19 junho 2015

Resenha Crítica: "Full Moon in New York" (Ren zai Niu Yue)

 Já salientava a música de Sting "I'm an alien, I'm a legal alien. I'm an Englishman in New York". Troquemos o inglês para três mulheres, oriundas de Taiwan, China e Hong Kong, e o termo "legal alien" parece aplicar-se às figuras femininas que povoam o enredo de "Full Moon in New York", um magnífico drama humano realizado por Stanley Kwan. No centro da narrativa estão três mulheres distintas, unidas pela solidão e por algumas dificuldades em se integrarem em Nova Iorque, independentemente de umas estarem há mais ou menos tempo nesta cidade que é exposta em todo o seu esplendor, grandeza e ritmo imparável. É a cidade que nunca dorme, recheada de gentes diversas mas de pouco contacto entre os seres humanos, onde um estrangeiro se pode sentir um extraterrestre e a integração no espaço apenas parece ser conseguida diante de mudanças comportamentais mais ligadas aos valores locais. Em certa medida, remete-nos para obras como "Comrades: Almost a Love Story" onde tínhamos uma dupla de emigrantes chineses com dificuldades de adaptação a Hong Kong, ou até para algumas obras de Ann Hui, como "Song of the Exile", com a protagonista a claramente não encontrar facilidades quando chega ao Japão, o país no qual a mãe foi nascida. Diga-se que outras obras de Ann Hui abordam uma certa inadaptação a uma nova realidade. Veja-se o caso do protagonista de "Boat People", um repórter-fotográfico japonês que se depara com uma dura realidade no Vietname após a saída dos EUA do território e o final da guerra. No caso de Stanley Kwan, este já nos tinha presenteado com uma personagem feminina assaz interessante em "Rouge" e elaborado uma obra que fica entre o documentário e a ficção sobre a icónica Ruan Lingyu em "Centre Stage". Tal como "Centre Stage", também "Full Moon in New York" conta com Maggie Cheung num dos papéis principais, com esta a exibir mais uma vez o seu enorme talento a interpretar personagens femininas complexas. Cheung interpreta Lee Fung-Jiau, uma mulher de negócios relativamente bem sucedida a nível profissional, que trabalha num restaurante com o seu pai, para além de alugar uma série de imóveis e investir em acções. Esta é natural de Hong Kong, tendo uma vida profissional atarefada, poucos amigos e amigas, apresentando uma enorme fúria perante episódios de falta de respeito, algo bem visível quando logo insulta um indivíduo que vai contra si no meio da rua e nem desculpa lhe pede. Outra das protagonistas de "Full Moon in New York" é Zhaohong (Gaowa Siqin), uma mulher oriunda da China, que chegou ao território dos EUA para se casar com Thomas, o seu noivo, um indivíduo de ascendência chinesa mas nascido em Inglaterra e educado nos EUA. A festa de casamento entre Zhaohong e o noivo é marcada desde logo pela incapacidade desta em perceber inglês e as piadas de Thomas sobre o facto de casar com uma mulher oriunda da China. Os dois raramente parecem compreender-se, com a relação entre ambos a ficar muitas das vezes reduzidas a momentos de sexo, a uma procura de Zhaohong em aprender inglês e fazer com que a sua mãe venha viver para junto de si. Thomas prometeu trazer a mãe de Zhaohong, mas pouco parece disposto a fazer com que esta venha viver para os EUA, surgindo como um elemento que parece ter assimilado por completo os hábitos ocidentais renunciando às origens dos seus ancestrais para se sentir "mais americano" e "mais adaptado".

