02 junho 2015

Resenha Crítica: "Brief Encounter" (Breve Encontro)

 Quando ouvimos falar do nome de David Lean, as obras mais realçadas são muitas das vezes épicos como "The Bridges of River Kwai", "Lawrence of Arabia" e "Doctor Zhivago". No entanto, este também conta no seu currículo com pequenas pérolas como "Brief Encounter", um filme baseado na peça "Still Life" de Noël Coward, onde assistimos a uma paixão impossível entre um casal de amantes que vive momentos de grande fulgor sentimental quando se encontra em conjunto. São casados, amam os respectivos cônjuges, mas existe algo que os compele a não se conseguirem deixar de encontrar. Laura Jesson (Celia Johnson) é uma mulher de classe média casada com Fred (Cyril Raymond), de quem tem dois filhos ainda jovens. Os dois parecem viver um casamento aparentemente sólido, tendo uma casa com dois andares, espaçosa e um estilo de vida que permite a Laura viajar todas as Quintas-Feiras até Milford, onde costuma ir trocar de livro na biblioteca local, fazer compras e ir ao cinema, aguardando pacientemente no café da estação do comboio pelo seu meio de transporte. Alec Harvey (Trevor Howard) é um médico que costuma ir todas as Quintas-Feiras a Milford para exercer a sua profissão no hospital local. Este também é casado e tem filhos, parecendo um homem de fino trato e apaixonado pela sua profissão. Os dois conhecem-se por acaso. O fumo do comboio atirou algo semelhante a terra para o olho de Laura, algo que conduziu o médico a ajudá-la no café localizado nas imediações da estação. Laura agradece, enquanto Alec logo tem que partir para apanhar o comboio. Estavam longe de saber que este episódio iria marcar as suas vidas, com os breves encontros que começam a ter às Quintas-Feiras a tornarem-se em algo de mais intenso. A segunda vez que se encontram é em outra Quinta-Feira, mais uma vez praticamente por acaso. O restaurante da estação está cheio e Alec acaba por se sentar na mesma mesa de Laura. Acabam por ir ao cinema juntos, prometendo reencontrar-se na semana seguinte. Laura teme o reencontro, mas encontra-se ainda mais receosa de nunca mais voltar a ver Alec. Aos poucos os dois iniciam um affair que nos é exposto por Laura como se tivesse a revelar ao esposo os pormenores da sua relação com Alec. No início do filme somos apresentados ao final do caso entre os dois. Ele irá partir com a família para Joanesburgo onde o seu irmão irá abrir uma clínica. Ela irá recordar-se para sempre deste caso e procurar manter a solidez do seu casamento após um momento fugaz onde contemplou o suicídio. Um simples gesto no ombro desta carrega uma imensidão de sentimentos, com a despedida a ser interrompida por Dolly Messiter (Everley Gregg), uma conhecida de Laura. Dolly é uma mulher metediça, faladora, que apenas procura saber as novas fofocas relacionadas com a vida dos outros. Pela narração de Laura ficamos a conhecer que a protagonista despreza Dolly, com esta última a surgir no local e hora errada interrompendo um momento de intimidade entre os amantes. Esta cena é desde logo apresentada nos momentos iniciais, nos quais David Lean nos coloca diante do café onde estes dois personagens se despedem. Inicialmente encontramos a empregada do café da estação a conversar com um dos fiscais do comboio, até a câmara de filmar virar o foco principal para um casal que se encontra numa mesa com um ar entre o soturno e o melancólico que parece procurar não ser visto por ninguém conhecido e posteriormente descobrirmos estar prestes a separar-se.

Os seus semblantes são carregados, os seus olhares marcados pela tristeza, ficamos desconfiados sobre o que se terá passado entre ambos e surpresos pela forma humana e romântica como "Brief Encounter" exibe os acontecimentos que conduziram a tão relevante momento. As revelações deixam-nos perante uma paixão impossível, marcada pela infidelidade de ambos aos respectivos cônjuges, uma relação daquelas que apenas quase encontramos nos filmes e nos encantam quando são apresentadas com a subtileza, realismo e romantismo de "Brief Encounter". Ambos parecem sentir-se culpados por manterem este affair mas o que poderão fazer para evitá-lo? Manterem a racionalidade perante um dos mais belos sentimentos? Ou entregarem-se a algo que sabem não poder durar mas nem por isso vai ser esquecido? São estas Quintas-Feiras entre os dois que acompanhamos, bem como o sentido de culpa da protagonista em mentir ao esposo, enquanto esta nos relata de forma bem viva os episódios destas Quintas-Feiras inesquecíveis que aos poucos começam a fazer parte da nossa vida. Se Rick e Ilsa tiveram Paris em "Casablanca", já Laura e Alec tiveram estas Quintas-Feiras em Milford. Não tiveram direito a alguém tão afinado como Sam a tocar "As Time Goes By", mas sim a uma banda completamente desafinada no restaurante/café que frequentam, com a falta de coerência nos acordes a contrastar com a forma perfeita como Alec e Laura se complementam. O comboio é o meio de chegada e partida. Onde Laura reflecte, atormenta-se e regozija-se pela felicidade sentida. Inicialmente sente-se envergonhada e finge ler um livro com medo de alguém poder ler os seus sentimentos. Não sabemos como estará Alec no comboio que apanha mas certamente terá Laura na memória. David Lean capta com enorme subtileza os episódios de um affair entre um homem e uma mulher casados cuja atracção que sentem um pelo outro é notória e impossível de conter. Procuram ser discretos nos gestos quer em público, quer em privado, apresentando uma contenção admirável quando as suas almas parecem fervilhar de emoções. Celia Johnson e Trevor Howard são essenciais para o filme funcionar, com ambos a encarnarem com enorme realismo e delicadeza o casal infiel, apresentando uma química e dinâmica quase irrefutáveis. Johnson como a narradora de serviço, aquela que nos expõe directamente os sentimentos da sua personagem, a forma como viveu o caso e como procurou inicialmente evitá-lo até não resistir mais. Howard como este homem que trata Laura de forma gentil e respeitosa, começando aos poucos a sucumbir aos seus encantos. Não estava na agenda de Laura e Alec iniciarem um caso. O próprio primeiro encontro entre ambos parecia apenas prever uma rápida troca de diálogos que se perderia entre as brumas da memória. Nem tudo é assim tão simples na vida e no amor com estes dois elementos a comprovarem esta situação. David Lean apresenta-nos aos episódios entre estes dois personagens nas Quintas-Feiras, seja nas idas ao cinema, nos passeios, nas duras despedidas, sempre com especial enfoque em Laura por ser a protagonista que nos relata os acontecimentos. A química entre os dois actores é latente, com David Lean a abordar subtilmente a clássica história de um amor impossível condenado ao fracasso. Sabemos que estes dois personagens mais tarde ou mais cedo terão de se separar mas nem por isso os queremos deixar. Percebemos que não podem abandonar toda a vida que formaram com os respectivos cônjuges, mas como negar que ambos se amam de forma inexorável?

O marido de Laura parece amar a esposa. Não lhe dá a atenção de Alec, mas também não a descura. Ambos até parecem ter uma vida feliz, mas os sentimentos nem sempre são controláveis, que o diga Laura. O argumento é suficientemente inteligente para nos apresentar a Fred como alguém afável e simpático, de forma a reforçar o quão especial é o caso entre Laura e Alec para esta se envolver com outro homem. David Lean aborda a relação deste casal adúltero com enorme sobriedade, romantismo e delicadeza, explorando um argumento coeso, marcado por algumas falas e diálogos que nos ficam na memória, ao mesmo tempo que assistimos a este affair inesquecível. Noutro filme de David Lean, nomeadamente "Doctor Zhivago", Lara chega a perguntar ao personagem do título sobre o que seria a relação entre ambos se tivessem travado conhecimento um com o outro antes de se terem casado com os respectivos cônjuges. Ambos iniciaram um affair apesar de serem casados, com Lara a despertar ainda o lado mais poético do protagonista. Esta é uma questão que nos colocamos sobre Laura e Alec. Como teria sido a sua relação se não fossem casados? A própria Laura chega a questionar-se sobre esta situação num dos momentos em que fica a "falar com os seus botões" no comboio. Provavelmente teriam mantido a relação e sido felizes para sempre ou pelo menos durante mais algum tempo. Nunca saberemos, apenas poderemos especular, tal como os protagonistas certamente irão fazer até as feridas abertas começarem finalmente a tornarem-se menos dolorosas e sararem. Os momentos que vivem em conjunto são um escape à realidade quotidiana mas parecem representar algo mais do que uma simples aventura inconsequente. É amor. Puro e capaz de escapar à razão, exposto de forma algo intimista, ou não estivesse a ser em parte relatado por uma das partes envolvidas. Ambos sabem que não deveriam manter esta relação mas nem isso os trava, procurando esconder o affair de tudo e todos. Filmado com enorme sobriedade e delicadeza, "Brief Encounter" deixa-nos perante um amor proibido que nos faz sonhar, encantar e sentir perante as emoções do casal de protagonistas, com David Lean a ter neste filme um romance memorável, apresentado com uma atmosfera por vezes próxima de um sonho onde a banda sonora e a dupla de protagonistas têm um papel de grande relevo. Os rostos de Laura e Alec não mentem, sobretudo o desta mulher, com Celia Johnson a ser capaz de nos convencer quer nos momentos mais soturnos e angustiantes, quer quando está feliz. Estes são dois elementos completamente comuns que despertam a nossa simpatia que vivem alguns momentos de enorme intimidade e restrição amorosa, numa obra que não poupa ainda em alguns trechos de humor, tais como a visualização de um filme altamente publicitado mas pouco agradável de se ver. No final um comboio parte, uma despedida é feita por um gesto e uma relação promete para sempre ficar na memória, seja na dos seus intervenientes, seja na nossa. Sim, porque depois de assistirmos a "Brief Encounter", a relação entre Laura e Alec também passa a fazer parte de nós.

Título original: "Brief Encounter".
Título em Portugal: "Breve Encontro".
Realizador: David Lean. 
Argumento: Anthony Havelock-Allan, David Lean, Ronald Neame.
Elenco: Celia Johnson, Trevor Howard, Stanley Holloway, Joyce Carey, Cyril Raymond, Everley Gregg, Margaret Barton.

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