23 maio 2015

Resenha Crítica: "Love is Strange" (O Amor é Uma Coisa Estranha)

 Num diálogo com Kate (Marisa Tomei), a esposa do seu sobrinho, Elliot (Darren Burrows), assistimos Ben (John Lithgow) a abordar o facto de Joey (Charley Tahan), o filho dos dois primeiros, ter utilizado a palavra gay para descrever algo que considera estúpido, com o personagem interpretado por John Lithgow a salientar com alguma condescendência e mágoa à mistura como o termo derivou nesse sentido. "Love is Strange" está longe de ser um drama estúpido, tal como encontra-se bastante distante de tratar o espectador como tal, tendo nas interpretações de John Lithgow e Alfred Molina dois alicerces de peso para elevarem uma obra cinematográfica que nos apresenta às dificuldades dos elementos de um casal que já não caminham para novos em conseguirem estar juntos. Este casal é formado por Ben e George (Alfred Molina), dois indivíduos que vivem em união de facto há trinta e nove anos que decidem oficializar a relação ao contraírem matrimónio. Os momentos iniciais deixam-nos perante a agitação de ambos antes do casório, com George a parecer sempre mais confiante e menos pessimista que Ben, com este último a temer não conseguirem arranjar transporte a tempo. No casamento encontram-se presentes diversos amigos e famíliares próximos do casal, entre os quais Kate, Elliott, um casal de polícias formado por Roberto (Manny Perez) e Ted (Cheyenne Jackson), Mindy (Christina Kirk), a irmã do personagem interpretado por Darren Burrows, entre outros elementos. Ben vive sobretudo da pensão que recebe, tendo cerca de setenta anos de idade, contando com galerias de arte e uma paixão pela pintura que nem sempre se parece repercutir no talento ou reconhecimento do mesmo. George é um professor de música que dá aulas particulares, embora o grande "bolo" do seu ordenado venha do seu trabalho a exercer essa função numa escola católica. A narrativa logo avança para o período posterior à Lua de Mel do casal. Sabemos que a Lua de Mel foi idílica e extravagante, que os dois passaram bons momentos, embora apenas sejam mencionados, com "Love is Strange" a optar muitas das vezes por recorrer às elipses como uma forma de agilizar a narrativa e procurar fugir a alguns lugares-comuns embora nem sempre alcance esse desiderato. Tudo piora para o casal quando George é despedido do colégio devido à notícia do matrimónio ter chegado ao bispo, algo que, a juntar ao facto do personagem interpretado por Alfred Molina ter assinado uma Declaração de Fé Cristã, conduz ao despedimento deste indivíduo, numa prova do quão "evoluída" se encontra a Igreja. George ainda salienta ao seu superior que já se conhecem há doze anos e toda a gente sempre esteve ao corrente da relação com Ben, mas é tarde demais para poder efectuar algo. É então que, num ambiente de alguma consternação, mesclado com desilusão e uma pitada de vergonha, Ben e George anunciam que este último vai vender a casa, sendo necessário arranjarem um lar temporário até conseguirem alugar uma habitação que se coadune com a nova realidade financeira de ambos. George continua activamente à procura de emprego, mas a tarefa é difícil, ou não estivesse já na casa dos seus sessenta anos, uma situação que leva o casal a ter de se separar temporariamente. 

