21 maio 2015

Resenha Crítica: "Lola" (1961)

 Descrito pelo seu próprio realizador como um "musical sem música", embora a banda sonora de Michel Legrand seja uma presença de relevo ao longo do enredo, "Lola" tem o seu título inspirado na protagonista de "Der Blaue Engel" de Josef von Sternberg, também ela uma artista de um clube nocturno, tal como terá sido baseado em "Lola Montès", o último trabalho de Max Ophüls (a quem o filme é dedicado), naquela que é a recomendável primeira longa-metragem realizada por Jacques Demy, um nome contemporâneo de vários cineastas da Nouvelle Vague, emergindo na mesma época que Jean-Luc Godard, François Truffaut, entre outros. Diga-se que "Lola" conta com a presença de Raoul Coutard na cinematografia, um habitual colaborador de Jean-Luc Godard, com este a contribuir para elevar uma obra cinematográfica belissimamente filmada a preto e branco, sobressaindo sobretudo nas cenas exteriores, explorando as especificidades deste território de Nantes e das figuras que o rodeiam, com a narrativa a contar com um ritmo por vezes imparável no qual os acontecimentos sucedem-se uns a seguir aos outros, com os personagens a encontrarem-se, separarem-se e reencontrarem-se com enorme facilidade, ao mesmo tempo que os sentimentos são sentidos e expostos com essa cadência. A narrativa parece conduzida ao ritmo de uma grande melodia onde fantasia e ilusão se juntam, bem como relações amorosas, decepções, descobertas, casos intrincados, não faltando pelo caminho um rocambolesco acontecimento relacionado com o tráfico de diamantes, com Jacques Demy a criar um enredo fervilhante onde cada minuto parece ser aproveitado, ou não estivéssemos diante de uma obra cinematográfica que não tem problemas em utilizar as "felizes" ou "infelizes" coincidências para reunir estas figuras, com a personagem do título a ser muitas das vezes o ponto de encontro em comum (diga-se que Jacques Demy voltaria a utilizar estes acasos e este tom a mesclar a realidade e a fantasia em obras posteriores como "Les parapluies de Cherbourg", "Les demoiselles de Rochefort", entre outras). Entre o realismo e elementos que parecem saídos de um conto de fadas, "Lola" consegue mesclar uma atmosfera que parece saída de alguns dos musicais dos EUA como "An American in Paris", "Singin' in the Rain", onde tudo terminava bem, sempre marcados por alguma falta de realismo com temas reais que facilmente ressoam junto do espectador. Nesta obra realizada por Jacques Demy assistimos a um conjunto de dicotomias, a começar por aquelas que encontramos representadas na figura do protagonista, Roland Cassard (Marc Michel, que viria a repetir o papel em "Les Parapluies de Cherbourg"), um indivíduo que passou grande parte da sua vida a formar sonhos que não se concretizaram, com a participação na guerra (não salienta qual o conflito militar) a não ter ajudado ao cumprimento dos mesmos. Diga-se que existe sempre uma atmosfera de malaise inerente ao período do pós-Guerra e as transformações culturais a rodear o enredo, bem como a influência cultural e humana dos EUA no território, algo exemplificado paradigmaticamente na figura dos marinheiros yankees que frequentam o cabaré onde trabalha a personagem do título, a referência a Marilyn Monroe, bem como a "Return to Paradise", um filme protagonizado por Gary Cooper exibido na sala de cinema frequentada por Roland, para além de ser impossível deixar de salientar a procura dos jovens em saberem falar inglês.

