24 junho 2015

Resenha Crítica: "Meshi" (Repast)

 "Meshi" coloca-nos diante um casal cujo matrimónio está longe de conhecer uma fase de maior fulgor. As finanças não são as melhores, a rotina que criou tornou-se enfadonha, enquanto os sonhos que tinha no início da relação parecem ter-se desvanecido com o passar do tempo. Este casal é formado por Michiyo (Setsuko Hara) e Hatsunosuke Okamoto (Ken Uehara). No início do filme, esta relata-nos que se conheceram em Tóquio, tendo posteriormente mudado para Osaka, em particular para um bairro do lado sul da cidade devido ao seu marido, um individuo que trabalha numa empresa ligada ao mercado financeiro, ter sido transferido para o território. Estamos em pleno pós-Guerra. A crise parece ser latente e visível quer em situações como o desemprego, a falta de dinheiro, os roubos e insegurança que dominam o território, quer na referência directa às casas que foram construídas à pressa em Tóquio após os bombardeios durante a II Guerra Mundial. Estamos diante de um território entre a modernidade e a tradição, onde assistimos a elementos a lidarem com acções da banca, a frequentarem bares que parecem saídos dos filmes de Hollywood, mulheres a vestirem fatos ao modo ocidental, mas também valores familiares muito ligados ao passado e às tradições, tais como o papel considerado inferior da figura feminina, vista quase sempre como uma dona de casa que tem de cuidar do lar, os quimonos em algumas personagens femininas, entre outros. Michiyo passa os seus dias em casa a cuidar das lides domésticas, com o seu quotidiano a ser marcado por gerir as contas, fazer as refeições, limpar a casa e cuidar do seu gato de estimação, o único elemento que lhe parece retribuir o afecto. Hatsunosuke pouco parece ligar à esposa, incluindo quando está à mesa, algo visível quando pega no jornal durante a refeição ou mostra pouca atenção aos diálogos de Michiyo. Este casal, tal como vários dos personagens que povoam o enredo dos filmes de Mikio Naruse, encontra-se a lidar com dificuldades financeiras, com o dinheiro a ser algo de muito relevante para estes elementos, algo notório nas dificuldades que têm em comprar arroz, mas também em investir em peças de vestuário ou em saídas para o lazer. A complicar a situação destes dois encontra-se a chegada de Satoko (Yukiko Shimazaki), a sobrinha de Hatsunosuke, uma jovem de vinte anos de idade que decide sair de Tóquio e fugir temporariamente de casa dos pais de forma a repensar a ideia do casamento que os progenitores tinham planeado para si. Satoko expõe uma falsa ingenuidade, surgindo como uma jovem que desperta a atenção dos homens, incluindo do seu tio, apresentando um tempo para se arranjar e dedicar a si própria que Michiyo não possui. A presença de Satoko e a proximidade desta com Hatsunosuke parecem incomodar a protagonista, sobretudo a forma como a jovem se insinua a este, bem como a possível amizade desta com Kanazawa, uma prostituta que mora em frente à habitação do casal. A povoar este bairro onde habitam os protagonistas encontra-se ainda Taniguchi, uma senhora já para os seus cinquenta anos, conservadora, que deseja ardentemente que Yoshitaro, o seu filho, comece a trabalhar, algo que parece estar complicado. Yoshitaro demonstra desde logo o seu interesse em Satoko, embora a mesma não pareça levar muito a sério os desejos do jovem que, mesmo não tendo muito dinheiro, procura dar-lhe presentes e disponibilizar uma enorme atenção. A chegada de Satoko vem ainda exibir o quão distantes se tornaram Hatsunosuke e Michiyo, algo latente quando o primeiro decide efectuar uma viagem turística de autocarro pelas zonas mais conhecidas de Osaka com a jovem e a esposa, embora esta última decida ficar em casa. A viagem de autocarro permite expor as dicotomias desta cidade de Osaka, entre os locais históricos e os edifícios ligados à modernidade como o Mercado de Acções, expostos pela guia turística no autocarro, uma mulher com uma voz peculiar que facilmente se torna alvo de troça de Satoko.

