14 junho 2015

Resenha Crítica: "Madame Bovary" (2014)

 Sem chama, sem carisma, sem relevância, sem alma, a nova adaptação cinematográfica de "Madame Bovary" surge embalada num invólucro bonito e arrumadinho mas no final deixa-nos uma sensação semelhante à de uma criança que abrira um embrulho belíssimo que no seu interior continha um par de meias quando lá no fundo esperava um jogo de computador (daqueles que tanto irritam o João Lopes nas suas críticas aos blockbusters). Desde Vincente Minnelli, passando por Claude Chabrol, vários realizadores adaptaram a obra literária homónima de Gustave Flaubert ao grande ecrã, com "Madame Bovary" a procurar trazer uma nova perspectiva que fica quase sempre na sombra dos exemplos citados, sobretudo em relação ao trabalho do segundo, com Sophie Barthes a pouco acrescentar, revelando alguma incapacidade em explorar as relações entre os personagens, ou pelo menos em dar tempo para desenvolver os mesmos. É certo que existe todo um cuidado notório na elaboração e aproveitamento dos cenários (exteriores e interiores) e do guarda-roupa, mas fica sempre a faltar um argumento que consiga atribuir maior densidade aos episódios da narrativa e uma maior química entre os actores e actrizes, parecendo que apenas Rhys Ifans trouxe a lição estudada de casa. Ifans interpreta Monsieur Lheureux, um indivíduo responsável por comercializar as roupas e objectos de decoração da casa de Emma Bovary (Mia Wasikowska), com esta mulher a deixar-se gradualmente envolver nos luxos propostos por este homem de personalidade fria, aparentemente de fino trato, que não se importa de vender fiado mas também não tem problemas em arruinar aqueles que ficam em dívida. Após um breve prólogo onde encontramos Emma em desespero, no bosque, a narrativa logo recua para a protagonista num convento de freiras onde tem uma educação rígida, na qual é educada para reprimir algo que não parece conseguir conter: as suas emoções (na teoria, já que Mia Wasikowska não consegue convencer do carácter errático da personagem que interpreta). Esta acaba por se casar com Charles Bovary (Henry Lloyd-Hughes), um médico de província, uma expressão que Emma detesta, que pouco tem em comum com a esposa, com esta a facilmente entediar-se com o quotidiano na sua casa em Yonville. A incompatibilidade entre estes dois elementos fica desde logo latente na primeira noite que passam em conjunto, com Emma a ter de pedir para o esposo a ajudá-la a despir-se, seguindo-se uma relação sexual marcada por pouco ou nenhum erotismo, algo que evidencia bem a personalidade apagada e pouco expedita de Charles, com este a não compreender totalmente a mulher com quem contraiu matrimónio. Emma mostra-se algo incomodada com a incapacidade do esposo em dialogar, bem como com a sua falta de ambição e refinamento cultural e a nível do gosto, com ambos a parecerem ter aspirações distintas para o futuro. Numa saída, onde conhece elementos como Monsieur Homais (Paul Giamatti), o farmacêutico local, Leon Dupuis (Ezra Miller), um solicitador que apresenta uma sensibilidade muito distinta de Charles, Emma parece ter o primeiro trago de um mundo novo que não encontra em casa. Leon é um apreciador de viagens e de arte, tal como Emma, com ambos a acabarem por ter um breve romance que raramente nos convence, com Mia Wasikowska e Ezra Miller a não terem a mínima química, algo que pode ser alargado aos casos que a personagem interpretada pela primeira mantém.
 
Mia Wasikowska surpreende pela negativa ao apresentar muitas das vezes alguma incapacidade em exprimir as inquietações da personagem que interpreta, parecendo sempre muito artificial, incluindo no caso extra-matrimonial que Emma mantém com Leon e Monsieur le Marquis (Logan Marshall-Green), dois homens que representam figuras opostas ao esposo, com o primeiro a surgir como um elemento mais sensível, poético e viajado, enquanto o segundo como alguém pouco dado a cumprir as regras, financeiramente abastado e incapaz de assumir uma relação a sério. Emma conhece Monsieur le Marquis quando o mesmo desloca-se a casa de Charles, com este a convidar o casal a participar numa caçada na sua propriedade. Este evento surge desde logo como uma forma de Emma exibir as suas novas e luxuosas roupas, com o guarda-roupa da protagonista a remeter para a crescente ambição e deslumbramento da mesma. Existe sempre uma procura de associar o guarda-roupa ao estado de espírito e ambições da protagonista, algo propositado, como salientou Sophie Barthes em entrevista ao site da Empire: "Every dress has a psychological weight, as she starts with the plain dresses and then after meeting important people she starts to wear heels and the colours start to flash. There is a red dress patterned with broken lines over flowers, for example, to show her fragmentation". A própria casa da protagonista passa a ser dotada de uma decoração que evidencia essa ambição crescente de Madame Bovary, algo que até vai contra a simplicidade do esposo. Henry Lloyd-Hughes tem uma interpretação tão apagada como a personalidade do personagem que interpreta, um médico que é convencido pela esposa e Homais a operar Hippolyte (Luke Tittensor), um indivíduo que padece de um problema no pé cujo tratamento pode ter efeitos imprevisíveis. A operação requer cuidados especiais e riscos que Charles não parece estar disposto a correr, embora aceda a efectuar a mesma, enquanto aos poucos vê a sua esposa a ser consumida pelos luxos do crédito fácil e a iludir-se com casos extra-matrimoniais sem grande futuro. Leon acaba por partir para Rouen, apesar da dupla ainda reencontrar-se, enquanto o personagem interpretado por Logan Marshall-Green (o actor que se chama quando não se consegue contratar Tom Hardy) parece ter nesta um troféu de caça semelhante aos animais que persegue na sua propriedade. Em comum, Ezra Miller e Logan Marshal-Green apresentam uma dinâmica pouco convincente com a protagonista, algo inerente não só ao argumento atribuir pouca espessura a estes elementos secundários, sobretudo em relação ao segundo, mas também devido a Mia Wasikowska nunca convencer na faceta mais sedutora de Emma, com a actriz a parecer muitas das vezes revelar uma impassibilidade que não contribui para acreditarmos nos dilemas vividos pela personagem que interpreta. É certo que Emma é uma mulher complexa e ambiciosa, levada pelos desejos e pela ambição, que engana e se deixa enganar, que se sente asfixiada por este território provinciano (filmado com acerto), mas a actriz não nos consegue convencer do encanto que esta é capaz de despertar junto dos homens, nem criar uma empatia mínima para que nos preocupemos com o destino da mesma, com Sophie Barthes a também não contribuir para esta situação.

A estrutura algo episódica, apressada e mal amarrada, de "Madame Bovary" não ajuda, com Sophie Barthes a procurar explorar temáticas como a incompatibilidade que Emma tem com o esposo, o constante tédio que assola a vida da protagonista, o gosto que esta começa a sentir pelos luxos, o contraste entre os desejos desta e a facilidade com que se deixa enganar, entre outras, nem sempre abordadas com a assertividade desejada, com o elenco a dificultar um pouco a tarefa. Quem mais sobressai ao longo da narrativa é Rhys Ifans como o manipulador Lhereux, com o actor a atribuir uma enorme ambiguidade e malícia ao personagem que interpreta, um lobo em pele de cordeiro que procura ganhar o máximo possível com as suas negociatas, naquela que até pode servir para uma crítica ao acesso desmedido ao crédito e às consequências perniciosas do mesmo. Lhereux ganha uma enorme influência junto de Emma, com esta mulher a procurar fugir ao tédio mas a não conseguir que tenhamos um sentimento distinto em relação a esta nova adaptação cinematográfica do livro de Gustave Flaubert. Sophie Barthes sabe filmar, demonstra atenção a pormenores como o aproveitamento dos cenários e do guarda-roupa, mas esquece-se muitas das vezes de ter a mesma argúcia a abordar o relacionamento dos personagens e as temáticas. Não é que em alguns momentos "Madame Bovary" não funcione, mas gera demasiada indiferença para conseguir deixar marca, com o argumento a não conseguir atribuir a densidade e complexidade necessárias aos relacionamentos. No entanto, a maior desilusão é mesmo Mia Wasikowska, com a actriz (geralmente com interpretações de relevo) a não conseguir explorar com eficiência as diferentes vertentes da personagem que interpreta. É certo que convence em relação ao tédio de Emma, bem como à sua incompatibilidade com o esposo, mas fica a faltar algo que nos convença que esta é uma figura que tanto é capaz de seduzir os homens como de ser seduzida, que acaba muitas das vezes por ficar a perder em relação ao destino. Diga-se que a actriz não é a única culpada, com Sophie Barthes a muitas das vezes parecer pouco preocupada em desenvolver os relacionamentos no tempo certo, retirando peso aos acontecimentos ao tratar muitos dos eventos de forma apressada. Veja-se como recebemos a notícia da morte do pai de Charles mas pouco sentimos a mesma já que o personagem até então não fora apresentado, nem sabíamos que o esposo da protagonista tinha uma ligação forte ao progenitor, algo que fica ainda notório na forma como personagens como Marquis e Leon entram e saem da narrativa com enorme facilidade. Temos ainda a presença de elementos como Henrietta (Laura Carmichael), a governanta da casa de Charles, e Emma, com Laura Carmichael a ter pouco espaço para sobressair, algo que acontece também com Paul Giamatti, com "Madame Bovary" a apresentar uma frivolidade semelhante a alguns dos desejos da protagonista. Sophie Barthes pode ser bem intencionada nos seus propósitos, mas não consegue incutir chama a um filme que tinha material para muito mais do que aquilo que proporciona ao espectador. 

Título original: "Madame Bovary". 
Realizadora: Sophie Barthes.
Argumento: Sophie Barthes e Rose Barreneche.
Elenco: Mia Wasikowska, Henry Lloyd-Hughes, Paul Giamatti, Ezra Miller, Rhys Ifans.

3 comentários:

KDOfficial disse...

Perfeita crítica!! Concordo!

Alexandre Marcello de Figueiredo disse...

Realmente faltou "chama" ao filme.

Lúcia Leiro disse...

Um filme mais introspectivo do que a versão francesa, mas nem por isso pior. Uma leitura de outra perspectiva.