01 junho 2015

Resenha Crítica: "Doctor Zhivago" (1965)

 Épico com enorme ambição capaz de abordar um período histórico alargado sem nunca descurar a espessura e dimensão humana dos seus personagens, "Doctor Zhivago" é uma obra a quem assenta que nem uma luva a expressão "já não se fazem filmes como este". Não é uma expressão que aprecie particularmente mas nos dias de hoje para um filme de largo orçamento contar com mais de três horas o mais provável seria mais de metade da sua duração ser um espectáculo de pirotecnia e CGI. "Doctor Zhivago" também conta com alguma acção, mas no centro de tudo estão os seus personagens e a forma como a Revolução Russa, a I Guerra Mundial e a Guerra Civil Russa afectaram a Rússia e os seus habitantes, com David Lean a exibir mais uma vez o seu engenho para a criação de épicos após já nos ter brindado com "The Bridge on the River Kwai", "Lawrence of Arabia" e agora esta adaptação muito livre ao grande ecrã da famosa obra literária da autoria de Boris Pasternak. Existem muitas liberdades históricas e um interesse claro no melodrama, mas nem por isso deixamos de ter uma abordagem ao contexto político e social que envolve esta narrativa que conta com um número impressionante de cenários e temas como a representação de Moscovo antes e depois da revolução, os espaços rurais desoladores e recheados de neve, a chegada dos bolcheviques ao poder e a perda das posses por parte da família de Zhivago, para além da participação deste em vários episódios relevantes que se encontravam a decorrer devido a se ter formado como médico. David Lean dá tempo para apreciarmos as imagens e os momentos entre os personagens, sejam estes uma cena de enorme candura e romantismo entre um casal de amantes, seja um homem que procura reencontrar a filha do meio-irmão, seja uma longa e dura viagem a pé na neve, entre vários outros episódios que rodeiam "Doctor Zhivago". É também essa capacidade de gerir o enredo e o desenvolvimento dos personagens, ao mesmo tempo que nos deixa apreciar a narrativa com conta, peso e medida, que faz o trabalho de David Lean sobressair naquele que é um dos grandes épicos da MGM e da História do Cinema. O enredo inicia-se por volta do final dos anos 40 ou início dos anos 50, com o General Yevgraf Andreyevich Zhivago (Alec Guinness) a contactar Tanya Komarova (Rita Tushingham), uma jovem que pensa ser órfã, devido a considerar que esta é a filha perdida do falecido meio-irmão, o Doutor Yuri Andreyevich Zhivago (Omar Sharif) e Larissa Antipova (Julie Christie), a amante do protagonista e um dos grandes amores da sua vida. Tonya não reconhece o rosto de Yuri Zhivago, nem o de Larissa, também tratada por Lara ao longo do filme, embora a narrativa logo recue para o tempo em que a mãe do personagem do título faleceu, com este a ficar a cargo de Alexander (Ralph Richardson) e Anna (Siobhán McKenna) Gromeko, um casal que conta ainda com a jovem Tonya (Geraldine Chaplin) como filha. O único bem que é deixado a Yuri é uma balalaica que pertencia à sua mãe, uma mulher que tinha um enorme talento a tocar este objecto musical que irá atravessar boa parte do enredo, com o protagonista a trazê-lo sempre consigo. A narrativa logo avança vários anos, com Yuri a regressar a Moscovo em 1913 para rever a família e, sobretudo, Tonya, com quem começa um romance, após ter estado em Paris. Yuri é ainda um poeta, cujas obras são bastante apreciadas, pelo menos até ocorrer a Revolução Russa e os textos serem banidos. Estes vivem numa casa requintada com alguma felicidade à mistura, com o protagonista a ser apresentado como alguém afável e de boa índole, sendo capaz de agradar a quase tudo e todos.