 Uma das temáticas que vai atravessar "Full Moon in New York" centra-se exactamente na identidade, bem como na forma como a manutenção desta pode ou não afectar a adaptação a um território. Thomas parece-se mais como um elemento dos EUA do que Chinês, uma situação que aos poucos vai conduzir a uma certa sensação de desapego por parte de Zhaohong, com esta a procurar manter os seus ideais ao mesmo tempo que tenta adaptar-se ao território. Gera-se uma enorme solidão que é em alguns momentos quebrada pela presença de Lee Fung-Jiau e Wang Hsiung-Ping (Sylvia Chang). Zhaohong conhece Wang na festa do casamento, com esta última a manter uma relativa amizade com Thomas. Wang é uma aspirante a actriz, que encontramos inicialmente num ensaio caricato para uma peça de teatro. Num segundo ensaio perguntam-lhe quais as razões para uma mulher natural de Taiwan interpretar a Lady Macbeth, uma questão reveladora de algum preconceito e das dificuldades que esta encontra pelo caminho. A pergunta é idiota e reveladora de alguma intolerância que envolve a vida destas três mulheres no território (bastava os senhores da peça de teatro terem visto "Throne of Blood" e "Ran" para perceberem que existem mulheres de países de origem asiática capazes de interpretarem versões de personagens shakesperianas). Wang é uma artista que inicialmente mantém um caso com outro elemento algo depauperado a nível financeiro, algo que leva Lee Fung-Jiau, a senhoria, a pretender despejá-los. Inicia-se uma relação de inimizade entre as duas que aos poucos se dilui quando Wang e Zhaohong visitam o restaurante de Lee Fung-Jiau, formando-se gradualmente uma amizade entre o trio. São mulheres relativamente solitárias que podem contar com a companhia de familiares como no caso de Wang e Lee, ou contraído matrimónio, como Zhaohong, mas parecem algo fora deste meio que as rodeia. Sylvia Chang exibe isso mesmo a interpretar esta peculiar personagem que procura vingar num meio onde tendem a não aceitá-la pelas suas origens, com a dinâmica entre esta actriz, Maggie Cheung e Gaowa Siqin a ser fundamental para parte do enredo funcionar. Diga-se que estas mulheres nem sempre estão juntas, mas quando se reúnem é garantido que a solidão se afasta momentaneamente das suas almas. Veja-se quando bebem à noite, num edifício alto, com Stanley Kwan a contrastar a pequenez destas mulheres diante da grandeza dos edifícios que preenchem a cidade de Nova Iorque. Estas são pequenas diante de colossais edifícios mas os seus sentimentos fazem-se sentir no ecrã com a mesma força que a dimensão destes elementos que marcam claramente os cenários externos. Temos ainda os momentos nos quais se reúnem no interior da cozinha do restaurante de Lee e do pai desta, onde Stanley Kwan aproveita para colocar os diversos elementos em convívio e os cozinheiros a exporem a sua arte elaborada apressadamente. A vida pessoal destas mulheres é complicada. Lee ocupa boa parte do seu tempo com o trabalho, mantendo uma relação algo ambígua com Stella, contando ainda com alguns pretendentes, incluindo Chow, um empresário que não gosta de correr riscos, cuja personalidade parece contrastar de forma latente com o carácter da personagem interpretada por Maggie Cheung, para além de despertar a atenção de Kang, outro empresário. Kang mantém negócios com Chow, chegando mesmo a visitar uma propriedade com este último e Lee, acabando por se encontrar mais tarde com a personagem interpretada por Maggie Cheung, embora o encontro seja interrompido pela chegada de Stella. Por sua vez, Wang terminou recentemente com o namorado, tendo saído da casa deste e ido habitar para o apartamento de Wu, um amigo com quem outrora tivera uma relação, mantendo ainda contacto com o pai, um elemento que não se parece ter esquecido completamente do passado no seu território Natal. Já Zhaohong parece ter percebido que o seu casamento foi um erro completo, com a sua personalidade e a do esposo a nunca combinarem na justa medida, parecendo impossível que existam cedências de parte a parte a ponto dos cônjuges ficarem satisfeitos, com Thomas a tratar a esposa quase como se esta fosse uma peça do mobiliário da casa. Diga-se que ao longo do filme raramente percebemos como este casamento nasceu, a não ser que tenha sido arranjado, já que o próprio Thomas trata a união matrimonial quase como uma piada.

Stanley Kwan transporta-nos para o interior deste universo marcado por figuras femininas complexas em "Full Moon in New York", ao mesmo tempo que dá espaço para as três actrizes principais explorarem as idiossincrasias das personagens a quem dão vida. A amizade que estas formam permite que desabafem, exponham as suas dúvidas e inquietações, tenham alguns momentos de maior leveza e apresentem um tom mais apolíneo. O argumento é eficaz a estabelecer cada uma destas personagens e as suas histórias quando se encontram em separado, algo que dota a narrativa de ainda maior interesse, com "Full Moon in New York" a não se limitar a ser um filme sobre a amizade entre mulheres. Estas surgem de proveniências distintas, com Lee a vir de Hong Kong, Wang de Taiwan, Zhaohong da China, apresentando personalidades muito próprias e problemas distintos. Lee tem um bom relacionamento com o pai mas não parece capaz de estabelecer uma relação sentimental séria, surgindo como uma mulher de negócios de sucesso que procura vingar nos EUA. As opções sexuais desta personagem nem sempre parecem ficar explícitas, embora pareça certo que nutre algo por Stella (Josephine Koo), uma mulher descrita como lésbica. Stanley Kwan parece deixar implícito que Lee gosta de Stella e vice-versa, embora nunca desenvolva paradigmaticamente o nível de envolvimento entre estas duas mulheres. Wang tem uma relação nem sempre fácil com os homens, embora o pai a procure defender num determinado momento do enredo, surgindo como uma aspirante a actriz que se tarda em afirmar. No caso de Zhaohong os seus maiores objectivos parecem passar por ser feliz no casamento e trazer a sua mãe para os EUA, encontrando-se muito perto de falhar em ambos. Sente-se pouco valorizada pelo esposo, tendo pouco ou nada que fazer no dia a dia, com a própria decoração da casa a ficar a cargo de Thomas. Stanley Kwan não recorre aos momentos excessivamente melodramáticos, procurando antes incutir um enorme realismo a este retrato sobre três emigrantes a viverem em Nova Iorque, ao mesmo tempo que dá espaço para o trio de actrizes sobressair a interpretar estas figuras femininas que facilmente despertam a nossa atenção. A alienação no espaço citadino, temática querida a cineastas como Tsai Ming-liang, é um elemento muito presente no filme, com estas três mulheres a nunca se parecerem completamente integrar em Nova Iorque, com a própria cidade e cultura que envolve a mesma a contribuírem para esse isolamento, surgindo como um espaço incapaz de integrar "os corpos estranhos", tal como parece apresentar algumas dificuldades em aceitar as diferenças. Estas mulheres não se parecem adaptar totalmente ao território, nem se conseguem esquecer totalmente do passado e ultrapassarem a solidão que muitas das vezes atravessa as suas almas, numa obra cinematográfica que procura explorar o quotidiano de três figuras femininas em Nova Iorque, com o argumento de Acheng Zhong e Tai On Ping Yan a dotar ainda "Full Moon in New York" de um conjunto de personagens secundários que enriquecem a narrativa, para além de podermos contar com uma banda sonora e cinematografia marcadas por uma subtileza notória que procuram conjugar-se com o tom do enredo sem nunca sobressaírem em relação ao mesmo. Entre momentos de maior amizade entre três mulheres, dificuldades a nível pessoal e profissional, cenas profundamente humanas e interpretações de bom nível, "Full Moon in New York" é um drama sublime e delicado a abordar a história destas figuras femininas complexas que povoam uma história assaz interessante.

Título original: "Ren zai Niu Yue".
Título em inglês: "Full Moon in New York". 
Realizador: Stanley Kwan.
Argumento: Tai On Ping Yan e Acheng Zhong.
Elenco: Sylvia Chang, Maggie Cheung, Gaowa Siqin.

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