08 maio 2015

Resenha Crítica: "Touchez pas au grisbi" (O Último Golpe)

 Se os filmes dos Estados Unidos da América de gangsters dos anos 20, 30 e 40, como "Underworld", "Scarface", "The Petrified Forest", "Public Enemy", "The Roaring Twenties", "High Sierra" entre tantos fizeram história, em França este subgénero cinematográfico também contou com um conjunto de exemplares magníficos. Veja-se na década de 50 e 60, com "Touchez pas au grisbi", "Du rififi chez les hommes", mas também as obras de Jean-Pierre Melville como "Bob le flambeur", "Le Doulos", "Le Cercle Rouge", "Le Samouraï" e até Jean-Luc Godard com o magnífico "À bout de souffle". “Touchez pas au grisbi” permitiu ainda um aumentar da popularidade do filme de gangsters/assalto francês, procurando não só explorar elementos já vistos em obras do género nos EUA, mas adaptando-os a situações tipicamente francesas, algo salientado e bem por James Travers: "What distinguishes Grisbi from the early French gangster films of the 1950s is that it does not attempt to slavishly emulate the American model, but instead shows unrecognisably French characters in an unmistakably French setting - true French film noir rather than a bland copy of its Hollywood counterpart". Diga-se que Jean-Luc Godard colocou "Touchez pas au grisbi" a um nível superior a obras cinematográficas como "Du rififi chez les hommes", considerando que "today it can't hold a candle to Touchez pas au grisbi which paved the way for it, let alone Bob le flambeur which it paved the way for", algo revelador da relevância do filme realizado por Jacques Becker. E não deixa de ser curioso que em "Touchez pas au grisbi" acompanhemos um protagonista que muito nos remete para algo que vamos encontrar em obras posteriores como "Du rififi chez les hommes" e "Bob le flambeur", onde também tínhamos um criminoso envelhecido, aparentemente cansado, mas nem por isso com menos ambição, por vezes a fazer recordar o personagem principal de "Pépé le Moko" (também interpretado por Gabin). O protagonista de "Touchez pas au grisbi" é Max (Jean Gabin), um criminoso com alguns escrúpulos, bem vestido, inteligente, amigo do seu amigo, com valores e princípios morais que o distinguem de vários dos seus adversários, contando com relações de lealdade duradoiras, entre as quais com Riton (René Darin). Max conta com cerca de cinquenta e poucos anos de idade, parecendo algo desadequado do seu tempo, duro nos seus actos mas capaz de ser amável para aqueles que lhe são próximos. Veja-se quando arranja um emprego a Marco como traficante de droga, trabalhando com Pierrot (Paul Frankeur), um gangster que procurou, em conjunto com Angelo, o conselho do protagonista para um colaborador de confiança para a função. O relacionamento entre Pierrot e Angelo (Lino Ventura) está longe de ser de confiança, tal como as relações ao longo do filme estão longe de serem lineares, com Jacques Becker a deixar-nos perante um universo narrativo marcado pelo crime e desconfiança, onde mesmo o protagonista é um assaltante pronto a enriquecer com golpes menos lícitos.

Jean Gabin, um actor que até então se encontrava a passar por uma fase menos positiva, empresta o seu porte, carisma e credibilidade a este criminoso algo cansado, quase sempre acompanhado pelos seus cigarros e pelo seu fato refinado, num obra que viria muito provavelmente a servir de inspiração para outros filmes do género, algo salientado por Sean Axmaker no artigo publicado no TCM: "Films like Rififi (1955), Bob le Flambeur (1956) and Le Samourai (1967), as original and distinctive as they are, come out of this new tradition defined by Jacques Becker and Jean Gabin in Touchez pas au grisbi." No entanto, é praticamente impossível negar a influência dos filmes noir nas obras cinematográficas mencionadas, seja no pessimismo que envolve o enredo, os espaços citadinos marcados pelo crime e corrupção, os exímios jogos de luz e sombras, o clube nocturno, o fumo do tabaco que exibe prazeres momentâneos e uma fugacidade semelhante à vida destes homens e mulheres, mas também do realismo poético francês, com Jacques Becker a deixar-nos perante um grupo de indivíduos que vivem à margem da lei. Num jornal, Max lê a notícia de que as oito barras de ouro avaliadas em cinquenta milhões de francos de um assalto efectuado em Orly continuam desaparecidas, sabendo perfeitamente que as guarda em segredo, esperando a altura oportuna para trocar as mesmas e não ser capturado pelas autoridades ou apanhado pelos seus inimigos. Bem dito, bem certo, com Max a ser inicialmente perseguido por dois homens de Angelo, com o protagonista a ligar de imediato a Riton para não fazer negócios com este último. As traições são mais que muitas. Veja-se quando Max encontra Josy (Jeanne Moreau, ainda bastante jovem), a namorada de Riton, com Angelo, um gangster rival. Josy é uma das bailarinas do clube de strip, onde também trabalha Lola (Dora Doll), uma mulher que se encontra inicialmente acompanhada por Max, embora este não demonstre grande interesse pela mesma. Max não diz inicialmente nada ao amigo sobre o paradeiro das barras de ouro, mas logo se vê na contingência de ter de o revelar, quando o rival propõe uma oferta ao personagem interpretado por René Dary, uma situação que na verdade é um plano para atingir o protagonista. O personagem interpretado por Jean Gabin logo mostra a Riton o local onde se encontra escondido o ouro, nomeadamente, num carro de luxo escondido numa garagem aparentemente banal, tal como exibe a sua segunda casa, um apartamento onde se pode esconder dos inimigos. Claro que nem tudo corre bem e Riton acaba por ser raptado após ir visitar Josy, com Angelo a julgar que ao dividir a dupla um dos elementos iria ceder a informação sobre as barras de ouro. Max poderia ignorar o parceiro de vinte anos, um elemento que o coloca em mais problemas do que o ajuda, mas logo decide pedir apoio a Marco e tentar recuperar o amigo com vida. A disputa pelo ouro roubado é grande, com Jacques Becker a deixar-nos perante muita violência e tensão, onde a noite é testemunha de episódios fervilhantes e as vidas são colocadas em jogo. É um filme de traições e lealdades, de violência exposta sem grandes contemplações e criminosos que procuram manter-se no topo da sua actividade, embora o protagonista até apresente algum cansaço perante o avançar da idade. O tempo passa, os riscos mantêm-se e o próprio Jean Gabin, já mais envelhecido, expõe bem que o seu personagem apesar de hábil pelos meandros do mundo do crime já apresentou mais vontade de andar lá pelo meio.

Max ainda questiona a lealdade para com Riton, mas esta já vem de há muitos anos e o protagonista é indivíduo para manter as suas ligações independentemente das dificuldades. Já Lino Ventura, no primeiro papel da sua carreira, interpreta um gangster aparentemente disposto a tudo para alcançar os seus objectivos, apresentando um comportamento bem menos romântico em relação à sua profissão do que Max, com este último a não ter problemas em colocar a amizade à frente dos negócios. Max tem em Betty um interesse amoroso, embora inicialmente pareça desprezar quase todas as figuras femininas ao longo deste filme realizado pelo versátil Jacques Becker, um cineasta talentoso que chegou a trabalhar como assistente de Jean Renoir em filmes como "La Grande Illusion" e "La Règle du jeu". Este deixa-nos perante um filme protagonizado por um criminoso envelhecido, muito ao estilo do que acontecerá em obras como "Du Rififi chez les hommes" e "Bob le Flambeur", mas também como acontecera em "High Sierra" onde estávamos perante um criminoso longe do seu apogeu. A influência destas obras em "Bob le Flambeur" parece ser notória, com este último a também contar com um protagonista envelhecido, valores de lealdade entre os criminosos, as mulheres com um papel nem sempre aprazível, ao mesmo tempo que ficamos perante um indivíduo requintado que não se esquece do seu período de maior apogeu. Diga-se que "Touchez pas au grisbi" não poupa na exibição do quotidiano dos seus personagens, sobretudo do seu protagonista, desde o restaurante que frequenta, passando pelos seus hábitos alimentares e rotineiros, existindo uma procura notória em dar dimensão ao mesmo, com Jacques Becker a exibir uma enorme atenção ao pormenor. O argumento e Jean Gabin são exímios a elevarem este personagem complexo, dado a alguns prazeres e luxos, mas também valores de amizade, embora o último terço exiba bem a violência do seu quotidiano naquela que é uma obra cinematográfica fundamental deste subgénero. Temos ainda a cidade de Paris, cheia de História, um pouco como estes personagens que habitam os seus espaços nocturnos e exibem que os seus melhores tempos podem estar a chegar ao fim. Não deixa de ser curioso contrastar a luz e movimento destes espaços de diversão nocturna com o ocaso da vida profissional do protagonista, mas também o brilhantismo da cinematografia de Pierre Montazel, capaz de quase nos deixar a viver no interior destes espaços parisienses, onde os sonhos podem crescer e destruir-se com a mesma facilidade de um fogo incontrolável. O argumento de "Touchez pas au grisbi" foi baseado na obra literária homónima da autoria de Albert Simonin (o primeiro volume de uma trilogia que seria adaptada livremente ao grande ecrã), com Jacques Becker a aproveitar o mesmo de forma exímia para construir um filme de gangsters capaz de deixar marca. Não estamos perante a ascensão e queda de um gangster, mas sim diante de um criminoso que se quer afastar do seu ofício, vendo uma amizade poder perigar todos os planos que tinha para o sossego dos seus últimos dias. Embora não seja um dos cineastas franceses mais reconhecidos e populares, Jacques Becker tem em "Touchez pas au grisbi" um exemplo claro de que é um valor a redescobrir, com esta obra cinematográfica a ter sido fundamental para a popularidade deste subgénero em França na década de 50 e 60.

Título original: "Touchez pas au grisbi".
Título em Portugal: "O Último Golpe".
Realizador: Jacques Becker.
Argumento: Jacques Becker, Maurice Griffe e Albert Simonin.
Elenco: Jean Gabin, René Dary, Paul Frankeur, Lino Ventura.

Sem comentários: