12 junho 2015

Resenha Crítica: "5 to 7" (Das 5 às 7)

 Romance recheado de momentos ternos, onde assistimos ao nascer de uma peculiar relação, mantida entre as cinco e as sete da tarde, "5 to 7" raramente esconde a sua faceta mais melosa e pronta a aquecer os corações mais românticos sustentando boa parte da sua narrativa na dupla de protagonistas interpretada por Anton Yelchin e Bérénice Marlohe. Yelchin interpreta Brian Bloom, um escritor de vinte e quatro anos de idade que luta diariamente contra o tédio e a rejeição da maioria das editoras e jornais para os quais envia os seus textos. Marlohe interpreta Arielle, uma mulher de trinta e três anos de idade, de origem francesa, casada, com dois filhos. Os dois encontram-se pela primeira vez quando Brian ia a passar na rua e encontra Arielle, uma mulher de enorme beleza e elegância, a fumar, procurando desde logo meter conversa com esta, inicialmente em Francês, com a personagem interpretada por Marlohe a demonstrar uma abertura surpreendente. Aos poucos voltam a encontrar-se, com Arielle a revelar sempre um maior pessimismo em relação à interpretação da arte e da vida e uma maior abertura a nível sexual, enquanto Brian culpa a sua educação judaica pelo seu conservadorismo. Anton Yelchin concede a este personagem um nervosismo que parece contrastar com a confiança e sensualidade de Marlohe, com a dupla a não ter uma química arrasadora mas a cumprir nos respectivos papéis a ponto de conseguir ultrapassar muitas das vezes o facto de estarmos diante de uma história recheada de lugares-comuns, com breves toques de "Brief Encounter" (o casal adúltero que se encontra em momentos específicos) mesclados com uma ingenuidade e algum irrealismo que fogem ao pragmatismo que poderíamos esperar dum filme saído em pleno Século XXI. A estrutura narrativa é relativamente conservadora e o enredo algo previsível, embora Victor Levin, na sua primeira longa-metragem como realizador, dote "5 to 7" de alguns interessantes planos de longa duração, com a cinematografia a sobressair, bem como a dupla de protagonistas. A dupla reúne-se regularmente entre as cinco e as sete da tarde, o período de tempo definido por Arielle e Valery (Lambert Wilson), o esposo desta, para poderem ter um affair com outras pessoas. As regras não podem ser quebradas de parte a parte, com ambos os cônjuges a terem conhecimento dos affairs, algo que faz uma extrema confusão a Brian e ao espectador. Para além de não se poderem encontrar a sós fora deste horário, os amantes também não se podem beijar publicamente, com Valery a ter um caso há um ano com Jane (Olivia Thirlby), uma editora literária, algo que não parece preocupar Arielle. Brian fica surpreendido com todas estas regras, rejeitando inicialmente envolver-se com esta mulher, devido a considerar ser uma situação pouco ética, até se decidir a avançar para a relação, algo que vai ter influência na sua escrita mas também nas suas atitudes. Inicialmente parece fácil cumprir as regras mas aos poucos torna-se cada vez mais complicado, com o convite para um jantar social, por parte de Valery, um diplomata conhecido, a tornar tudo ainda mais estranho. Anton Yelchin consegue exibir as inquietações do personagem que interpreta mas também o fascínio, desejo e amor que nutre por Arielle, com esta a surgir como uma sereia que facilmente o encanta com a sua enorme sensualidade e uma personalidade afável, com os dois a parecerem conjugar-se praticamente na perfeição.

Ambos parecem sós e contam com os seus problemas, com Arielle a reencontrar alguma felicidade com Brian, existindo um claro choque de culturas entre ambos, algo desde logo visível quando se encontram a apreciar pinturas no museu e a visão mais negra do Mundo por parte da personagem interpretada por Bérénice Marlohe fica bem latente. Bérénice Marlohe surpreende-nos com uma interpretação que longe de ter uma enorme profundidade, é capaz de exibir o quão isolada a personagem que interpreta parece sentir-se, com Brian a trazer-lhe um sorriso no rosto que parecia perdido no meio de uma rotina diária pouco apaixonante. Aos poucos, também Arielle parece sentir-se mais atraída por Brian, a ponto de conhecer Sam (Frank Langella) e Arlene (Glenn Close), os conservadores pais do protagonista, com o progenitor a lançar uma série de farpas e reprimendas ao filho quando descobre que este tem uma relação com uma mulher casada. Langella surge como um personagem mais taciturno, sem grandes papas na língua, por vezes algo repetitivo, contrastando com a personagem interpretada por Close, uma mulher conservadora mas simpática, com a refeição a quatro entre ambos a ser marcada por alguns momentos hilariantes onde o francês enferrujado de Sam promete alguns episódios caricatos. Já o jantar social no qual Brian participa, onde constam Arielle, Valery, os filhos e alguns amigos do casal, bem como Jane, traz sempre uma certa sensação de estranheza, com o personagem interpretado por Anton Yelchin a não deixar de exibir alguma surpresa por esta última nunca ter procurado transgredir as regras. Este tem uma forma romântica de ver a vida, surgindo como um fã dos escritos nos bancos dos jardins em Nova Iorque, acabando aos poucos por se deixar consumir por esta relação que coincide com a sua primeira publicação literária. Se Brian apresenta uma postura algo reticente e pronta a quebrar as regras, parecendo não ter noção das consequências da sua impulsividade, já Jane parece encarar todo este caso com Valery com uma enorme normalidade, com "5 to 7" a propor-nos exactamente que encaremos esta situação como se fosse possível e plausível, bem como se não soubéssemos que mais cedo ou mais tarde esta não iria resultar. Aos poucos, a intimidade entre a dupla de protagonistas aumenta a um ponto que parece tornar insustentável toda esta situação, com Victor Levin a ter a coragem de elaborar um final adequado ao rumo dos personagens e dos seus ideais ao mesmo tempo que nos deixa diante de uma obra cinematográfica agradável, marcada por algumas doses de romantismo, humor e algum drama em plena cidade de Nova Iorque. O argumento explora esta relação com algum cuidado, com "5 to 7" a deixar-nos diante de alguns episódios entre Brian e Arielle onde percebemos a cumplicidade crescente entre ambos mas também a forma como se complementam, quer do ponto de vista sentimental, quer sexual (nos encontros no quarto do hotel), com a dupla de protagonistas a contribuir para esta situação. Não é um filme que nos arrebate, nem traga algo de inovador ao género, parecendo sempre existir um escopo modesto em "5 to 7" que acaba por surgir como um dos seus grandes trunfos, com a simplicidade a por vezes ser o melhor caminho para nos atrair inesperadamente. A narração em off é muitas das vezes utilizada como um recurso para explorar o estado de espírito do protagonista, quase como se estivesse em constante contacto com o espectador, com este escritor que se encontra à procura de triunfar na vida a viver uma história na vida real que provavelmente nunca teria imaginado para os seus contos ou livros.

Esta é também uma obra sobre o processo criativo de um escritor e de como as experiências no quotidiano afectam o mesmo, com Brian a ter em Arielle uma surpreendente lufada de ar fresco numa vida que parecia marcada por um enorme marasmo. "5 to 7" beneficia ainda de contar com um elenco secundário de luxo, com Glenn Close e Frank Langella a roubarem as atenções nos poucos momentos que surgem no enredo; Lambert Wilson a conseguir exprimir que não estamos perante um antagonista mas sim diante de um esposo que ama a sua mulher, formando com esta regras muito próprias para manter o casamento bem vivo; Olivia Thirlby como a peculiar Jane, com o argumento a dar algum espaço para que estes actores e actrizes tenham alguns momentos de destaque, embora quase sempre na sombra de Anton Yelchin e Bérénice Marlohe. Lambert Wilson interpreta o personagem mais surpreendente, com Valery a raramente sentir-se incomodado com Brian, desde que este último não quebre as regras. A relação de Valery com Arielle parece de respeito mútuo, com os diálogos expostos por esta mulher a evidenciarem que o seu lado mais sentimental pende para Brian mas a racionalidade diz-lhe para manter o casamento e a estabilidade com os dois filhos. É também um filme que coloca frente a frente a irracionalidade do amor e o pragmatismo da vida, com o final a demonstrar que esta última por vezes toma o seu curso e pode trazer algumas experiências enriquecedoras mas inicialmente dolorosas. Em "Lola", um filme realizado por Jacques Demy, Roland Cassard, um dos protagonistas, divagava sobre o primeiro amor e como nenhum outro é igual, salientando que pode igualmente ser bom, mas será sempre diferente da primeira experiência amorosa. No caso de Brian é certo que este muito provavelmente não voltará a ter uma experiência amorosa tão fervilhante e peculiar como esta que manteve com Arielle, com a dupla a viver alguns momentos de algum romantismo que dificilmente deverão ser esquecidos pelos próprios. Estes são momentos que têm como pano de fundo a cidade de Nova Iorque, quer durante o dia, quer durante a noite, com a arquitectura local, tais como edifícios como o Museu Solomon R. Guggenheim e os seus jardins e altos edifícios, a ser aproveitada. Veja-se a já citada ida da dupla de protagonistas ao Museu Solomon R. Guggenheim, para além do hotel St. Regis (onde Arielle e Brian encontram-se), mas também um reencontro emotivo, marcado por uma certa nostalgia e sentimentos que não foram esquecidos, em frente ao Guggenheim, com a banda sonora a procurar adensar ainda mais a atmosfera melancólica que rodeia o evento. Com uma dupla de protagonistas convincente, alguns momentos recheados de romantismo, um surpreendente cuidado em permear a obra de planos de longa duração compostos de forma aprumada, "5 to 7" raramente nos engana nos seus propósitos, procurando acima de tudo apelar ao romantismo do espectador e conseguir que este fique preso à história de Brian e Arielle, algo que surpreendentemente é conseguido com algum charme e simplicidade.

Título original: "5 to 7".
Título em Portugal: "Das 5 às 7".
Realizador: Victor Levin.
Argumento: Victor Levin.
Elenco: Anton Yelchin, Bérénice Marlohe, Olivia Thirlby, Lambert Wilson, Frank Langella, Glenn Close.

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