28 maio 2015

Resenha Crítica: "Revolutionary Road" (2008)

 "Revolutionary Road" comprova mais uma vez que Sam Mendes é um realizador exímio a explorar temáticas que envolvem as relações familiares. Desta vez não temos um pai de família a chegar à crise dos quarenta que desperta de um enorme torpor, nem temos um gangster que procura finalmente estabelecer elos de ligação com o filho, mas sim um casal com dois rebentos que parece ser um modelo para todos aqueles que o observam do exterior embora conte com vários problemas no seu interior. Este casal é formado por Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet), dois elementos na casa dos trinta anos cuja relação está longe de conhecer os tempos de fulgor de quando se encontraram pela primeira vez. Estavam numa festa, eram mais jovens, cheios de sonhos e não tinham filhos. Frank tornou-se num vendedor na Knox Machines, a mesma empresa para qual o pai trabalhou sem nunca ganhar notoriedade. April procura ser actriz, encontrando-se no início do filme a protagonizar uma peça de teatro que não é lá muito bem recebida. Frank transporta-a até casa, mas os seus diálogos revelam-se exasperantes com este a não ter problemas em falar do fracasso da peça, embora tente realçar o esforço da esposa. É um elogio que soa quase a insulto e desprezo para com a peça, com ambos a irromperem numa longa discussão fora do carro que quase termina com Frank a agredir a esposa. Logo retomam a compostura e regressam para a casa de ambos, localizada no número 115 em Revolutionary Road, um local nos subúrbios de Connecticut a fazer recordar as imediações da habitação dos protagonistas de "American Beauty", a primeira longa-metragem de Sam Mendes. Em "Revolutionary Road" este volta a explorar as dificuldades relacionadas com o matrimónio, mas sem humor negro à mistura, bem pelo contrário, tendo como pano de fundo os EUA durante os anos 50. A relação entre Frank e April já conheceu melhores dias. Ainda parecem amar-se e parecem apostar tudo numa mudança para Paris, onde esta trabalharia como secretária numa agência governamental e Frank teria tempo para pensar naquilo que queria fazer na vida, deixando finalmente de lado um emprego que despreza e não o motiva. Os planos de ambos parecem algo mais de "fuga para frente", sem pensarem muito na adaptação dos filhos e até na forma como viverão em Paris, mas é uma ideia que inicialmente não lhes parece descabida a ponto de contarem a Milly Campbell (Kathryn Hahn) e Shep (David Harbour), um casal que vive nas imediações e forma amizade com os Wheeler, bem como a Helen Givings (Kathy Bates), a agente imobiliária responsável por lhes vender a casa. Estes vivem numa habitação espaçosa, uma vivenda com dois andares, marcada por todas as comodidades, localizada num território calmo, com ambos a parecerem viver uma vida perfeita, pelo menos para quem os observa de fora. Vivem de aparências que aos poucos se vão desfazendo, enquanto Leonardo DiCaprio e Kate Winslet interpretam um casal destinado à tragédia naquela que é a reunião da dupla após terem protagonizado "Titanic". Individualmente sobressaem, mas é em conjunto que DiCaprio e Winslet mais se destacam em "Revolutionary Road", com Sam Mendes a explorar a dinâmica e talento da dupla, mas também o sólido argumento de Justin Haythe (baseado no livro homónimo de Richard Yates). A própria cinematografia do mestre Roger Deakins contribui para a intensidade dos momentos protagonizados por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, algo notório desde logo na já citada cena do carro com o veículo a tornar-se num meio claustrofóbico com os planos a encontrarem-se fechados e os sentimentos bem abertos, ou discussões bem violentas que são acompanhadas por uma maior mobilidade na câmara de filmar.

 Frank encontra-se desiludido com o seu trabalho. April encontra-se desiludida com o rumo da sua vida. Parece o cocktail perfeito para problemas a curto/médio prazo. Frank envolve-se temporariamente com Maureen (Zoe Kazan), uma das secretárias da empresa onde trabalha. April tem sexo no carro com Shep apesar de desprezar o mesmo, após uma cena de dança onde as cores das luzes do clube nocturno expõem paradigmaticamente o descontrolo emocional em que esta se encontra. Quando April faz sexo com Shep, já a ideia de ir para Paris refazer a vida parece uma miragem. Frank recebe uma proposta irrecusável para ser promovido no emprego, enquanto April descobre que está grávida. Ela quer que este recuse o emprego e pretende abortar, ele pensa exactamente o contrário. Pelo caminho ainda vamos assistir a duas reuniões destes com Helen e o esposo, com estes últimos a surgirem acompanhados de John (Michael Shannon), o filho de ambos, um elemento que saiu recentemente de uma clínica psiquiátrica, onde esteve internado devido a problemas do foro mental. Apesar de contar com uma enorme pancada, John é dos poucos elementos capazes de confrontar as contradições de April e Frank, com Michael Shannon a protagonizar alguns dos melhores momentos do filme, enquanto Sam Mendes aproveita mais uma vez o espaço da casa dos protagonistas para transformá-lo num palco de enorme tensão. Muitos dos eventos fulcrais da narrativa desenrolam-se na casa dos Wheeler, onde estes finalmente podem explodir e deixar cair as máscaras de felicidade que aparentam no exterior. Leonardo DiCaprio surge mais uma vez sublime como este indivíduo de classe média, que vive entre a hipótese de cumprir um sonho antigo ou assumir as responsabilidades e os benefícios de um emprego que não o motiva. O actor consegue exteriorizar todas as contradições do seu personagem, um pouco à imagem do que acontece com Kate Winslet. Os personagens interpretados pela dupla de protagonistas erram, traem, gritam, dizem palavras que deveriam ter ficado contidas, expõem os seus sentimentos, amam-se ou pelo menos amaram-se, com o desprezo mútuo a começar a levar a melhor. Uma das maiores qualidades de "Revolutionary Road" é a capacidade de Sam Mendes em nos fazer acreditar nos seus personagens, em conseguir compreendê-los e aos seus problemas, ao mesmo tempo que muitas das vezes damos por nós a concordar ou discordar com April e/ou Frank. No fundo estes procuram cumprir os seus sonhos, tendo no casamento um acto que simultaneamente parece ter sido acertado e um erro. A vida seguiu o seu caminho, mas não acompanhou os sonhos de April e Frank. Uma sombra de frustração envolve estes dois elementos, parecendo impossível que voltem a ser felizes, tendo dois filhos que muitas das vezes descuram. Diga-se que um dos pontos fracos de "Revolutionary Road" é a sua incapacidade em explorar o papel de pai e de mãe da dupla de protagonistas, deixando os petizes muitas das vezes à margem, algo que acontece também com vários personagens secundários, tais como os colegas de trabalho de Frank.

 A nível do elenco secundário já abordámos a prestação de Michael Shannon, embora valha ainda a pena salientar Kathryn Hahn e David Harbour como os Campbell, um casal que também conta com os seus problemas mas parece ser bem menos ambicioso do que a dupla de protagonistas. A viagem para Paris, pretendida por April, é representativa dessa procura da personagem interpretada por Kate Winslet em fugir à realidade quotidiana e recomeçar de novo o casamento, procurando uma lufada de ar fresco na relação. Frank inicialmente até parece gostar da ideia, mas rapidamente se vê perante situações irrecusáveis e dúvidas que provavelmente assolariam qualquer um. Quem rejeitaria um emprego estável e bem pago por algo incerto? Esta questão parece estar presente na mente do protagonista. Já April apenas quer sair dali para fora. A gravidez desta e a sua procura em abortar parece surgir como gasolina para travar um incêndio, com a relação a parecer ter morrido por completo quando Frank revela que traiu April e esta revela-se indiferente. O entusiasmo inicial que encontráramos no primeiro encontro do casal dera lugar a um desgaste difícil de superar. É esta relação que vamos acompanhar ao longo de "Revolutionary Road", enquanto Sam Mendes volta a explorar a dicotomia  do ser/parecer na sociedade contemporânea, ao mesmo tempo que nos deixa perante um casal que vive problemas bem reais. O enredo desenrola-se nos anos 50, mas poderia perfeitamente centrar-se nos dias de hoje. O casal é dos EUA, mas poderia perfeitamente ser os nossos vizinhos ali do lado. Os problemas apresentados por ambos são bem reais: desgaste emocional, expectativas frustradas, erros cometidos, diálogos pouco pensados que trazem mágoa, discussões que inflamam de forma inesperada, questões laborais, entre muitas outras. É nesta humanidade e realismo a representar uma relação que "Revolutionary Road" sobressai, enquanto somos absorvidos para o interior da mesma e ficamos diante das sólidas interpretações de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. Temos ainda a procura de Sam Mendes em reproduzir um pouco a atmosfera da época, não faltando a introdução dos computadores como um negócio em expansão, o guarda-roupa (veja-se a multidão a sair de fato e chapéu do comboio), a decoração das habitações, os comportamentos, embora os sentimentos sejam intemporais. No final, "Revolutionary Road" surge como um drama envolvente, emocionalmente desgastante e intenso, com Sam Mendes a contar ainda com a habitual colaboração de Thomas Newton na banda sonora, algo que é quase sempre um incremento ao enredo das obras do cineasta. Do sonho à realidade, a relação da dupla de protagonistas de "Revolutionary Road" degrada-se diante de nós e pouco podemos fazer a não ser acompanhar atentamente a mesma, com estes personagens a tornarem-se bem reais.

Título original: "Revolutionary Road". 
Realizador: Sam Mendes. 
Argumento: Justin Haythe.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, Kathryn Hahn, David Harbour, Kathy Bates, Ty Simpkins.

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