Enquanto isso, somos ainda apresentados a Lara e Victor Ipolitovich Komarovsky (Rod Steiger), um elemento poderoso e influente que é amigo pessoal da mãe desta (Adrienne Corri). Lara pretende casar com Pavel Pavlovich Antipov (Tom Courtenay), um jovem praticamente da sua idade, politicamente engajado, de esquerda, com ideais que cada vez vão ficando mais extremados e pouco parecem interessar à protagonista. A personagem interpretada por Julie Christie acaba por se envolver com Komarovsky que a apresenta a todo um novo mundo de luxos, tais como festas da alta sociedade moscovita, onde podemos ver todo um requinte dos cenários, com o guarda-roupa desta mulher e as tonalidades vermelhas e quentes do cenário a sobressaírem. Lá fora decorre um protesto pacífico organizado pelos revoltosos, onde se encontra Pasha, que logo é reprimido de forma brutal pelos Cossacos armados com sabres que agridem e eliminam todos os que encontram à frente, sejam mulheres ou crianças, algo que aumenta a sede de violência do jovem revolucionário. A sequência é marcada pela frieza dos cenários e dos sentimentos, com a neve a permear o território citadino moscovita, enquanto David Lean nos coloca perante um momento impressionante, onde assistimos a um contingente elevado de soldados a avançar de forma inapelável contra os protestantes, ferindo e assassinando vários destes elementos, independentemente da sua idade. O embate fica facilmente na nossa memória e causa estragos, com os protestantes a claramente não esperarem a ofensiva, algo que resulta numa das várias sequências de violência do filme, com "Doctor Zhivago" a contrastar o luxo da festa da alta sociedade com a crueza destes momentos. Um dos grandes méritos de David Lean é conseguir conciliar estas cenas mais épicas e bélicas com os momentos mais íntimos, onde consegue explorar o desenvolvimento dos personagens, algo de notório no caso de Lara, com Julie Christie a sobressair como esta mulher que se envolve numa situação deveras complicada. Apesar de não ter sido a primeira escolha do estúdio, Julie Christie consegue mesclar de forma praticamente irrepreensível o lado mais inocente e curioso de Lara com o seu desejo inicial pelos luxos. Parece desprezar Komarovsky, mas nem por isso o repele totalmente, apesar de se encontrar envolvida com Pasha. Se Pasha é um jovem idealista, já Komarovsky é um indivíduo na casa dos quarenta anos de idade, já estabelecido na vida, com Rod Steiger a atribuir a malícia necessária a este personagem que nem encara os seus actos como totalmente errados, surgindo posteriormente com alguma relevância no desenrolar dos episódios da narrativa. Lara encontra-se envolvida num imbróglio do foro sentimental, apesar de não parecer pretender deixar o noivo chegando até a fazer planos relacionados com uma vida em comum com este. Pasha procura a ajuda de Lara após ter sido ferido pelos cossacos, embora desconheça inicialmente que esta se encontra envolvida com Komarovsky, um indivíduo que representa claramente o oposto do primeiro. Após ser violada por Komaravosky, ou pelo menos apresentar uma enorme resistência aos avanços sexuais do mesmo, Lara procura eliminar este homem, algo que causa um enorme reboliço quando esta dispara contra o mesmo numa festa faustosa.

