05 maio 2015

Resenha Crítica: "Loin des Hommes" (Far From Men)

 "Loin des Hommes" embrenha-se pelas areias e montanhas argelinas para nos envolver num complexo drama humano onde são levantadas questões de ordem moral, num espaço hostil onde manter a calma, a racionalidade e a honra pode ser tarefa complicada. Baseado livremente no conto "L'hôte" de Albert Camus, "Loin des Hommes" transporta-nos para a Argélia, em pleno ano de 1954, coincidindo com o eclodir da Guerra da Argélia, com o território a encontrar-se num turbilhão onde a violência é nota dominante e as atitudes de alguns seres humanos nem sempre compreensíveis. Daru (Viggo Mortensen), o protagonista, é um professor nascido na Argélia, de ascendência espanhola, que aos poucos nem é considerado francês pelos franceses, nem argelino pelos argelinos, com a sua vida e segurança no território a serem cada vez mais colocadas em causa. Ele sente-se em casa e não se vê a habitar outro local, procurando ensinar os seus alunos a lerem, numa escola primária localizada numa região montanhosa, quase desértica, com as condições de ensino a serem poucas e a segurança a ser ainda menor. Para além de dar aulas, Daru também distribui sementes pelos locais, surgindo como um indivíduo que parece imbuído de fortes valores morais e uma personalidade vincada. Viggo Mortensen contribui para estas características do personagem, agarrando a narrativa com uma interpretação que nos expõe na plenitude as dúvidas morais pelas quais o protagonista vai passar, enquanto assiste a uma série de episódios que colocam os seus ideais em causa, enfrentando uma situação complexa onde tem de lidar quer com os argelinos que lutam pela independência, quer com os militares franceses, com este a apenas parecer querer viver a sua vida em paz apesar dessa parecer uma tarefa impossível. A vida de Daru sofre uma reviravolta quando é incumbido por Balducci (Vincent Martin), um gendarme, de transportar Mohamed (Reda Kateb), um argelino acusado de ter eliminado o seu primo, até Tinguit, tendo em vista a ser julgado pelas autoridades francesas, ou seja, ser executado. Daru recusa inicialmente a missão, embora aos poucos perceba que não pode fugir da mesma. Mohamed passa a noite na escola onde habita Daru, com ambos a pouco falarem devido a se pensar que o primeiro não fala francês. Esta situação não impede Daru de cuidar do seu interlocutor quando este parece padecer de febre, tendo algumas dificuldades em perceber a facilidade com que Mohamed aceita o destino que lhe foi ordenado, apesar de aos poucos entender a necessidade de cumprir a missão. Veja-se quando a escola é alvo de um ataque por parte dos restantes primos do personagem interpretado por Reda Kateb, enquanto Mohamed procura ser transportado até ao local indicado para que estes elementos não se vinguem dos irmãos mais novos. Mohamed sabe falar um pouco de francês, começando aos poucos por gerar uma ligação de respeito para com o protagonista, algo que é mútuo. Estes dois homens nem sempre dialogam muito, mas parecem contar com valores morais que não se perdem pelos vastos territórios expostos pela câmara de filmar, com a cinematografia a explorar assertivamente os vastos e arenosos cenários por onde deambulam os personagens, quer sobre um Sol abrasador, quer sobre uma forte tempestade. A cinematografia é exímia a evidenciar as dificuldades proporcionadas por este território, enquanto o argumento e a dupla de actores revelam enorme competência a desenvolver as dúvidas e a relação de respeito que Mohamed e Daru desenvolvem ao longo desta árdua jornada onde a vida de ambos é constantemente colocada em perigo.

