15 junho 2015

Resenha Crítica: "Good Kill" (Morte Limpa)

 Filmado com precisão e a espaços capaz de transmitir um sentimento de claustrofobia difícil de conter, "Good Kill" transporta-nos para o interior da rotina desgastante e desoladora de um indivíduo que tem como missão pilotar drones e lançar o gatilho por ordens externas na "Guerra ao Terror". Mudam-se as Governações, sai George W. Bush e entra Barack Obama, mas esta situação mantém-se, com "Good Kill" a questionar a legitimidade desta guerra ao apresentar o ciclo vicioso que envolve a mesma, procurando efectuar algo que obras cinematográficas como "American Sniper" não conseguiram: problematizar o tema. Tanto somos colocados diante de elementos como o Tenente-Coronel Jack Johns (Bruce Greenwood), um indivíduo que procura justificar moralmente as suas acções e ordens embora nem sempre pareça concordar com a ética deste conflito, ou militares como Joseph Zimmer (Jake Abel) e Ed (Dylan Kenin), que cumprem as directivas com gosto, ou pelo menos sem levantarem ondas, como encontramos Vera Suarez (Zoë Kravitz), uma mulher que começa por apresentar uma postura destemida mas gradualmente questiona tudo aquilo que está a protagonizar, embora a figura central seja o Major Thomas Egan (Ethan Hawke). Este participara em seis missões como piloto da Força Aérea na "Guerra ao Terror", até os Estados Unidos da América terem mudado de estratégia e apostado numa guerra mais "segura" que envolve a utilização de drones. Egan encontra-se visivelmente afectado por estas novas directrizes, algo que se repercute nos seus comportamentos em casa, com este a apresentar um afastamento cada vez maior de Molly (January Jones), a sua esposa, e dos filhos, com a falta de diálogo a parecer "o prato do dia". O distanciamento é paradigmaticamente exposto pela esposa quando salienta que Thomas foi o primeiro a abandoná-la, enquanto o protagonista parece ansiar por voltar ao trabalho no terreno e sentir o medo que tinha nas suas missões, mas também poder regressar de cabeça limpa ao invés de estar "virtualmente" no palco de guerra e regressar a casa como se nada fosse. "Good Kill" não só se revela um interessante estudo de personagem mas também permite um questionar relevante sobre o papel dos pilotos de drones e daqueles que perpetuam esta política militar. No caso de Thomas, embora guarde uma enorme nostalgia em relação aos tempos em que pilotava aviões, parece aceitar com relativa facilidade as ordens que lhe são dadas, apesar de gradualmente ser afectado pela entrada em cena da CIA, com as missões a envolverem demasiados "danos colaterais", algo que implica a morte de um "x" número de inocentes para se alcançar um objectivo maior. Como chegar a casa e conviver com o facto de se ter contribuído para a morte de outros seres humanos, independentemente de serem ordens e estes serem considerados inimigos? A certa altura dá-se o momento caricato do empregado da loja de conveniência onde Thomas compra regularmente álcool não parecer levar muito a sério o protagonista quando este comenta que matou seis talibãs no Paquistão e irá efectuar, de seguida, uma churrascada em casa casa. Pode parecer caricato, mas é exactamente isto que acontece, com "Good Kill" a explorar as dificuldades que Thomas tem em conviver com o facto de simultaneamente encontrar-se na guerra e não estar no terreno, algo que o leva a preferir os tempos em que estava em plena zona de combate e não descarregava um mau dia junto da família. Esta situação vai conduzir Thomas a questionar a ética da guerra que pratica, embora não seja propriamente um personagem anti-belicista, com "Good Kill" a colocar-nos diante de uma figura moralmente ambígua. O enredo de "Good Kill" desenrola-se em 2010 e coloca-nos diante desta rotina de Thomas Egan entre o trabalho numa base no deserto do Nevada num território nas imediações de Las Vegas e a vida caseira, com o dia a dia no primeiro a afectar claramente a segunda. 