Lara chega a casar com Antipov, mais conhecido como Pasha, chegando a ter uma filha do mesmo, após este a defender perante tudo e todos no mesmo evento onde se encontravam ainda presentes Zhivago, Tonya e os pais desta. É Zhivago quem irá tratar do ferimento de Komarovsky, um elemento que conhecera devido a tê-lo ajudado noutro caso que também exigia uma enorme discrição. A narrativa logo avança no tempo, com Zhivago a ser requisitado para trabalhar como médico durante a I Guerra Mundial e a Revolução de Fevereiro, correspondendo-se por cartas com Tonya, aquela que será a mãe dos seus dois filhos. No palco de Guerra, marcado pelas enormes privações, violência e mortes, Zhivago conhece pessoalmente Lara, após já a ter visto por duas vezes, incluindo no incidente em que esta procurou eliminar Komarov. Esta encontra-se como enfermeira voluntária, não sabendo do paradeiro do marido, um elemento que entretanto viria a assumir atitudes extremistas após a Revolução. Após cerca de seis meses de trabalho em conjunto, Zhivago começa a desenvolver sentimentos por Lara, conhecendo o lado mais doce desta mulher que parece claramente mudada. Parece estar longe de surgir como a jovem que se deixava encantar com os luxos, procurando ser útil no palco de Guerra, tentando inicialmente rechaçar os avanços do protagonista num misto de medo do que poderia acontecer se dessem o próximo passo na relação e de sobriedade por saber que este ainda gosta da esposa. Quando regressa a Moscovo, Zhivago descobre que a sua habitação foi ocupada, encontrando-se várias famílias no local devido às novas leis relacionadas com a propriedade. A própria poesia do protagonista é proibida, com este e a esposa a verem-se na contingência de partir para o campo, a conselho de Yevgraf Andreyevich Zhivago, o meio-irmão do protagonista, um elemento leal ao Partido. Zhivago, Tonya, o filho de ambos e o pai desta partem num comboio super-povoado até Varykino. A viagem é longa e recheada de incidências nem sempre gratificantes, com o Zhivago e a família a terem de lidar com uma série de peripécias. Os momentos no interior do comboio contrastam com o escopo grandioso de alguns planos do território, com os personagens a encontrarem-se num vagão diminuto com cerca de cinquenta pessoas e um medo enorme em relação ao que poderá acontecer. A chegada a Varykino conduz Zhivago e a sua família a um novo estilo de vida, com estes a serem claramente influenciados pelos episódios históricos que ocorrem sem que tenham grande mão no seu destino. Zhivago ainda reencontra Lara com quem inicia um romance, apesar de amar a esposa, mas existe algo na amante que o encanta e torna difícil de resistir, embora mais uma vez estejam condicionados pelo contexto que os rodeia. David Lean revela-se exímio em explorar a forma como o contexto político e social afecta a vida dos seus personagens, quer sejam elementos relativamente apolíticos e sensatos como Zhivago, quer seja o fervoroso Pasha. Todos acabam por mudar um pouco ao longo do enredo, com cada episódio que vivem a ter alguma relevância para as mudanças de comportamento dos mesmos. Zhivago é praticamente obrigado a deixar de escrever poesia, conhece Lara (a sua musa para a poesia no último terço), é obrigado a separar-se da família pelos elementos bolcheviques quando estes se encontram em acção contra o Exército Branco, procurando forçar o médico a servi-los, enquanto o protagonista procura manter a sua personalidade e humanidade em tempos adversos.

O protagonista surge assim como um joguete do destino e da História, com David Lean a demonstrar um real interesse nestas gentes que viram as suas vidas transformadas. Temos as privações proporcionadas pela Guerra e uma Revolução descoordenada, algumas batalhas e mortes, mas é na representação das relações familiares e sentimentais destes personagens que "Doctor Zhivago" mais se destaca. Omar Sharif tem em Zhivago um dos grandes personagens da sua carreira, um médico e poeta cuja vida conhece um conjunto de episódios que travam as suas ambições. O actor atribui alguma contenção a este personagem que raramente encontramos a entrar em histeria, bem pelo contrário. É um elemento que procura acima de tudo sobreviver e regressar para aqueles que ama, quer seja a esposa, quer seja Lara, tendo com a primeira uma relação sólida e com a segunda um romance daqueles que ficam na memória. Zhivago tem em Lara o calor que lhe irá faltar a partir de determinada altura da narrativa, com Omar Sharif e Julie Christie a terem uma boa química nas cenas em conjunto naquele que é o casal mais marcante do filme. Ambos são românticos na forma de encarar a vida, embora esta esteja longe de lhes dar tréguas, com a convulsão política do território a afectar ambos os elementos. A cena em que este regressa à casa de Lara em Varykino, praticamente consumido pelo gelo, num farrapo e desiludido com as ausências da esposa, sogro e filhos devido a terem sido deportados, é marcante, com Omar Sharif a conseguir expressar a dor do seu personagem após ter sido obrigado a ir para o palco de guerra contra o Exército Branco para servir de médico. A sua profissão tornou Zhivago livre de combater, mas nem por isso o deixou de fora dos palcos mais violentos, ao mesmo tempo que o privou da felicidade desejada, sendo obrigado a um sacrifício doloroso para salvar quem ama. Lara torna-se o grande amor da vida deste, a mulher que o faz querer desafiar tudo e todos numa luta quixotesca onde irá apenas tentar adiar o inevitável. Com a personagem interpretada por Geraldine Chaplin conhecera um matrimónio marcado por alguma felicidade e as contrariedades dos efeitos da Revolução. Ainda chega a trair a esposa mas percebemos que Zhivago nunca deixa de a amar, existindo um misto de sentimentos que o afectam, com Lara a parecer mexer com um lado seu mais incontrolável. A história de Zhivago é apresentada em flashback pelo irmão deste, por vezes de forma algo episódica, enquanto David Lean nos absorve para o interior deste enredo ao longo das suas mais de três horas de duração. Poderia ainda ter mais uma hora ou duas só para podermos acompanhar esta obra que nunca foi consensual mas nem por isso deixa de ser um épico belíssimo, onde o romantismo, a violência da guerra e as alterações políticas da Rússia são expostas.

