20 junho 2015

Resenha Crítica: "No Blood Relation" (Nasanunaka)

 Dos vários filmes mudos realizados por Mikio Naruse apenas cinco foram preservados. Perde o cinema e perdem os cinéfilos que poderiam apreciar as obras deste talentoso realizador e provavelmente testemunhar com mais pormenorização o estilo deste cineasta nos seus filmes mudos. Em "No Blood Relation", o segundo dos cinco filmes mudos preservados, Mikio Naruse apresenta-nos pelo menos a três elementos que vão ser transversais a várias das suas obras: o papel da mulher na sociedade, as relações familiares complexas/problemáticas, a relevância do dinheiro ou da falta do mesmo na vida dos protagonistas. "No Blood Relation" coloca-nos ainda perante uma temática deveras complexa que passa por distinguirmos quem deve ser considerado pai e mãe: aquele que concebe e dá à luz a criança ou aquele que cria? No caso do filme, apesar de ser a preto e branco, as suas temáticas não são abordadas apenas a duas cores. A vida é complexa e Mikio Naruse não a poderia representar de forma simples e maniqueísta. É certo que apresenta um maior arrojo estético e até algum optimismo do que boa parte dos seus filmes sonoros (veja-se que até em "Hideko, the Bus Conductor", um filme aparentemente leve, não deixa de terminar de forma algo melancólica), mas nem por isso deixa de apresentar elevadas doses de drama e uma certa complexidade, ou não estivéssemos perante uma obra cinematográfica que levanta a questão sobre quem deve ser verdadeiramente considerado mãe ou pai. No caso de "No Blood Relation" ficamos perante Shunsaku Atsumi (Shin'yô Nara) e Masako (Yukiko Tsukuba), um casal que vive com Shigeko (Toshiko Kojima), a filha do primeiro casamento do personagem interpretado por Shin'yô Nara, e Kishiyo (Fumiko Katsuragi), a mãe deste último. Masako é a mãe adoptiva de Shigeko mas ama a mesma como se fosse a sua filha de sangue, com a ternura a ser retribuída. Diga-se que Masako nem tem problemas em arriscar a sua vida para salvar Shigeko quando a jovem se encontra prestes a ser atropelada, algo que deixa a primeira em relativo mau estado (não pode faltar um atropelamento ou personagem a ficar adoentado ou ferido num filme do cineasta, algo presente em "Every-Night Dreams", "Apart from You", "Scattered Clouds", entre outras obras cinematográficas). O acidente é o menor dos problemas a afectar a vida desta família. A empresa de pesca de Shunsaku vai à falência, este perde boa parte dos seus pertences, com Mikio Naruse a deixar-nos ainda perante os penosos momentos em que os bens da casa deste estão a ser penhorados, até o mesmo ser preso. Shigeko não compreende bem a situação, enquanto Masako procura apoiar o marido. No entanto, Kishiyo reage mal às circunstâncias, sobretudo por nunca se ter visto em dificuldades financeiras, algo que acontece neste momento, culpando o filho por esta situação complicada que considera humilhante. A piorar tudo encontra-se ainda o regresso de Tamae Kiyokawa (Yoshiko Okada), a antiga esposa de Atsumi e mãe de sangue de Masako, uma mulher que abandonara a família há seis anos para seguir o sonho de investir na carreira de actriz nos EUA. Esta regressa recheada de luxos, dinheiro e vontade de recuperar a sua filha, custe o que custar, contando com o apoio de Makino (Ichiro Yuki), o seu irmão, um gangster, e Gen (Shozaburo Abe), um amigo deste último. Tamae ainda tenta comprar a empresa de Shusaku para esta não falir, mas este recusa a oferta, embora a prisão deste piore a situação e facilite os planos da personagem interpretada por Yoshiko Okada em recuperar a filha. Perante a rejeição inicial da criança e de Masako, Tamae decide raptar Shigeko, contando com o apoio de Kishiyo, uma mulher cuja personalidade está longe de nos despertar qualquer simpatia, bem como do irmão e de Gen, uma situação que promete levar Masako ao desespero.

Se Tamae pensava que a criança iria aceitá-la de imediato, logo Shigeko prova o contrário, com a jovem a mostrar o seu desprezo pela primeira e a pretender regressar para aquela que considera ser a sua mãe. Masako encontra-se a trabalhar para sustentar a casa, entrando em desespero com toda esta situação da filha, procurando no irmão, um indivíduo que esteve na Manchúria, um apoio de relevo. Mikio Naruse não simplifica na abordagem das temáticas, embora o enredo contenha diversos elementos de melodrama, procurando expor as razões de Masako e Tamae, com a primeira a ter criado Shigeko desde jovem, enquanto a segunda é a mãe de sangue da mesma. No entanto, Shigeko não reconhece Tamae como progenitora, nem pretende ficar com esta, encontrando-se demasiado ligada a Masako, com o filme a abordar com assertividade temáticas sobre a adopção e os filhos adoptivos. Será que Tamae tem o direito de reclamar a maternidade de Shigeko depois de ter abandonado a mesma? Quem deverá ser considerada a mãe da criança? Tamae parece relativamente consciente do erro que cometeu, mas procura consertar o mesmo ao cometer outro, ao forçar a jovem a ficar consigo. Toshiko Kojima é competente a expressar a incompreensão da jovem que interpreta perante boa parte desta complexa situação que a rodeia, mas também a afeição que sente por Masako. Esta é interpretada por Yukiko Tsukuba, mais uma protagonista feminina de Mikio Naruse que tem de tomar conta do lar e da filha, com o cineasta a mostrar um verdadeiro interesse ao longo da sua carreira em expor o papel de relevo das mulheres na sociedade. Até poderiam ser encaradas com um estatuto inferior pela sociedade do seu tempo, mas Mikio Naruse nem por isso deixa de nos apresentar a personagens femininas complexas, na maioria das vezes lutadoras (veja-se os casos de "Apart from You", "Every-Night Dreams", "Wife! Be Like a Rose", entre vários outros exemplos), inteligentes, geralmente alvo das reviravoltas nem sempre simpáticas do destino. No caso de Masako, esta tem de lidar com a perda temporária do esposo, com a perda dos bens, bem como com o rapto da filha. Para esta, Shigeko é a sua filha, com Yukiko Tsukuba a exibir a tenacidade da sua personagem, mesmo que as contrariedades em sua volta sejam mais do que muitas, incluindo vindas da sua sogra, com esta última a surpreendentemente preferir a mulher que abandonou o filho. Já Tamae está longe de poder ser considerada uma mulher completamente desprezível. É certo que errou ao abandonar a filha e ao forçá-la a regressar para si, mas a sua vontade em ser amada pela jovem Shigeko parece ser genuína, com Yoshiko Okada a conseguir transmitir essa complexidade inerente à personagem que interpreta. É uma mulher rodeada de luxos, vestida muitas das vezes de forma ocidental, mas incapaz de conseguir o amor e afeição da filha, enquanto Naruse nos deixa perante alguns momentos dramáticos entre a jovem e a progenitora, com a primeira a rejeitar a segunda. Temos ainda alguns personagens masculinos que se destacam, entre os quais Makino, com Ichiro Yuki a interpretar eficazmente um gangster de pouca monta, enquanto Shozaburo Abe fica com os momentos de maior humor, muitas das vezes devido ao estilo atrapalhado do elemento a quem dá vida, procurando fazer-se passar por um "big shot" nos seus comportamentos embora seja tudo menos isso. Por sua vez, cabe a Shin'yô Nara interpretar o personagem masculino que revela sinais de fragilidade e acaba por depender da figura feminina, com Atsumi a precisar imenso do apoio da protagonista. Vale ainda a pena realçar Joji Oka como Masaya Kusakabe, o irmão de Masako, um indivíduo imponente, carismático, capaz de meter respeito, procurando defender os interesses desta mulher, com as personagens femininas a estarem quase sempre no centro da narrativa. 

Ficamos assim perante um intrincado melodrama onde mais uma vez Mikio Naruse revela-se exímio a incutir uma humanidade e complexidade latente na abordagem das temáticas, mas também um arrojo a nível estético típico deste período da carreira do cineasta. Veja-se os movimentos de dolly-in para enfatizar as cenas mais dramáticas, algo que também acontece em "Apart from You" e "Every-Night Dreams", para além de uma maior mobilidade nos movimentos de câmara que se distingue do estilo mais discreto do mesmo numa fase mais adiantada da carreira. "No Blood Relation" remete ainda para o regresso do progenitor do jovem Fumio (Teruko Kojima) em "Every-Night Dreams", com Mikio Naruse a exibir em ambas as obras a relevância do papel da mulher, embora no filme em análise esteja ainda bem presente a complexa questão de quem deve ser considerada mãe. No final não parecem existir grandes dúvidas, com Mikio Naruse a deixar-nos com a certeza de que Masako foi quem exerceu esse papel desde sempre. Talvez, um dia mais tarde, Shigeko compreenda toda a situação, mas, por ora, parece complicado que uma criança entenda que uma estranha é a sua mãe e não a mulher que a criou durante toda a sua, ainda curta, vida. O filme aborda não só estas questões, mas também deixa-nos perante a crise inerente à Grande Depressão, algo latente na forma com a empresa de Shunsaku Atsumi vai à falência. É um período difícil que ainda irá piorar com a entrada do Japão na II Guerra Mundial e a crise posterior à derrota no conflito bélico, com Mikio Naruse a deixar-nos mais uma vez diante de personagens com algumas dificuldades financeiras. Diga-se que desde o início lidamos com a insegurança no território através do roubo efectudo pelos dois gangsters que mais tarde colaboram com Tamae. Esta partiu como alguém com poucas posses e regressou como uma estrela que venceu a nível profissional nos EUA, embora não consiga atingir esse brilhantismo na esfera privada. A sua procura para conquistar a afeição da filha revela-se desastrosa, bem como os métodos utilizados, com esta mulher a atingir a realização profissional mas não a nível pessoal. Diga-se que esta temática da adopção não é muito comum de encontrar nas obras de Naruse, ou pelo menos nos diversos filmes do cineasta visionados por esta pessoa, com "No Blood Relation" a surgir como uma das raras fitas a ter este tema como um dos elementos centrais da narrativa. As "duas mães" da jovem entram em disputa, com Naruse a atribuir dimensão a ambas as mulheres, uma financeiramente abastada devido ao que trabalhou, outra que labora para sustentar o lar, deixando o fulcro do enredo em duas mulheres e uma jovem. Já os dois gangsters, um dos quais irmão de Tamae, por vezes contribuem mais para o humor do que para atemorizar, embora em alguns momentos os seus actos tenham repercussões negativas em Masako. "No Blood Relation" surge assim como um melodrama sublime, no qual Mikio Naruse revela já a sua capacidade de atribuir complexidade às relações humanas, contando para isso com um elenco competente e um argumento sólido, ao mesmo tempo que aborda algumas temáticas que vão ser transversais a vários dos seus trabalhos e coloca ao espectador questões relacionadas com a adopção.

Título original: "Nasanunaka".
Título em inglês: "No Blood Relation". 
Realizador: Mikio Naruse. 
Argumento: Kôgo Noda
Elenco: Yoshiko Okada, Shin'yô Nara, Yukiko Tsukuba, Toshiko Kojima, Fumiko Katsuragi, Joji Oka.

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