 Satoko é uma jovem ainda indecisa em relação à vida. Quer ser bailarina, não sabe se deve casar por amor ou dinheiro, apresenta vestimentas muitas das vezes ocidentalizadas, despertando uma certa atracção por parte de Hatsunosuke, embora este nunca avance para nada de físico com a sobrinha. Perante o crescente afastamento do esposo, Michiyo decide tomar medidas drásticas e regressar temporariamente para casa da sua mãe e irmã em Tóquio, indo acompanhada por Satoko, com a jovem a decidir também regressar à sua habitação. No comboio encontra-se ainda Kazuo (Hiroshi Nihon'yanagi), o primo de Michiyo, um banqueiro de fino trato que sempre apresentou interesse por esta mulher. Em Tóquio esta conhece algum descanso, dialoga com Kazuo numa das célebres caminhadas fundamentais nos filmes de Mikio Naruse, ao mesmo tempo que conhece alguma tensão com o cunhado a partir do momento em que Satoko aparece inesperadamente nesta casa. Na cidade de Tóquio esta contacta ainda com Matsu, a sua mãe, interpretada pela sempre carismática Haruko Sugimura, uma actriz que colaborou por diversas vezes com Yasujiro Ozu, procurando aconselhar a sua filha em relação a toda esta situação. Por sua vez, em Osaka, Hatsu (como Hatsunosuke é conhecido por vários personagens), procura também não trocar correspondência com a esposa e mostrar-se forte, recebendo pelo caminho uma visita de Dohya (Ranko Hanai), uma amiga desta, bem como de Kanazawa, embora pareça aos poucos sentir a falta de Michiyo. Mikio Naruse termina "Floating Clouds" com a seguinte frase: "A vida de uma flor é muito curta. É por isto que ela deve ser apreciada imediatamente". Este é um conselho que Hatsu também deveria seguir, com Mikio Naruse a deixar-nos mais uma vez perante os problemas familiares e a complexidade das relações humanas tão típicas das suas obras, enquanto nos coloca perante um casal que se vai afastando gradualmente e necessita de reavaliar o estado em que se encontra a sua relação. Antes da partida da esposa ainda assistimos Hatsu a ir frequentar um clube nocturno na companhia de Marugaki, um elemento pouco confiável, bem como de um colega de trabalho, com estes dois últimos a pretenderem que o protagonista invista num negócio duvidoso, chegando a casa completamente bêbado, tendo de ser transportado até à sua habitação por Kanazawa. Já Michiyo, uma das poucas saídas que tem é para se reunir com as suas antigas colegas, utilizando um discreto fato ocidental, num dos poucos momentos de descontração que tem em relação às lides domésticas. Entre as colegas encontra-se Dohya, a solteirona do grupo, uma mulher algo atrapalhada mas prestável, que fica com a protagonista praticamente até ao anoitecer. Quando regressa a casa, Michiyo depara-se com o jantar por fazer, com Satoko a não ter tratado de nada, enquanto o esposo aguarda que esta trate de tudo. No início do filme, Michiyo bem tinha dito que a sua rotina passava por servir "tigelas de sopa, arroz, entre outras", salientando que "a maior parte da vida de uma mulher é gasta na rotina de uma cozinha e de uma sala de jantar". Esta rotina começa a causar uma enorme erosão na relação, embora pareça certo que ambos os cônjuges nutrem sentimentos um pelo outro. Setsuko Hara, uma das actrizes mais relevantes e talentosas da História do Cinema Japonês, consegue explanar as indecisões que assolam a sua personagem, ao mesmo tempo que transmite uma certa candura e sobriedade muito típica desta actriz. Diga-se que é mais uma personagem feminina de Mikio Naruse que se encontra muito ligada à figura masculina, por vezes pronta a fazer sacrifícios e demasiado ligada à tradição, embora nem por isso deixe de questionar a relação, com "Meshi" a deixar-nos perante o retrato de um casamento que conhece uma fase menos positiva. Estes não têm filhos, os laços que os unem parecem cada vez mais ténues, com os comportamentos de Hatsu a não ajudarem. Ken Uehara surge como mais um protagonista das obras de Mikio Naruse que nem sempre valoriza devidamente a figura feminina. Veja-se o já citado caso de "Floating Clouds", mas também o próprio "When a Woman Ascends the Stairs" no qual a protagonista é muitas das vezes mais alvo de desejo do que de amor. Em "Meshi" assistimos ao questionar do matrimónio por parte de um casal que outrora fora feliz e cheio de sonhos e, agora, depara-se com a dura realidade de uma rotina nem sempre gratificante, embora todos pensem que estes vivem de forma feliz devido a serem um caso em que o matrimónio foi contraído devido a amor mútuo. 

