormick), um indivíduo oportunista que revela ao padre a descoberta do mesmo. Estamos longe dos momentos iniciais nos quais um grupo procurava cometer um assalto, com as alucinações e dores de Johnny enquanto anda pelas ruas a serem cada vez maiores, ao mesmo tempo que tem de escapar das autoridades cada vez mais duras a apertar o cerco ao protagonista.

As próprias deambulações de Kathleen pelas ruas, durante a noite, marcadas pela frieza da temperatura e o solo muitas das vezes molhado, também são conspurcadas pela incerteza se a polícia vai ou não travá-la. Diga-se que a personagem feminina principal ajudar o protagonista não é uma novidade nos filme noir, algo notório em obras como os já citados "Stranger on the Third Floor", "Bodyguard", mas também "Phantom Lady" e "Black Angel", com Kathleen a fazer de tudo para proteger o amado, embora o destino troque-lhe muitas das vezes as voltas. Já Dennis protagoniza uma fuga intensa das autoridades para tentar salvar o companheiro, com Robert Beatty a sobressair como este personagem com forte sentido de companheirismo. Vale a pena realçar que um dos vários elementos que fazem "Odd Man Out" sobressair como uma obra cinematográfica muito acima da média centra-se na construção de um conjunto de personagens secundários interessantes e com algum relevo para a narrativa, associados a um enredo credível e coerente. Não faltam exemplos para dar: Shell, um elemento que procura o padre para tentar lucrar com a descoberta do protagonista, parecendo algo confuso em relação às questões da fé; Lukey (Robert Newton), um pintor mentalmente instável que vive com Shell que procura pintar o retrato do protagonista antes deste falecer; Pat, o condutor do grupo, um elemento moralmente questionável; a traiçoeira Theresa O'Brien; Passersby Maureen e Maudie, duas mulheres que inicialmente ajudam o protagonista, "Grannie", a avó de Theresa, uma mulher que procura aconselhar e proteger a neta da melhor maneira, entre tantos outros elementos que permitem ao elenco secundário sobressair e incutir uma densidade assinalável a este filme noir. O argumento escrito por R.C. Sherriff contribui para esta consistência da narrativa, bem como a realização sublime de Carol Reed que, em menos de duas horas, consegue fazer a festa, atirar os foguetes e apanhar as canas que é como quem diz elaborar um filme noir quase a roçar a perfeição. As imagens de Johnny a andar ferido, em busca de um destino, deixam marca, com James Mason a ter aqui um dos grandes papéis da sua carreira (e não é dizer pouco se tivermos em conta filmes como "Lolita" de Stanley Kubrick, "North by Northwest" de Alfred Hitchcock, entre outros), atribuindo a este plersonagem um misto de determinação e fragilidade. No início do filme demonstra essas fragilidades emocionais quando procura expor que preferia defender as suas ideias de forma pacífica, sem recorrer às armas, participando sem convicção num assalto que lhe vai deixar marcas e a aqueles que o rodeiam. A fuga é intensa, mas aquilo que mais fica gravado é a sua presença num beco escuro à espera sabe-se lá bem do quê, com a salvação a ser o destino mais improvável, enquanto o seu corpo definha. É o líder de uma divisão de uma organização cujo nome nunca é exposto, que procurou durante bastante tempo manter um low profile para não voltar a ser capturado, mas logo se vê pelas ruas da amargura em Belfast. Pelo caminho lida com uma miríade de personagens, embora Johnny seja quase sempre o foco central, algo que permite a James Mason ser o nome que brilha sempre mais alto, com Carol Reed a conseguir extrair deste actor uma interpretação a roçar o brilhantismo, ao mesmo tempo que aborda pertinentes questões morais em relação a Johnny. Ao mesmo tempo inquieta-nos em relação ao destino do protagonista e de Kathleen, explora o espaço citadino por onde estes deambulam, sempre sem descurar o cuidado a nível dos cenários interiores, com tudo a parecer ter sido pensado ao pormenor e a funcionar na justa medida. Com um argumento e uma realização a roçarem a perfeição, "Odd Man Out" continua a revelar-se uma experiência cinematográfica ímpar, surgindo como uma obra prima e um dos grandes exemplares dos filmes noir, com Carol Reed a ter aqui um comprovativo do seu enorme talento.

Título original: "Odd Man Out".
Título em Portugal: "A Casa Cercada".
Realizador: Carol Reed. 
Argumento: R. C. Sherriff.
Elenco: James Mason, Robert Newton, Cyril Cusack, Kathleen Ryan, F. J. McCormick.

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