26 maio 2015

Resenha Crítica: Timbuktu

     Garanto que não é minha intenção começar todo e qualquer texto com um pequeno contexto histórico, mas é-me difícil usar outro método quando, não sei bem por que motivo, a História não cessa de me perseguir, invadindo-me o domicílio e impregnando-me os textos, muitas vezes contra a minha vontade. Assim sendo, desprovido de alternativas, e há quem diga que entre a espada e a parede, resta-me confiar na benevolência do inocente leitor que, desconhecendo ao que veio, não se importará de ser encaminhado momentaneamente para a cidade maliana de Timbuktu, localizada no extremo meridional do deserto do Saara. As suas origens remontam à Idade Média e em concreto ao século XII, a partir do qual se tornou num próspero centro económico e cultural, envolvido no comércio de ouro, de escravos e até de livros, com universidades islâmicas, até entrar em declínio no século XVII. Como é hábito nesta região de constantes lutas por poder e por matérias-primas, o seu governo foi mudando de mãos até o Mali ter sido conquistado pelos franceses em 1893, dos quais só se livrou em 1960 com a reivindicação da sua independência. Nos anos que seguiram o país teve uma invulgar estabilidade democrática e, como tal, entrou numa fase de prosperidade.
     Infelizmente, no início do nosso século, apesar da sua aparência estável, a governação maliana acabou mesmo por tombar perante as ameaças externas e internas que se tinham vindo a incitar, mutuamente, nos últimos anos. Em 2012, por parecer incapaz de suprimir uma rebelião separatista no norte do país que, entretanto, já se transformara numa violenta guerra civil, o presidente do país Amadou Touré foi deposto mediante um golpe militar. Aproveitando a convulsão que se seguiu no exército nacional, dois movimentos, um separatista e outro religioso, o segundo uma ramificação da Al Qaeda, cooperaram para a captura da cidade de Timbuktu. Os destinos dos seus habitantes, outrora salvaguardados por um sistema democrático, passaram a concentrar-se nas mãos dos cabecilhas dos movimentos, manipuladores de uma rede de poder representada localmente por jovens militantes legitimados por metralhadoras. Sem qualquer tipo de controlo sobre a sua própria segurança, ciente de que estava refém dos caprichos dos jihadistas, os habitantes cristãos abandonaram o território. Aos muçulmanos que soçobraram determinou-se a sujeição à lei islâmica (ou sharia), escrita pelos terroristas e disseminada à população não apenas por altifalante mas, também, porta a porta, para que ninguém se desculpasse argumentando que não a tinha ouvido. Estabelecia-se que, a partir de agora, o seguimento dos costumes ocidentais era uma ilegalidade, pelo que quem ouvisse música ou jogasse à bola seria punido com chicotadas; estipulava-se ainda às mulheres que teriam que cobrir-se totalmente de véus, sendo algumas delas obrigadas a casarem-se com os militantes do movimento armado, simplesmente por abuso de poder. Aos casais adúlteros reservava-se o apedrejamento até à morte, e aos homicidas uma célere execução com um julgamento feito no próprio dia.
     A ocupação da cidade de Timbuktu acabou chamar a atenção de Abderrahmane Sissako por causa de um episódio em particular que nela teve lugar, e que foi divulgado posteriormente num artigo noticioso que mencionava, precisamente, a morte de um casal adúltero, ou seja não casado, por apedrejamento. Dedicado na última década à realização e produção de filmes relacionados com os conflitos armados e com a exploração dos direitos humanos perpetrados no continente africano, muitos deles baseados em casos verídicos, Sissako enveredou então pela realização da obra em causa, com o propósito de retratar a influência da ocupação dos radicais no modo de vida dos habitantes da cidade e na destruição da sua cultura, o que se simboliza logo na cena inicial do filme quando vemos um grupo de guerrilheiros a fazer tiro ao alvo com um grupo de estatuetas fabricadas na região. Este retrato foi essencialmente alicerçado na construção de uma trama principal, centrada numa família de pastores do território com quem é fácil criar empatia tal a simpatia e os valores morais que eles nos transmitem, complementada com um ou outro episódio protagonizado por algumas figuras secundárias, tanto radicalistas como habitantes da cidade, que nos proporcionam a perceção de uma ideia geral da ocupação, dando-nos a conhecer os seus intervenientes e algumas das suas indefesas vítimas.
     A trama centrada nos pastores é de fácil descrição. Comecemos por imaginar o seu lar simples, mas acolhedor: uma tenda negra e espaçosa, implantada no topo de uma duna, com uma vista privilegiada para o gado e para uma extensão de areal que se estende em todas as direções; um lugar aprazível e sereno, inviolado pela ação humana. O patriarca da residência é Kidane (Ibrahim Ahmed), um homem armado de modos gentis e de um tom de voz tranquilo, de barba curta coberta por um inseparável turbante azul que lhe envolve o pescoço (o alasho). O afeto que sente pela família é particularmente evidente, e por vezes até interrompe o silêncio da noite com os acordes da sua guitarra acústica, tocando algumas belas canções complementadas com a voz da esposa (momentos musicais que seriam proibidos pelos jihadistas, mas o isolamento do local, situado no meio do deserto, sempre permite o exercício de mais algumas liberdades). A matriarca, por sua vez, chama-se Satima (Toulou Kiki) e também ela transparece uma perpétua segurança através dos seus gestos e da sua expressividade, transmitindo ainda uma ideia de força e de rebeldia numa cena em que, ao ser visitada por um dos líderes do movimento ocupante, não faz questão de parar de lavar o cabelo e nem sequer de o tentar disfarçar – uma atividade que na cultura islâmica está associada ao erotismo - respondendo desafiante ao cabecilha que, se ele tiver problemas com isso, que olhe para outro lado. À semelhança do marido tem uma adoração incomensurável pela filha Toya (Layla Walet Mohamed), uma menina de doze ou treze anos com uma intocável aura de inocência, originada a partir de um larguíssimo sorriso e da genuinidade das suas emoções. O agregado complementa-se muitas vezes com outra criança, um órfão mais jovem do que Toya contratado para passear o gado pelas terras circundantes, tarefa que faz com entrega e com humildade.
     As circunstâncias mudam inesperadamente quando, num fim de tarde, passeava o órfão os seus bovinos de uma ponta à outra de um lago e, sem que ninguém o adivinhasse, uma das vacas, apelidada carinhosamente de GPS, agita-se como se possuída por uma entidade raivosa e investe contra as redes de um pescador, deitando-as abaixo com desmedida violência. Irritado por já ter avisado o órfão, inúmeras vezes, que afastasse as vacas do seu território, o pescador agarra uma lança com o braço direito e, sem proferir uma única palavra, projeta-o contra o pescoço do animal, fazendo-o baforar pela última vez. Embasbacado pelo choque e acometido pelo pânico, o jovem esquece-se completamente das vacas e acorre à tenda dos protagonistas para, no meio de uma choradeira, relatar a Kidane os contornos do assassinato – (receio estar a revelar demasiados pormenores da história mas garanto o leitor de que eles são relevantes para a exposição dos meus argumentos); continuando - ao escutar atentamente o relato da criança Kidane fica ineditamente furioso; como se não bastasse ver-se privado de uma das suas preciosas cabeças de gado, a vítima fora logo a GPS. Ignorando os rogos da sua mulher o homem pegará num revólver resguardado nas profundezas da sua tenda e guarda-o entre as suas túnicas, encaminhando-se resoluto em direção ao pescador. O que se sucederá posteriormente parecerá repentino, e por isso ligeiramente forçado. Digamos que passadas poucas horas Kidane será encarcerado, com perspetivas de futuro pouco promissoras. A narrativa, a partir deste momento, torna-se mais intensa, agarrando-nos até ao seu final.
     O desenrolar desta trama será intercalado com a exposição de alguns breves episódios protagonizados por um conjunto de personagens secundárias que, apesar de terem um impacto quase insignificante na narrativa, sempre permitem a transmissão de algumas ideias-chave por parte do realizador. Uma delas, provavelmente a principal, é a da resistência da população de Timbuktu às leis arbitrariamente impostas pelos movimentos radicais. É neste sentido que, logo após o estabelecimento da proibição de jogar futebol, nos é mostrada uma cena simbólica, acompanhada por uma bela banda sonora, em que um grupo de jovens divididos em duas equipas imaginam estar na posse de uma bola e fantasiam passes e fintas entre si, criando jogadas e celebrando por fim os seus golos invisíveis, contornando assim a imposição; tal como nos é informado que ouvir música passou a ser um crime, o que não impediu um grupo de jovens inconformados de interpretar algumas belas canções, durante a noite para que todos os ouvissem, resistindo até ao momento em que são presos e açoitados publicamente mas, mesmo aí, entoando corajosamente um verso entre cada chicotada.
