04 maio 2015

Resenha Crítica: "Respire" (2014)

 Da génese de uma amizade aparentemente radiante ao dramático rompimento da mesma, "Respire" surge como a nova incursão de Mélanie Laurent pela realização de longas-metragens de ficção após o drama "Les Adoptés", com a cineasta a elaborar um potente e envolvente drama humano que ao contrário do seu título muitas das vezes apresenta momentos sufocantes e de alguma tensão. O argumento, escrito por Julien Lambroschini e Mélanie Laurent, baseado no livro "Respire" de Anne-Sophie Brasme, é coeso o suficiente para abordar a história de duas adolescentes, a avançarem a passos largos para a idade adulta, cuja amizade é formada com uma facilidade imensa, embora o afastamento se prepare para ser doloroso e violento, com Joséphine Japy e Lou de Laâge a incrementarem a narrativa com interpretações acima da média, capazes de adensarem a ambiguidade que envolve o relacionamento das personagens a quem dão vida. Joséphine Japy interpreta Charlie, uma adolescente que inicialmente encontramos a lidar com problemas em casa, com o pai a trair a mãe, parecendo certo que a separação entre ambos está cada vez mais próxima, apesar da progenitora recear tomar o próximo passo. Charlie é uma jovem morena, de cabelos longos, na maioria das vezes presos, algo discreta mas capaz de ter um núcleo de amigos relativamente coeso, sendo inteligente e aparentemente madura. A vida desta jovem de dezassete anos muda quando Sarah (Lou de Laâge) é apresentada à turma como uma nova aluna, com a professora a colocá-la ao lado de Charlie. Sarah supostamente é filha de uma mulher que trabalha numa ONG, tendo vivido durante quatro anos na Nigéria, regressando a França para terminar os exames do ensino secundário. Lou de Laâge cria uma personagem inicialmente simpática e afável, conversadora e aberta, que rapidamente começa a formar uma forte amizade com Charlie. Diga-se que Charlie começa praticamente a idolatrar esta jovem, enquanto Sarah parece surgir como um eucalipto que vai secando a personalidade da personagem interpretada por Joséphine Japy a um ponto que se torna quase insustentável. As duas formam uma enorme cumplicidade, tornam-se quase inseparáveis, vão a festas juntas, com Charlie a chegar a convidar a amiga a ir consigo, a tia e a mãe para um local rural localizado em Marseillan onde passam alguns dias de descanso. As duas ficam numa caravana, partilhando alguns momentos inicialmente idílicos, por vezes marcado por actos como subirem às árvores, falarem de temas como as relações sexuais, conviverem temporariamente com elementos do local, entre outros. Parecem complementar-se na perfeição, com Sarah a parecer algo deslocada, tendo no tabaco e nas drogas um meio para muitas das vezes se evadir à realidade quotidiana e ter alguns prazeres momentâneos. O fumo emanado pelo consumo de tabaco, sobretudo por parte de Sarah, surge muito presente ao longo do filme, com alguns belos planos a serem criados graças a esta substância que se dilui com a mesma facilidade da amizade entre Charlie e Sarah. Quando Charlie a apresenta como uma amiga da escola, Sarah logo fica irritada e começa a apresentar comportamentos bruscos para com a primeira, naquele que é um dos primeiros sinais que nem tudo está bem entre as duas. 

Aos poucos o afastamento entre ambas aumenta, com Sarah a não ter problemas em revelar confidências efectuadas por Charlie, enquanto esta última começa a ser alvo de bullying apesar de ser das poucas que sabe sobre as mentiras utilizadas pela personagem interpretada por Lou De Laâge para se evidenciar em relação aos outros, algo que ainda aumenta a raiva desta última. Esta situação começa a afectar os estudos de Charlie, com Joséphine Japy a começar a evidenciar um cansaço cada vez maior da personagem que interpreta em relação a todos estes episódios negros, enquanto Lou de Laâge começa a atribuir um tom mais cínico, malicioso e manipulador a Sarah. Tudo se torna difícil para Charlie, sobretudo se tivermos em conta que, para além de amiga, esta parecia admiradora de Sarah e do seu espírito aparentemente livre, com Joséphine Japy a expor o lado mais frágil e emocional desta jovem que parece uma bomba relógio prestes a fazer explodir os sentimentos que reprime. O que parecia uma enorme amizade entre duas jovens torna-se numa inimizade sufocante que aos poucos começa a afectar cada vez mais Charlie, uma situação visível nos seus comportamentos, próprios de alguém que está a ser alvo de bullying e não sabe como sair da situação, com o seu rosto a surgir cada vez mais pálido e o vazio a parecer tomar conta da sua alma e do seu olhar. É sobretudo nestas duas jovens que se concentra o enredo de "Respire", com Mélanie Laurent a explorar temáticas relacionadas com o quotidiano dos adolescentes, a forma como a relação com os pais pode ou não influenciar os comportamentos dos mesmos (a submissão em relação à figura do outro que se encontra presente no relacionamento que a mãe de Charlie mantém com o pai da protagonista pode ser comparada ao sentimento de inferioridade formado pela personagem interpretada por Joséphine Japy em relação a Sarah), a formação da personalidade e forma como os elementos mais próximos podem ou não afectar a mesma, mas também uma amizade ambígua que aos poucos se torna num veneno que se acerca das veias e da alma das protagonistas até resultar em tragédia. Surpreendente na sua conclusão, "Respire" confirma também a competência de Mélanie Laurent como realizadora, com esta a gerir relativamente bem os ritmos do enredo e do desenvolvimento das duas personagens principais, inquietando-nos aos poucos em relação aos danos colaterais desta amizade que se forma e rapidamente conhece o seu ocaso. A cinematografia contribui para esta atmosfera crescentemente claustrofóbica, algo visível quando no último terço Charlie e Sarah reúnem-se no quarto da primeira e a tensão é crescente a um ponto onde tememos o que pode sair deste encontro. Sarah surge com acusações e mostra o seu lado mais manipulador, embora exponha a sua opinião sobre os actos da sua interlocutora, enquanto Charlie parece estar prestes a expurgar os sentimentos que tem reprimido desde os momentos em que a primeira se afastou de si. Existe mérito do argumento, mas também das duas intérpretes, com Joséphine Japy e Lou de Laâge a terem aqui trabalhos dignos de nota, conseguindo expressar com enorme eficácia as transformações e ambiguidades destas duas personagens ao longo do enredo, após terem criado uma intimidade inicial entre ambas que parecia genuína. 

A presença de Sarah simultaneamente abafa e solta Charlie, com o papel de destaque que esta tinha com os amigos a parecer muitas das vezes ir para a primeira, enquanto a personagem interpretada por Joséphine Japy parece começar a nutrir uma certa obsessão pela “amiga” ou algo mais do que uma simples amizade (quando num momento de diversão Sarah beija Charlie na boca, parece certo que esta última sentiu algo mais, com o seu rosto a indicar isso mesmo). Aos poucos, até a mãe de Charlie parece simpatizar com Sarah, mas tudo muda com o avançar do enredo, com Mélanie Laurent a criar uma obra que se inicia de forma leve, começa a tomar tons mais negros com o desenrolar da narrativa até ao seu poderoso e surpreendente final. Laurent procura captar o quotidiano de duas jovens, as suas vidas na escola, os seus problemas com as famílias, as suas idas a festas, bem como os seus gostos e modos de vestir, conseguindo aos poucos criar todo um universo narrativo credível ao mesmo tempo que aproveita para explorar o que de muito bom as suas actrizes principais têm para dar. O guarda-roupa serve desde logo para traçar as diferenças iniciais entre as duas protagonistas: Charlie está na sala com o cabelo preso, camisola cinzenta discreta e calças, enquanto Sarah apresenta uma camisola verde com algumas transparências, calções curtos, cabelos soltos e mais claros. Sarah parece simbolizar uma jovem atrevida, mais experiente apesar da idade ser semelhante à de Charlie, enquanto esta última aos poucos parece começar-se a sentir "mais uma" entre tantas outras. Ambas parecem procurar alguma atenção, com Sarah a criar uma figura ficcional em volta de si própria, não tendo grandes problemas em descartar Charlie, com esta última a evidenciar uma maior fragilidade emocional, uma situação que a leva muitas das vezes a não responder na mesma moeda. Diga-se que Charlie tanto parece inicialmente querer afastar-se de Sarah, como se parece querer aproximar, adensando a ambiguidade nesta estranha relação de amizade. Por vezes nem sempre compreendemos as atitudes de Charlie, nem de Sarah, com a relação entre ambas a ser marcada por trocas de acusação mútuas e sentimentos nem sempre claros que aos poucos minam esta relação. A própria banda sonora adequa-se a esta atmosfera do filme, uma situação visível nas saídas nocturnas a discotecas, com estes espaços de aparente soltura de sentimentos a tornarem-se em certo momento difíceis para a protagonista. Veja-se na festa de ano novo, quando não a avisam que o evento já não é um baile de máscaras, embora Charlie tente fingir que nada é com ela, até um confronto com Sarah demonstrar o quão venenosa se tornou esta amizade. Os momentos íntimos onde partilhavam a mesma cama no quarto de Charlie e falavam sobre temas desde os mais banais aos mais profundos são trocados pelos insultos de Sarah e pelos constantes ataques de falta de ar da personagem interpretada por Joséphine Japy. Falta-lhe ar, falta-lhe liberdade, falta-lhe recuperar a auto-estima e a personalidade que parece ter perdido, com Mélanie Laurent a conduzir-nos ao engano, transformando aquilo que parecia um filme sobre duas adolescentes a caminharem para a idade adulta em algo de mais complexo e assustador que foge a qualquer possível catalogação com telenovelas ou séries sobre adolescentes. 

Quando um dos temas da moda em Hollywood parece ser a falta de papéis femininos de relevo, noutros locais como França assistimos a exemplos como "Respire", um drama humano que nos apresenta a um universo marcado maioritariamente por figuras femininas que procuram sobressair no quotidiano. Para além das jovens, temos ainda Vanessa (Isabelle Carré), a mãe de Charlie, uma mulher que tem uma relação de constantes afastamentos e reatamentos com o esposo, apesar deste a tratar mal, com a luta da personagem interpretada por Isabelle Carré em encontrar coragem para ser independente a ser uma das subtramas da narrativa, ainda que abordada de forma superficial. A própria amizade de Charlie com os outros amigos da escola secundária, incluindo o ex-namorado e a amiga de infância, poderia e deveria ser mais explorada, com "Respire" a concentrar muitas das vezes as atenções na dupla de protagonistas. Diga-se que as temáticas estão longe de serem inovadoras, mas nem por isso deixam de ser abordadas de forma complexa e digna de merecer a nossa atenção, com Mélanie Laurent a conseguir desafiar as nossas expectativas em relação ao enredo e às suas duas protagonistas, com a dinâmica entre as duas a ser fundamental, quer nas cenas mais leves, quer nas cenas emocionalmente mais intensas. No fundo, Sarah e Charlie são duas jovens que padecem das suas forças e fragilidades, respondendo de forma distinta aos problemas, acabando por formar uma amizade que se revela um veneno incurável, com o ambiente que as rodeia em casa a influenciar e muito os seus comportamentos. Charlie reprime e muito os sentimentos e maus-tratos contra si, tal como a mãe, enquanto Sarah procura ser tudo aquilo que a progenitora não é, assumindo comportamentos nem sempre agradáveis apesar de também contar com as suas fragilidades. Mélanie Laurent cria uma intimidade entre estas jovens, conseguindo ao mesmo tempo transmitir os sentimentos das mesmas para o espectador ao longo de um surpreendente drama humano. A volatilidade a nível das amizades, quer na adolescência e arriscamos a dizer que noutras idades, é algo comum que raramente deixa os dois elementos envolvidos satisfeitos. No caso de Sarah e Charlie este desfazer da amizade vem associado a episódios mais negros que aos poucos sufocam a segunda. Entre mentiras, amizades despedaçadas, segredos por revelar e interpretações dignas de atenção, "Respire" exibe-nos Mélanie Laurent como uma realizadora com um talento semelhante ao que apresenta nos seus trabalhos como actriz: elevado.

Título original: "Respire".
Título em Portugal: "Respira". 
Realizador: Mélanie Laurent.
Argumento: Julien Lambroschini e Mélanie Laurent.
Elenco: Joséphine Japy, Lou de Laâge, Isabelle Carré, Claire Keim.

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