17 junho 2015

Resenha Crítica: O Grande Museu (Das große Museum)

     Ainda no texto que publiquei há umas semanas andava eu a lamuriar-me pelo facto de que os filmes que tinha visto ultimamente me terem obrigado a redigir um contexto histórico e vejam só que, nem por acaso, e realço até que sem culpa nenhuma da minha parte, o destino determinou que a obra que eu veria a seguir, com o propósito de lhe escrever uma espécie de crítica, seria precisamente um documentário sobre um museu. Bem, reconheço que o título de “O Grande Museu” me tinha dado uma pista incontornável sobre a sua temática, e penso que se argumentasse que não me tinha apercebido, à partida, do que estava prestes a ver tomar-me-iam por mentiroso. Mas atentem em minha defesa a este pormenor fundamental: sucede que, por essa altura, das estreias que me interessavam ver no cinema só duas restavam ainda por desfrutar, ambas precisamente documentários sobre museus. Motivado pela minha manha comprometi-me a ver o mais curto, obviamente, e esquivei-me do outro que tem três horas de duração, mas seja como for também não é nada disso que está em causa. O que está aqui em causa é que, atendendo aos fatores enunciados, conclui-se que este visionamento passou não apenas por uma preferência, mas acima de tudo por uma necessidade de satisfazer as minhas exigências cinematográficas. E a coincidência de a minha satisfação pessoal estar dependente de ver um documentário sobre artefactos históricos dá-me a estranha sensação de estar a ser perseguido por uma ciência social.
     Mas não obstante os meus queixumes confesso que desta vez essa coincidência não me desmotivou. Convenci-me de que se tratava mormente de um filme de uma hora e meia de duração, e reconfortei-me na eventualidade de não ter personagens, ou sequer um fio narrativo, pelo que se lhe escrevesse uma crítica não ultrapassaria as duas páginas de texto. Pois bem, como o leitor já se terá apercebido a manha não é bem um sinónimo de inteligência, e muitas vezes os preguiçosos são os primeiros a recriminarem-se a eles próprios pela limitação dos seus pontos de vista, aquando do fracasso de um plano elaborado de forma negligente. Ora se eu fosse mais inteligente ter-me-ia apercebido imediatamente que a complexidade de um filme não está relacionada com o seu género e muito menos com a sua duração. Ou, pelo menos, teria raciocinado que o facto de um documentário não se alicerçar numa história convencional concederia ao seu realizador uma maior liberdade para abordar um conjunto mais diversificado de temáticas. Aliás, na minha ignorância nem cheguei a considerar que um museu é constituído não apenas pelo seu acervo mas também pelas inúmeras pessoas que nele trabalham, pelo que se cada uma for observada devidamente estaremos perante uma prole de personagens por analisar, ainda que muitas delas secundárias.
     Apesar de tudo ainda houve outro engano crucial da minha parte quando ruminei na possibilidade de que, pela sua natureza, “O Grande Museu” não se alicerçaria numa narrativa. De facto, ela pode não ser a mais tradicional, mas não restam dúvidas de que existe mesmo. Para poder enunciá-la é inevitável que conceda, previamente, alguns esclarecimentos sobre o museu em que ela se desenrola: consta que os nativos apelidam-no de KUNT HISTORICHES MUSEUM WEIN, e ficamos a saber nos últimos instantes do documentário que as maiúsculas são mesmo propositadas para concederem alguma imponência ao nome, o qual em português pode ser traduzido para MUSEU DE HISTÓRIA DE ARTE EM VIENA. A instituição foi criada nos finais do século XIX pelo Imperador Austro-Húngaro Francisco José, e a sua casa é um palácio pomposo e monumental de estilo renascentista, construído de propósito para albergar a coleção da Casa de Habsburgo. É consensual que esta dinastia foi uma das mais ricas e mais poderosas da Europa desde os finais do século XIII até ao início do século passado, tanto mais que chegou a governar o Império Austro-Húngaro e o Sacro Império Romano-Germânico ao longo de numerosas centúrias, durante as quais foi patrocinando e colecionando uma diversidade de obras de arte que culminaram, finalmente, num majestoso património. A proveniência do seu acervo dispersa-se por mais de dois mil anos de História: inicia-se com os sarcófagos do Antigo Egito e calcorreia as esculturas da Antiguidade Clássica, perambulando em seguida pelas armaduras de metal da Idade Média e alcançando as pinturas de cores garridas dos autores renascentistas, marchando daí ordenadamente para os mosquetes e pelas fardas militares da Idade Moderna e concluindo o seu percurso em grande estilo, entre os ornamentos da realeza austríaca dos finais do século XVIII. Possui ainda o grande museu moedas e medalhas no seu gabinete de Numismática, instrumentos manuseados pelos músicos do Renascimento e uma infinidade de peças de ourivesaria como cetros e coroas imperiais, isto sem contar com um património incalculável de outras espécies e de épocas diversas que nem vale a pena enumerar, porque afinal de contas eu próprio nunca entrei nesse museu e, só de pensar nisso, começo a ficar deprimido.
