08 junho 2015

Resenha Crítica: "Captain Blood" (1935)

 Não sou particular apreciador da expressão "já não se fazem filmes como estes" mas ao terminar de visionar "Captain Blood" fiquei com a ideia que ela se aplica na perfeição não apenas a esta obra cinematográfica mas também a “The Adventures of Robin Hood”. Ambos são swashbuckling films protagonizados por Errol Flynn, com o actor a ter sido alçado para o sucesso com "Captain Blood", uma obra onde sobressai pelo estilo irreverente, bem intencionado, idealista e sardónico que incute ao personagem que interpreta, uma situação que se irá repetir em "The Adventures of Robin Hood". Tal como em vários filmes deste subgénero de "capa e espada", não faltam combates com espadas, acção, aventura, romance, algum drama e humor, sempre com um tom marcado por alguma ingenuidade e uma mescla de contexto histórico com ficção e fantasia, com Michael Curtiz a reunir estes "ingredientes" de forma bastante competente. Inspirado no livro homónimo de Rafael Sabatini, "Captain Blood" reúne pela primeira vez Errol Flynn e Olivia de Havilland, na época dois elementos relativamente desconhecidos, com ambos ainda a virem a ter mais sete trabalhos em conjunto, denotando neste filme realizado por Michael Curtiz uma química latente que ainda seria notória em obras cinematográficas como "The Adventures of Robin Hood" onde interpretariam Robin e Lady Marian. Uma das características destes swashbuckling films (que "Captain Blood" contribuiu para ajudar a popularizar) centra-se no facto de se situarem num período histórico balizado numa idade Moderna ou Média ficcional. Em "Captain Blood", a narrativa começa em Inglaterra, em 1685, tendo como protagonista Peter Blood (Errol Flynn), um médico conhecido por procurar escapar aos conflitos que assolam o território, em particular os motins contra o Rei James II. Blood já participara noutros conflitos, procurando agora levar um estilo de vida pacífico como médico, embora isso não o impeça de se envolver em problemas, sobretudo quando é contactado por Jeremy Pitt (Ross Alexander) para ajudar o Lorde Gildoy (David Cavendish), um indivíduo que foi gravemente ferido na Rebelião de Monmouth. Peter Blood aceita ajudar o doente, considerando que ninguém iria intrometer-se no tratamento fornecido a um indivíduo que corre perigo de vida mas acaba por ser detido, sendo também ele acusado de traição ao Rei James II. Este é julgado e considerado culpado, bem como vários elementos inocentes, tendo sido condenado à forca. No entanto, o Rei James II (Vernon Steele) é convencido a enviar estes condenados para as colónias tendo em vista a trabalharem como escravos, uma ideia que lhe parece agradar. É neste contexto que Blood é transportado para Port Royal, uma colónia localizada na Jamaica onde, após uma atitude insolente, é adquirido por Arabella Bishop (Olivia de Havilland), a bela sobrinha do Coronel Bishop (Lionel Atwill), um indivíduo frio e austero que inicialmente rejeita comprar o protagonista devido ao seu comportamento irreverente. O representante real na região é o Governador Steed (George Hassell), um indivíduo algo peculiar, que padece da doença de gota, algo que dificulta a sua locomoção. Rebelde, pouco dado a cumprir ordens e sempre com a fuga em mente, Blood raramente consegue demonstrar alguma gratidão para Arabella, apesar desta o ter salvo de ir trabalhar para as minas, com o protagonista a ter na incompetência de Bronson (Hobart Cavanaugh) e Whacker (Donald Meek), os médicos de Steed, uma forma de ganhar relevo no território ao tratar do Governador, com a personagem interpretada por Olivia de Havilland a ter novamente relevância no destino deste médico irlandês. 

A relação entre Blood e Arabella é quase sempre marcada por um misto de um tom sardónico e romântico, com os personagens interpretados por Olivia de Havilland e Errol Flynn a não parecerem ficar indiferentes um ao outro, embora essa situação não faça com que o protagonista largue os planos de fugir do território. Diga-se que parte do ressentimento de Blood em relação a Arabella centra-se no facto desta ser sobrinha de um esclavagista que trata os escravos como se fossem mercadoria, com o filme a não poupar na exposição da dimensão pouco positiva de Bishop. Os escravos são tratados de forma desumana, com os elementos que tentam escapar a serem chicoteados e marcados com um símbolo colocado no rosto através de um ferro em brasa, com Bishop e os seus homens a revelarem uma enorme frieza e requintes de malvadez. Com a ajuda de elementos como Jeremy Pitt, um piloto de navios, Henry Hagthorpe (Guy Kibbee), um artilheiro, Andrew Baynes (David Torrence), Honesty Nutall (Forrester Harvey), entre outros, Blood começa a preparar uma possível fuga, tendo no ataque de um barco espanhol ao território a oportunidade de ouro para escapar do mesmo. O ataque coloca o território em perigo, mas Blood e o seu grupo conseguem escapar com vida. Blood lidera os seus companheiros no ataque ao barco e na fuga deste local, iniciando uma vida como piratas, com o protagonista a estabelecer um conjunto de regras que não podem ser desrespeitadas, revelando alguma integridade moral apesar de, na prática, este e os seus comandados viverem um quotidiano dedicado ao crime. Com uma gestão dos ritmos da narrativa exímia, Michael Curtiz transporta-nos para o quotidiano destes personagens, exibe e explora o espírito de grupo destes (agora) piratas e a procura em enriquecerem com facilidade, enquanto Blood revela-se o líder dos mesmos, com Errol Flynn a demonstrar o seu enorme carisma a interpretar este indivíduo que ganha a fama de ser um dos piratas mais eficientes dos sete mares. Diga-se que este espírito de grupo recorda-nos e muito a dinâmica que vamos encontrar entre Robin Hood e os Merry Men em "The Adventures of Robin Hood", onde também Errol Flynn sobressaía pela forma como nos convencia que o seu personagem era um idealista capaz de galvanizar aqueles que se encontravam à sua volta, com Michael Curtiz a explorar e desenvolver a dinâmica entre estes elementos com enorme eficácia. Num momento de descanso, em Tortuga, estes deparam-se com o Capitão Levasseur (Basil Rathbone), o pirata mais conhecido, a par do Capitão Blood, com o primeiro a revelar enormes fraquezas no que diz respeito às mulheres e ao cumprimento das regras. A pouca capacidade de Levasseur em cumprir regras ajuda a explicar que a parceria iniciada com Blood termine de forma trágica, sobretudo quando o personagem interpretado por Basil Rathbone toma Arabella e o Lorde Willoughby (Henry Stephenson), um emissário do Rei, como reféns. Esta viajava de Inglaterra para Port Island, enquanto Willoughby procurava aferir como se encontrava a situação no território, embora sejam surpreendidos pelo ataque de Levasseur. Blood logo procura libertar Arabella, exibindo que ainda nutre sentimentos por esta mulher com quem inicialmente formara uma estranha relação antes de partir de Port Island. Esta parece algo desiludida com o estilo de vida que Blood decidiu seguir depois da fuga, embora aos poucos perceba que Blood manteve os seus traços idealistas e cavalheirescos que o levaram muitas das vezes a envolver-se em confusões, entre as quais este duelo para a salvar. 

Olivia de Havilland e Errol Flynn revelam uma química notória, com ambos a interpretarem personagens algo naïves que gostam de desafiar as regras, contando com personalidades fortes, algo que explica alguns dos arrufos entre Arabella e Blood. O romance entre Arabella e Blood é convincente e marcado por alguma ingenuidade, típica deste subgénero de filmes, tal como as cenas de acção, entre as quais o embate com espadas entre o protagonista e Levasseur. Diga-se que Basil Rathbone e Errol Flynn viriam a repetir o duelo em "The Adventures of Robin Hood", embora em "Captain Blood" ainda tenhamos um último terço fulgurante, onde o barco dos piratas vai surpreendentemente ser utilizado para fins altruístas com estes homens a revelarem não só o seu patriotismo mas também sentido de justiça. Diga-se que parte destas cenas do combate em alto mar foram retiradas do filme "The Sea Hawk" (1924), com Michael Curtiz, um dos realizadores mais talentosos e subestimados da sua geração, naquela que é a primeira de diversas colaborações com Errol Flynn, a reciclar este material com eficiência. "Captain Blood" conta ainda com um elenco secundário convincente, ficando particularmente na memória Basil Rathbone como um pirata mais cínico e distinto do protagonista, ou George Hassell como o caricato Steed, para além de Lionel Atwill como o austero Coronel Bishop, um esclavagista que entra por diversas vezes em confronto com o protagonista. Bishop surge representado como um elemento ambicioso, pouco dado a grandes mostras de humanidade, tendo um comportamento violento para com os escravos. Diga-se que os antagonistas surgem muitas das vezes representados como figuras relativamente unidimensionais, com "Captain Blood" a nunca procurar apresentar uma enorme profundidade, sobressaindo sobretudo como um filme de acção e aventuras que procura entreter o espectador. A própria banda sonora, composta por Erich Wolfgang Korngold, contribui para esta atmosfera típica dos filmes de aventuras, exacerbando os momentos de maior emoção, numa obra cinematográfica que continua a apresentar uma vitalidade impressionante. Michael Curtiz mescla com eficácia os momentos de maior acção, tais como os bombardeios de canhões e combates com as espadas, com o desenvolvimento dos personagens, conseguindo explorar ao máximo o material que tem à disposição e criar um filme que viria a deixar marca e ajudar a popularizar este subgénero de obras cinematográficas. Marcado por acção, aventura, romance, humor, ideais expostos de forma exacerbada, com Errol Flynn a sobressair como este médico irreverente que se torna num pirata eficiente, "Captain Blood" surge como uma obra cinematográfica a espaços entusiasmante que utiliza na justa medida boa parte dos ingredientes que um filme do género deve conter.

Título original: "Captain Blood".
Título em Portugal:  "O Capitão Blood".
Realizador: Michael Curtiz. 
Argumento: Casey Robinson.
Elenco: Errol Flynn, Olivia de Havilland, Basil Rathbone,Ross Alexander.

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