Durante a caminhada pelas montanhas da Cordilheira do Atlas, Daru e Mohamed começam a compreender-se melhor um ao outro, ao mesmo tempo que as dúvidas parecem acercar-se das suas almas e dos seus corpos, algo que também é colocado em evidência junto do espectador. Descobrimos que Daru foi um antigo militar, com a posição de major, respeitado pelos argelinos que serviram consigo durante a II Guerra Mundial, numa missão em Itália, mas também que é filho de espanhóis e nascido na Argélia, algo que o leva a procurar não tomar partido de nenhum dos lados do conflito que ainda está nos seus pontos iniciais. Diga-se que o filme é subtil e pouco dado a polémicas a abordar esta temática, com David Oelhoffen a deixar-nos informados em relação a episódios que contribuíram para o conflito através de alguns diálogos aparentemente banais entre os personagens, tais como a menção ao Massacre de Sétif, que conduziu Madjer, um elemento que serviu sob o comando de Daru, a juntar-se aos rebeldes. Mohamed é um argelino que procura defender a sua família ao caminhar para a morte, tal como eliminara o primo por este ter roubado sementes que seriam necessárias para a sobrevivência dos irmãos, embora procure manter a sua personalidade e individualidade num meio que por vezes o parece privar das mesmas. Reda Kateb atribui a este personagem um mistério inicial que aos poucos se dilui com o desenrolar da narrativa, com "Loin des Hommes" a colocar-nos diante desta complexa relação de respeito entre dois homens que não são assim tão distintos. Pelo caminho encontram alguns contratempos, com "Loin des Hommes" por vezes a assumir uma estrutura algo episódica para dinamizar a jornada destas duas figuras ao longo deste território montanhoso. Primeiro são praticamente obrigados a sair da trilha e caminharem pelas montanhas para fugirem dos primos de Mohamed, indo posteriormente encontrar um grupo de guerrilheiros argelinos, onde se encontra Slimane (Djemel Barek), uma figura complexa que deixa marca no protagonista. Slimane combatera sob o comando de Daru no exército, procurando agora que o protagonista escolha um dos lados da contenda, expondo o respeito pelo personagem interpretado por Viggo Mortensen apesar de não ter problemas em ameaçar eliminá-lo se assim for necessário. Outro dos episódios a envolver estes elementos centra-se na chegada de um grupo do exército francês, com Daru a deparar-se com as atrocidades cometidas por ambos os lados da contenda. A morte marca o quotidiano desta jornada protagonizada por Daru e Mohamed, mas também a ambiguidade moral, parecendo certo que este conflito bélico se prepara para trazer mudanças para as suas vidas e para o território. Ao cineasta David Oelhoffen parece sobretudo interessar explorar a jornada destes homens, sobretudo como ambos modificam o comportamento inicialmente hostil até se começarem a compreender e a perceberem o que está em jogo, com a dinâmica entre Viggo Mortensen e Reda Kateb a ser essencial para "Loin des Hommes" funcionar e elevar-se como um drama humano envolvente e capaz de explorar como o contexto histórico pode influenciar a vida dos seres humanos. Num contexto de paz provavelmente nem se conheceriam, nem Daru teria de lidar com a rejeição à sua pessoa. Não é um colonialista, ou pelo menos não se sente como tal, enquanto Mohamed tem de lidar com as regras tradicionais associadas a uma nova realidade. Se for morto pelos primos, os irmãos terão de o vingar, se fugir estes últimos serão eliminados pelos primeiros, se for julgado sumariamente pelos franceses acabará com a contenda familiar. Diga-se que Mohamed nem é propriamente um guerrilheiro revoltoso contra os franceses, parecendo apenas um tipo comum que se preocupa com a família, com Daru a procurar muitas das vezes a convence-lo a fugir a este destino que lhe traçaram e o próprio parece destemidamente tentar cumprir. "Loin des Hommes" surge assim como um filme capaz de abordar e colocar questões complexas, com David Oelhoffen a criar uma história que acima de tudo procura explorar a jornada de dois homens aparentemente comuns que lidam com situações que muitas das vezes são alheias aos mesmos e acabam por influenciar as suas vidas.

