31 maio 2015

Resenha Crítica: "Tomorrowland" (2015)

 Lá diz o ditado popular: "de boas intenções está o Inferno cheio". Bem intencionado no seu propósito de transmitir de forma bem viva ideias e ideais optimistas associados à capacidade de sonharmos e procurarmos concretizar esses sonhos, "Tomorrowland" perde-se no meio do seu argumento insonso que apenas é superado do ponto de vista negativo pela interpretação caricatural e unidimensional de Hugh Laurie como um antagonista que nunca chega a ser devidamente desenvolvido. Diga-se que o problema não está apenas na falta de desenvolvimento do personagem interpretado por Hugh Laurie mas, acima de tudo, na incapacidade do argumento da autoria de Damon Lindelof e Brad Bird em conseguir explorar devidamente as ideias que lança, perdendo-se em redundâncias e ideias repetidas vezes sem conta como se o público tivesse seis anos de idade e necessitasse de ouvir repetidamente a mesma lenga-lenga com um excesso de didatismo que a espaços torna-se incómodo. Esperava-se mais de uma obra realizada por Brad Bird, com este a outrora já ter comprovado em obras cinematográficas como "The Incredibles" e "Ratatouille" ser capaz de controlar uma narrativa e explorar até alguns lugares-comuns de forma assertiva (e até quebrar os mesmos), algo que não consegue de todo em "Tomorrowland". Incoerente no seu tom, exposto desde logo nos momentos iniciais, onde assistimos Frank Walker (George Clooney) a procurar gravar uma mensagem sobre o futuro, com este a tentar expor um tom algo pessimista, logo contrastado pelo optimismo de Casey Newton (Britt Robertson). Seguem-se dois flashbacks, um a expor a juventude de Frank, outro a exibir como Casey chegou a casa deste, uma habitação localizada num território aparentemente desértico e capaz de o manter distante dos seus inimigos embora não falte uma caixa de correio a dizer "Frank" na entrada (Damon Lindelof é exímio nos plot holes e volta a demonstrá-lo em "Tomorrowland"). Nos trechos da juventude de Frank (Thomas Robinson - relativamente competente a exibir o espírito sonhador do personagem que interpreta), encontramos este na New York World's Fair de 1964, onde procura apresentar um jetpack ainda com alguns problemas de funcionamento a David Nix (Hugh Laurie), um indivíduo de feições rígidas, aparentemente pouco simpático, que se dirige com um grupo de cientistas para Tomorrowland, uma cidade futurista, localizada noutra dimensão, recheada de arquitectura moderna capaz de evidenciar os avanços tecnológicos elaborados pela humanidade. Nix rejeita a invenção de Frank, um jovem prodígio, não ficando cabalmente satisfeito com a explicação do jovem em relação à utilidade do jetpack, em particular a capacidade que este teria em fazer as pessoas sonhar, já que seria possível alguém locomover-se pelos céus. Se Nix não fica entusiasmado, já Athena (Raffey Cassidy), uma robô Audio-Animatronic, aparentemente ao serviço do primeiro, fica notoriamente surpreendida com o espírito sonhador de Frank, a ponto de lhe dar um pin com um T, que lhe permite a entrada em Tomorrowland. Finda-se o flashback, embora saibamos pelo caminho que Frank foi expulso do local, tornando-se mais frio e menos dado a entusiasmos no seu período em reclusão, pelo menos até encontrar Casey e reencontrar-se com Athena, que culpara dos problemas que o afectaram. Por sua vez, Casey é uma jovem rebelde e optimista, que procura contestar a visão catastrófica e pessimista que lhe pretendem transmitir, vivendo num Mundo onde até a Nasa encontra-se a deixar de lado as suas pesquisas e fechar algumas instalações, algo que vai conduzir Eddie Newton (Tim McGraw), o pai da personagem interpretada por Britt Robertson, ao desemprego.

