25 maio 2015

Resenha Crítica: "White God" (Deus Branco)

  "White God" apresta-se a várias interpretações e coloca-nos várias questões ao mesmo tempo que deambula com eficácia por diferentes géneros ou subgéneros cinematográficos, naquela que é uma das agradáveis surpresas a nível de estreias nas salas de cinema portuguesas. É um filme que consegue ser simultaneamente belo e violento, que nos comove e irrita, que nos inquieta e encanta, com Kornél Mundruczó a surpreender-nos com uma obra capaz de despertar as mais diferentes sensações, surgindo como uma interessante metáfora onde a história de um cão abandonado e a posterior revolta de uma matilha surgem como um interessante comentário sobre a nossa sociedade. É um filme que tanto é capaz de abordar a revolta que as constantes opressões, indiferença e parcas condições podem trazer aos seres humanos através de um grupo de cães abandonados, como nos consciencializa que existe um longo caminho a trilhar na defesa dos direitos dos animais. Veja-se que continuamos com leis que pouco parecem servir para travar a violência sobre os animais, não temos hospitais veterinários públicos para que pessoas com menos posses possam prestar um tratamento digno ao seu animal de estimação, já para não falar na falta de condições materiais nos canis, entre vários outros exemplos. No caso de "White God" existe esta vertente de denúncia aos maus-tratos sobre os animais aliada ao que estes podem cometer quando treinados para objectivos menos dignos ou sujeitos a enormes privações e violência. Esta situação aplica-se em parte aos seres humanos, com "White God" a exibir as estruturas hierárquicas que se formam no interior da sociedade, seja na escola, seja em casa, seja num sentido mais lato, enquanto os cães acabam por surgir quase sempre no plano mais baixo, sujeitos a serem tratados como a escória que deambula pelas ruas, algo que vai conduzir à sua revolta perante a humanidade numa cidade de Budapeste que se vai deparar com uma rebelião surpreendente. Os momentos finais são de enorme intensidade, com a cinematografia e a banda sonora a contribuírem para os mesmos, mas também o trabalho de montagem que consegue mesclar com uma eficácia surpreendente um concerto amplamente preparado que decorre num salão com uma revolta imprevista protagonizada por um grupo de cães, até reunir os dois eventos e proporcionar-nos um final intenso e a espaços comovente, que termina com um plano magistral que fica na memória e quase nos desperta algumas lágrimas. A rebelião deste elevado número de cães resulta do tratamento a que foram sujeitos devido a serem mestiços, ou seja, inerente a uma procura inicial de controlar a criação dos caninos que não são de raça pura, uma situação que conduz a uma série de taxas sobre os animais que não tenham pedigree. Escusado será dizer que esta lei favorece os cães com pedigree, ou seja, as classes privilegiadas, com os donos a abandonarem os seus rafeiros levando os canis a ficarem rapidamente sobrelotados. É neste contexto que Hagen, um simpático cachorro castanho, vai ser abandonado, para desgosto do próprio e da sua dona, Lili (Zsófia Psotta), uma jovem de treze anos de idade, filha de pais separados que, após a mãe ter de ir trabalhar por três meses na Austrália, vê-se na obrigação de ficar a viver na casa do progenitor. Os pais de Lili são separados, com ambos a pouco se relacionarem, tal como a filha pouca ligação parece ter em comum com Dániel (Sándor Zsóstár), o seu pai.

A pouca intimidade entre pai e filha é visível desde logo na cara de poucos amigos que esta demonstra quando é obrigada a ir viver com o mesmo, mas também quando este lhe dá um brinquedo para fazer bolas de sabão que logo é rejeitado por esta não se considerar uma criança. Por sua vez, Dániel rejeita a presença de Hagen, proibindo-o de dormir no quarto, algo que conduz a jovem a dormitar às escondidas na banheira, tendo em vista a que este não fique a ganir devido a não estar habituado a ficar sozinho. Perante uma denúncia de uma vizinha, Dániel logo é intimado a ter de pagar uma taxa para manter Hagen, algo que rejeita. Lili ainda o leva para o conservatório, onde se encontra a ter aulas de música, mas o cão logo é descoberto pelo austero professor desta, com a protagonista a abandonar o local. Algo que o filme estabelece é que existe hierarquias em quase tudo na sociedade: nas raças de cães; no emprego; na família; na escola, quer entre professor e alunos, quer entre estes últimos. Quando o pai a encontra, logo entra numa discussão acesa, abandonando Hagen na estrada, numa cena de partir o coração (a quem o tenha), indo provavelmente ainda dizer mais a quem tem cães em casa, e até se encontrava a assistir ao filme com o mesmo (lá foi de seguida mais uma dose de festas para o velhote que faz parte desta família há dezasseis anos). Como podem ver desde já no comentário de foro pessoal, não consigo assistir a filmes sobre cães de forma fria. Diga-se que nunca consigo assistir a qualquer filme de forma glaciar e considero uma valente treta a ideia de que o crítico é alguém que visiona uma obra cinematográfica com a maior frieza possível quando isso é impossível. No caso de "White God" existem cenas que se tornaram um verdadeiro suplício de visionar devido ao realismo incutido, quer quando assistimos à jornada de Hagen, quer à de Lili, com Kornél Mundruczó a utilizar a ficção para criar algo de emocionalmente poderoso, filmado com um engenho notável e um dinamismo assinalável. Se Dániel é apresentado inicialmente como um ser humano frio, aparentemente desprovido de sentimentos mais quentes e insensível perante a filha, quase que despertando um odiozinho de estimação, aos poucos percebemos que não é bem assim, com Sándor Zsóstár a revelar uma competência sublime a incutir diferentes registos a este indivíduo ao longo da narrativa. Já Lili surge como uma pré-adolescente meiga para o seu cão, que se encontra a descobrir elementos típicos da sua idade, incluindo ir a discotecas, contactar com rapazes, entre outros episódios, com "White God" a procurar quase sempre que tenhamos alguma simpatia para com esta jovem. Zsófia Psotta é uma agradável surpresa, com a actriz a conseguir transmitir a dor e revolta desta jovem que inicialmente procura reaver o seu cão, colando desesperadamente cartazes pelas ruas, acabando por entrar numa espiral descendente até ao poderoso reencontro no último terço. Lili é uma filha de pais divorciados que mantém amizade com poucos colegas de escola, tendo numa saída a uma discoteca com um indivíduo que namora com uma jovem rebelde um momento que vai mudar a sua relação com o pai, com este a procurar começar a ser mais compreensivo com a pré-adolescente. Dániel é um indivíduo que trabalha a avaliar a qualidade da carne, com o seu quotidiano a ser marcado pelo destrinçar de animais mortos, vísceras a saírem e um conjunto de outras imagens pouco agradáveis. Esta relação de Dániel com os animais pode remeter para a frieza que demonstra com Hagen, existindo sempre a ideia da superioridade do Homem em relação ao cão e a outros animais irracionais, uma situação que pode ser verdade a nível da racionalidade mas não implica que o ser humano possa fazer o que pretender. O quotidiano de Lili é marcado por esta tristeza pela perda de Hagen e a procura inicial em recuperá-lo, enquanto o dia a dia do canino é exposto de forma realista e dolorosa, com "White God" a sobressair ainda pelo enorme trabalho a nível do treino dos cães utilizados, algo que permite elevar e muito os trechos do canino numa jornada inicialmente solitária onde vai viver uma vastidão de episódios.

Hagen começa por procurar seguir o carro de Dániel e Lili, ainda que sem sucesso, com o rosto do cachorro a exibir uma tristeza latente, enquanto o seu ladrar expõe o sentido de urgência em reencontrar a dona (diga-se que Kornél Mundruczó procura desde logo que simpatizemos com Hagen e Lili). Fica meio atarantado, tem de aprender a viver num meio ao qual não está habituado, juntando-se a uma matilha até praticamente ser capturado pelos elementos do canil. Este cedo começa a perceber que, apesar do cão ser popularmente denominado de "o melhor amigo do Homem", o inverso nem sempre acontece, com um mendigo a vendê-lo a um treinador de cães de luta que o treina arduamente para ser uma máquina de matar, alimentando-o com proteína, colocando-o a correr numa passadeira, atiçando o seu espírito caçador, com Hagen aos poucos a modificar a sua faceta dócil para se tornar numa arma mortífera. A espaços quase que nos faz recordar o canino de "White Dog" de Samuel Fuller, onde assistíamos a um cão que fora treinado para eliminar negros, encontrando-se a ser alvo dos cuidados de um tratador negro que procura reverter os ensinamentos que foram dados ao mesmo. Após eliminar um cão, num violento e sangrento combate, que por vezes levanta a questão se o realizador não estará a apelar em demasia ao sensacionalismo e ao voyeurismo do espectador, "obrigando-o" a torcer por Hagen num evento que deveria estar a ser condenado, o canino foge, acabando por ser capturado e fechado num canil até conseguir soltar-se e aos outros cães liderando um ataque a este espaço citadino húngaro, com "White God" a colocar-nos diante da revolta dos "párias" pelas ruas e estradas de Budapeste em momentos que mesclam fantasia e terror. Estes foram abandonados pelos seus donos, não sendo na maioria das vezes adoptados devido a não serem de raça, com "White God" a colocar-nos questões relacionadas com o tratamento dado a estes animais mas também em relação aos seres humanos. No caso do tratamento dado aos cães, torna-se notório que estes são discriminados pela sua raça, bem como pelo facto de serem uma "espécie inferior", algo que conduz a uma abordagem nem sempre adequada aos mesmos. Quantas das vezes não assistimos à preferência superficial por cães com a raça x ou y, oriunda de família z, prontos a vencerem concursos, com os caninos a servirem mais como "peluches" vivos para expor no Facebook do que para cuidar e retribuir o afecto destes seres? Quantos rafeiros encontramos por adoptar num canil que não encontram dono? Ou seja, esta realidade que nos é apresentada, tanto é evidente em Budapeste como aqui no burgo, com a hipocrisia a encontrar-se muitas das vezes presente no que diz respeito aos hábitos humanos e às suas noções de terem um cão. É certo que "White God" peca em demasia ao apenas exibir figuras que geram irrisão junto de Hagen quando este se encontra na sua jornada fora de Lili, quase que parecendo que todos os seres humanos desprezam os cães, algo que também não é verdade, tal como existem instituições que procuram efectivamente proteger os mesmos. Claro que se fosse efectuada uma jornada mais benigna a história de Hagen não teria o mesmo impacto, tal como não teria a mensagem do foro social por parte do realizador Kornél Mundruczó, com este a utilizar os cães para elaborar um comentário sobre as desigualdades sociais e as revoltas que estas podem causar, algo salientado nas notas colocadas no dossier de imprensa: "Do meu ponto de vista, em paralelo com as vantagens duvidosas da globalização, está a definir-se com cada vez mais precisão um sistema de castas: a superioridade tornou-se verdadeiramente o privilégio da civilização branca ocidental, e é-nos quase impossível não nos aproveitarmos dela. Sim, escrevi “é-nos”. Afinal de contas, somos membros destas massas privilegiadas. Por isso, quis criar um filme que permitisse um olhar sobre as paixões que reinam do outro lado, criticando a nossa detestável auto-confiança cheia de mentiras e verdades esquinadas, que pretende domesticar as minorias ao mesmo tempo que na verdade apenas as quer destruir, que nega hipocritamente a desigualdade, que não acredita na paz ou na coabitação pacífica". O próprio título, "White God", quase que remete para o papel do "Deus Branco" que faz parte do imaginário popular bem como para o papel colonizador do homem branco que muitas das vezes gerou a destruição de outras culturas de territórios colonizados ao longo da História. Ou seja, através desta história da jornada de Hagen e Lili, "White God" transporta-nos para uma parábola sobre os comportamentos do ser humano, ao mesmo tempo que esta poderosa história facilmente se apodera do espectador.

Mais tarde ou mais cedo sabemos que Hagen e Lili vão voltar a reencontrar-se, tal como percebemos que este se encontra totalmente mudado. Tal como o cão de "White Dog", também Hagen foi treinado para odiar, para ser violento, com os maus tratos a levarem a que deixe de lado uma postura passiva em relação ao homem para passar ao ataque, algo que promete trazer muitos problemas àqueles que procuram atormentá-lo, sobretudo quando lidera um grupo de caninos revoltosos. O último terço é marcado pela coléra canina pela cidade, quais elementos desfavorecidos da sociedade que finalmente revoltam-se contra as classes dominantes, ainda que de forma violenta e irracional, num misto de fantasia e terror. É o resultado de muitos maus tratos, com Hagen a ter vivido uma série de desventuras que facilmente provocam choque no espectador, embora o envolvimento com a narrativa esteja também dependente da relação que cada um tem com os seus animais de estimação. No meu caso, confesso que raro era o momento em que não conseguia deixar de imaginar as situações como se fosse o meu cão a estar naquele lugar, algo que tornou ainda mais incómodo e sufocante assistir a diversas cenas, com Kornél Mundruczó a incutir uma credibilidade assinalável à representação dos episódios. A cinematografia de Marcell Lev contribui para este realismo, com a câmara de filmar a encontrar-se sempre pronta a seguir com agilidade os caninos, muitas das vezes num tom quase documental. Diga-se que ao todo foram utilizados duzentos e setenta e quatro cães (todos oriundos de abrigos para animais abandonados) para a elaboração do filme, algo que dá bem conta do quão trabalhoso deve ter sido para Kornél Mundruczó e a sua equipa coordenarem estes seres. Exigiu muito treino, coordenação no trabalho com a câmara, um argumento forte e acima de tudo a capacidade de utilizar o enredo de forma suficientemente inteligente para tornar "White God" numa obra que se apreste a múltiplas interpretações e permita amplos debates não só sobre os cães mas também sobre os seres humanos e a nossa sociedade. Diga-se que, para abordar estas temáticas, o realizador de "White God" encontrou alguma da sua inspiração na literatura de J.M. Coetzee: "Na arte é sempre muito difícil encontrar meios novos de descrever verdades intemporais. Descobrir a literatura de J. M. Coetzee foi uma experiência reveladora. Os seus livros chamaram-me a atenção para o fato de haver sempre ainda uma outra camada por baixo dos maiores párias, uma outra espécie de seres inteligentes e racionais que os humanos podem explorar como bem entenderem: os animais". Temos ainda a história de Lili e o progenitor, com "White God" a nunca descurar a sua faceta de drama humano, entre um pai e a sua filha, mas também de uma jovem que se encontra quase na adolescência para não dizer que já chegou mesmo a essa fase da sua vida. Esta tem no professor um indivíduo duro e inflexível, que por vezes procura hostilizar, um elemento que procura ter todos os artistas da banda a funcionarem na perfeição a tempo de um espectáculo que vai reunir diversos espectadores. A utilização da música diegética e não diegética (na maioria música clássica) é sublime ao longo do filme, embora o momento do espectáculo nunca atinja o poder das cenas finais de "White God". Os momentos finais são belíssimos, com tudo a parecer funcionar. A música, a disposição dos personagens no espaço, os sentimentos que despertam, com Kornél Mundruczó a ter um momento de enorme inspiração, numa obra cinematográfica intensa, inteligente e sublime, executada com uma precisão assinalável não deixando por má entregue a dedicatória inicial a Miklós Jancsó.

Título original: "Fehér isten"
Título em inglês: "White God". 
Título em Portugal: "Deus Branco".
Realizador: Kornél Mundruczó.
Argumento: Kornél Mundruczó.
Elenco: Zsófia Psotta, Sándor Zsótér, Lili Horváth, Szabolcs Thuróczy.

Sem comentários: