10 junho 2015

Resenha Crítica: "National Gallery" (2014)

 Pode parecer idiota mas uma das primeiras imagens que me ficou desde logo na retina a ver "National Gallery" foi o cuidado dedicado por Frederick Wiseman a um senhor que se encontrava a efectuar as limpezas ao museu do título. Fica desde logo representada a procura do cineasta em expor as várias vidas deste museu, quer através do seu papel fulcral para a conservação e exibição de obras de arte magníficas, quer no contacto que os elementos deste espaço procuram efectuar de acordo com os diferentes tipos de público, quer o próprio quotidiano deste local recheado de História e histórias, quer as distintas formas como os frequentadores encaram o mesmo. Fundado em 1824, em Londres, a National Gallery é um dos principais museus europeus, conservando no seu interior obras que vão desde a Idade Média até ao Século XIX, de artistas tão variados como Leonardo Da Vinci, Vincent van Gogh, Rembrandt, Turner, George Stubbs, entre tantos outros autores cujas pinturas vão ser, em parte, expostas ao longo deste informativo documentário realizado por Frederick Wiseman que nos faz sentir praticamente como visitantes desta instituição, mas também parece dar-lhe nova vida e expor diante de nós a complexidade inerente ao funcionamento da mesma. Deixemos agora de lado o senhor das limpezas, solitário, a aspirar o chão, rodeado de obras de arte e passemos por exemplo para as diferentes formas como os guias expõem a informação consoante os distintos grupos de visitantes. Tanto temos um guia mais dinâmico e didático a expor as obras e aquilo que aparece representado nas mesmas a um grupo de jovens, como temos outros funcionários a apresentarem as exposições num tom mais sério e rigoroso já que se encontram a falar com adultos, algo que exemplifica o cuidado colocado na preparação destes eventos. Temos ainda conferências onde são expostas e analisadas diversas pinturas de forma bem viva, entre vários outros momentos onde os guias proporcionam-nos pequenas lições de História de Arte e de História no geral mas também de como saber comunicar para o público. Ou seja, existe a noção que o Museu é frequentado por diferentes tipos de público, com níveis de conhecimento distintos e necessidades diversificadas, algo latente na reunião entre dois elementos onde uma das curadoras parece querer que exista um maior diálogo entre a National Gallery e os seus visitantes, uma situação que não é lá muito bem aceite pelo seu interlocutor. Diga-se que "National Gallery" raramente descura esse diálogo entre o público e o museu, bem como entre os frequentadores deste espaço e as obras de arte, com Frederick Wiseman a procurar captar as diferentes faces, quer de homens e mulheres que vão sozinhos, quer de grupos de estudantes, quer de pessoas que vão pintar os seus desenhos tendo em vista a efectuar réplicas dos quadros, quer de casais de namorados, ou seja, existe uma procura em exibir este espaço e os seus visitantes na sua multitude.