Mas Abderrahmane Sissako parece ser um cineasta de muitas ideias e, apesar de neste caso ele não as ter aprofundado pelo que, apesar de tudo, elas não superam a superficialidade, a verdade é que elas andam por aí, sendo abordadas num ou noutro ponto da narrativa, prontas a serem transmitidas ao espetador: para mencionar os abusos de poder perpetrados pelos jihadistas concebeu-se um episódio em que uma mulher é obrigada a casar-se com um membro de um movimento; para nos expor às suas contradições exibiu-se um guerrilheiro a fumar às escondidas quando o tabaco lhe estava interdito; para demonstrar que os muçulmanos mais sensatos condenam as intervenções militares ilustrou-se um imã a chamar à razão, na sua voz sereníssima, um membro das forças ocupantes; e de forma a mostrar que os jihadistas não são monstros sanguinolentos sem coração inventou-se um jovem a tentar proferir uma mensagem de apoio ao movimento numa câmara de filmar, mas sem sucesso por causa das suas próprias dúvidas, para não falar de um dos líderes dos guerrilheiros a aprender a conduzir um automóvel, entusiasmando-se como uma criança. Noutra cena ilustrou-se o choque de culturas entre as forças ocupantes e as ocupadas e salientou-se a inexistência de um sentimento de pertença dos terroristas em relação a este espaço, ao evidenciar-se a necessidade, por parte de um dos líderes dos guerrilheiros, em recorrer a um tradutor para comunicar com a esposa de Kidane, por desconhecer o dialeto local.
     A ilustração tanto destes episódios como da trama principal beneficia de um trabalho técnico de saludar por parte de Abderrahmane Sissako e dos seus colaboradores. Se fiz questão de mencionar a banda sonora da autoria de Amin Bouhafa, na descrição daquele jogo de futebol imaginário, elogie-se também a cinematografia de Sofian El Fani que sobressai principalmente no aproveitamento dos espaços onde se desenrola a narrativa, tanto nos mais abertos que nos proporcionam uma perspetiva geral da cidade e do deserto que a rodeia, criando uma sensação de isolamento em alguns locais como naquele em que habitam os protagonistas, como nos sítios mais fechados, como se comprova numa das cenas iniciais em que um travelling nos expõe com habilidade a completa disposição de uma mesquita enquanto acompanha a entrada de um grupo de guerrilheiros no templo, mostrando a divisão do edifício em filas de colunas às quais se encostam alguns crentes muçulmanos em oração. Encontramos igualmente outras cenas relativamente memoráveis graças, acima de tudo, aos atores que as interpretam, como sucede com as que são protagonizadas pelo referido imã, cujo tom de voz soleníssimo reforça a sua irrefutável sabedoria, e por Kidane, principalmente no quase-monólogo dramático proferido após o seu encarceramento e na véspera do seu julgamento.
     Há que reconhecer, no entanto, que não obstante as suas inegáveis qualidades há também limitações evidentes em “Timbuktu” que residem essencialmente na construção da sua narrativa. Recapitulemos, então, uma observação enunciada há poucos parágrafos: a intenção de Sissako em realizar o filme pareceu consistir, acima de tudo, na exposição da ocupação dos movimentos extremistas da cidade maliana – daí a ser associado ao género da docuficção – e na transmissão da ideia de que, a partir dessa ocupação, a cidade passou a reger-se por uma completa arbitrariedade legitimada unicamente pela força de certos indivíduos com armas de fogo. Para levar a cabo esta intenção, o cineasta alicerçou a história numa trama principal com personagens por quem é fácil nutrir empatia e complementou-a com a exposição de alguns episódios que expõem as consequências e alguns dos intervenientes da ocupação. A questão, aqui, é que estes episódios não acrescentam quase nada à trama principal e se por um lado nos proporcionam uma ideia geral do ambiente vivido na cidade e nos mostram, como raramente se vê, a perpetração de violência entre membros da mesma religião e não unicamente contra ocidentais, por outro são superficiais, muitas vezes gratuitos, e uma simples curiosidade, protagonizados por indivíduos demasiado secundários para dizerem o que quer que seja ao espetador. Aliás, as ideias que eles transmitem não são particularmente novas ou originais – que os jihadistas são pessoas com ideias próprias e sentimentos já o ficáramos a saber em obras como “Paradise Now” ou “Esclavo de Dios”, e que uma ocupação pela via da força, por intermédio de um movimento armado, está destinada a destruir a paz e a democracia da sociedade nativa, penso que também não é segredo para ninguém. Assim sendo, a capacidade do filme em interessar este espetador acabou por residir acima de tudo no drama dos protagonistas que, apesar da simplicidade da sua conceção, é ainda assim envolvente, a espaços emocionante, e protagonizado por atores competentes. E se tal não me parece justificar o verdadeiro frenesi que foi suscitado no último ano à sua volta, é, não obstante, o suficiente para manter qualquer cinéfilo interessado numa história durante a sua hora e meia de duração, fazendo-o, com sorte, querer aprender algumas coisas sobre o que se tem andado a passar nas profundezas da África Ocidental.

Fica técnica:

Título original: Timbuktu
Realização: Abderrahmane Sissako
Argumento: Abderrahmane Sissako e Kessen Tall
Elenco: Ibrahim Ahmed, Abel Jafri, Toulou Kiki, Layla Walet Mohamed, Mehdi A.G. Mohamed, entre outros.

Sem comentários: