29 maio 2015

Resenha Crítica: "Road to Perdition" (Caminho para Perdição)

 As relações entre pais e filhos surgiam como uma temática de relevo em "American Beauty", a primeira longa-metragem realizada por Sam Mendes. Em "Road to Perdition", o segundo trabalho do cineasta na realização de longas-metragens, voltamos a assistir à abordagem dessa temática, ainda que num contexto bastante distinto. Deixamos de estar perante os subúrbios e os devaneios da classe média dos EUA para ficarmos diante do território em 1931, durante a chamada Grande Depressão, tendo como personagens principais Michael Sullivan (Tom Hanks), um gangster, e o seu filho de doze anos de idade, Michael Sullivan, Jr (Tyler Hoechlin), um pré-adolescente algo rebelde. Michael é um gangster fiel a John Rooney (Paul Newman), um chefe da máfia irlandês que o trata quase como se fosse um filho, tendo uma enorme confiança no seu trabalho. Diga-se que John Rooney confia mais em Sullivan do que no seu próprio filho de sangue, o fleumático e violento Connor (Daniel Craig). Se Sullivan limita-se a cumprir as ordens dadas pelo seu superior, já Connor facilmente desrespeita o pai e procura cumprir a sua própria agenda pessoal esquecendo-se que a protecção da qual goza se deve ao respeito que os mafiosos têm pelo progenitor. Nos momentos iniciais de "Road to Perdition" assistimos ao funeral de Danny, o irmão de Finn McGovern (Ciarán Hinds), em momentos de alguma dor para este gangster, embora espere-se que este seja controlado e não reaja contra o grupo de Rooney. É então que John Rooney decide enviar Connor e Michael Sullivan para se reunirem com McGovern, algo que se esperava servir para resolver de forma pacífica alguma possível querela, mas o segundo logo elimina o personagem interpretado por Ciarán Hinds, enquanto o protagonista é obrigado a disparar contra os homens deste último. A assistir a tudo encontra-se Michael Sullivan Jr., escondido no interior do carro, com a câmara de filmar a apresentar-nos aos acontecimentos muitas das vezes de forma distanciada, quase como se estivéssemos do ponto de vista do jovem. Este promete não contar nada, mas Connor logo trata de procurar eliminá-lo, bem como à mãe deste e ao irmão mais novo, acabando por ser bem sucedido a tirar a vida a estes dois últimos. Sam Mendes não exibe o assassinato destes elementos. Mais uma vez aposta em colocar-nos diante do ponto de vista de Michael, apresentando-o a observar a luz oriunda dos disparos e os sons bem sonoros das balas a irem em direcção à sua mãe e irmão mais novo. Não será a última vez que o cineasta irá expor a morte através do fora de campo, utilizando o impacto causado pelo poder de sugestão criado junto do espectador que pode ser tão ou mais efectivo do que mostrar a violência de forma bem explícita, algo que resulta relativamente bem ao longo do enredo. O plano de Connor passava ainda por Calvino (Doug Spinuzza), o dono de um bar, eliminar o personagem interpretado por Tom Hanks, mas o protagonista é mais perspicaz e consegue livrar-se a tempo. O clube nocturno é paradigmático da atenção colocada por Sam Mendes na decoração e exposição dos cenários, bem como da cuidada cinematografia, com as luzes azuis a simbolizarem o local de dança, as luzes vermelhas noutro espaço do bar a simbolizarem a zona da prostituição, até o protagonista se deslocar ao escritório no qual se apercebe da armadilha. O cuidado nos cenários é visível ainda na exposição dos cenários externos, inicialmente marcados pela frieza da neve e dos crimes cometidos pelos elementos que rodeiam o protagonista e até pelo próprio.

Aparentemente calmo, quase sempre discreto e cumpridor, embora nunca demonstre um grande entusiasmo pelo seu ofício, Michael Sullivan logo vai tentar vingar-se de Connor, independentemente desse acto ir contra as ordens do seu superior. É a primeira vez em que parece lidar de perto com as consequências do seu estilo de vida, com "Road to Perdition" a procurar explorar os efeitos da mesma naqueles que a perpetuam. Nesse sentido, mais do que gratuita e gráfica, a violência exposta em "Road to Perdition" é sentida, com os actos a trazerem consigo consequências, enquanto o protagonista, um assassino profissional, parece pretender redimir-se ao salvar o seu filho dos restantes criminosos e do mundo dos gangsters. Sullivan decide fugir com o seu filho até Chicago, procurando oferecer os seus serviços a Frank Nitti (Stanley Tucci), um elemento pertencente ao grupo liderado por Al Capone, tendo em vista a encontrar apoios contra Connor. Nitti logo rejeita os serviços de Sullivan, chegando a incitar Rooney a contratar os serviços de Harlen Maguire (Jude Law), um assassino que fotografa as suas vítimas com algum prazer, tendo em vista a que este elimine o personagem interpretado por Tom Hanks e o filho. Passamos a assistir à procura de Sullivan em estabelecer laços com o seu filho e a conhecer os seus gostos, ao mesmo tempo que assalta os fundos ilícitos que Al Capone guarda nos bancos, ensina o rebento a conduzir e prepara a sua vingança contra Connor, enquanto tenta salvar a sua vida e a de Sullivan Jr. A violência e a morte rodeiam o mundo destes personagens, mas também valores muito próprios, com Sullivan a não se esquecer do assassinato da esposa e do filho mais novo, tentando ainda proteger Sullivan Jr. e evitar que este se envolva no mundo do crime. A possibilidade do filho um dia assumir uma profissão semelhante à sua é um dos grandes receios do protagonista, um indivíduo que aos poucos percebemos nem saber assim tanto sobre os gostos do petiz, tendo durante grande parte da sua vida evitado que este soubesse o seu ofício. Quando Sullivan Jr. descobre o ofício do pai assistimos a um despoletar de violentos acontecimentos que ambos certamente não pretendiam. A morte permeia os cenários, bem como os perigos, enquanto assistimos a um fortalecer dos laços entre pai e filho, com Tom Hanks e o jovem Tyler Hoechlin a apresentarem uma dinâmica convincente. Tom Hanks como este gangster aparentemente frio e perspicaz, um anti-herói quase sempre capaz de elaborar a estratégia mais acertada para sair bem sucedido nos seus planos, tendo uma relação com o filho que inicialmente aparenta algum distanciamento. Aos poucos este vai demonstrando ao jovem que gosta tanto dele como gostava do irmão, mas Jr. faz com que se recorde de si durante a infância, algo que o leva a temer que o filho possa envolver-se pelo cruel mundo do crime. Já o pré-adolescente, interpretado de forma convincente por Tyler Hoechlin, começa aos poucos a compreender o pai e as suas decisões, parecendo pouco impressionado com o acto de matar, surgindo como um projecto para o protagonista encontrar a redenção pelos pecados cometidos. A relação entre estes dois, por vezes marcada pelos silêncios, é um dos pontos fortes de "Road to Perdition", com Sam Mendes a voltar a dar especial atenção aos relacionamentos entre pais e filhos, colocando estes dois elementos muitas das vezes em longas viagens de carro tendo como destino final a casa de Sarah, a tia do pré-adolescente, em Perdition. Pelo caminho, Michael ensina o filho a guiar o carro de maneira a ajudá-lo nos assaltos aos bancos de Chicago, expostos de forma algo leve, com o plano a servir para irritar Al Capone e fazer com que este deixe de participar na protecção a Connor. Diga-se que as relações entre pais e filhos não se ficam por aqui. A relação entre Sullivan e Rooney pode ser encarada quase como a de um pai e um filho, com Paul Newman a ter na sua última interpretação mais uma demonstração do seu grande talento, protagonizando alguns momentos de grande impacto emocional ao lado de Tom Hanks.

Paul Newman atribui uma aura de perigo e aparente calma a Rooney, um gangster poderoso que se encontra dividido entre ter de proteger um filho em que não confia e um elemento que lhe parece dizer mais do que o seu rebento. O próprio Sullivan parece querer proteger Rooney das trafulhices do filho mas esquece-se que por vezes as ligações de sangue falam mais alto e o personagem interpretado por Paul Newman é obrigado a ter de efectuar escolhas difíceis. A relação entre Rooney e Sullivan é quebrada pela procura do segundo em eliminar Connor, com Daniel Craig a interpretar um gangster relativamente unidimensional que pensa com o cano da pistola e pouco com o cérebro. Connor procura utilizar o poder de ser filho de Rooney, embora pouco respeito consiga, com "Road to Perdition" a explorar as estruturas hierárquicas e regras muito próprias dos elementos da máfia, apesar de também exibir que estas facilmente podem ser quebradas e as linhas de poder trocadas. Temos ainda Jude Law como um assassino frio e letal, um perigo à solta para o protagonista e o seu filho, protagonizando com Tom Hanks um intenso momento num restaurante e no último terço. Estes são personagens habituados à morte, com excepção do jovem Sullivan Jr, um rapaz que sempre se questionou sobre a profissão do pai e acaba por descobrir da pior forma o que este faz. É um choque que Sam Mendes procura que presenciamos quase ao mesmo tempo que o jovem, distanciando a câmara, enquanto a cinematografia brilhante de Conrad Hall sobressai. A iluminação é utilizada de forma sublime (inspirada nas pinturas de Edward Hopper), quer nas cenas interiores, quer nas cenas exteriores, por vezes penetrando sobre a escuridão, não faltando alguns intensos momentos à chuva e sentimentos à flor da pele. Diga-se que a água parece muitas das vezes surgir associada à morte, com vários dos assassinatos a ocorrerem à chuva ou pelo menos perto do mar, numa obra onde sabemos que mais tarde ou mais cedo o destino destes personagens pode não ser o mais agradável. Este lirismo na exposição da morte fica latente quando Michael Sullivan elimina vários elementos que rodeiam John Rooney, até ficar frente a frente com este. A própria banda sonora de Thomas Newtton, colaborador de Sam Mendes em "American Beauty", adapta-se a esta atmosfera do filme, tanto marcada pelo crime e solidão como pela tentativa de um pai e um filho de estabelecerem laços, enquanto o protagonista parece finalmente procurar a sua redenção. A relação entre pai e filho parece ser fortalecida nos momentos em que "Road to Perdition" assume uma faceta quase de road movie, colocando os dois personagens entre o cumprimento de um plano e uma fuga, ao mesmo tempo que Michael procura expiar os seus pecados e salvar o único filho que lhe resta. Michael é um gangster mais por contingência do que por opção, encarando esta actividade como uma profissão e não como uma paixão, ao contrário do criminoso interpretado por Jude Law, com este último a expressar todo o regozijo que tem em eliminar e fotografar as suas vítimas, algo que o faz sentir vivo. Baseado na graphic novel homónima, "Road to Perdition" mescla elementos dos filmes de gangsters com drama familiar, numa obra de época que sobressai não só pelas suas interpretações e pelo enredo envolvente, mas também pela brilhante cinematografia de Conrad Hall e uma representação eficaz dos EUA durante os anos 30.

Título original: "Road to Perdition".
Título em Portugal: "Caminho para Perdição".
Realizador: Sam Mendes.
Argumento: David Self.
Elenco: Tom Hanks, Paul Newman, Jude Law, Jennifer Jason Leigh, Stanley Tucci, Daniel Craig.

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