O espaço do museu é exibido nas suas mais variadas vertentes, com o diálogo entre as obras e o público, bem como as exposições efectuadas pelos especialistas, a permitirem ainda muitas das vezes que as pinturas ganhem nova vida, com Frederick Wiseman a não se ficar apenas pela exposição das mesmas explorando também as possibilidades que as mesmas proporcionam. Não deixa no entanto de parecer óbvio que "National Gallery" beneficia imenso do acesso que Frederick Wiseman teve aos materiais mas também às próprias reuniões e situações internas associadas ao museu ao longo dos cerca de três meses que se encontrou a filmar no local. Veja-se a reunião onde se discutem os eventos que podem ser efectuados no local, colocando-se a hipótese de acontecimentos relacionados com caridade, ou a comemoração do Ano Novo Chinês, com alguns elementos a divergirem. Essa situação é notória quando é feita a comparação com os clubes de futebol que muitas das vezes efectuam publicidade a material e produtos associados ao desporto, com um dos indivíduos responsáveis pela administração a considerar que alguns eventos podem transmitir a ideia de que o museu está a necessitar avidamente de dinheiro. As dificuldades financeiras, ou melhor, os cortes a nível do orçamento do museu são ainda tema de uma reunião, com "National Gallery" a exibir as adversidades que algumas instituições ligadas à cultura conhecem para se "manterem vivas" e proporcionarem um serviço de qualidade aos seus clientes. Ainda no plano fora das obras de arte presentes nos diferentes espaços, assistimos a eventos como aulas de pintura, com uma modelo nua e posteriormente um modelo nu a pousarem para um conjunto de alunos e alunas que procuram expor a diferente interpretação que apresentam do corpo, com cada um a contar com um estilo muito distinto, algo revelador da capacidade individual de cada artista mas também da interpretação de cada ser humano. No espaço do museu, existe ainda a procura de preservar minuciosamente as obras, com "National Gallery" a deixar-nos diante do cuidado colocado no restauro das pinturas, com Frederick Wiseman a realizar aquele que é um triunfo cinematográfico, conseguindo simultaneamente transportar-nos para uma visita guiada a diversas vertentes deste museu ao mesmo tempo que cria um documentário interessantíssimo, recheado de informação preciosa, que tanto pode interessar aos elementos mais informados na matéria como a aqueles que desconheciam a mesma, exibindo a relevância destes espaços para a preservação de parte da nossa cultura. Este é também um documentário sobre as diferentes interpretações que podem ser dadas aos trabalhos artísticos, quer seja a pintura, quer seja o cinema, com "National Gallery" a colocar-nos diante da forma distinta destas formas de arte "dialogarem" com o público. Enquanto na pintura encontramos um quadro que nos oferece muito para interpretar e analisar, num filme como "National Gallery" temos quase três horas de material para apreciar, com Frederick Wiseman, um cineasta com um currículo bastante interessante, a exibir o seu olhar atento e observador, conseguindo desenvolver uma obra cinematográfica que procura respeitar o museu que retrata, bem como o trabalho que é efectudo no mesmo e a relevância que apresenta para a cultura e sociedade.

Ao longo de "National Gallery" não vão faltar exibições de obras de arte, excertos de conferências, meticulosos trabalhos de restauro, trechos do trabalho nos bastidores do museu, análises a pinturas de autores como Da Vinci, Turner, Vermeer, Caravaggio, para além da exposição do público que frequenta este espaço (vale ainda a pena mencionar a exibição de alguns visitantes nas longas filas de espera na zona exterior do museu), entre tantos outros elementos associados ao quotidiano da instituição do título. É também uma obra que explora a forma como a pintura foi encarada ao longo de parte da História, com os próprios curadores e guias a procurarem que o público tenha essa noção. Desde a pintura como retrato pessoal encomendado por indivíduos abastados, passando por obras relacionadas com a História, religião, mitos e lendas, muito é exposto ao longo do documentário, com "National Gallery" a associar o papel da pintura à História e vice-versa. Temos ainda longas explicações sobre o trabalho minucioso que envolve a manutenção e restauro das pinturas, tendo em vista a não deterioração das mesmas e a procura em respeitar ao máximo as obras originais. Nesse sentido, é particularmente impressionante ver a minúcia colocada nestes trabalhos, com Frederick Wiseman a captar os mesmos com enorme assertividade e capacidade de observação. O cineasta consegue ainda captar um conjunto de diálogos interessantes entre diversos elementos que povoam o museu, ao mesmo tempo que tenta exibir como funciona o mesmo no dia a dia, com "National Gallery" a transportar para o grande ecrã o meritório trabalho de alguns destes homens e mulheres que procuram preservar e dar a conhecer estas pinturas. O cineasta consegue dinamizar o documentário sem ter de utilizar recursos como a narração em off para expor alguns dos acontecimentos ou incluir informação adicional, tal como não conta com legendas a apresentar cada um dos elementos que são expostos ao longo de "National Gallery", parecendo procurar acima de tudo que o espectador preocupe-se em observar o funcionamento do museu, bem como a ligação entre a arte e a história, o trabalho efectuado nesta instituição, para além de exibir de forma dinâmica algumas das pinturas naquela que é uma obra cinematográfica bastante inspirada. Documentário de pleno interesse, informativo, relevante e capaz de expor a importância da instituição do título, "National Gallery" surge como uma obra cinematográfica capaz de nos proporcionar uma experiência única relacionada com um museu, com Frederick Wisemen a saber aproveitar e explorar o material à sua disposição e embrenhar-nos para o interior deste espaço.

Título original: "National Gallery".
Realizador: Frederick Wiseman.

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