 Mikio Naruse é um cineasta capaz de atribuir alguma complexidade e densidade psicológica aos seus personagens e aos relacionamentos que mantêm. Não são apenas estes dois elementos que estão em crise mas quase todo o Japão que se procura reerguer no período do pós-Guerra, podendo até existir um paralelismo, ainda que com muitas reticências, pelo meio, entre este casal e o território. Ambos procuram conciliar o passado e as mudanças do presente, ambos necessitam de se reerguer, ambos atravessam uma crise. Veja-se a dificuldade do jovem Yoshitaro em conseguir emprego, bem como a longa fila no centro de emprego em Tóquio com a qual Michiyo se depara, para além das dificuldades monetárias de vários personagens, as menções à enorme flutuação das acções da bolsa, entre vários outros exemplos já assinalados. O dinheiro e a falta dele é uma das temáticas associadas a várias obras de Naruse, bem como a forma como as transformações no território afectam alguns dos seus personagens, algo notório em filmes como "Older Brother, Younger Sister", "Floating Clouds", entre outros, tal como acontece ao longo de "Meshi". Os próprios espaços de Osaka que nos são apresentados remetem para essas assimetrias sociais, com o local onde vivem os protagonistas a surgir como um território pouco vistoso que contrasta com os luxos do Cabaret Centre Metro, um clube nocturno onde não faltam bailarinas, acompanhantes, álcool, divertimento, remetendo muito para um espaço ocidentalizado. Diga-se que aqui assistimos também a um luxo ilusório que até pode inicialmente deixar o protagonista impressionado, mas não é um local para a sua bolsa. Hatsu é um indivíduo complicado. Por um lado parece desprezar a esposa, por outro é notório que sente a sua falta quando a mesma se ausenta. Por sua vez, Michiyo parece inicialmente aliviada pela falta de tarefas domésticas em Tóquio, dormindo imenso, mas aos poucos também parece começar a sentir falta do esposo. Ambos não trocam correspondência um com o outro, algo que exibe o quão complicada encontra-se esta relação matrimonial. Existe alguma casmurrice mas também a necessidade de reavaliar o estado em que se encontra a relação e os sentimentos que nutrem um pelo outro, naquela que é a primeira de cinco adaptações cinematográficas de livros de Fumiko Hayashi realizadas por Mikio Naruse. A imiscuir-se na relação encontra-se a presença de uma jovem interpretada com a sagacidade e à vontade necessários por Yukiko Shimazaki, com esta a ser capaz de incutir uma mescla de jovialidade, capacidade de seduzir os homens e irreverência típica da juventude na personagem, uma jovem impulsiva que permite a Mikio Naruse utilizá-la como um dos instrumentos para adensar ainda mais a crise da dupla de protagonistas. O cineasta explora assim com algum realismo e complexidade a relação de um casal que atravessa uma fase mais complicada, ao mesmo tempo que aborda as mudanças em Osaka e Tóquio na fase do pós-Guerra, sempre num estilo muito próprio, marcado por uma enorme humanidade e atenção aos pequenos pormenores que marcam o quotidiano dos seres humanos. Os planos são compostos com cuidado, os sentimentos expostos com alguma restrição, o contexto histórico é inserido de forma sagaz no enredo, as relações humanas exploradas com a devida complexidade, a narração na primeira pessoa permite acrescentar algo ao enredo, o dinheiro ou melhor a falta dele surge como fundamental no quotidiano dos protagonistas, para além da habitual capacidade de Mikio Naruse em extrair o que de melhor o seu elenco tem para dar, numa obra cinematográfica bastante recomendável.

Título original: "Meshi".
Título em inglês: "Repast".
Realizador: Mikio Naruse. 
Argumento: Yasunari Kawabata, Toshirō Ide, Sumie Tanaka.
Elenco:  Setsuko Hara, Ken Uehara, Yukiko Shimazaki.

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