18 junho 2015

Resenha Crítica: "Comrades: Almost a Love Story" (Tian mi mi)

 O título original de "Comrades: Almost a Love Story" remete para a música "Tian mi mi" de Teresa Teng, uma cantora bastante popular entre as décadas de 70 e 90, tendo falecido aos quarenta e dois anos de idade. A música é marcada por tonalidades melódicas que facilmente nos transmitem uma certa atmosfera meio romântica, meio optimista, mesmo sem sabermos bem as suas letras. As músicas desta cantora vão fazer parte do enredo de "Comrades: Almost a Love Story", um romance que facilmente nos conquista para o interior da história da dupla de protagonistas, interpretada pelos talentosos Leon Lai e Maggie Cheung. Leon Lai interpreta Li Xiao-Jun, um indivíduo que veio do Norte da China em direcção a Hong Kong onde pretende melhorar as condições de vida. É um elemento desfasado da sociedade que o rodeia, algo naïve, amável e simpático, que se vê num contexto completamente diferente daquele ao qual estava habituado, não dominando o cantonês e o inglês. Este corresponde-se regularmente com Xiao-ting (Kristy Yang), a sua noiva, uma mulher com quem espera vir a reunir-se assim que obtiver a estabilidade financeira necessária. A única pessoa que Xiao-Jung conhece em Hong Kong é Rosie (Irene Tsu), a sua tia, uma mulher fanática por William Holden, um actor dos EUA com quem esta afirma um dia se ter encontrado (não deixa de ser algo pitoresco ver a sala desta mulher decorada com fotos do actor). Maggie Cheung interpreta Li Qiao, uma mulher oriunda de Guangzhou, que domina o cantonês e já sabe algumas das manhas para conseguir sobreviver num local urbano onde nem sempre é fácil os novos elementos integrarem-se. Se Xiao-Jun apenas quer ter o dinheiro suficiente para voltar a contar com a companhia da sua namorada, já Li Qiao ambiciona ficar rica. A ambição excessiva desta mulher conduz a que engane elementos como Xiao-Jun, envolvendo-o num esquema para se aproveitar financeiramente do mesmo, mas aos poucos acaba por formar uma sólida amizade com este. Ele é ingénuo e simpático, tendo poucas pretensões da vida, trabalhando inicialmente a efectuar entregas. Ela é ambiciosa, pragmática e fã do Rato Mickey. Estes conhecem-se pela primeira vez num dos restaurantes da rede McDonalds, no qual Li Qiao labora, com Xiao-Jun a ficar impressionado pelo mesmo, parecendo quase uma criança acabada de chegar pela primeira vez a um parque de diversões. Hong Kong é-nos exposta em todo o seu esplendor, com as ruas marcadas pelos néones, um espaço onde marcas como a McDonalds, a Coca-Cola e afins se impõem, recheado de vastas gentes embora por vezes possa ainda aumentar a solidão daqueles que não têm companhia. Xiao-Jun e Li Qiao são dois desses seres humanos solitários que habitam por este espaço. Maggie Cheung é sublime a gerar empatia com o espectador, ao compor uma personagem inicialmente pouco dada a simpatias, que gradualmente demonstra as suas fragilidades e se deixa apaixonar pelo protagonista. O momento no McDonalds é impagável, mas também a forma como Li Qiao, aos poucos, após deixar de o tentar enganar, começa a ensinar o personagem interpretado por Leon Lai a adaptar-se ao local. A química entre ambos é notável, com Leon Lai e Maggie Cheung a convencerem-nos que estas duas figuras solitárias aos poucos começam a nutrir sentimentos um pelo outro a ponto de começarem a questionar alguns dos seus objectivos iniciais. Xiao-Jun deixa de conseguir escrever tanto para a amada. Li Qiao parece começar a ficar na dúvida em relação aos seus sentimentos. Esta investe na bolsa tendo em vista a "fica rica" mas a sua conta bancária recheada logo sofre um rombo quando existe uma crise neste sector. Perante uma situação financeira delicada, Li Qiao vê-se na contingência de ter de trabalhar como massagista, algo que a envergonha, tendo em Xiao-Jun o seu maior apoio, pelo menos até Xiao-ting chegar a Hong Kong.

Li Qiao e Xiao-Jun parecem ser o maior baluarte um do outro, com Peter Chan, o realizador, a conseguir criar uma atmosfera credível em volta dos dois, com a intimidade entre ambos a ser sentida e transmitida para o espectador. A certa altura de "Comrades: Almost a Love Story", Xiao-Jun adquire duas braceletes, uma para a namorada, outra para Li Qiao. Fica claro que este está num imbróglio, envolvendo-se emocionalmente e sexualmente com a personagem interpretada por Maggie Cheung, com a chegada da noiva a Hong Kong a tornar a situação aparentemente ainda mais insustentável. Xiao-ting é uma mulher simpática e afável, que procura iniciar amizade com Li Qiao, algo que complica mais toda esta situação da qual parece ser impossível todos saírem bem sem abrirem umas quantas feridas na alma. O casamento de Xiao-ting e Xiao-Jun, bem como o iniciar da relação entre Li Qiao e Pao Au-Yeung (Eric Tsang), um gangster que esta conheceu durante o trabalho como massagista, parecem conduzir a uma afastamento entre estes dois elementos, embora o destino ainda prometa efectuar das suas, com "Comrades: A Love Story" a surgir como um melodrama competente que não foge a alguns convencionalismos associados aos filmes do género, tais como os encontros e desencontros proporcionados pelo destino, o par romântico que gera a nossa simpatia mas tarda em ficar junto, ao mesmo tempo que aborda questões como a emigração chinesa para Hong Kong e os EUA, a alienação no espaço urbano, entre outros assuntos. O filme lida ainda com questões relacionadas com a identidade, com Li Qiao a procurar esconder muitas das vezes as suas origens, uma situação que a conduz a reprimir o seu gosto pelas músicas da cantora Teresa Teng, uma artista associada aos chineses. Já Xiao-Jun não esconde de onde vem e o seu gosto pelas canções de Teresa Teng, apesar de também procurar fazer carreira profissional em Hong Kong, chegando a trabalhar como chef. São dois personagens que ambicionam vingar na vida que reflectem um movimento de saída da China, com o enredo a deambular entre 1987 e 1995. Várias são as mudanças conhecidas pela dupla de protagonistas ao longo dos anos, com os EUA a chegarem a ser um território onde residem, com Peter Chan a filmar a obra cinematográfica em ambos os locais, uma situação que permite expor o deslocamento de ambos os personagens em relação aos novos espaços onde habitam (é verdade que saíram da China mas mentalmente não parecem ter abandonado as suas raízes). A chegada aos EUA parecia traduzir-se nos sonhos de grandeza de Li Qiao, mas nem por isso esta deixa de conhecer alguns revezes ao longo de uma obra que nos coloca perante o quotidiano de dois seres humanos que facilmente geram a nossa simpatia. É essa simpatia, aliada à capacidade de Peter Chan em explorar o argumento de Ivy Ho e tornar credíveis vários momentos que poderiam parecer inicialmente pouco plausíveis, que elevam "Comrades: Almost a Love Story". A história está recheada de avanços e recuos entre a dupla de protagonistas ao longo do período a rondar os dez anos em que se desenrola a narrativa, entre acasos que os juntam e separam, com a música de Teresa Teng a ter um papel relevante no enredo e a estranhamente contagiar-nos. Diga-se que é num momento falhado a tentarem vender cassetes de música desta cantora que parecem perceber que existe muito a uni-los um ao outro, bem como a separá-los em relação a este novo território. No fundo, são dois estranhos ainda não completamente integrados numa realidade capitalista distinta da sua que aos poucos se conhecem, formam laços, conquistam-se e conquistam-nos.