Thomas trabalha em conjunto com um grupo restrito de colegas, num espaço diminuto recheado de tecnologia onde pode observar de perto o que acontece nos palcos de guerra, tendo de atingir os alvos designados e contar os corpos dos falecidos, numa missão que tanto tem de voyeurista como de sangrenta. A certa altura da narrativa a CIA entra em cena e passa a ingerir-se directamente nas ordens destes elementos, a ponto dos militares terem de eliminar pessoas aparentemente inocentes em locais como a província de Al-Baeda no Sul do Iémen tendo em vista a atacarem um núcleo da Al-Qaeda. Vera é a primeira a questionar esta situação e a levantar dúvidas sobre as diferenças reais entre os seus actos e os dos terroristas, com Thomas aos poucos a parecer cada vez mais incomodado com as ordens que lhe são dadas, tendo no excessivo consumo de álcool um meio para se evadir aos vários problemas que assolam a sua mente embora o vício apenas piore a situação. A relação entre Thomas e a esposa é complicada, com Ethan Hawke a conseguir explorar o quão afectado encontra-se este elemento, com "Good Kill" a conseguir balançar com sucesso a forma como o quotidiano do protagonista no trabalho acaba por imiscuir-se e muito na vida pessoal e social. Durante horas a fio, Thomas encontra-se concentrado, quase como se estivesse em pleno palco de guerra, a perseguir talibãs, embora esteja numa base, enquanto noutras alturas vai para casa, com a transição a não parecer nada fácil, ou não estivéssemos a falar de seres humanos que independentemente do treino que tiveram nem sempre conseguem mudar "o chip" com facilidade. Esta é outra das problemáticas que "Good Kill" levanta, com Andrew Niccol a explorar não só a ética desta guerra efectuada com a utilização de drones mas também como a mesma afecta psicologicamente os militares que perpetuam este conflito militar. O realizador e argumentista levanta ainda questões pertinentes sobre a legitimidade de eliminar inocentes considerando os mesmos como danos colaterais e se esta situação não estará a despertar ainda mais o ódio anti-EUA e a fomentar o aparecimento de mais terroristas, com a violência a trazer consigo violência, num ciclo interminável onde se parece procurar terminar um incêndio ao despejar gasolina para o fogo. É relativamente óbvio que o terrorismo tem de ser combatido mas é complicado, para não dizer praticamente impossível, justificar a morte de inocentes (o conceito de "ataque preventivo" é simplesmente atroz") ou a ingerência no interior de Estados Soberanos. O filme explora ainda como estes militares são obrigados a observar de perto o território que atacam e os seus habitantes, quase como se de um jogo de computador se tratasse, embora estejam diante da vida real, sem que possam agir a não ser devido a ordens expressas, uma situação que ganha contornos moralmente duvidosos quando encontramos um indivíduo a violar uma mulher e estes a nada poderem fazer. Em compensação podem eliminar inocentes ou meros suspeitos se isso implicar uma maior segurança para os EUA, algo que acrescenta outras dúvidas já que se encontram a explodir locais no Afeganistão, Paquistão, Iémen e afins para supostamente proteger o território yankee ou a promover a segurança internacional. A decisão final do protagonista também é moralmente questionável, tal como todos os episódios protagonizados por estes militares ao longo do filme durante o cumprimento do dever, com "Good Kill" a surgir como uma obra cinematográfica cujo valor é elevado pelo debate que permite trazer. Também podemos fazer de "advogados do Diabo" e salientar que Andrew Niccol nos deixa diante de situações extremas, mas muito do que é retratado é real e abordado com realismo, com o quotidiano dos pilotos de drones nos cubículos onde se encontram instalados a ser claustrofóbico, moralmente questionável e acima de tudo revelador de que os avanços tecnológicos permitem uma guerra aparentemente mais limpa, mas apenas para quem tem o poder.

Será que esta política de utilização de drones para fins militares também seria defendida pelos EUA se estes dispositivos fossem utilizados contra o seu próprio território? O conceito de "guerra limpa" traz consigo uma sujidade moral difícil de apagar, algo que se adensa se pensarmos nas potenciais e reais motivações desta "Guerra ao Terror". Recentemente tivemos um espectáculo de patriotismo exacerbado onde um sniper era elevado ao papel de herói, com muitas bandeirinhas a esvoaçarem e uma abordagem unidimensional do conflito em "American Sniper". Andrew Niccol procura explorar o que se passa na mente de um piloto de drones, abordar a sua vida em família e com os colegas, expor o quão claustrofóbico e desgastante pode ser este quotidiano ao mesmo tempo que questiona a moralidade deste tipo de guerra, ou melhor, a moralidade deste conflito protagonizado pelos EUA. Gradualmente, Thomas começa a questionar cada vez mais a relevância e legitimidade dos seus actos, algo exarcebado pela personagem interpretada por Zoë Kravitz, com a actriz a explorar a irreverência da mesma e a ligação que forma com o protagonista, embora "Good Kill" também nos deixe diante de outros militares que cumprem as ordens com rigor, ao mesmo tempo que apresenta o ponto de vista dos mesmos. Inicialmente Thomas é descrito por Jack Johns como um exemplo de eficácia e um dos melhores na sua função, com o protagonista a cumprir as ordens como se as mesmas não o afectassem, uma assunção que aos poucos revela-se errada. Por sua vez, militares como Zimmer mantêm-se fiéis e apresentam uma enorme vontade em combater terroristas, acreditando piamente naquilo que lhe incumbem de fazer, com Andrew Niccol a não desrespeitar este personagem, mas sim a procurar explorar as diferentes visões sobre esta temática. Ou seja, é um filme praticamente obrigatório, que explora uma faceta distinta da guerra, provavelmente mais limpinha, principalmente para quem tem mais poder militar, ao mesmo tempo que nos deixa muitas das vezes num papel voyeurista semelhante ao dos protagonistas, enquanto estes observam o território onde actuam através dos computadores e do alto dos seus drones, quais Deuses que decidem o destino dos meros mortais. Ethan Hawke é um elemento essencial para o filme funcionar, com o actor a conseguir evidenciar que estamos diante de um militar que parece algo desgastado em relação ao seu novo ofício, ainda demasiado ligado ao seu passado como piloto onde o perigo parecia preencher a sua vida de alguma adrenalina, com este indivíduo a começar a questionar gradualmente a moralidade daquilo que efectua, mas também a forma como toda esta situação contribuiu para o seu afastamento da família. A personalidade fechada e taciturna de Thomas não ajuda (Ethan Hawke consegue expressar-se habilmente através dos gestos), com este a revelar uma aparente impassibilidade diante de tudo e todos, a ponto de Molly salientar que o personagem interpretado por Ethan Hawke quando está zangado geralmente ainda fica mais calmo. Percebemos que não é bem assim, com uma simples frase a deixar latente que este já batera em Molly, com o casal a atravessar uma fase complicada onde a separação parece ser inevitável, com January Jones a ter um papel fulcral ao demonstrar o quão isolada a personagem que interpreta encontra-se do esposo. Thomas procura a todo o custo esconder aquilo que faz no seu quotidiano, algo que atormenta mais a esposa do que ajuda a solidificar a relação, pelo menos até este ter um momento emotivo onde salienta o que fizera durante o dia. A própria separação de Thomas em relação ao exército aos poucos parece iminente, com este a assumir cada vez mais uma postura errática, algo notório no consumo excessivo de álcool, uma situação que deixa bem latente que estamos diante de um protagonista que também está longe de ser um exemplo ou livre de defeitos.

O quotidiano de Thomas a conduzir os drones, em conjunto com os colegas, num espaço fechado, é simultaneamente claustrofóbico, intenso e capaz de nos fazer levantar as mais diversas dúvidas, com Andrew Niccol a procurar abordar estas temáticas de forma realista, mesmo que soubesse à partida que o filme não seria recebido com o maior dos entusiasmos, algo salientado em entrevista ao Den of Geek: "(...) I said to an American friend about the story I was going to make, and he said, "This is going to be financed in euros." [Laughs] In other words, not US dollars. Because you're telling an uncomfortable truth, you don't expect a major studio to back it - even though it is the truth, there's nothing I'm showing you that hasn't actually happened. But maybe people aren't quite ready to look in the mirror yet". Vale a pena realçar que o realizador procurou efectuar algum trabalho de pesquisa, procurando não só retratar de forma verosímil a base onde se encontram os militares mas também as suas acções: "When it says based on true events, what that means is that even though the pilot that Ethan Hawke plays is a composite character, every strike that you see has occurred. I did not make any of that. Nothing that you see happening was embellished. I spoke to drone pilots, in particular the case of the woman who he tries to rescue, they say seeing atrocities like that had nothing to do with their mission, and they cannot act to expose themselves, so they don't. But they have seen these atrocities and they would definitely like to act". "Good Kill" coloca-nos ainda diante das consequências dos actos conduzidos por estes elementos a partir da base no deserto perto de Las Vegas, com a destruição a tomar muitas das vezes conta dos cenários, surgindo a certeza que estes estão a conduzir tudo menos um jogo de computador. Depois de realizar filmes como "Gattaca", "In Time" e ter escrito o argumento de "The Truman Show", Andrew Niccol decide abordar temas bem reais (tal como em "Lord of War") sem alicerçar-se na ficção-científica, com o quotidiano de Thomas a parecer muitas das vezes saído desta última obra cinematográfica, com o próprio protagonista a ser sujeito a um enorme controlo. Ficamos diante do questionar desta nova faceta da "Guerra ao Terror" mas também perante dúvidas se todos os militares estarão conscientes dos efeitos causados pelos actos que provocam a longa distância, com "Good Kill" a levantar uma série de questões de enorme pertinência e actualidade. Diga-se que Jack Johns, um personagem que ganha uma enorme credibilidade com a interpretação de Bruce Greenwood, procura desde cedo alertar os seus comandados em relação a este facto de não estarem a comandar um jogo da Playstation, com os estragos que os pilotos de drones podem efectuar a serem bem reais, ainda que a uma distância que apenas permita o contacto visual com os mesmos. Estamos longe da crueza da guerra em pleno palco de combate, como cineastas como Samuel Fuller expuseram em obras como "The Steel Helmet", "Fixed Bayonets!" e "The Big Red One", com "Good Kill" a apresentar-nos a uma guerra à distância que traz consigo muitas dúvidas do ponto de vista ético que são abordadas com algum sucesso ao longo do filme. Com uma interpretação de bom nível de Ethan Hawke, um argumento capaz de questionar a moralidade desta faceta distinta da "Guerra ao Terror" e contribuir para o debate em relação à mesma, "Good Kill" cumpre com boa parte dos seus objectivos, com Andrew Niccol a conduzir a narrativa com argúcia, apesar do final moralmente questionável da obra cinematográfica.

Título original: "Good Kill".
Título em Portugal: "Morte Limpa".
Realizador: Andrew Niccol.
Argumento: Andrew Niccol.
Elenco: Ethan Hawke, January Jones, Zoë Kravitz, Jake Abel, Bruce Greenwood.

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