David Lean poderia ter investido ainda mais na exposição do contexto político, mas prefere antes expor os episódios através das suas consequências na vida do protagonista e daqueles que o rodeiam naquele que é um filme marcado por excelentes valores de produção. A começar pelo design dos cenários, sejam estes interiores ou exteriores. A nível de interiores vale a pena realçar a forma como a casa de Zhivago é conspurcada após o iniciar da revolução, algo que contraria o bem estar em que este vivia, com o elemento que o criou a ver serem-lhe retirados os seus bens. A própria dicotomia entre o local luxuoso onde decorrem as festas dos elementos mais abastados, marcado por tonalidades quentes, onde Zhivago anuncia o noivado com Tonya, e Lara procura eliminar Komarovsky, e a casa para onde o protagonista vai habitar no campo é paradigmática das mudanças de estilo de vida que ocorrem. No campo este tem as privações de estar isolado, mas também do escassear de bens, com as mudanças das estações a darem o mote para a passagem do tempo. A neve marca bastante estes cenários, bem como a frieza do destino, com este a não ter sido simpático para vários elementos, enquanto ficamos perante as peripécias de uma revolução cujos resultados surgem representados de forma dura. Não se pede total rigor histórico numa obra de ficção, mas sim que estas liberdades ao serem tomadas sirvam a narrativa e que o cineasta seja fiel às ideias que tem para o enredo, algo que acontece em "Doctor Zhivago", com David Lean a conseguir conciliar de forma bastante homogénea os episódios históricos com a vida dos protagonistas, sempre com grande enfoque nestes últimos. Lean permite assim a actores como Omar Sharif, Julie Christie, Alec Guiness, Geraldine Chaplin, Tom Courtenay, entre outros, sobressaírem, com o terceiro a surgir como uma figura-chave ao procurar rever a filha do seu meio-irmão com Lara, ao mesmo tempo que parece apresentar algum arrependimento pelos actos do passado e por não ter sido mais interventivo na defesa do familiar. Alec Guiness é um actor extraordinário, conseguindo no pouco tempo que está em cena explorar o misto de sentimentos do seu personagem entre ser fiel ao Partido e procurar ajudar o irmão. Ainda irá tentar remediar o erro, embora seja tarde demais, surgindo como alguém muito fiel aos seus ideais políticos. A longa duração da narrativa permite ainda que assistamos a um mudar gradual e desenvolvimento de vários personagens, tais como Antipov que revelará uma faceta descontrolada a partir do momento em que atinge algum poder, com este a encontrar-se com Zhivago numa fase crítica para ambos. O momento é emocionalmente poderoso, com o filme a procurar explorar a aparente frieza de Antipov e maior amor à sua causa do que a Lara, com Zhivago a parecer demonstrar mais afecto por esta do que o marido dela. As cenas entre ambos surgem num dos intervalos da longa viagem de comboio, com "Doctor Zhivago" a não poupar num conjunto diversificado de cenários que exibem paradigmaticamente as alterações constantes nas vidas destes personagens. Com um conjunto de bons valores de produção, interpretações dignas de relevo, uma banda sonora capaz de respeitar o tom épico e algo melodramático do filme, "Doctor Zhivago" exibe mais uma vez a capacidade de David Lean para a elaboração de épicos grandiosos que nos fascinam pelo seu conteúdo e pelo seu estilo. Este aproveita as mais de três horas de duração do filme para desenvolver os personagens, para podermos apreciar e contemplar cada plano criado, para nos envolvermos com o enredo ao mesmo tempo que interliga os destinos de vários elementos de forma coerente e nos deixa perante uma obra memorável. Não falta ainda alguma acção e muita emoção a "Doctor Zhivago" mas são sobretudo as relações pessoais e sentimentais dos personagens que geram maior interesse, com David Lean a traçar um retrato notável sobre os efeitos do contexto histórico na vida dos seres humanos que os presenciam, quer queiram participar nos eventos ou não.

Título original: "Doctor Zhivago". 
Título em Portugal: "Doutor Jivago".
Realizador: David Lean.
Argumento: Robert Bolt.
Elenco: Omar Sharif, Julie Christie, Tom Courtenay, Alec Guinness, Geraldine Chaplin, Rod Steiger.

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