26 junho 2015

Resenha Crítica: "Hideko, the Bus Conductor" (Hideko no shashô-san)

 A presença de guias femininas nos autocarros é algo de natural em algumas das obras cinematográficas de Mikio Naruse, com estas a surgirem em filmes como "Meshi" (1951) e "Inazuma" (1952), algo que permite ao cineasta colocar-nos perante algo de comum no território japonês na época. Em "Hideko, the Bus Conductor", uma obra lançada originalmente em 1941, Mikio Naruse deixa-nos perante Okoma (Hideko Takamine), uma mulher que trabalha a auxiliar Sonoda (Kamatari Fujiwara), o condutor, no autocarro da Kohouku, a empresa onde laboram. Ele conduz, enquanto ela recolhe o dinheiro dos bilhetes e avisa sobre os locais por onde passa o autocarro, num negócio que está longe de prosperar, quer pela falta de clientes, quer pela concorrência que conta com veículos mais modernos do que o decrépito autocarro onde laboram. Se não tiverem clientes no período em que trabalham no autocarro, a empresa não lhes paga, pelo que a dupla começa a pensar em novos meios para atrair a clientela. É então que Okoma sugere utilizarem um conjunto de textos para a protagonista ler no autocarro tendo em vista a servir como um guia para descrever os principais espaços do território aos passageiros, algo que esta ouviu na rádio e pareceu-lhe ser uma boa medida para chamar clientela. É já o primeiro sinal de que Mikio Naruse pretende expor a relevância crescente da mulher na sociedade, algo comum nas suas obras cinematográficas (veja-se a relevância que este atribuiu às protagonistas de obras como "No Blood Relation", "Apart From You", "Every-Night Dreams", "When a Woman Ascends the Stairs", entre outras), com Okoma a surgir com a ideia para salvar o seu trabalho e o de Sonoda. O chefe (Yôtarô Katsumi), um indivíduo muito peculiar mas nem por isso bem intencionado, não parece ser avesso à ideia, desde que esta não seja mais dispendiosa. É então que estes decidem contratar os serviços de Ikawa (Daijirô Natsukawa), um escritor pouco famoso que aceita escrever o argumento que vai constar nos textos que vão ser decorados por Okoma. Ikawa faz questão de salientar a necessidade de Okoma ter de apresentar o tom de voz certo, bem como de enfatizar alguns momentos, de forma a transmitir alguma emoção para os clientes. Felizes da vida, logo começam a treinar no autocarro, mesmo que pelo caminho ignorem clientes, para além de se gerar um acidente cujas repercussões iniciais evidenciam bem a personalidade pouco recomendável do chefe dos protagonistas. Okoma e Sonoda regressam ao trabalho graças à influência do escritor, embora tenham de esperar para colocar o guião em prática, enquanto circulam pelas ruas de Kofu. Quando consegue expor as suas falas, Okoma revela um enorme entusiasmo, embora esteja longe de conhecer os planos do seu chefe, naquela que aparentemente parecia ser uma obra mais leve de Mikio Naruse, com a própria banda sonora a contribuir para a atmosfera aparentemente apolínea que rodeia o filme, mas nem por isso livre de alguns momentos de maior dramatismo (o final é mais trágico do que cómico). Os momentos de humor são muitas das vezes associados aos clientes do autocarro, bem como ao entusiasmo dos protagonistas mesmo tendo muito a melhorar no cumprimento dos seus objectivos, embora seja de realçar a procura de Mikio Naruse em explorar temáticas mais sérias, bem como em exibir a figura feminina como alguém inteligente, que procura a sua independência, trabalha e consegue fazer valer a sua opinião. Não é alguém que depende da mãe, embora ainda a chegue a visitar a progenitora, naquele que é a primeira de dezassete colaborações entre Hideko Takamine e Mikio Naruse.

Hideko Takamine já tinha participado numa série de filmes, tendo entrado no meio cinematográfico desde muito jovem, com "Haha", lançado em 1929, a marcar a estreia nestas lides, quando tinha apenas cinco anos de idade. A partir daí esta foi acumulando trabalhos (dez filmes em 1937), chegando a integrar o elenco de "Tokyo Chorus" de Yasujiro Ozu, tendo em "Hideko, the Bus Conductor" uma das personagens mais leves entre as que interpretou nos filmes realizados por Naruse. Veja-se o aclamado "Floating Clouds", mas também "When a Woman Ascends the Stairs", onde interpretava mulheres marcadas pela dor e pela sua condição pouco forte numa sociedade dominada pelas figuras masculinas. No caso de "Hideko, the Bus Conductor" assistimos já ao interesse de Mikio Naruse pelas personagens femininas e pela sua crescente independência, num filme menos denso do que algumas obras-primas do cineasta mas nem por isso desprovido de conteúdo e dramatismo, sendo capaz de nos proporcionar alguns momentos de entretenimento e reflexão, para além de apresentar alguma sátira social. Esta foi também a última obra cinematográfica realizada por Mikio Naruse antes do Japão ter oficialmente entrado na II Guerra Mundial, com o filme a procurar aparentemente alhear-se das questões políticas, existindo uma certa leveza que certamente contrasta com a realidade do território e até dos personagens. Ficamos perante as gentes e os territórios por onde o autocarro circula em Kofu, mas também diante de uma dupla de protagonistas de classe trabalhadora que vive com algumas dificuldades e procura a todo o custo manter o seu posto de trabalho. Hideko Takamine é quem mais sobressai, com esta a ser capaz de incutir mais uma vez uma enorme credibilidade, carisma e até alguma candura à personagem que interpreta, conseguindo que as suas expressões faciais transmitam imenso daquilo que tem para nos dizer. Já Kamatari Fujiwara não deslumbra mas consegue convencer-nos da procura do personagem que interpreta em conseguir mais clientes, trabalhando para um indivíduo que está longe de ser recomendável do ponto de vista moral, algo visível não só quando procura convencer o funcionário a mentir para a seguradora mas também pelos actos finais. O chefe dos protagonistas é interpretado por Yôtarô Katsumi, um actor capaz de atribuir nuances ao seu personagem que mesclam a frieza dos seus actos com um lado aparentemente mais leve. Veja-se quando procura convencer o empregado a mentir de forma a conseguir o dinheiro do seguro, mas também pelos seus actos finais que dão a "Hideko, the Bus Conductor" um tom trágico que exibem a subtileza de Mikio Naruse. Mal damos por isso, mas muito da atmosfera leve que rodeia alguns dos episódios do enredo acaba por contrastar com este acto final e as dificuldades pelas quais passam os protagonistas, uma dupla optimista que não poupa a esforços no cumprimento dos seus objectivos. Temos ainda Daijirô Natsukawa como o escritor cuja carreira está longe de conhecer mediatismo, com o actor a destacar-se como este indivíduo que procura expor à protagonista a forma ideal de expressar os textos elaborados para ilustrar as viagens aos passageiros. Diga-se que em "Meshi" percebemos o quão mal pode funcionar o trabalho dos guias se o tom de voz for mais esganiçado, algo que conduz Satoko, a sobrinha do protagonista, a ironizar com a situação, durante o intervalo de uma viagem turística de autocarro por Osaka. 

O escritor é talvez o personagem que resulta do paradigma em que se encontram muitos artistas do seu tempo, com o seu trabalho a ser pouco reconhecido mas também a estar sujeito a certas regras. Veja-se quando este salienta de forma irónica o trecho do seu argumento: "You can see a round mound; That's called Niwazuka. In the old days this area was called Wado-no-hara. Whenever the government changed, the refugees were forced to come here...", mas logo sente a necessidade de alterar o mesmo. Ou seja, existe uma auto-censura, ainda que num tom humorístico, num território que lida com a mesma, com vários artistas a terem de efectuar obras que estivessem comprometidas com os ideais do Governo durante a II Guerra Mundial (o Japão viria a declarar Guerra em Dezembro de 1941), algo que aconteceu a cineastas como Kenji Mizoguchi em filmes como "Chûshingura", "Meito Bijomaru", entre outros. As obras citadas de Mizoguchi remetem para o passado do Japão e para os valores tradicionais, algo que o texto do escritor também procura fazer, com este a salientar que as pessoas devem imaginar que estão a viajar nos velhos tempos. Diga-se que este não parece totalmente avesso à ideia de escrever estes textos, embora o trabalho seja mal remunerado, algo a que este está habituado. A título de curiosidade, os dois protagonistas consideram o argumento demasiado longo, provavelmente a fazer recordar alguns dos produtores dos filmes de Naruse mas, certamente, esta comparação, tal como a interpretação sobre a alteração do texto por parte do escritor, já será esticar muito a corda em termo de divagações. Vale a pena realçar que o cineasta pode não reflectir directamente na obra a atmosfera pré-Guerra no território, mas nem por isso deixa de incutir a crise financeira, algo latente nos sapatos desgastados da protagonista bem como na falta de clientes e até na falta de condições do autocarro. Temos ainda os irónicos momentos finais em que, mesmo numa suposta comédia, o destino e a acção de outrem intrometem-se na vida dos protagonistas dos filmes de Mikio Naruse, com estes a cumprirem os seus desejos ainda que de forma temporária, já que o seu chefe apresenta outros planos em relação ao autocarro e à empresa. Por um lado Naruse faz-nos esboçar um sorriso perante o facto dos protagonistas cumprirem o seu objecivo, por outro exibe que esta alegria de Okoma e Sonoda não irá durar muito tempo, tal como o Japão se prepara para mudar com a entrada na II Guerra Mundial. A realidade nem sempre é aprazível e diga-se que Mikio Naruse não é um optimista por natureza em relação às reviravoltas do destino, com os personagens a lutarem contra o mesmo embora esta luta pareça algo quixotesca. Ficamos assim diante de uma obra marcada por elementos cómicos, trágicos e melancólicos, capaz de realçar a importância do papel da mulher na sociedade e a sua procura em ser independente, ao mesmo tempo que subtilmente conta com temáticas que geram discussão, num filme que marca o início da frutuosa colaboração entre Hideo Takamine e Mikio Naruse.

Título em inglês: "Hideko, the Bus Conductor".
Título original: "Hideko no shashô-san".
Realizador: Mikio Naruse.
Argumento: Mikio Naruse (tendo como base um livro de Masuji Ibuse).
Elenco: Hideko Takamine, Kamatari Fujiwara, Daijirô Natsukawa.

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