 Recentemente tive a oportunidade de ver um filme chamado "El Crítico", onde o protagonista é um crítico de cinema bastante duro para com as obras cinematográficas medíocres e pragmático em relação aos romances, não tendo problemas em desconstruir os mesmos. Este não compreende como se pode gostar de filmes tão previsíveis, embora a maioria das mulheres que o rodeiem apreciem os mesmos, com o próprio a viver uma situação típica das fitas deste subgénero. Servem estas palavras anteriormente escritas para salientar que "Comrades: A Love Story", apesar de nem sempre nos surpreender e contar com vários lugares-comuns associados aos romances, facilmente nos conquista graças à empatia criada pela sua dupla de protagonistas, com Peter Chan a conseguir criar toda uma intimidade entre ambos que nos convence. Estes procuram fugir a uma realidade que lhes parece pouco promissora na China para viajarem para outro território em busca de melhores condições de vida. Pelo meio encontram a solidão, com a companhia um do outro a parecer o melhor conforto em tempos onde as memórias do passado parecem ressurgir nas suas almas. O cinismo e pragmatismo da personagem interpretada por Maggie Cheung parece dissolver-se com o avançar do enredo, enquanto Xiao-Jun não consegue esquecer esta mulher, mesmo quando se casa. No final está longe de ser aquele indivíduo que conhecemos no início do filme, que apresentava um enorme encanto pelo espaço e os papéis do McDonalds, ou fazia um enorme alvoroço quando via um pager, ainda pouco habituado ao ritmo urbano, conhecendo aos poucos mais sobre este espaço e sobre si próprio. É um filme de sentimentos quentes, de reuniões e separações, de gentes solitárias num espaço urbano, temáticas já tanto vistas mas tão bem exploradas. A banda sonora é típica destes romances, embora a própria história de Teresa Teng se entranhe por um enredo que aos poucos nos convence apesar de contar com alguns momentos lamechas que ameaçam retirar um pouco da credibilidade que a narrativa muitas das vezes apresenta. Não faltam ainda reviravoltas, as célebres corridas e momentos à chuva típicos destes filmes, mas também muita delicadeza na abordagem da história por parte de Peter Chan, algo que pode ajudar a explicar o facto de ter arrecadado uma série de prémios de relevo na décima sexta edição dos Hong Kong Film Awards. O filme conta ainda com uma série de personagens secundários que conseguem sobressair, tais como Pao Au-Yeung, Xiao-ting, a tia Rosie, algo que dá espaço para elementos como Eric Tsang, Kristy Yang e Irene Tsu destacarem-se em alguns momentos. Com uma química notável entre Leon Lai e Maggie Cheung, subtis comentários do foro político e social, algum romantismo e canções de Teresa Teng, "Comrades: Almost a Love Story" pode ser relativamente previsível e convencional mas é igualmente sensível, delicado e facilmente consegue que geremos empatia pela sua dupla de protagonistas. No final, certamente chumbei no teste de pragmatismo do protagonista de "El Crítico" mas nem por isso deixei de conseguir parar de me envolver emocionalmente com a história destes dois seres humanos solitários, cuja química é inegável mas o destino e as suas opções nem sempre acertadas parecem muitas das vezes afastá-los.

Título original: "Tian mi mi".
Título em inglês: "Comrades: Almost a Love Story". 
Realizador: Peter Chan.
Argumento: Ivy Ho.
Elenco:
Maggie Cheung, Leon Lai, Eric Tsang, Kristy Yang, Irene Tsu.

1 comentário:

Michael Floro disse...

Aníbal, parabéns pela excelente crítica (e também pelo blog, que tive a sorte de achar por acaso). "Tian Mi Mi" é realmente um filme encantador, apesar dos lugares-comuns. Att.