23 junho 2015

Resenha Crítica: "Every-Night Dreams" (Yogoto no yume)

 Os sacrifícios da figura feminina em relação ao homem é uma temática muito presente nas obras de Kenji Mizoguchi, tais como "Gion no Shimai", "Naniwa Ereji", "Ugetsu monogatarai", entre outras, mas também em diversos filmes de Mikio Naruse, com ambos a partilharem a mesma preocupação de abordarem assuntos relacionados com o papel da mulher na sociedade. No caso de Mikio Naruse, podemos desde logo traçar um paralelo entre "Every-Night Dreams", o filme em análise, e "Apart from You", duas obras onde a progenitora se sacrifica a trabalhar num local pouco recomendável para cuidar do filho. No caso de "Apart from You" tínhamos uma gueixa como protagonista, enquanto que em "Every-Night Dreams" temos Omitsu (Sumiko Kurishima), uma mulher que labora num bar em Ginza a acompanhar os clientes de forma a incitá-los a beberem mais. Não quer dizer que se prostitua, algo que até remete para a protagonista de uma das obras-primas de Mikio Naruse, "When a Woman Ascends the Stairs", também ela uma mulher com a mesma profissão, embora não fornecesse mais serviços aos clientes do que alguma conversa e companhia de forma a que estes consumissem mais álcool. No entanto, é interessante traçarmos um paralelo entre "Every-Night Dreams" e "When a Woman Ascends the Stairs", em grande parte pela própria representação do território de Ginza no período antes da II Guerra Mundial e depois do conflito bélico. "When a Woman Ascends the Stairs" apresenta-nos a um território entre a modernidade, a ocidentalização e a tradição, preenchido por uma miríade de bares e uma vida nocturna bem viva, enquanto em "Every-Night Dreams" estamos antes do período em que o Japão entrou oficialmente neste conflito bélico. Nesse sentido, assistimos a Omitsu a trabalhar num bar marcado pela proximidade do mar e pela presença de vários marinheiros que frequentam o local, longe de vários homens da alta sociedade que procuravam alguma diversão em "When a Woman Ascends the Stairs". Em ambas as obras, ainda que apresentem algumas diferenças, encontramos mulheres que procuram fazer pela vida e sustentarem-se. No caso de Omitsu, esta procura sustentar Fumio (Teruko Kojima), o filho, um jovem que fica muitas das vezes à guarda de um casal (interpretado por Jun Arai e Mitsuko Yoshikawa) com quem a protagonista partilha a casa, vivendo num quarto da mesma. A profissão não a parece agradar, nem o constante assédio dos homens, sobretudo do capitão (Takeshi Sakamoto), um indivíduo que pode a espaços apresentar comportamentos violentos, algo que se adensa a partir do momento em que este empresta dinheiro a Omitsu. O capitão é um indivíduo que está longe de despertar a nossa simpatia, tal como boa parte dos homens que povoam o bar e encaram estas mulheres como meros objectos, algo que contrasta com a complexidade da bela Omitsu. Esta foi à luta quando o filho mais precisava, após o marido ter abandonado a casa, há três anos, surgindo como o baluarte do lar, com o jovem Fumio a denotar uma enorme cumplicidade com a progenitora. Mikio Naruse é um realizador que parece verdadeiramente interessado em abordar temáticas relacionadas com as mulheres, a psicologia destas e a força que guardam no seu interior numa sociedade que nem sempre as valoriza. Estamos no território do Japão em plena Grande Depressão, onde os efeitos do desemprego se fazem sentir, uma situação que conduz Omitsu a manter a sua profissão, depositando grandes esperanças no futuro do filho, algo que a faz aguentar alguns dissabores.

