19 maio 2015

Resenha Crítica: "Still the Water" (A Quietude da Água)

 Filme de enorme beleza e espiritualidade, que procura captar a essência do modo de vida e pensar dos habitantes de Amami-Oshima, uma ilha japonesa onde os seres humanos parecem viver em harmonia com a natureza, "A Quietude da Água" surge também como uma obra cinematográfica bastante pessoal da realizadora Naomi Kawase ou esta não tivesse contactado com o local quando descobriu que os seus pais de sangue eram naturais do mesmo. Naomi Kawase expõe-nos à sua visão da ilha e dos seres humanos que a habitam, ao mesmo tempo que procura explorar esta invulgar harmonia entre os habitantes locais e o território, numa narrativa onde está sempre presente um olhar observador da cineasta (e argumentista), embora em alguns momentos pareça certo que esta se perde num excessivo amor ao material que tem entre mãos. Por um lado contribui para estender a narrativa em demasia quando o argumento não tem densidade para sustentar as duas horas de duração do filme, por outro deixa-nos diante de um conjunto de belas imagens e uma história envolvente, que facilmente captam o nosso olhar, ou seja, globalmente, apesar de alguns solavancos, "A Quietude da Água" é uma gratificante experiência cinematográfica. É um filme sensível que aborda temas como a passagem dos adolescentes para a idade adulta e o confronto destes com uma realidade mais complexa do que aquela que podem ainda compreender, relações entre pais e filhos, religião, o ciclo da vida, o primeiro amor, a forma como a natureza e a cultura de um local podem influenciar a vida dos seus habitantes, existindo ainda o mistério relacionado com um corpo morto que é encontrado à beira-mar nos momentos iniciais do primeiro terço da narrativa. O corpo é encontrado por Kaito (Nijirô Murakami), um jovem oriundo de Tóquio, ainda não totalmente adaptado a este local, que vive com a sua mãe, uma mulher divorciada que trabalha num restaurante e está muitas das vezes fora de casa. Kaito tem em Kyoko (Jun Yoshinaga) a sua melhor amiga e interesse amoroso, com esta jovem a surgir como um importante baluarte do primeiro. Ambos têm dezasseis anos e frequentam a escola secundária, com Kyoko a parecer muito mais habituada ao território e à cultura local, encontrando-se a ter de lidar com a dor provocada pelo facto de Isa (Miyuki Matsuda), a sua mãe, se encontrar gravemente doente. Tetsu (Tetta Sugimoto), o pai de Kyoko, possui um restaurante, tendo uma relação de grande proximidade com a jovem, procurando cuidar da esposa o melhor que pode. A rodear estes personagens encontra-se o mar, com as ondas a transmitirem uma imensidão de sentimentos, quer de quietude quando se encontram mais calmas, quer de fúria quando estão revoltas, com a natureza e a religião a estarem intimamente ligadas à vida destes seres humanos. Veja-se a forma como Tetsu encara o mar, tal como Kyoko, com o primeiro a gostar de surfar no mesmo, enquanto a segunda gosta de nadar, mesmo com as roupas vestidas, ao contrário de Kaito que parece temer estas águas revoltas.

 Naomi Kawase dá uma particular atenção aos pequenos gestos quotidianos destes personagens que aos poucos nos vão dando a conhecer um pouco mais sobre os mesmos, tais como o seu modo de comer, de preparar os cozinhados, de lidar com as situações mais adversas, para além das festas tradicionais locais e a maneira como os alunos são educados na escola, entre vários outros exemplos que podem ser dados. Ou seja, por vezes parece quase que existe uma faceta documental na forma como o território é encarado e exposto, com Naomi Kawase a querer explorar o mesmo e a sua "identidade" ao serviço do enredo, compondo um conjunto de personagens que servem relativamente bem os seus propósitos, ao mesmo tempo que os insere num contexto bem real. Entre estes personagens destacam-se desde logo Kaito e Kyoko, os dois adolescentes que se encontram a deparar com um conjunto de situações inerentes à entrada na idade adulta que aos poucos os começam a afectar e obrigam-nos praticamente a terem de forçosamente "crescer". Kyoko lida com a esperada perda da mãe, uma mulher que padece de uma doença terminal, algo que parece afectar a adolescente, ao mesmo tempo que desenvolve um interesse amoroso por Kaito, um jovem que parece ter muito mais dúvidas do que esta. O relacionamento desta jovem com a família é aprazível, com Kyoko a parecer não ter grandes problemas com os pais, procurando absorver os conselhos que estes têm para lhes dar, com o argumento de Naomi Kawase a ter sempre em atenção este respeito pelos mais velhos e pelo território. Veja-se a título de exemplo o facto de Tetsu colocar a cama de Isa junto a uma figueira que conta com cerca de quinhentos anos, algo que exemplifica paradigmaticamente o quão pequeninos podemos ser diante da natureza. Isa vai ficar deitada nesta cama quando regressar do hospital, sendo ela própria uma admiradora da natureza, com o filme a aproveitar a doença desta para explorar conceitos sobre o corpo e a alma, bem como a interacção entre ambos e o território, para além da noção de hereditariedade. É uma cultura distinta esta que nos é apresentada, com Naomi Kawase a procurar explorar a mesma ao serviço do enredo, sem que pareça um mero artifício de procurar conquistar o espectador pelo "exotismo" do local que se distancia dos próprios espaços urbanos e citadinos japoneses, algo que é visível quando Kaito vai visitar o pai em Tóquio. Se Kyoko tem uma vida familiar onde os pais contam com uma relação saudável, apesar de Isa estar prestes a falecer, já Kaito apresenta uma relação problemática com a mãe, não compreendendo como esta pode ter outros homens, tal como convive pouco com Atsushi (Jun Murakami), o pai, um tatuador que visita esporadicamente. Diga-se que Kaito também não se coíbe de questionar o pai sobre as razões de se ter separado da mãe, enquanto este último procura explicar o inexplicável ao filho ou as relações humanas não fossem de uma complexidade tal que a espaços quase que roçam a incompreensão.

 A admiração de Atsushi por Tóquio parece semelhante à de Tetsu por Amami-Oshima, algo revelador do meio distinto de onde Kaito é oriundo. A dificuldade que Kaito tem em lidar com o mar é exemplo disso, com este jovem a ter aos poucos que aprender ainda a enfrentar os seus receios e dúvidas, mas também a crescer e perceber que nem todos aqueles que nos rodeiam podem ser como os idealizamos, incluindo os nossos pais. Nesse sentido vamos ter alguns problemas na relação entre Kaito e a mãe, com o estreante Nijirô Murakami a dar bem conta do recado, convencendo ainda na dinâmica com Jun Yoshinaga. Estes interpretam dois adolescentes que se começam a apaixonar um pelo outro e a explorar a sua sexualidade, ao mesmo tempo que lidam com questões incontroláveis relacionadas com os seus pais que os vão afectar e muito. A possível perda da mãe afecta bastante Kyoko, algo que parece contribuir para o seu sentimento de urgência em expor os seus sentimentos junto de Kaito, enquanto este último reluta em relação ao que fazer devido ao falhanço do casamento dos seus pais. Ou seja, no meio de uma pretensão excessiva de que o espectador vai querer acompanhar vários actos quotidianos ou tradicionais locais, Naomi Kawase consegue explorar um conjunto de temáticas profundamente humanas e até universais que ganham uma dimensão distinta graças à conjunção da história dos personagens com o cenário que os envolve, mas também devido à delicadeza que a cineasta atribui aos mesmos. Apesar de toda a beleza poética que rodeia o enredo de "Still the Water" nem por isso deixa de ser notório que a cineasta cai em exageros que desafiam o bom senso ou a mera procura de acrescentar algo à narrativa. Exibir um cabrito a ser degolado e a morrer lentamente enquanto sangra é incómodo uma vez. Duas vezes torna-se duplamente incómodo, sobretudo quando praticamente nada acrescenta à narrativa para além de uma sensação de mal-estar em ver um ser vivo a morrer lentamente e de forma cruel, independentemente de ser a cultura local ou um hábito comum. As próprias cenas de Isa no leito da morte, acompanhadas por alguns rituais e música, por vezes parecem perder o efeito com o excesso de tempo que Kawase dedica às mesmas, com a cineasta a não parecer ter a noção de quando saber parar (incluindo na repetição da transmissão das mesmas mensagens). O próprio trabalho de câmara muitas das vezes torna-se incómodo devido à constante instabilidade colocada na mesma, embora isso não impeça que sejam captadas algumas imagens poderosíssimas, quer quando o território está em acalmia, quer quando a dupla de protagonistas se encontra a nadar no interior do mar, quer quando ocorre uma tempestade que preenche os cenários externos de tonalidades cinzentas e frias. A tempestade surge associada ao perigo mas também aos sentimentos revoltos de Kaito, com Naomi Kawase a utilizar mais uma vez a simbologia, ou não estivéssemos diante de um território e uma cultura que se apresta a esta situação. É uma ilha que mescla elementos tradicionais com a modernidade, parecendo certo que estamos diante de um território especial, apresentado com alguma reverência por parte de Naomi Kawase.

 Diga-se que "Still the Water" é um filme bastante pessoal da cineasta, com a própria noção que esta tem do território a ser transmitida ao longo da obra cinematográfica: "(...) The blood that flows through my veins has its source on this island. During our trip to a spa, when I saw these three women wash each other’s backs, I was overtaken by a feeling I had never known before. This is where everything connected. Transmission from mother to daughter, endlessly renewed, spans time. (...) Several years passed. In2008, I visited the island of Amami-Oshima for the first time. Beforemy departure, I studied a map of the island inside-out. On thesouthern coast, I saw the village of my ancestors. My heart leapt atthe thought of what they might have lived through". Ao longo do filme vamos assistindo a esta noção do sangue e hereditariedade, do conhecimento que é transmitido de pais para filhos, mas também à formação do primeiro amor, à passagem de dois adolescentes para a idade adulta, com Jun Yoshinaga e Nijirô Murakami  a sobressaírem como estes jovens. Ambos concedem os elementos necessários para tornarem os sentimentos e personalidade dos personagens que interpretam reais junto do espectador, mesmo sem terem uma grande quantidade de diálogos para expor, ao mesmo tempo que assistimos ao desenvolver desta relação num território belíssimo. Os próprios elementos que dão vida aos personagens adultos, tais como Tetta Sugimoto, Miyuki Matsuda, Makiko Watanabe e Jun Murakami, contribuem para a credibilidade dos personagens que interpretam, em particular os dois primeiros, os intérpretes dos pais de Kyoko, com estas figuras a povoarem uma narrativa marcada pela atmosfera especial proporcionada pelo território quase místico onde se desenrola o enredo. Aos poucos descobrimos que o falecido encontrado no início do filme tinha uma relação com um elemento próximo a Kaito, mas também nos deparamos com figuras como o "tio" Kamejiro (Fujio Tokita), um elemento já de idade avançada, que encontramos a degolar um cabrito, mas também a expor algum do seu conhecimento junto dos mais jovens. A própria mãe de Kyoko é uma xamã, algo que adensa a proximidade da mesma com a natureza e religião, mas também as dúvidas da filha ao ver a progenitora, uma mulher supostamente próxima dos Deuses, a falecer tão precocemente, deparando-se com um conjunto de questões que certamente não esperaria ter nesta fase da sua vida. Ficamos assim diante de um filme marcado por alguma beleza e delicadeza, capaz de explorar o território onde se desenrola o enredo ao serviço da narrativa e deixar-nos diante de uma ilha fascinante, marcada por personagens que são capazes de aos poucos gerarem alguma empatia ou não vivessem um conjunto de situações relativamente universais, com Naomi Kawase a abordar temáticas como o ciclo da vida, a transição da adolescência para a idade adulta, o primeiro amor e descoberta da sexualidade, entre outros elementos de uma obra cinematográfica que pode ter alguns tropeços mas nem por isso deixa de despertar algum fascínio.

Título original: "Futatsume no mado".
Título em Portugal: "A Quietude da Água".
Título em inglês: "Still the Water". 
Realizadora: Naomi Kawase.
Argumento: Naomi Kawase.
Elenco: Nijirô Murakami, Jun Yoshinaga, Miyuki Matsuda, Tetta Sugimoto, Makiko Watanabe, Jun Murakami, Fujio Tokita .

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