     Repousam ainda nos armazéns da instituição centenas de peças de valor inestimável, que por falta de condições de restauro não podem ser expostas aos curiosos. Com consciência destas circunstâncias e na posse de novos fundos monetários, a direção do museu decidiu, em 2012, renovar uma ala do seu palácio que tinha sido encerrada dez anos antes, pois necessitava de urgente renovação. Apelidavam-na de Kunstkammer, e nós traduzimo-la como Gabinete de Curiosidades - nome dado, nos séculos XVI e XVII, às salas em que as famílias ou as instituições abastadas expunham os seus objetos de várias índoles, por norma exóticos e provocadores de admiração, adquiridos por uma razão ou por outra durante a época dos Descobrimentos. Ora conhecendo a abastança da linhagem dos de Habsburgo, prevê-se que a exposição deste património necessitasse de um processo intrincado, distribuído em inúmeras etapas, muitas delas executadas em simultâneo por especialistas de diferentes áreas, desde o pedreiro mais humilde ao arquivista reservado, pululando talvez pelo meio uns historiadores mais arrogantes mas, aí, sem o nosso conhecimento, pois caso fossem ilustrados soltariam toda a sua sobranceria em cima do realizador Johannes Holzhausen.
     A bem da verdade, depois de ter lido uma entrevista do cineasta também não creio que ele estivesse interessado em documentar situações polémicas. Também houve outros aspetos cruciais que retirei dessa entrevista, que me elucidarem sobre a forma de pensar do interlocutor: o primeiro é a revelação de que ele se interessa mais pelas instituições do que pelas obras de arte que elas albergam, e o segundo é o reconhecimento de que, para a elaboração de qualquer filme, o realizador necessita de esboçar um plano prévio que determine uma estrutura a seguir. Este segundo ponto é o mais interessante, e creio que o entrevistador teve essa mesma opinião, até porque fez questão de contrastar este pragmatismo com o método do norte-americano Frederick Wiseman - o realizador de “National Gallery”, o tal documentário de três horas que mencionei no início do texto e que, entretanto, já visionei – que se alicerça mais no improviso do que no planeamento prévio, e na concessão de uma liberdade especial ao filme para que ele se «vá descobrindo a si próprio».
     Perdoem-me por suscitar uma nova vaga de sofrimento através de mais uma das minhas divagações, mas acontece que esta dicotomia despontou uma ideia persistente na minha cabeça que não cessa de se intrometer entre as linhas do meu raciocínio, sabotando pelo caminho sabe-se lá com que objetivos a linearidade deste texto. É que como já foi mencionado, a citada entrevista distingue dois métodos de trabalho que definem a forma de operar da mente de cada um dos seus realizadores. Por um lado temos um método mais organizado e racional alicerçado num plano previamente concebido, modificado somente no aparecimento de raras e inevitáveis exceções, e por outro um mais desalinhado que evita restringir a liberdade criativa, ancorando-se essencialmente no instinto e na imaginação. E se não me compete definir qual é o que providencia os melhores resultados, penso não ser descabido afirmar que cada um tem os seus defeitos e as suas qualidades: pois se algumas obras podem ter uma estrutura bem organizada e de mais fácil entendimento, tornando a sua visualização uma experiência fluída e agradável, outras serão mais confusas e, porém, mais criativas e pessoais. Esta curiosa oposição, no meu entender, é particularmente ilustrativa das dissemelhanças entre “National Gallery” e “O Grande Museu”. Assim, enquanto o primeiro tem um foco mais abstrato e criativo que nos mostra o que quer que seja que o seu realizador tenha achado interessante, dispersando-se por pinturas de diferentes estilos e pelos artistas mais diversos, encontrando humor e fascínio tanto nas reações dos visitantes como nas tarefas do pessoal dos bastidores, o segundo segue uma estrutura mais racional e limitativa ao acompanhar única e exclusivamente o processo de restruturação do Gabinete das Curiosidades, desde o seu trabalhoso começo até à sua pomposa inauguração.
     Esta estrutura narrativa não nos é explicitada por uma narração em off nem por uma explicação que nos apareça escrita no ecrã, fazendo-se de forma mais subtil numa visita guiada, decorrente no início do documentário, protagonizada pela diretora do museu e dirigida a um colega britânico, à medida que os dois vão percorrendo as galerias da instituição e refletindo nos ambiciosos planos que já foram sendo postos em marcha, desviando-se pelo caminho de andaimes e passando por baixo de escadotes, e contornando trabalhadores afadigados que arrancam os papéis da parede sem misericórdia ou assassinam os tacos do chão centenário com um impensável sangue frio. Esta dupla de personagens ainda aparecerá uma ou outra vez no decorrer do documentário mas está longe de ser a única a deter protagonismo, uma vez que, ao intrometer-se constantemente nos afazeres dos funcionários do museu, o realizador Johannes Holzhausen evidenciará uma multidão de indivíduos entregues a tarefas de natureza distinta.
     Para compreendermos o critério das imagens selecionadas pelo realizador comecemos por recuar alguns parágrafos. Centremo-nos agora naquele em que se menciona a entrevista, e atentemos à revelação de que, para Holzhausen, o verdadeiro motivo de interesse do museu reside na instituição em si, e não nas suas obras de arte. Reflitamos também, por uns instantes, na invulgaridade desta preferência, e julguemos o cineasta com inusitada condescendência, acusando-o por ventura de desrespeitar o património histórico, pois esse sim é intemporal, mas deixemo-nos por fim desse tipo de parvoíces, e foquemo-nos antes nos meus raciocínios. Quero com isto dizer que o conteúdo do filme se adequa aos gostos do seu realizador, uma vez que passará essencialmente pela representação da instituição e dos seus trabalhadores, descurando-se as obras de arte que só são singularizadas duas ou três vezes.
     Aliás, o objetivo de Holzhausen terá passado precisamente por mostrar o quão complexo é o funcionamento da instituição, e por demonstrar que ela depende não apenas dos ofícios técnicos de uma trupe de historiadores, mas também das funções de um corpo diretivo obrigado a tratar de questões mundanas, dando-nos a entender que o MUSEU DE HISTÓRIA DE ARTE EM VIENA pode ter as suas maiúsculas e a sua singularidade mas, de certo modo, não difere assim tanto de outras empresas e instituições. Assim sendo, se por um lado há preocupações típicas relacionadas com a falta de verbas e com as estratégias publicitárias a serem abordadas nas reuniões da direção, por outro há problemas mais singulares a serem evidenciados num encontro de um dirigente com outros trabalhadores da instituição, em que estes são impelidos a sugerirem melhorias para o funcionamento da entidade empregadora mas acabam, ao invés, por escutar uma trabalhadora a lamentar-se de forma caricata por, em todos os seus anos de dedicação ao museu, jamais lhe terem sido apresentados os colegas de outros departamentos nos jantares de Natal, reivindicação que é aprovada unanimemente pelos outros presentes do acontecimento.
     Mas é claro que Johannes Holzhausen também não esquece os protagonistas das atividades mais técnicas e, muitas vezes, lá vai encontrando uma ou outra que lhe desperta um especial fascínio, filmando-a atenta e demoradamente, com a câmara por vezes estática e noutras vezes em movimento, fazendo-nos passar por uns autênticos voyeurs. As cenas observadas são normalmente interessantes tanto para o cineasta como para o espetador, não apenas pela minúcia dos ofícios retratados mas, também, por aqueles que as levam a cabo, umas verdadeiras personagens merecedoras da nossa admiração e, por vezes, despertadoras do nosso riso. Fica na memória, neste sentido, um episódio em que um homem está a restaurar uma miniatura de uma embarcação dourada capitaneada pelo Imperador Austro-Húngaro, parecendo-nos imperturbável como um ermita e cauteloso como um copista, e, de repente, alarma-se com um pormenor impercetível e larga o seu posto para ir sabe-se lá aonde; tal como se salienta a visita de um historiador a uma oficina de restauro no interior do museu em que lhe é explicado o processo dedutivo que levou à datação e à determinação dos autores de um quadro, ao que o indivíduo vai concordando ou mostrando ceticismo, denotando sabiamente que a posição dos braços de uma figura lhe faz lembrar um determinado estilo e que a disposição da sua perna esquerda já lhe dá a entender uma coisa diferente, concluindo que a pintura tem uma autoria repartida e deixando-nos a pensar se o homem é assim tão inteligente ou se tem apenas a mania que sabe.
     Ocasionalmente, as especificidades de algumas atividades dão-nos a entender que a inauguração do Gabinete está para breve, como se comprova numa cena em que uma mulher está a tentar definir a disposição dos quadros de uma galeria com um papel de parede vistoso e um soalho elegante, ladeada por duas opinativas colaboradoras mas fazendo-se valer da sua autoridade com notável asserção, e até na jornada de dois indivíduos ao leilão de uma coleção de artigos históricos com o intuito completarem a coleção do museu, mas sem sucesso porque os fundos monetários da instituição são insuficientes para competir com os dos privados que, infelizmente, usurparam tudo o que tinha interesse. Eventualmente, no final do documentário, chegamos ao ansiado dia da inauguração, iniciado com um discurso emotivo entre os dirigentes do Grande Museu e finalizado com uma esplêndida visita do Presidente da República, que, em primeiro lugar, orará publicamente, e, em segundo, troteará pela ala adentro, fazendo-se perseguir por uma turba impaciente de lacaios atentos a tudo menos à exposição.
     Reconheçamos que para além da perspicaz seleção de imagens que conseguem suscitar a atenção do espetador, e a somar à fluidez com que elas vão sendo expostas em tempo certo e sem serem demasiado extensas ou demasiado curtas, e sem contar com a eficácia com que elas nos ilustram, no seu todo, as complexidades do museu, há outro mérito incontornável em “O Grande Museu” que consiste na sua cinematografia, entregue a Joerg Burger e a Attila Boa. Diria mesmo, pleno de convicção, que ela é mesmo uma das principais qualidades do documentário, concedendo-lhe redobrada criatividade, e utilizando-a para cumprir os objetivos do realizador, descobrindo com mestria os ângulos mais fascinantes para filmar as atividades mais técnicas ou mais banais, jogando com as cores dos cenários e evidenciando até, numa certa altura, a forma como o manusear de uma simples alavanca pode parecer um fenómeno curioso se o virmos de um determinado ponto de vista. É também admirável a forma como é várias vezes transmitida ao espetador a sensação do quão espaçosas são as instalações do museu, tanto através de planos estáticos que abranjam a totalidade de um salão como de momentos em que a câmara vai seguindo determinadas personagens. É exemplo disso mesmo um episódio espantoso em que, para seguir um homem que se empoleirara numa trotinete para se movimentar pelos corredores do edifício, o cameraman faz exatamente o mesmo e persegue-o por várias divisões, desviando-se de paredes e de armários com destreza inesperada e mostrando-nos aos poucos a monumentalidade do espaço.
     Andei para aqui a palrar durante dois ou três parágrafos sobre os contrastes entre o “National Gallery” e o “Grande Museu” mas, agora que penso nisso, começo a sentir um certo arrependimento, e é possível que o mais sensato teria sido ficar calado. É que se por um lado é verdade que o primeiro é mais pessoal e original, e se me argumentassem que também é mais genial e merecedor de maior assombro eu zurraria a minha concordância, por outro lado há semelhanças notórias entre os dois que não cheguei a abordar, na forma como ambos descortinam um estranho interesse em situações aparentemente banais e no modo como nos mostram que as instituições que retratam são mais intrincadas do que calculáramos à partida. Há ainda uma ponderação que elas suscitam nas nossas mentes, fazendo-nos pensar que ainda não vimos nada deste mundo, e que até há museus nas nossas cidades que aguardam pelas nossas visitas com desmedida impaciência, mas, pensando bem, isso também não é para aqui chamado. Fiquemos antes em casa a ver este documentário, afastados do sol das praias mas satisfeitos por termos desfrutado de umas férias, ainda que por apenas de uma hora e meia, até aos bastidores de um respeitável museu, no coração da capital austríaca, com o “Grande Museu” a despertar ainda mais o desejo de conhecer esta ilustre instituição.

Título original: Das große Museum
Título em Portugal: O Grande Museu
Realização: Johannes Holzhausen
Argumento (conceito): Johannes Holzhausen e Constantin Wulff

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