Sumiko Kurishima, uma actriz que viria a participar em mais de cem obras cinematográficas, apresenta uma capacidade notória em exprimir-se diante do espectador, algo que num filme mudo é essencial, com Mikio Naruse a recorrer ainda em diversas ocasiões aos movimentos de câmara para adensar os sentimentos que rodeiam os personagens. Se em "When a Woman Ascends the Stairs" encontramos um cineasta no topo da sua maturidade, mais discreto no seu estilo, em obras como "Apart from You" e "Every-Night Dreams" é precisamente o oposto. Veja-se desde logo os constantes movimentos de dolly in nas cenas de maior dramatismo, com Naruse a deixar-nos perante close-ups dos seus actores ou actrizes, algo que permite explorar a expressividade dos mesmos, embora em alguns momentos pareça que este utilize esta técnica de forma gratuita (sim, acabaram de ler isto escrito pela mesma pessoa que não se incomoda com os zooms inquietos do Hong Sang-soo). Esta situação fica paradigmaticamente representada num momento de maior inquietação em volta de Omitsu e o seu esposo no último terço, onde este demonstra mais uma vez a sua enorme capacidade em cometer erros. Mizuhara (Tatsuo Saitô), o marido de Omitsu, abandonara-a, regressando ainda durante o primeiro terço da narrativa, pronto a recuperar o tempo perdido. Este continua desempregado. Diga-se que o seu vizinho ainda tenta arranjar-lhe um emprego e este ainda concorre a um cargo de aprendiz, mas tarda em conseguir o almejado trabalho. As finanças de Mizuhara são bastante depauperadas, algo visível num dos seus sapatos com a sola rota, que o filho a procurar colar com uma pastilha elástica e papel, num acto algo ingénuo que serve para Mikio Naruse incutir uma enorme humanidade no enredo. A esposa apresenta algumas reticências, para não dizer enorme desagrado, em relação ao seu regresso, embora aos poucos comece a aceitar a sua presença, com Mizuhara a conseguir ganhar a confiança do filho. Tatsuo Saitô interpreta mais um dos personagens dos filmes de Mikio Naruse que desafiam as nossas expectativas iniciais, com este a procurar reconciliar-se com a esposa e o filho, tendo consciência dos erros passados ao mesmo tempo que procura redimir-se. Esta aproximação conduz a que Mizuhara se sinta incomodado com a profissão da esposa, embora compreenda a necessidade desta em sustentar o lar. Ironicamente, numa sociedade como esta que nos é representada, dominada pelos homens, Omitsu surge como o baluarte do lar, com Naruse a evidenciar o papel fulcral da mulher. No entanto, a família sofre um enorme revés quando o jovem Fumio é atropelado (não pode faltar um evento do género numa obra de Naruse), algo que conduz Mizuhara a decidir tomar uma medida desesperada para pagar o tratamento do petiz num hospital em condições, uma situação que promete terminar em desgraça. Os valores tradicionais ainda surgem muito presentes ao longo do filme, tais como o da honra, com Mizuhara a tomar um acto pouco recomendável cujas consequências vão ser devastadoras e Omitsu teme que passem para o filho. A chegada deste homem traz um novo elemento ao quotidiano de Omitsu e Fumio, com o trio a finalmente parecer uma família convencional, mas logo tudo se desfaz perante a personalidade errática de Mizuhara apesar das suas boas intenções iniciais. Ele bem tentou arranjar emprego e formar amizade com o filho, mas o destino parece sempre pronto a trazer revezes a estes personagens, algo que se adensa quando estamos num filme de Mikio Naruse.

Mikio Naruse volta a realizar um drama sublime, marcado pela capacidade de explorar questões associadas à crise do território, às tradições e ao papel da mulher, ao mesmo tempo que nos deixa perante vários elementos transversais às suas obras. Veja-se os sacrifícios da figura feminina, bem como a sua procura em sustentar-se e ao lar, para além do pessimismo e a relevância do dinheiro para o quotidiano dos personagens. Diga-se que os personagens das obras de Mikio Naruse geralmente são elementos de classe média/baixa, com o dinheiro, ou melhor, a falta dele a exercer uma enorme influência no seu quotidiano. Essa situação é notória na forma como Omitsu tem de trabalhar num local nem sempre agradável para uma mulher, mas também quando Fumio é atropelado e são necessárias melhores condições para o tratamento do jovem. Ficamos ainda perante as complexas relações familiares, bem como o regresso de um familiar após uma ausência (algo que acontece em "No Blood Relation"), para além da procura de uma mãe em cuidar do seu filho. O ambiente no bar é marcado pelo consumo de álcool e homens prontos a assediarem as funcionárias, algo que raramente agrada a Omitsu, enquanto em casa tem de lidar com o inesperado regresso do esposo. Este parece bem intencionado, mas acaba quase sempre por falhar nos seus intentos, algo que conduz a que a protagonista tenha ainda mais "uma boca para alimentar". Os tempos que Mizuhara passa com o filho são de alguma candura e companheirismo, com o petiz a parecer ficar claramente contente com o regresso do progenitor, um indivíduo que apesar de estar longe de ser um exemplo consegue despertar a nossa simpatia. Veja-se quando estão juntos na praia, ou a ler, mas esta felicidade parece um interlúdio da dura realidade. No último terço, um furto atribui a "Every-Night Dreams" ainda alguns elementos de filme de assalto e policial, com Mizuhara a ser perseguido após um roubo que promete conduzi-lo à desgraça, naquela que é uma das sequências mais marcantes desta obra cinematográfica (não falta tensão, uma utilização de ângulos inusitados, movimentos de dolly in e um dinâmico trabalho de montagem). Já Mikio Naruse tem aqui um dos exemplos paradigmáticos do seu talento como realizador, naquele que é um dos cinco filmes mudos do cineasta que sobreviveram, com o cineasta a ser exímio a controlar os ritmos do enredo e a incutir um realismo muito próprio, mas também a saber trabalhar as imagens. A própria caracterização dos personagens tem algum relevo, com Omitsu a surgir sempre mais arranjada e confiante no bar, parecendo certa da sua capacidade de sedução, embora este estilo de vida não lhe agrade. A própria postura de Sumiko Kurishima muda nas cenas no bar e no lar, embora seja quase sempre latente a forte personalidade da personagem que interpreta, em contraste com o esposo desta, um indivíduo que a própria descreve como fraco. Drama familiar capaz de explorar algumas temáticas associadas ao território do Japão durante a Grande Depressão, "Every-Night Dreams" apresenta-nos a personagens que sonham com um futuro melhor mas lidam com um presente por vezes madrasto, enquanto Mikio Naruse volta a ser exímio a explorar as complexas relações humanas e a apresentar-nos personagens com alguma densidade.

Título original: "Yogoto no yume".
Título em inglês: "Every-Night Dreams".
Realizador: Mikio Naruse. 
Argumento: Mikio Naruse. 
Elenco: Sumiko Kurishima, Tatsuo Saitō, Mitsuko Yoshikawa.

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