Assistimos a um território de Nantes com especificidades muito próprias, representado com todas as suas dicotomias e alguma melancolia, enquanto Roland parece não saber o que fazer da vida. Acaba por ser despedido do seu emprego, após chegar pela quinta vez atrasado no espaço de três dias, aproveitando ainda para provocar e questionar o seu chefe com uma citação de um livro que se encontrou a ler: "Não há dignidade possível, não existe vida real para um homem que trabalha doze horas por dia sem saber por que trabalha". É um momento típico das dúvidas existenciais de Roland ao longo do filme, com este a questionar tudo o que o rodeia, incluindo a si próprio. Escusado será dizer que logo é despedido, algo que não surpreende Claire (Catherine Lutz), a gerente de um pequeno hotel onde este se encontra a habitar temporariamente, com esta a não ter problemas em criticar a preguiça de Roland. Este cenário do hotel também é frequentado por Jeanne (Margo Lion), uma mulher que passa parte do seu tempo a pintar em aguarela, que pensa ter visto Michel (Jacques Harden), o seu filho, um elemento que desapareceu misteriosamente há sete anos atrás, quando a sua namorada, Cécile (Anouk Aimée), anunciara que estava grávida. Cécile foi o primeiro grande amor da vida de Roland, embora este nunca se tenha declarado à mesma, deparando-se por coincidência com uma jovem rapariga com o mesmo nome (Annie Duperoux), enquanto se encontrava numa livraria. Madame Desnoyers (Elina Labourdette), a mãe da jovem de treze anos de idade, pretende um dicionário de Francês para Inglês e vice-versa, com o exemplar a encontrar-se esgotado, algo que conduz Roland a oferecer aquele que tem em casa, com a primeira a aceitar, ainda que inicialmente apresente alguma relutância. Esta começa a apresentar algum interesse em Roland, embora as atenções deste virem-se para Cécile, mais conhecida no cabaret por Lola. Os dois já não se viam há muito tempo, com Roland a procurar colocar a conversa em dia, desconhecendo que Lola tem um caso com Frankie (Alan Scott), um marinheiro dos EUA que costuma, em conjunto com os seus colegas, frequentar o cabaré onde esta trabalha. Ainda a encontramos num número musical, com esta a aperaltar-se e a apresentar uma maquilhagem muito mais saliente quando se encontra no cabaré, com os sonhos de ser uma bailarina famosa a parecerem esfumar-se diante da realidade de ter contas para pagar e cuidar do filho de sete anos. Lola é uma mãe solteira, aguardando esperançosamente o dia em que Michel, o pai do rebento, regresse e justifique as razões para ter desaparecido sem apresentar qualquer explicação. Esta situação revela alguma ingenuidade por parte de Lola, com esta a mesclar a sensualidade de uma femme fatale e um estilo naïve que poderia sair das ingénuas dos filmes mudos. Como salienta Terrence Rafferty no seu artigo para o The New York Times: "She has become, in her 20's, a transcendent movie cliché: a dance-hall girl with a heart of gold". O comentário não anda assim tão distante do que é a personagem, com Jacques Demy a fazer-nos muitas das vezes abraçar com gosto estes clichés, enquanto Lola não esquece Michel. Diga-se que logo no início do filme encontramos Michel a vaguear pelo território, embora apenas no último terço revele a sua identidade, com Lola a manter o amor por este, apesar dele a ter abandonado, algo que remete mais uma vez para o filme por vezes desalinhar para o melodrama apesar de Jacques Demy conseguir manter os vagões deste comboio nos trilhos sem que os mesmos se espalhem para fora da rota.

Como se pode reparar nesta longa abordagem ao enredo de “Lola”, não faltam várias ligações entre os vários personagens do filme, com diversos elementos a conhecerem-se uns aos outros, ao ponto de Cécile Desnoyers também formar amizade com Frankie, com a jovem a fazê-lo recordar-se da sua irmã mais nova, algo que exemplifica estes constantes encontros e desencontros ao longo desta obra cinematográfica, ao mesmo tempo que Jacques Demy dá espaço para os diversos actores e actrizes que compõem o elenco poderem sobressair. Jacques Demy desenvolve este intrincado núcleo de relacionamentos com uma habilidade notável, tal como consegue mesclar temas tão realistas como as dúvidas existenciais do protagonista e o seu constante tédio com elementos que parecem saídos dos melodramas ou dos musicais mais melosos, algo notório no desfecho onde o tom do filme ganha contornos completamente açucarados (algo que Demy viria a repetir em filmes como "La baie des anges" e "Les demoiselles de Rochefort"). Anouk Aimée tem uma interpretação marcante como esta bailarina de um cabaré que procura cuidar do seu filho, manter o seu emprego, ao mesmo tempo que conta com uma fugaz relação com Frankie, um marinheiro relativamente simpático e afável que parece saído de musicais como "Anchors Aweigh" ou "On the Town". Esta sabe que a relação vai terminar mais tarde ou mais cedo, com Frankie a estar temporariamente no território, tendo uma noiva nos EUA, com a sua divisão a preparar-se para partir dentro em breve, embora também seja algo que não lhe deixa grande marca já que o seu único grande amor foi Michel. Lola atrai a maioria das figuras masculinas, muitas das vezes quase sem querer, apesar de admitir que gosta de chamar à atenção, embora os seus actos estejam longe de causar os estragos de Lola Lola em "Der blaue engel". Veja-se a sua relação com Roland, com esta a pretender apenas ser amiga do mesmo, enquanto o personagem interpretado por Marc Michel parece demasiado preso às memórias do passado. São figuras distintas, com Lola a apresentar um optimismo que nem sempre é visível em Roland, com a primeira a ter a esperança em reencontrar Michel, enquanto o segundo não parece saber bem o que querer encontrando-se preso numa aura de melancolia. Distintos destes é Frankie, que sabe já ter o seu futuro relativamente traçado, procurando apenas divertir-se ao máximo no território, embora esteja apaixonado por Lola. Alan Scott interpreta um indivíduo relativamente simpático, que procura falar a língua local, ao mesmo tempo que tenta tratar bem o filho da protagonista, chegando ainda a protagonizar algumas cenas meio infantis com a jovem Cécile com esta a parecer ter um fraquinho pelo marinheiro, ou este não representasse o ideal do homem mais velho. Já Marc Michel destaca-se como este indivíduo melancólico com poucas certezas em relação ao futuro, que decide relutantemente aceitar o estranho emprego de transportar uma mala para o estrangeiro, ao mesmo tempo que procura evidenciar o seu amor por Cécile e recuperar o tempo perdido com a protagonista, embora esta não nutra os mesmos sentimentos. Por sua vez, desperta a atenção da Madame Desnoyers, com a viúva a facilmente sentir-se atraída por este indivíduo sem grandes perspectivas de futuro que chega a colocar em causa o próprio novo emprego, uma missão que posteriormente descobre envolver o tráfico de diamantes.

Roland tanto é capaz do gesto mais impulsivo como de expor o seu amor por Lola devido aos sentimentos que nutria no passado reacenderam-se no presente, como é capaz de divagar e elaborar diálogos existencialistas sobre o "primeiro amor", o emprego, o acto de ter filhos entre outros temas. Este parece surgir como representante de uma época, com Marc Michel a conseguir exibir o tédio, as dúvidas e a falta de objectivos que assolam a alma de Roland, com este a conviver com uma realidade diferente daquela que projectara para a sua vida. O destino de todos estes personagens nem sempre é aquele que estes esperavam, talvez com excepção da mulher do título, com Lola a ser uma das figuras centrais desta primeira longa-metragem realizada por Jacques Demy. A própria câmara de filmar aproveita a expressividade desta mulher, com o momento em que canta a "Canção de Lola", onde o seu corpo se movimenta de forma lânguida e sensual, enquanto os close-ups exacerbam as suas expressões, a surgir como uma das cenas mais marcantes do filme, com a actriz a sobressair e evidenciar o porquê da personagem que interpreta ser o principal destaque do cabaré. Para além da primeira longa-metragem de Jacques Demy, "Lola" é também o primeiro capítulo da "trilogia romântica" formada ainda por "Les Parapluies de Cherbourg" e "Model Shop". Ao longo desta trilogia vamos encontrar personagens em comum, com Roland a integrar "Les Parapluies de Cherbourg", enquanto Lola surge em "Model Shop", com a primeira obra cinematográfica a já integrar temáticas como a ausência paterna, as desilusão amorosas, a mescla entre um tom realista e um próximo de um conto de fadas presentes na primeira obra citada. A ideia original de Jacques Demy seria realizar uma comédia musical a cores, mas a falta de fundos conduziu a que elaborasse a obra como um musical sem uma miríade de momentos musicais, a preto e branco, entre outras alterações que teve de efectuar devido à falta de confiança apresentada pelos investidores e produtores no seu trabalho. O resultado final é uma obra muito recomendável, que nos apresenta a um grupo de personagens por vezes meio à parte da sociedade, algo típico de alguns filmes da Nouvelle Vague (será Roland assim tão diferente de Paul, o protagonista de "Masculin Féminin?), com Jacques Demy a aproveitar os cenários exteriores e integrá-los ao serviço do enredo (muito a fazer recordar "À Bout de Souffle"), algo que atribui algum realismo a uma obra marcada por muita fantasia. Diga-se que não vão faltar ainda as referências literárias e cinéfilas, típicas dos filmes de Jean-Luc Godard, com Jacques Demy a ter realizado uma obra considerada por críticos respeitados como Jonathan Rosenbaum: "(...) is among the most neglected major works of the French New Wave". Não deixa de ser notório que é uma obra que merece atenção e alguma reverência, tendo inclusive sido descurada neste espaço que finalmente lhe dedica uma espécie de crítica meio manhosa. Entre sonhos desfeitos e esperanças que não morrem, o tédio e o romantismo, o encanto e o desencanto, "Lola" surge com uma narrativa que mescla elementos bem reais com outros próximos de um conto de fadas naquela que foi um bela estreia de Jacques Demy na realização de longas-metragens.

Título original: "Lola".
Realizador: Jacques Demy.
Argumento: Jacques Demy.
Elenco: Anouk Aimée, Marc Michel, Alan Scott, Jacques Harden.

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