07 junho 2015

Resenha Crítica: "The Adventures of Robin Hood" (1938)

 Uma das adaptações cinematográficas em live action mais populares sobre as lendas de Robin Hood, "The Adventures of Robin Hood" é também um dos exemplos paradigmáticos de um filme de aventuras concebido de forma exímia, com Errol Flynn a interpretar de forma enérgica, carismática e inesquecível esta figura conhecida por roubar aos ricos para dar aos pobres, defendendo o povo da avareza dos homens ao serviço do Príncipe John (Claude Rains). Não vão faltar muitos momentos de emoção, alguma aventura, a perícia do protagonista para o lançamento das flechas, combates com espadas, romance, algum humor, ao longo deste swashbuckler film realizado por Michael Curtiz e William Keighley. A dupla arquitecta um filme de entretenimento que apela quase sempre à imaginação do espectador, coerente no seu espírito leve e dinâmico, com Errol Flynn a interpretar Robin Hood com um carisma e jovialidade que poucos actores conseguiram incutir quando deram vida ao mesmo, algo que lhe permite proferir a fala mais simples ou elaborada com uma convicção que nos faz muitas das vezes esquecer o quão irrealistas são alguns momentos de "The Adventures of Robin Hood" (perde-se a conta aos corpos atingidos por flechas que não deitam uma gota de sangue). Flynn colaborara com Michael Curtiz em "Captain Blood", outro swashbuckler film marcante, onde já tinha exibido algum do seu carisma e à vontade para interpretar este tipo de personagens rebeldes, capazes dos feitos mais heroicos (curiosamente, a escolha inicial da Warner Bros. para o papel era o actor James Cagney). Diga-se que em "Captain Blood" assistíramos à primeira colaboração entre Flynn e Olivia de Havilland, com "Robin Hood" a marcar a terceira de oito colaborações entre ambos, um trabalho inspirado ou esta não interpretasse a memorável Lady Marian. A química entre Errol Flynn e Olivia de Havilland é latente ao longo de "The Adventures of Robin Hood" (tal como o fora em “Captain Blood”), desde o primeiro momento em que se cruzam, em particular quando o personagem do título desafia o Príncipe John num banquete, até Lady Marian começar aos poucos a compreender o idealismo do protagonista e o quão errada estava em relação aos objectivos do mesmo. O enredo mescla o contexto histórico com elementos ficcionais (e fantasiosos), algo exposto desde logo no prólogo: "No ano da Graça de 1191, quando Ricardo Coração de Leão partiu para expulsar os infiéis da Terra Santa, ele entregou a regência do Reino a Longshanks e não ao seu traiçoeiro irmão, o Príncipe John. Amargamente ressentido, John desejava que um desastre recaísse sobre o rei, para que ele, com a ajuda dos Normandos, pudesse apoderar-se do trono (...)". Esse desastre acontece quando o Rei Ricardo Coração de Leão (Ian Hunter) é capturado por Leopoldo da Áustria, quando regressava das Cruzadas, com o Príncipe John (Claude Rains) a incumbir Guy of Gisbourne (Basil Rathbone) e o Xerife de Nottingham (Melville Cooper) de cobrarem o maior número de impostos possível aos saxões, gerando uma divisão entre estes e os normandos. Esta situação conduz Sir Robin de Locksley, um elemento conhecido pela irreverência, em conjunto com o seu leal companheiro Will Scarlett (Patric Knowles), a revoltar-se contra a violência aplicada ao seu povo, decidindo lutar para defender o território das injustiças até ao ansiado regresso de Ricardo Coração de Leão.

Um dos primeiros momentos da exposição da revolta de Robin Hood acontece quando defende Much (Herbert Mundin), um indivíduo que se encontrava a caçar um veado na floresta devido a ter fome, de Guy, com este último a pretender deter o personagem interpretado por Herbert Mundin tendo em vista a cumprir a lei que proíbe caçar propriedade considerada do Rei. Escusado será dizer que Robin e Will salvam Much, encolerizam Guy, enquanto o personagem interpretado por Herbert Mundin se junta ao grupo que o protagonista começa a formar. No entanto, o primeiro grande acto de revolta de Robin acontece no banquete organizado pelo Príncipe John, onde o personagem interpretado por Claude Rains anuncia que irá ficar no trono no lugar de Longshanks, com a maioria dos presentes a aceitar a situação, com excepção do protagonista que o acusa prontamente de traição ao Rei Ricardo. O cenário do interior do castelo, construído em estúdio, é utilizado e aproveitado de forma exímia para Michael Curtiz e William Keighley desenvolverem algumas cenas de acção coreografadas com algum engenho, enquanto o protagonista tem tempo de vencer toda a oposição e fugir com vida. Aos poucos, este forma o seu bando, juntando-se ao mesmo elementos como Little John (Alan Hale, Sr.), um indivíduo robusto que vence Robin na luta com um bastão, para além do anafado Frei Tuck (Eugene Pallette), um clérigo com enorme habilidade para o combate com a espada. Os elementos depauperados, alvo de injustiças como expropriações, tortura, elevados impostos, bem como indivíduos leais a Ricardo Coração de Leão juntam-se a Robin, formando os Merry Men, o nome pelo qual é conhecido o bando do protagonista. Estas roubam dos ricos para distribuir pelos pobres, preparando inclusive uma armadilha a Guy, ao Xerife de Nottingham e Lady Marian, tendo em vista a furtar os bens que estes transportavam, em conjunto com dois grupos que facilmente caem na armadilha do protagonista e dos seus homens. Se Guy e o Xerife são ridicularizados, já Lady Marian desperta a atenção do protagonista, com este a dar-lhe a conhecer a realidade de vários dos homens, mulheres e crianças que ajuda. Aos poucos, os dois formam uma certa afinidade, tal como Bess (Una O'Connor), a espevitada aia de Marian, forma uma relação com Much. O relacionamento entre Marian e Robin é desenvolvido de forma relativamente convincente, com a química entre Errol Flynn e Olivia de Havilland a resolver muitos dos problemas da falta de profundidade do argumento. Diga-se que um dos vários méritos de Michael Curtiz e William Keighley passa não só pela forma leve e entusiasmante como nos apresentam esta história, mas também pela capacidade de representarem a coesão no interior dos Merry Men, mesmo sem atribuírem uma especial profundidade aos diversos elementos que compõem este grupo que se esconde no interior da floresta de Sherwood, com Robin Hood e os ideais que defendem a surgir como enorme laço que os une (um pouco como acontecera em “Captain Blood”, com o personagem do título e o seu grupo a apresentarem uma enorme união). Existe um enorme espírito de companheirismo entre estes elementos, exposto em momento como no banquete que formam após assaltarem Guy e o cobarde Xerife de Nottingham, embora Robin não esteja livre de perigos, sobretudo quando decide participar num torneio para definir quem é o melhor arqueiro de Inglaterra, num concurso que serve como armadilha por parte dos antagonistas. Escusado será dizer que Robin sabe que está a dirigir-se para um ardil mas nem por isso deixa de participar no concurso, não só para provar que é o melhor arqueiro, mas também para poder receber a flecha dourada, o prémio, das mãos da bela Lady Marian. Errol Flynn atribui a este saxão uma energia e jovialidade notáveis, com as suas gargalhadas e discursos idealistas a convencerem os Merry Men e até o espectador mais pragmático que aos poucos se deixa envolver neste universo narrativo marcado por muita aventura, cor, emoção, acção e um tom algo naïve que quase nos deixa prontos a dizer a frase cliché: "já não se fazem filmes assim".

A acção raramente se sobrepõe aos personagens e à criação dos laços entre os mesmos, bem como ao trabalho dos actores, embora apareça em quantidades generosas ao longo do filme, com "The Adventures of Robin Hood" a não poupar-nos a uma fuga e invasão ao castelo, a duelos de espada e, claro está, ao ansiado embate entre Guy e o personagem do título (diga-se que Basil Rathbone e Errol Flynn já tinham protagonizado um emotivo duelo de espadas em “Captain Blood”). Basil Rathbone apresenta alguma eficiência a interpretar este homem da confiança do Príncipe John, com este actor e Claude Rains a ficarem com os papéis de duas figuras relativamente desprezíveis que procuram a todo o custo tomar o poder. Os personagens interpretados por Rains e Rathbone pouco evoluem ao longo do enredo, surgindo acima de tudo como contraponto à lealdade de Robin Hood em relação a Ricardo Coração de Leão, com o protagonista a simbolizar a luta contra a opressão e a vontade de unir Normandos e Saxões. Já Lady Marian muda com o desenrolar da narrativa, com Olivia de Havilland a conceder uma certa candura a esta personagem feminina que se apaixona por Robin e os seus ideais, com "The Adventures of Robin Hood" a contar com um elenco que eleva o filme. Também nós nos apaixonamos por este filme de aventuras marcado por uma enorme leveza, capaz de chegar a toda a família sem depender em exclusivo da pancadaria, marcado por momentos de humor como o combate entre Little John e Robin, ou a constante cobardia do Xerife de Nottingham, com Michael Curtiz e William Keighley a conseguirem criar uma obra cinematográfica marcada por uma surpreendente coesão, ao mesmo tempo que permite aos seus actores e actrizes sobressaírem. É certo que está longe de ser uma obra cinematográfica de uma enorme densidade dramática ou profundidade, nem permite grandes divagações a não ser que a queiramos comparar com os espectáculos inócuos de CGI de alguns blockbusters actuais, num debate que muito sinceramente não me interessa trazer para este texto. Prefiro antes realçar o enorme mérito de William Keighley e Michael Curtiz em criarem um filme que continua entusiasmante e surpreendentemente apelativo, a interpretação enérgica e carismática de Errol Flynn, a candura de Olivia de Havilland como Lady Marian, a banda sonora evocativa do tom de aventuras de "The Adventures of Robin Hood" mas também uma certa ingenuidade que seria complicado encontrar nas obras cinematográficas actuais, algo que torna praticamente impossível pegar neste filme para comparar com um "Transformers" (versões Michael Bay). Diga-se que esta nem é a primeira adaptação ao grande ecrã das lendas de Robin Hood, com "Douglas Fairbanks in Robin Hood" a ter sido uma das mais populares, com o filme realizado pelo profícuo Allan Dwan a manter ainda alguma popularidade nos dias de hoje. Posteriormente, foram elaboradas várias adaptações cinematográficas e televisivas da lenda de Robin Hood, embora provavelmente poucas tenham deixado a marca do filme protagonizado por Errol Flynn, com a obra de animação da Walt Disney, realizada por Wolfgang Reitherman, a provavelmente ser aquela que mais se aproximou do tom do trabalho de Michael Curtiz e William Keighley. Existe uma ingenuidade e simplicidade que parecem difíceis de emular, associadas a uma história exposta de forma enérgica e eficaz, numa obra cinematográfica que surgiu na época como uma das grandes apostas da Warner Bros., até então mais associada aos filmes de gangsters, contando com um orçamento avaliado em dois milhões de dólares (elevado para a época), um elenco com nomes bastante interessantes e uma utilização exímia da paleta cromática. A utilização da cor ao serviço do enredo foi particularmente elogiada por Roger Ebert, ao salientar: "The cinematographers, Sol Polito and Tony Gaudio, were using the original three-strip Technicolor process, which involved cumbersome cameras and a lot of extra lighting, but produced a richness of color that modern color films cannot rival". Com um tom leve, recheado de aventura, emoção, romance, algum humor e ingenuidade, "The Adventures of Robin Hood" mantém-se como uma obra cinematográfica extremamente apelativa, marcada por uma interpretação carismática e marcante de Errol Flynn que viria e muito a marcar o imaginário colectivo.

Título original: "The Adventures of Robin Hood". 
Título em Portugal: "As Aventuras de Robin dos Bosques".
Realizador: Michael Curtiz e William Keighley.
Argumento: Norman Reilly Raine e Seton I. Miller.
Elenco: Errol Flynn, Olivia de Havilland, Basil Rathbone, Claude Rains.

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