Ben vai morar junto de Kate, Elliot e Joey, enquanto George fica temporariamente na casa Roberto e Ted, uma dupla de polícias que logo procura que este se sinta cómodo, chegando até a apresentá-lo a "Game of Thrones", num momento onde o personagem interpretado por Alfred Molina salienta jocosamente que ao contrário de Daenerys apenas precisaria de um escravo, não necessitando de um exército deles, algo revelador do facto dos protagonistas raramente perderem o sentido de humor apesar de viverem algumas situações de levar ao desespero. George e Ben não escondem as saudades e a solidão apesar de viverem acompanhados de gente, com a procura de casa a revelar-se espinhosa, ao mesmo tempo que parece certo que o casamento não está a ser marcado pela solidez e felicidade que estes esperariam. Quando contraíram matrimónio, Ben e George certamente pensavam ter as suas vidas estáveis, algo que não acontece devido ao despedimento do segundo. Ainda é colocada a possibilidade de irem viver para um espaço urbano mais modesto e menos dispendioso a nível de habitações do que Manhattan, em particular Poughkeepsie, onde habita Mindy, mas essa situação significaria viagens de três horas para George poder continuar a dar as suas aulas particulares em Nova Iorque, mais outras tantas para regressar a casa, algo que torna esta hipótese inviável. Aos poucos começam a envolver-se no quotidiano da casa que habitam, sobretudo Ben, com a sua presença a ser inicialmente vista como simpática, mas também como um fardo: Kate é uma escritora que procura trabalhar de forma sossegada no seu novo livro embora Ben não tenha problemas em interrompê-la; Joey sente o seu quotidiano mudar com o facto de ver o tio a dormir na cama de baixo do seu beliche; Elliot raramente está presente, algo que adensa as dificuldades da personagem interpretada por Marisa Tomei em cuidar da casa e continuar com a sua vida profissional. Ben é um indivíduo que facilmente desperta a nossa simpatia, um homem idoso, apreciador de arte, por vezes algo pessimista, bem disposto e falador, que não tem problemas em admitir que outrora traíra o seu parceiro, com John Lithgow a criar um personagem afável e complexo que apresenta uma dinâmica assinalável com a sua cara metade. A dinâmica entre Alfred Molina e John Lithgow é essencial para "Love Is Strange", com a relação entre os personagens que interpretam a ser tudo menos estranha, com os actores a conseguirem transmitir a intimidade entre George e Ben, resultante de uma relação duradoira, provavelmente marcada por alguns altos e baixos, algo notório quando o segundo salienta num bar que nunca escondeu que teve os seus affairs. O argumento de Ira Sachs e Mauricio Zacharias explora essa intimidade com o desenrolar da narrativa. Inicialmente coloca-nos diante da correria para o casamento. Posteriormente deixa-nos diante da desolação de terem de viver em casas separadas, com os pequenos momentos em que vivem juntos a serem essenciais para entendermos mais sobre ambos. Veja-se quando George efectua uma rara visita a Ben na casa do sobrinho deste último, com o personagem interpretado por John Lithgow a logo pedir ao esposo para dormir a seu lado pois já não aguenta dormitar sozinho após tantos anos acompanhado. Ira Sachs expõe estes momentos com uma enorme humanidade, sobriedade e aparente simplicidade que facilmente nos desarmam e deixam a torcer para que estes dois personagens consigam voltar a viver juntos. Não será tarefa fácil e o final é agri-doce. Não diria que chega a comover mas também não gera indiferença, com "Love is Strange" a deixar-nos diante de uma fase menos positiva deste casal. O despedimento de George foi marcado pelo preconceito óbvio de uma instituição que continua a viver no passado, com este momento a expor paradigmaticamente que muito tem de mudar na nossa sociedade, embora "Love is Strange" nunca se entregue ao discurso panfletário, muito pelo contrário, exibindo um conjunto de familiares da dupla de protagonistas que aceitam perfeitamente a relação entre ambos, deixando de lado preconceitos e entendendo a química que une estes dois seres humanos. 

O argumento dá espaço para Alfred Molina e John Lithgow sobressaírem, embora pareça notório que a vida do personagem interpretado pelo segundo é sempre mais explorada, em parte pela dinâmica familiar onde habita ser deveras complicada. Veja-se o caso do jovem Joey, um adolescente que mantém uma amizade muito próxima com Vlad (Erich Tabach), um colega, algo que parece levantar algumas suspeitas se estes nutrem algo mais do que este sentimento, com Charley Tahan a ter diversos momentos para sobressair. Tahan interpreta um adolescente a caminhar para a idade adulta que se encontra a formar a sua personalidade e a descobrir a sua sexualidade, surgindo como um dos personagens secundários de relevo que povoam o enredo. A relação entre Joey e Ben é marcada simultaneamente por alguma amizade e hostilidade, com o primeiro a tanto ser capaz de ter o diálogo mais sincero com o familiar, como é capaz de o deitar abaixo em relação ao facto deste encontrar-se a viver na casa do sobrinho aos setenta anos de idade e não ter conseguido fazer dinheiro suficiente com os quadros que pinta para conseguir a sua independência. O momento em que Ben pinta um quadro no terraço, tendo a cidade como pano de fundo e Vlad como modelo, deixa Joey irritado. Diga-se que a vida familiar deste jovem é complicada. O pai pouco o ouve, enquanto a mãe procura escrever o novo livro, com ambos os progenitores a terem pouco tempo para falar consigo. Esta situação não deixa de ser algo caricata, com Elliot e Kate a viverem na mesma casa e a dormirem na mesma cama apesar da intimidade que apresentam por vezes parecer ainda menor que a dupla de protagonistas já que se encontram quase sempre demasiado ocupados para desfrutar totalmente da presença um do outro. Elliot sempre admirou Ben, mas também não consegue passar muito tempo com este, enquanto George lida com todo um grupo de amigos de Roberto e Ted que apenas parecem adensar a necessidade do personagem interpretado por Alfred Molina em ter momentos de algum sossego e intimidade com o companheiro. É a intimidade e o quotidiano destes personagens e a forma como eles se influenciam uns aos outros que muitas das vezes parece interessar a Ira Sachs, algo notório em situações como a influência que Ben teve em Elliott e também parece ter em Joey, mas também a força da intimidade que o personagem interpretado por John Lithgow parece manter com George a ponto da união manter-se forte mesmo quando estão separados. Como pano de fundo desta história temos a cidade de Nova Iorque (veja-se a ida dos protagonistas ao Julius, aquele que é considerado o "bar gay" mais antigo da cidade), mas também a certeza que arranjar emprego pode ser tarefa assaz complicada, bem como a vida de casado. Elliott e Kate têm a estabilidade financeira mas não têm o tempo para desfrutarem um do outro. Ben e George têm algum tempo mas não têm uma casa para viverem juntos, tendo de ultrapassar uma série de adversidades e problemas que lhes são colocados (inclusive a complexa situação imobiliária da cidade Nova Iorque). Ira Sachs procura fugir aos sentimentalismos, expondo de forma delicada a procura destes indivíduos em reunirem-se, ao mesmo tempo que explora a vida dos mesmos nos novos espaços onde habitam, algo que permite dar a conhecer melhor George e Ben, mas também um conjunto de personagens secundários. No entanto, é notório que existe sempre uma maior argúcia do argumento em explorar a história de Ben com os familiares do que a de George com os dois polícias. 

Somos ainda colocados diante destes dois personagens em plena actividade profissional, com Ben a procurar pintar, enquanto George tem um belo momento a ensinar uma jovem a tocar uma música de Chopin ao piano, com "Love is Strange" a mesclar as cenas de maior dramatismo com outras de alguma candura e outras de algum humor, não faltando pelo caminho algum romance ou não estivéssemos diante de uma narrativa que nos coloca diante de um casal que procura ultrapassar as adversidades para viver em conjunto. Estes sabem o que querem da vida, acabando muitas das vezes por servir de exemplo para aqueles que os rodeiam, com o filme a jogar muitas das vezes com esta ideia de transmissão de conhecimento, algo salientado por Ira Sachs em entrevista ao Film Journey: "It’s a film about education and impact, in the subtle ways we influence each other, moment to moment and generation by generation. I always knew it would be a film that finds its rest on how it influences this one boy. In some ways I think of it as a coming of age film. It’s certainly a film about transformation, a film about union". Veja-se o papel de Ben para Elliot, mas também o do primeiro e de George para Joey, já para não falar da relevância que o personagem interpretado por Alfred Molina tem para os seus alunos ao transmitir os seus conhecimentos musicais. A vida de George sofre uma reviravolta, tal como a de Ben, mas nem o facto de se encontrarem a viver temporariamente separados parece terminar com o amor e a intimidade que geraram um pelo outro ao longo do tempo. Não parece fácil para estes conseguirem-se adaptar a uma nova realidade, embora seja fácil para nós simpatizarmos com os dois protagonistas, com Alfred Molina e John Lithgow a destacarem-se acima de qualquer outro actor do elenco, num drama humano competente, mesclado com elementos de humor, que está longe de nos arrebatar por completo, embora seja sensível o suficiente para nos convencer da realidade que envolve o quotidiano destes personagens e os sentimentos que Ben e George nutrem um pelo outro. 

Título original: "Love is Strange". 
Título em Portugal: "O Amor é Uma Coisa Estranha".
Realizador: Ira Sachs.
Argumento: Ira Sachs e Mauricio Zacharias. 
Elenco: Alfred Molina, John Lithgow, Marisa Tomei, Charlie Tahan, Cheyenne Jackson, Manny Perez.

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