 O possível encerramento das instalações no Cape Canaveral conduzem Casey a procurar constantemente sabotar as máquinas tendo em vista a tentar travar o desiderato dos superiores do progenitor. Numa dessas incursões nocturnas, Casey acaba por ser detida, recebendo nos seus bens algo que não é seu, um pin que a transporta para um local marcado por diversas searas, existindo ao fundo todo um espaço futurístico que a deixa intrigada. Apenas esta consegue activar o pin, uma situação que inicialmente a coloca em problemas, com o objecto a funcionar de forma estranha, ou seja, a permitir que esta deambule pela outra dimensão, em particular para Tomorrowland, embora na realidade esta encontre-se também a andar pelos espaços da sua casa e exteriores à mesma, algo que a deixa no pântano quando a conexão deixa de funcionar. Com a ajuda de Nate (Pierce Gagnon), o irmão mais novo, Casey encontra um anúncio de uma loja que pode conter um objecto semelhante. A loja pertence a Hugo (Keegan-Michael Key) e Ursula (Kathryn Hahn), dois elementos peculiares que povoam um espaço onde a Disney aproveitou para fazer publicidade à bruta a "Star Wars" num cenário que será delicioso de analisar à lupa em busca de easter eggs (e revelador dos cuidados a nível do design dos cenários interiores). Hugo e Ursula são dois robôs que logo procuram o pin e eliminar Casey, com esta última a ser salva por Athena. A personagem interpretada por Raffey Cassidy revela ter sido a responsável pela protagonista receber o pin que a transporta para Tomorrowland, exibindo uma enorme perícia a desembaraçar-se de situações difíceis (incluindo a escapar de perguntas incómodas fingindo ter um aparelho que a desactiva quando é demasiadamente questionada). A relação entre as duas é marcada por uma desconfiança inicial por parte de Casey, com ambas a revelarem a sua forte personalidade, uma situação inerente ao facto de Athena fugir e muito ao protocolo para o qual fora programada, tendo mantido um enorme afecto por Frank apesar deste culpá-la pela expulsão de Tomorrowland e por tudo o que pode correr mal ao planeta Terra. Athena é um dos principais destaques do filme, com a jovem Raffey Cassidy a ser uma agradável surpresa, com o elenco feminino de "Tomorrowland" a dar cartas, algo ainda latente no caso de Britt Robertson, pese as constantes caras de espanto que esta faz ao longo do enredo (e os "oh my God"). Robertson interpreta uma jovem sonhadora e decidida que acaba por ser colocada em contacto com Frank, uma situação que os torna alvos de um conjunto de robôs ao serviço de Nix, marcados por feições sempre simpáticas mas mortíferos, causando a destruição na habitação do personagem interpretado por George Clooney. Este revela-se inicialmente pouco simpático para com a jovem embora, aos poucos, pareça perceber as razões para esta ter sido "a escolhida" por Athena. Um dos problemas de "Tomorrowland" centra-se na sua constante procura de engonhar as causas de Casey ser necessária em Tomorrowland, ao lado de Frank, com o próprio filme a não nos deixar assim tão entusiasmados quanto isso em relação ao verdadeiro motivo. Falta sentido de urgência e algum ritmo a uma obra que tem ideias mas não sabe aplicá-las na prática, optando por um didatismo pueril que ganha contornos idiotas no último terço onde temos um discurso do antagonista a expor o seu ponto de vista em relação à humanidade e à forma como esta abraçou de forma surpreendente a possibilidade do Apocalipse. Existe uma procura, ainda que destrambelhada, de "Tomorrowland" em expor como as representações do futuro na cultura popular são cada vez mais marcadas pelo pessimismo, algo que Brad Bird procura contrariar com um enredo que é perfeito para quem acredita em unicórnios ou necessita de uma injecção de discursos de auto-ajuda marcados por um optimismo exposto de forma tão repetitiva e redundante que acaba por esbater o efeito pretendido pelo cineasta. Existe, e não deixaria de lado este argumento, a possibilidade desta pessoa que escreve o texto ser algo fria e pessimista, embora nem seja de todo o caso. No entanto, não basta apenas apresentar uma visão optimista do Mundo e da capacidade do ser humano de fazer feitos extraordinários para um filme ser elogiado, sobretudo quando conta com um argumento redundante, plot holes incomodativos e mudanças bruscas de tom que contrastam com todo um cuidado impressionante a nível visual.

 A representação da New York World Fair de 1964, onde esteve presente Walt Disney, criador do estúdio de "Tomorrowland", é exemplo desse cuidado nos cenários, mas também todo o espaço do título, para além da forma criativa como são utilizadas as divisórias da casa de Frank para este e Casey escaparem dos robôs de Nix. Este é um dos momentos mais inspirados em termos de acção, com Brad Bird a ter ainda no último terço um momento que poderia ter um enorme impacto a nível emocional entre Athena e Frank que é completamente estragado pela ideia idiota de introduzir pelo meio uma piada que quebra a atmosfera dramática. Optimismo sim, estupidez não, e aquilo que acontece nessa piada é o riso do espectador quando deveria estar triste pelo episódio em questão. Diga-se que ainda vamos ter o riso involuntário em relação à forma como facilmente um antagonista é imobilizado para além de ser ridículo encontrar o argumento a estabelecer regras para posteriormente lixar-se nas mesmas como se não fosse nada. Seguindo o exemplo do filme, aqui vai um exemplo didáctico mas prático, ou se quiserem inválido, mas é a interpretação que faço: Frank, Casey e Athena transportam-se através de uma máquina até Paris para, a partir da Torre Eiffel, accionarem outro mecanismo tendo em vista a finalmente atravessarem para a dimensão de Tomorrowland. São estabelecidas uma série de regras e procedimentos: Casey, como não está habituada a estes procedimentos, tem de ir de olhos vendados, ouvidos tapados e tem de ingerir açúcar pois vai perder 90% daquele que se encontra no sangue quando chegar a Paris. Mal chega, esta consome duas garrafas de Coca-Cola (vamos esquecer temporariamente o product placement e o facto de Frank ter dito que não se deslocava a estas instalações em Paris há vinte e cinco anos). Quando assistimos ao transporte para outra dimensão, o que acontece? Nada, todos esses procedimentos já não foram necessários. Ou foi necessário fazer um favor aos patrocinadores e colocar ali pelo meio umas garrafitas de Coca-Cola, ou as regras mudam a bel-prazer, embora este não seja um dos momentos mais problemáticos: As justificações de Nix são pueris, a maioria dos personagens secundários são unidimensionais, as verdadeiras motivações para Casey ter de se deslocar àquele local com Frank e a tragédia que se pode abater sobre a Terra são expostos tardiamente, para além das redundâncias dos discursos ("é preciso alguém que acredite em nós", "é preciso sonhar", "concretizar os sonhos" e falas do género). Existe ainda algo que é completamente peculiar: temos protagonistas de raça branca, mas no final alguém se lembra de colocar um conjunto de elementos de diversas etnias para expor esse futuro melhor, onde os sonhadores de diversos locais surgem expostos num sinal de hipocrisia gritante. No entanto, isso não implica que George Clooney, Britt Robertson e a surpreendente Raffey Cassidy não estejam bem nos respectivos papéis, bem pelo contrário. George Clooney empresta mais uma vez o seu carisma ao personagem que interpreta, um indivíduo inicialmente ranzinza que logo se transforma no tipo porreiro e simpático que associamos à persona do actor. Britt Robertson, uma actriz conhecida por trabalhos televisivos como "The Secret Circle" e "Under the Dome", tendo recentemente protagonizado "The Longest Ride", ao lado de Scott Eastwood aka o filho canastrão de Clint Eastwood, não deslumbra mas também não se espalha como esta personagem quase sempre acompanhada pelo chapéu da Nasa pertencente ao seu pai. Robertson consegue expor o espírito destemido de Casey, bem como o seu optimismo em relação ao Mundo que a rodeia, procurando fazer algo para mudar o mesmo ao invés de ficar parada ao computador a escrever textos sobre filmes como esta pessoa. Casey tem uma personalidade forte, bem como Athena, com Raffey Cassidy, uma jovem actriz que eu desconhecia por completo, a conseguir incutir alguma mordacidade e impetuosidade a esta robô que tem um papel fulcral na narrativa. A interacção entre Cassidy e Robertson funciona, tal como entre esta última e George Clooney, com o elo mais fraco a ficar em Hugh Laurie que merece mais do que este tipo de papéis que engordam a sua conta bancária mas não trazem nada de positivo para a sua carreira.

 "Tomorrowland" foi baseado num parque temático da Disney, tal como a franquia "Piratas das Caraíbas", embora os seus resultados nas bilheteiras não indiquem que venha a gerar o mesmo impacto de Jack Sparrow e companhia. Não vamos aqui avaliar a bilheteira. Existem bons filmes que são flops e obras cinematográficas atrozes que fazem milhões em receitas. No entanto, tem existido um debate relativamente interessante sobre a aderência do público ou não a blockbusters que não partam de adaptações de comics ou reboots ou sequelas. No caso de "Tomorrowland", mais do que a aderência ou não do público, o debate não faz completamente sentido ao estarmos diante de uma obra cinematográfica que quase chega a roçar a mediania mas nem isso alcança. As ideias-chave associadas à criatividade, à capacidade do ser humano em sonhar e colocar as suas ideias em prática, ao optimismo em relação ao futuro são bonitas de se ver e até contrastam com muitos blockbusters, sobretudo neste período pós-11 de Setembro que nos colocam perante destruições em massa. O problema, pelo menos para esta pessoa que escreve o texto, é que as ideias são mal exploradas quer pelo argumento, quer pela própria realização de Brad Bird, com o cineasta a muitas das vezes não ter nem noção de ritmo (que para mim nem é aquilo que valorizo mais num filme, caso contrário não apreciaria obras como "Stray Dogs" de Tsai Ming-liang), para além de se perder na falta de coesão. Volto a bater na mesma tecla. Colocar uma piada que até pode funcionar - não é isso que está em causa (curiosamente, num filme recheado de tentativas falhadas de humor, acerta em cheio no momento mais indevido) – num dos momentos emocionalmente mais intensos é completamente idiota. O impacto emocional causado é destruído perante o riso, numa obra com ideias interessantes. O problema, mais uma vez, é que de boas intenções está o Inferno cheio e no final "Tomorrowland" perde-se diante de um argumento insípido, uma banda sonora a espaços intrusiva e uma incoerência narrativa que tiram algum impacto àquilo que o filme tem para oferecer de bom. Diga-se que as próprias ideias da possível destruição do planeta e a necessidade de fazer algo para que isso não aconteça também não são algo propriamente novo ou inovador, com parte do objectivo da ida de Cassey e companhia a Tomorrowland a centrar-se essencialmente em salvar o planeta Terra da sua destruição e sensibilizar os seres humanos para essa possibilidade (veja-se que Frank conta na sua habitação com um medidor que indica que a Terra encontra-se com 100% de possibilidades de uma catástrofe, um valor que é logo reduzido com a entrada de Casey no local). É uma obra cinematográfica que até tem bons valores de produção, um elenco com talento, um realizador que deu provas de competência (confesso que não sou fã incondicional do quarto capítulo da saga "Missão Impossível"), umas ideias interessantes e ideais que servem os mais novos, mas está longe também de convencer. O filme realizado por Brad Bird parece ainda partilhar de uma ideologia optimista por vezes associada a Walt Disney e ao estúdio, com este espaço utópico de Tomorrowland, inicialmente apresentado como encantador, posteriormente desolador, até... (não vamos revelar o final), a remeter para essa situação. Os episódios em Tomorrowland repercutem-se no planeta Terra, enquanto os eventos do filme pouco se fizeram sentir neste espectador que continua com a mesma visão pragmática em relação ao Mundo. Bem intencionado nos seus propósitos, "Tomorrowland" perde-se no seu excessivo didactismo, com as suas mensagens optimistas a tornarem-se gradualmente redundantes e exasperantes, desperdiçando o potencial que tinha, faltando apenas unicórnios a povoarem os cenários como a cereja no topo do bolo.

Título original: "Tomorrowland".
Título em Portugal: "Tomorrowland - Terra do Amanhã".
Realizador: Brad Bird.
Argumento: Damon Lindelof e Brad Bird.
Elenco: George Clooney, Hugh Laurie, Britt Robertson, Raffey Cassidy, Thomas Robinson, Tim McGraw, Kathryn Hahn, Keegan-Michael Key.

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