16 junho 2015

Resenha Crítica: "Jurassic World" (Mundo Jurássico)

 "Jurassic World" cumpre o sonho de John Hammond (Richard Attenborough) em "Jurassic Park" ao apresentar-nos a um parque com dinossauros amplamente visitado por seres humanos, apesar de no primeiro filme este desiderato não ter ficado completo, com este espaço a nunca reunir as condições para abrir ao público. Hammond queria que o parque estivesse disponível para todo o tipo de público, algo que parece ter sido conseguido em "Jurassic World", que se desenrola vinte e dois anos depois do filme original, com a relação entre humanos e dinossauros a parecer quase tão normal como encontrar alguém vestido de Pato Donald na Disneyland. Sem conseguir repetir o sentimento de deslumbramento provocado pelo primeiro filme, mas claramente superior em termos de emotividade e até de argumento em relação às duas sequelas directas de "Jurassic Park", este quarto capítulo da franquia tem tanto de previsível como de surpreendente, ao mesmo tempo que deixa intactos diversos elementos da saga. Não falta a situação que facilmente fica fora de controlo quando tudo parecia seguro (algo inerente ao primeiro filme, embora em "The Lost World: Jurassic World" os planos também saiam ao lado), algum suspense e terror, aventura e humor, mas também a presença de jovens que procuram estabelecer laços com familiares ou contam com progenitores com relacionamentos complicados, com Colin Trevorrow a conseguir provar que consegue aguentar-se com voos mais altos após ter elaborado o simpático "Safety Not Guaranteed". É certo que "Jurassic World" está longe de apresentar personagens com uma densidade acima da média, tal como se encontra distante de tratar os protagonistas como meros acessórios, numa obra cinematográfica que procura simultaneamente efectuar um comentário sobre a sociedade actual e o próprio cinema (tudo tem de ser em maior escala e mais barulhento para chamar à atenção), e exibir a ambição do seu cineasta, com Colin Trevorrow a procurar manter as referências deixadas por Steven Spielberg no primeiro filme da saga mas também a ir buscar elementos tão improváveis como a muito falada homenagem a "The Birds" de Alfred Hitchcock, com os pássaros a serem trocados por pterossauros e o ambiente a ser de enorme inquietação. "Jurassic Park" estreara originalmente a 10 de Junho de 1993, enquanto "Jurassic World" teve a sua estreia nos Estados Unidos da América a 12 de Junho de 2015, existindo "The Lost World: Jurassic Park" e "Jurassic Park III" pelo caminho, mas também uma série de inovações a nível de efeitos especiais e de obras cinematográficas que tornavam praticamente impossível impressionar o espectador da mesma forma que o filme realizado por Steven Spielberg conseguira (o primeiro da franquia). Nesse sentido, "Jurassic World" aproveita a brecha deixada pelo primeiro filme inerente ao facto dos dinossauros conterem ADN de outras espécies para poderem ser criados, tendo em vista a apresentar-nos ao Indominus Rex, uma espécie híbrida, que mescla genes de Tyrannosaurus, Velociraptors, entre outros, algo que resulta numa criatura monstruosa que promete trazer consigo muita destruição. O Indominus Rex foi criado para ser uma das novas atracções do parque, a mando de Simon Masrani (Irrfan Khan), o CEO da Masrani Corporation e dono do Jurassic World, um parque administrado por Claire Dearing (Bryce Dallas Howard).

 Claire é uma executiva fria, pronta a pensar nos números e pouco preocupada com os animais que se encontram no parque, surgindo como uma figura dicotómica de Masrani, com este último a apresentar um entusiasmo semelhante a John Hammond, procurando que o parque sirva como um exemplo para demonstrar o quão pequenos podem ser os seres humanos diante da Natureza (neste caso uma Natureza artificialmente criada pelo Homem, algo que também tinha acontecido em "Jurassic Park"). Diga-se que vários personagens parecem conter características dos elementos de filmes anteriores: Claire apresenta uma faceta pragmática e pouco dada a crianças semelhante ao personagem interpretado por Sam Neill; Masrani partilha um entusiasmo parecido ao de John Hammond; Vic Hoskins (Vincent D'Onofrio) é o chefe de segurança da InGen, um indivíduo que parece não ter problemas em utilizar dinossauros contra dinossauros que apresenta uma personalidade detestável e relativamente unidimensional, com a sua falta de sensibilidade para com estes seres a fazer recordar Roland Tembo (Pete Postlethwaite), um caçador, em "The Lost World: Jurassic Park", entre outros exemplos. A unir o primeiro e o quarto filme da saga encontra-se ainda Dr. Henry Wu (B.D. Wong), o líder da equipa de engenheiros genéticos que criou os dinossauros do parque. Este surge como uma figura que parece pouco preocupada com as consequências relacionadas com as invenções efectuadas. A criação do Indominus Rex é exemplo disso, com vários dos elementos a pensarem que este encontra-se contido de forma segura, um erro muito semelhante ao que acontecera no primeiro filme onde se pensava que tudo estava controlado, confirmando mais uma vez a capacidade do ser humano em cometer as mesmas falhas, independentemente de estar previamente avisado. Nesse sentido, vamos ter uma situação semelhante à do primeiro filme, mas mais "musculada" em termos de acção, embora, com excepção de Henry Wu, todos os personagens sejam novos, tal como a realidade dos anos 90 é, para o bem e para o mal, distinta daquela que encontramos actualmente. A banda sonora é evocativa de vários dos temas sonoros de "Jurassic Park", com Colin Trevorrow a saber utilizar a mesma quer para despertar encanto nos novos espectadores, quer para trazer um certo sentimento de nostalgia para o pessoal da "velha guarda" como este blogger que viu o primeiro filme na sala de cinema, quer para incrementar a acção e inquietação. Diga-se que não vão faltar momentos de enorme nervosismo e acção, embora por vezes falte um maior controlo dos níveis de tensão como Steven Spielberg efectuara em "Jurassic Park" (ninguém se esquece da célebre cena do copo de água a tremer) ou Alfred Hitchcock em "The Birds" (a referência de Colin Trevorrow torna a comparação inevitável), embora isso não implique que não nos preocupemos com aquilo que acontece aos personagens, com o realizador a chegar ao ponto de fazer com que sintamos as dores de um dinossauro gravemente ferido pelo Indominus Rex. Muita da violência fica subentendida e não é exibida, com Colin Trevorrow a conseguir balançar entre aquilo que é exposto e o que fica para a imaginação do espectador (veja-se quando assistimos às baixas provocadas pelo Indominus Rex no computador do laboratório e a espaços somos colocados diante das suas acções), embora mais uma vez fique a perder em relação ao primeiro filme, apesar de "The Lost World: Jurassic Park" por vezes também cair em exageros e os seus personagens também estavam longe de ter a profundidade desejada (veja-se personagens como Peter Ludlow, Dieter Stark, Nick Van Owen, entre outros, isto para não saltarmos para "Jurassic Park III"). Entre as personagens principais de "Jurassic World" encontra-se a já citada Claire, uma mulher que recebe a visita de Zach (Nick Robinson) e Gray Mitchell (Ty Simpkins), os seus dois sobrinhos, filhos de Karen (Judy Greer), a irmã da primeira, com esta última a preparar-se para tratar do divórcio.

 Zach é o irmão mais velho e aparentemente menos entusiasmado com a viagem, enquanto Gray é o mais efusivo com tudo o que envolve dinossauros, com ambos a não terem a melhor das relações, algo que vai mudar ao longo do filme, naquele que é um arco previsível, mas nem por isso menos emotivo (Zach tem ainda uma namorada que é completamente esquecida ao longo do enredo). Os irmãos são recebidos por Zara (Katie McGrath), a assistente de Claire, para aqueles que serão supostamente dois dias para esta última conhecer melhor os sobrinhos (nem a idade dos mesmos sabe), mas também para os pais de Zach e Gray poderem resolver os seus problemas. No entanto, Claire parece estar mais preocupada com o terminar dos preparativos para o Indominus Rex poder ser visto pelo público, com o comportamento do dinossauro a ser uma incógnita, algo que leva Simon Masrani a pedir a avaliação de Owen Grady (Chris Pratt), um antigo elemento da Marinha, especialista em Velociraptors a ponto de ter conseguido domar um grupo restrito, um progresso que Vic pretende utilizar para fins militares (uma situação que não deixa de entroncar com a realidade contemporânea onde progressos científicos como drones são utilizados para fins militares). A chamada de um especialista como Owen, para verificar se está mesmo tudo seguro, remete mais uma vez para o primeiro filme, onde Alan Grant (Sam Neill), Ellie Sattler (Laura Dern) e Ian Malcolm (Jeff Goldblum) foram chamados para avaliar a segurança do parque antes da sua abertura ao público (como sabemos o sentimento inicial é de espanto e depois segue-se a desgraça), com "Jurassic World" a entroncar muitas das vezes naquele limite entre a sequela e o remake. Owen é um tipo confiante, que se preocupa efectivamente com os dinossauros, surgindo como uma mescla de Indiana Jones e Andy Dwyer, com Chris Pratt a incutir muito do seu carisma a este personagem que tanto tem de brincalhão e simpático como de algo fanfarrão. Pratt tem uma interpretação muito ao seu estilo (George Clooney tem feito carreira praticamente a ser George Clooney, Chris Pratt por vezes parece estar a ir para um caminho onde interpreta variâncias de si próprio), procurando não cair no overacting, apresentando um timing eficaz para a comédia, algo latente quando questiona o nome de "Indominus Rex", num dos vários momentos em que "Jurassic World" demonstra ter consciência que nem tudo aquilo que apresenta ao público dá para ser levado a sério. Owen conta com uma relação algo complicada com Claire, uma situação visível logo nos primeiros diálogos que trocam em "Jurassic World", com Chris Pratt a parecer claramente à vontade num estilo que varia entre o mais sério e o gozão. Estes tiveram uma relação falhada no passado, com a personalidade de ambos a parecer incompatível, pelo menos até o Indominus Rex sair de controlo e da sua zona de contenção e começar a causar o pânico neste parque localizado na célebre Ilha Nublar. A piorar toda esta situação, Zach e Gray encontram-se num veículo a circular pelo parque, supostamente protegidos, a admirar os dinossauros, até perceberem que algo de errado se passa, com a vida destes a ficar em perigo. Os esforços para controlar o Indominus Rex parecem ser em vão, com este ser a atacar tanto humanos como dinossauros, com o parque a ter de entrar num plano de contingência, até definitivamente tudo ficar descontrolado. Claire e Owen procuram salvar os dois jovens, enquanto o segundo tem ainda de lidar com uma série de contrariedades, incluindo o facto de Vic pretender utilizar os Velociraptors contra o Indominus Rex, algo que não se revela uma ideia lá muito acertada. Pelo caminho temos vários momentos de pânico, entre os quais a abertura da cúpula onde se encontram os Pterossauros em situações a fazerem recordar "The Birds", com os dinossauros a provocarem um enorme alvoroço entre os seres humanos (diga-se que em "Jurassic Park III" esta espécie já tinha sido utilizada para efeitos do género, embora em menor escala, apesar dos efeitos dos ataques de Pteranodontes, uma espécie semelhante aos Pterossauros, tenham sido sentidos e muito pelo personagem interpretado por Alessandro Nivola).

 O último terço é marcado pela tensão, ficando de lado aquela sensação de deslumbramento inicial como se estivéssemos diante de um Parque Natural onde a presença de dinossauros estava na ordem do dia, não faltando um espectáculo marinho com um Mosasaurus no qual ficamos perante este imponente ser, com Colin Trevorrow a saber aproveitar os efeitos especiais ao serviço da narrativa, permitindo colocar o espectador a observar uma panóplia de seres que na maioria serão utilizados durante o desenrolar do enredo. É certo que "Jurassic World" pede excessivamente que desliguemos o nosso lado mais pragmático, algo já contido na premissa de termos um parque temático onde os dinossauros estão vivos, mas também em situações tão caricatas como termos a personagem interpretada por Bryce Dallas Howard de saltos em situações que até com ténis seria complicado de aguentar. Também é notório que o argumento muitas das vezes revela uma enorme falta de profundidade no desenvolvimento dos personagens secundários e até em alguns dos elementos principais. Veja-se que actores como Omar Sy (um ajudante de Owen a cuidar dos Velociraptors) são completamente desaproveitados, enquanto Vincente D'Onofrio fica sempre no lugar comum do tipo insensível e idiota; Irrfan Khan como o idealista que não parece ter aprendido com os erros de John Hammond; actores e actrizes como Judy Greer, Brian Tee, Jake Johnson (um fã de Jurassic Park, algo exposto na camisola utilizada, apesar das más recordações que os episódios do primeiro filme trazem para a administração do Jurassic World) pouco são aproveitados, já para não falar no previsível arco dos protagonistas. No caso dos protagonistas seria sempre expectável que a relação entre os personagens interpretados por Bryce Dallas Howard e Chris Pratt mudasse durante o desenrolar da narrativa, com ambos a apresentarem uma maior aproximação e dinâmica, apesar do carácter mais sério da primeira e o tom sardónico do segundo (Pratt e Howard apresentam uma química bastante razoável). Já no que diz respeito aos personagens interpretados por Nick Robinson e Ty Simpkins, uma dupla com uma dinâmica relativamente convincente, representando comportamentos relativamente distintos, estes remetem para um "prato da casa" da franquia que passa pela inclusão de elementos mais jovens no meio da narrativa. Em "Jurassic Park" tínhamos os netos de John Hammond que acabam por ficar ao cuidado de Alan, um elemento que inicialmente não suporta crianças (curiosamente a mudança de comportamento da personagem interpretada por Bryce Dallas Howard em relação a crianças e adolescentes é considerada como machista ou anti-feminista, com esta a demonstrar mais simpatia para com os jovens, quando aconteceu algo muito semelhante a Alan em “Jurassic Park” sem que fossem levantados grandes problemas). Em "The Lost World: Jurassic Park" tínhamos a intromissão da filha de Ian Malcolm. Em "Jurassic Park III", o desaparecimento do filho de Paul (William H. Macy) e Amanda Kirby (Téa Leoni), na Ilha Sorna, conduz a que o primeiro minta a Alan Grant para que este os ajude na ilha, com a busca pelo petiz e a fuga do local a serem elementos fulcrais da narrativa. No caso de "Jurassic World" temos dois jovens que pouco contacto tinham com a tia, com os pais de ambos a encontrarem-se à beira do divórcio. Ou seja, existe sempre a procura de manter personagens mais jovens como elementos fulcrais da narrativa, com "Jurassic World" a respeitar o legado da saga, incluindo na forma como estas figuras acabam por se aproximar, quer entre si, quer com o familiar ou figura mais distante. Poderia existir maior profundidade a nível dos personagens secundários, o product placement é algo feito à bruta (veja-se este artigo do THR, faltando ainda o exemplo de Owen a beber Coca-Cola em grande estilo), os protagonistas não fogem a muitos dos lugares-comuns, mas Colin Trevorrow parece ter noção das limitações da história que tem para nos contar, procurando espremer ao máximo o sumo das laranjas que tem ao dispor (que não são assim tão sumarentas quanto isso).

 A estrutura narrativa, apesar de previsível (parque seguro; afinal já não é assim tão seguro; dinossauros à solta; temos de salvar as nossas vidas e dos visitantes), é relativamente bem arquitectada, com "Jurassic World" a jogar pelo seguro, com excepção talvez do momento "à The Birds" ou no emotivo combate final, existindo sempre a procura de não descurar os personagens principais humanos (fica a ideia que o pânico global dos milhares de visitantes poderia ser mais bem aproveitado), bem como de recordar ao público que os protagonistas encontram-se no meio de um espaço rodeado de dinossauros algo que pode proporcionar diversos perigos. Está longe de poder ser comparado com um "banal jogo de vídeo", sobretudo quando essas comparações são efectuadas sem se especificar quais os géneros de jogos, ou sem serem utilizados exemplos que sustentem essa argumentação ao invés de meras generalizações para as quais apenas falta a menção a "Jaws" para completar o menu dos clichés (nada contra a opinião ser negativa). Sem mais devaneios para caminhos que não levam a lado nenhum, regressemos ao filme, até porque o texto já vai longo. "Jurassic World" exibe o conhecimento que Colin Trevorrow tem da saga, embora não consiga atingir o nível de Steven Spielberg em "Jurassic Park", apesar de ser relativamente fiel ao espírito da franquia, sendo mesmo a primeira sequela a deixar-nos novamente diante de um parque temático (apesar do parque de "Jurassic Park" não ter sido aberto ao público), ao invés de dinossauros à solta numa ilha ou até a serem transportados para os EUA. O argumento poderia ser mais elaborado na construção dos personagens, tal como muitas das vezes não foge da ideia de nos estar a dar material reciclado do primeiro filme, embora Colin Trevorrow consiga explorar com relativo sucesso a ideia do parque temático completamente seguro que afinal não estava assim tão à prova de falhas. Não faltam ainda as célebres cenas de acção, com "Jurassic World" a não poupar em humanos a enfrentar dinossauros e vice-versa, mas também dinossauros contra dinossauros, com os Velociraptors a terem a espaços um papel fulcral, não faltando a presença de um T-Rex que promete intrometer-se no caminho do Indominus Rex. A figura do Indominus Rex surge quase como uma metáfora para os blockbusters actuais, onde tudo tem de ser maior para despertar a atenção, com Colin Trevorrow a simultaneamente ficar entre a crítica e a cair nessa situação que comenta, embora também não seja certo que esta tenha sido a interpretação do realizador ao elaborar "Jurassic World". Mesclando elementos de filmes de aventuras, acção, terror, algum humor e até romance, "Jurassic World" procura não só jogar com a nostalgia daqueles que tiveram a oportunidade de ver "Jurassic Park" aquando da sua estreia mas também criar algo para novos públicos, ficando entre a sequela e o remake da obra cinematográfica original, conseguindo cumprir no propósito de entretenimento ao mesmo tempo que volta com sucesso a "dar vida" aos dinossauros no grande ecrã. Não é o melhor filme da saga mas nem por isso envergonha o legado deixado por Steven Spielberg, o produtor-executivo desta obra cinematográfica realizada com alguma eficácia por Colin Trevorrow.

Título original: "Jurassic World".
Título em Portugal: "Mundo Jurássico".
Realizador: Colin Trevorrow.
Argumento: Rick Jaffa, Amanda Silver, Derek Connolly, Colin Trevorrow.
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Omar Sy, B. D. Wong, Irrfan Khan, Katie McGrath, Jake Johnson.

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