09 junho 2015

Resenha Crítica: "Mekong Hotel"

 Toda a crítica está sujeita a uma interpretação pessoal por parte de quem a escreve. Podemos concordar mais com uns críticos do que com outros, apresentarmos uma maior identificação com os textos de pendor crítico de um ou outro blogger ou elementos de sites, mas existe quase sempre alguma subjectividade a rodear as críticas. No caso de "Mekong Hotel" essa situação é sobretudo notória quando muitas das vezes percebemos que a única certeza que temos em relação ao filme é não ter certezas, com Apichatpong Weerasethakul a criar algo que tem tanto de estimulante como de oblíquo, como de frustrante. "Mekong Hotel" procura e consegue esgueirar-se entre as barreiras do documentário e da ficção, sem que se situe especificamente num género, enquanto proporciona ao espectador uma história que muito tem de Apichatpong Weerasethakul, onde o realismo, a fantasia e o misticismo tomam lugar e parecem pertencer ao mesmo mundo. No início do filme, encontramos o cineasta a falar com um guitarrista sobre os acordes da música, com "Mekong Hotel" a ser marcado por ritmos musicais que parecem simbolizar e muito o fluir das águas do rio que deu nome ao hotel do título, com este a fazer regularmente parte do cenário. O rio é um dos maiores do sudeste asiático percorrendo territórios como o Laos e a Tailândia, com a mesma facilidade com que "Mekong Hotel" deambula por diferentes géneros, por vezes de forma meio oblíqua que torna a obra cinematográfica num interessante exercício embora por vezes pareça notório que Apichatpong Weerasethakul exibe uma pretensão elevada que nem sempre se traduz no trabalho final. Uma dessas situações que não funcionam é particularmente notória na utilização da banda sonora, inicialmente bela, posteriormente irritante até um ponto onde já não podemos mais ouvir a mesma, com esta a ter pouco a acrescentar a momentos que conviveriam melhor com o silêncio. A narrativa, se é que se pode falar de algo que se pareça em "Mekong Hotel", pode ser dividida em duas vertentes principais: na primeira encontramos "Joe" (alcunha pela qual Apichatpong Weerasethakul não se importa ser tratado para evitar gralhas ou a má pronúncia do nome), acompanhado pelo guitarrista, a preparar a banda sonora de "Ecstasy Garden", um projecto engavetado que não sairia do papel. "Joe" aparece no filme, bem como o já citado guitarrista, para além de actores e actrizes que já colaboraram anteriormente com o realizador, entre os quais Jenjira Pongpas, Maiyatan Techaparn e Sakda Kaewbuadee. Nesse sentido vamos assistir a algumas conversas entre estes elementos, embora em alguns momentos fiquemos na dúvida se estes estão a falar como uma versão ficcional de si próprios ou se pura e simplesmente estão a interpretar os personagens ficcionais de "Ecstasy Garden". Parte do enredo de "Mekong Hotel" é composto maioritariamente por fragmentos de "Ecstasy Garden", filmados pelos elementos do elenco já mencionados, com os momentos em que estes se encontram fora dos personagens a nem sempre serem totalmente perceptíveis. A ficção junta-se com a realidade e a fantasia, com o rio que percorre o espaço exterior ao hotel a parecer o elemento mais real, bem como algumas sensações despertadas e os comentários sobre as cheias de 2011 na Tailândia, com Tong (Sakda Kaewbuadee) a encontrar Phon (Maiyatan Techaparn) no terraço do cenário principal, dialogando amenamente com esta, até falar que o seu cão foi esventrado por uma "pob", algo que consiste num fantasma carnívoro.

Tong pretende vingar-se deste demónio, tendo um vaso de barro benzido por um monge que pretende utilizar contra a "pob" ao armazenar o espírito da mesma. Esta "pob" é Jen (Jenjira Pongpas), a mãe de Phon, uma situação visível quando a encontramos a ingerir as vísceras da filha, após lamentar junto da mesma esta sua condição, com a ficção a rodear o real, um pouco a fazer recordar o que "Joe" tinha efectuado em "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores". Em "Mekong Hotel" deixamos de estar no plano exclusivo da ficção e entramos num híbrido que mescla documentário ou falso documentário com fantasia, ilusão e alguns comentários do foro político e social. Esses comentários do foro político e social são visíveis no discurso de Jenjira Pongpas, com esta a salientar a vinda de elementos oriundos do Laos para a Tailândia, após a guerra civil no primeiro país (algo já exposto em "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores" através da personagem interpretada por Pongpas, com esta a exibir algum preconceito em relação aos funcionários do personagem do título devido a serem oriundos do Laos). Esta situação conduziu à construção de campos de refugiados, algo que despertava algum ciúme por parte dos locais devido a estes imigrantes ilegais terem direito a condições que muitos habitantes não tinham, algo comentado por Jenjira Pongpas. Diga-se que este rio, que aparentemente une ambos os territórios, acaba também por definir uma barreira entre ambos, com "Joe" a salientar isso no press kit: "This place that we shot Mekong Hotel is a border town between Thailand and Laos. Both countries had seen big changes in the 60s-70s with the invasion of Communism. People used to be able to commute between the two countries easily, but after the civil war in Laos, it became a mysterious country, semi-isolated. The Mekong River is no longer a bridge, but a barrier. Prejudice towards Lao people grew in central Thailand and in the media. I guess because of this isolation and the wayward nationalism in Thailand". Este nacionalismo é ainda visível quando Jenjira ou a versão ficcional da mesma salienta que quando tinha cerca de catorze ou quinze anos de idade, o exército "implantou o amor pela nação, pela comunidade", algo que resultou num treino militar aos civis e no armamento dos mesmos. O press kit é ainda essencial para em parte compreendermos os fragmentos de "Ecstasy Garden" e talvez espelhe ainda mais que a exposição das ideias por parte de "Joe" não foi a melhor, ou que talvez tentarmos compreender as suas ideias não é o caminho ideal para apreciarmos totalmente o filme, com "Mekong Hotel" a pedir acima de tudo para ser sentido. É certo que este consegue muitas das vezes colocar o espectador a pensar, a colocar a sua imaginação a trabalhar e a explorar os seus sentidos, mas também não deixa de ser notório que as filmagens, ou a história de "Ecstasy Garden" surgem de tal forma fragmentadas que acabam por perder algum efeito do fantástico que pretendem provocar. A cena em que assistimos a mãe a comer as vísceras da filha é poderosíssima, tal como o reencontro do espírito desta última ou uma versão distinta da mesma com o homem que ama, com este a salientar já ser casado e a falar sobre a reencarnação.

Os espíritos que regressam, divagações sobre a reencarnação e os seres místicos são comuns nas obras de "Joe", algo para o qual basta recuarmos a "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores". No entanto, "Mekong Hotel", não deixa de despertar algum travo agri-doce ao sabermos que "Joe" tinha material e potencial para muito mais, com a sua procura excessiva em deixar muito para o espectador discernir a ser um elemento que serve mais para atirar o mesmo para fora da narrativa (a não ser um fã acérrimo e completamente fanático que adore tudo o que o cineasta elabore). A própria história de "Ecstasy Garden" parecia claramente algo de interessante, com "Joe" a explicar a mesma no press kit: "It focuses on a mother-daughter relationship through several centuries. The mother is of a vampire-like species from another planet who lives in Thailand’s north-east. In the story, the daughter was in love with a teenage man whose family owned a banana plantation. She did not realise her mother was a ghost. This ghost was like a vampire: it ate raw human and animal flesh. She kills and eats her own daughter while the daughter is at the height of her romance. Later, the mother’s alien spirit is kept in a clay pot underwater. Meanwhile, the daughter’s spirit keeps following her man in his various reincarnations, in different countries. All along the mother and daughter communicate telepathically". A relação ficcional entre esta mãe e filha é explorada sobretudo a partir da simbologia, com o momento em que a primeira se alimenta da segunda a ser perturbador e marcante, mas que até pode remeter para um território que se encontra a alimentar em demasia do passado ao invés de olhar em frente. Phon e a mãe ainda vão ter alguns momentos de diálogos depois deste episódio, remetendo para a possibilidade de estarmos diante de dois espíritos. Os momentos entre Phon e Tong facilmente sobressaem. Estes permitem explorar temáticas queridas a "Joe" relacionadas com a  alma e a transferência da mesma para outros corpos após a morte ou até durante a vida (veja-se quando a alma de Jen apodera-se de Tong), algo exposto por Tong no último terço de "Mekong Hotel". Phon e Tong reúnem-se por vezes no terraço do hotel, com o rio a fazer parte do pano de fundo devido ao território encontrar-se alagado, uma situação inerente às cheias. O rio parece movimentar-se calmamente. Os sentimentos destes personagens ficcionais têm de avançar rapidamente. Descobrem os seus nomes, tal como sabemos da intenção de Tong em vingar-se de Jen, enquanto assistimos a fragmentos documentais, tais como "Joe" com o guitarrista, mesclados com elementos ficcionais como a personagem interpretada por Jenjira Pongpas, uma colaboradora habitual do cineasta, a refastelar-se com vísceras humanas.

Os próprios momentos iniciais colocam-nos com situações como o intérprete de Tong a escolher a roupa a utilizar para interpretar o personagem, para além de posteriormente encontrarmos Jenjira Pongpas a falar sobre o seu namorado fora do âmbito da ficção ou talvez no interior da mesma, entre outras conversas, com "Joe" a deixar-nos durante as filmagens de uma obra cinematográfica que nunca ficou concluída e trechos do que seria a mesma, num híbrido que tem tanto de estranho como de capaz de despertar alguma da nossa atenção para o interior desta docu-ficção. Assistimos aos tempos "mortos" entre as filmagens, bem como a fragmentos da história de ficção que se encontra a ser filmada, enquanto Chai Bhatana vai afinando acordes e treinando a banda sonora com a sua guitarra. Pelo meio temos na televisão notícias sobre as inundações e comentários do foro político, mas também a exibição dos cenários externos através de alguns longos planos das obras que se encontram a decorrer no espaço exterior ao hotel, para além de um plano de longa duração onde ficamos com a presença de elementos a efectuarem esqui aquático no rio. Entre a ficção e o documentário, "Mekong Hotel" revela-se um exercício de estilo interessante ao longo dos seus cerca de sessenta minutos de duração, embora sobressaia sempre mais pelas suas ideias e pela forma como apela ao estimular dos sentidos do espectador do que pela colocação das mesmas em prática, algo que soa a pouco se tivermos em conta que este é o mesmo realizador capaz de elaborar obras cinematográficas tão estimulantes e envolventes como "O Tio Boonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores".

Título original: "Mekong Hotel". 
Realizador: Apichatpong Weerasethakul.
Argumento: Apichatpong Weerasethakul.
Elenco: Jenjira Pongpas, Maiyatan Techaparn, Sakda Kaewbuadee, Chai Bhatana.

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