 Os dois protagonistas deparam-se diante de dilemas morais nem sempre fáceis de julgar, para além de terem de enfrentar situações complicadas de decidir ao longo destes dois dias que lhes são dados para concluírem a viagem. A cinematografia de Guillaume Deffontaines é essencial para expor este território, com as panorâmicas a atribuírem uma noção paradigmática da dimensão destes espaços montanhosos por onde circula a dupla de protagonistas. Como reagiríamos a uma situação como aquela em que são colocados Mohamed e Daru? Um apenas queria dar aulas sossegado. O outro cometeu um crime mas está longe de parecer um indivíduo de má índole. Condições fora do comum conduzem a que sejam reunidos numa jornada que não promete ser aprazível para ambas as partes. Aos poucos formam uma relação de respeito, quer pelos actos que tomam, quer pelo que falam, com Reda Kateb e Viggo Mortensen a concederem uma sinceridade e humanidade a estes dois personagens que procuram manter a dignidade e facilmente conduzem a que criemos alguma empatia para com os mesmos. David Oelhoffen coloca-nos assim perante dois indivíduos comuns, pouco engajados politicamente, que acabam envolvidos em situações que reflectem também a atmosfera fervilhante na Argélia durante a guerra pela independência, com o cineasta a não ser maniqueísta na representação do conflito, exibindo quer o lado argelino, quer o lado francês, com a morte a sair muitas das vezes vencedora no interior deste conflito bélico. É um conflito que ainda hoje parece difícil de abordar por parte dos franceses, com David Oelhoffen a elaborar uma história que também tem muito dos westerns, algo salientado pelo próprio: "Admittedly, an unconventional Western, being steeped in European history and set against the backdrop of the North African highlands, but a Western all the same. True to the genre, there are colonizers and the colonized, a prisoner to be escorted, and a plot that spirals into violence". Nesse sentido, Oelhoffen é competente a criar toda esta atmosfera próxima de um western, desde a exploração do território montanhoso, passando pelos valores defendidos pelos protagonistas, ao mesmo tempo que nos deixa diante de um personagem principal que é muito mais complexo do que um simples colonizador que pretende transmitir os ideais do seu país, ou não fosse o próprio alguém que fica na fronteira entre estes dois sistemas distintos. As próprias leis de ambos os lados da contenda são distintas, algo latente na fuga de Mohamed, com este a não ter o dinheiro suficiente para saldar a dívida pelo crime cometido, uma situação que o conduz a procurar a morte junto dos franceses e assim poupar uma matança que envolveria boa parte da sua família. David Oelhoffen está longe de expor um lado como certo e o outro como errado, com o próprio protagonista a estar longe de surgir como uma representação unidimensional do colonialista que pretende transmitir os valores franceses aos restantes elementos.

Existe todo o contexto da presença colonial no território, quer na figura dos militares, quer na figura dos polícias franceses, mas Daru é ele próprio alguém que não se enquadra neste contexto mais lato. Diga-se que estamos diante de algo de muito mais complexo, com estes dois personagens principais a serem agradáveis surpresas pela forma sincera como David Oelhoffen consegue que ultrapassem muitas das "etiquetas" que lhes queiramos colocar para catalogar. Tal como Daru foge ao estereótipo do colonialista que quer impor os seus valores, começando a respeitar o elemento que tem de transportar, também Mohamed encontra-se longe de ser um indivíduo fácil de avaliar. Inicialmente é apresentado como um criminoso pouco corajoso, mas aos poucos percebemos os seus actos, as suas dúvidas e a sua capacidade de ganhar o respeito dos outros, com "Loin des Hommes"  a surgir envolto numa aura de enorme humanismo, explorando a complexidade do ser humano e de dois indivíduos que representam dois lados distintos de uma contenda que se viria a revelar sangrenta. Diga-se que durante o filme já encontramos a violência inerente à Guerra da Argélia, algo exposto em episódios como o dos soldados franceses a assassinarem dois "rebeldes" argelinos que se tinham rendido, com Daru a salientar que este acto é um crime de guerra. Este episódio não foi colocado no texto por acaso, nem foi exposto no filme sem sentido, surgindo como uma representação das atrocidades cometidas dentro deste conflito bélico, com a justificação do "cumprir ordens" a não servir para justificar actos que vão contra os direitos humanos. No entanto, também os argelinos estão dispostos a matar e morrer por uma causa que defendem, com Slimane a salientar isso mesmo ao ameaçar Daru. Ou seja, qualquer opinião sobre um filme é subjectiva mas parece-me praticamente impossível falar em unidimensionalidade na representação de ambos os lados da contenda em "Loin des Hommes", com David Oelhoffen a expor isso mesmo quer nos casos particulares da dupla de protagonistas, quer no caso mais lato dos guerrilheiros argelinos e dos militares franceses. David Oelhoffen é ainda competente a contrastar os momentos onde estes elementos parecem pequenos grãos de areia comparados com a imensidão das montanhas, exibindo as dificuldades em atravessar as mesmas em momentos de maior ventania onde a poeira se faz sentir, ou durante a chuva ou calor abrasador, mesclando estas cenas com os momentos de maior intimismo entre os dois protagonistas. Veja-se quando ficam abrigados num vilarejo, num espaço onde acendem uma fogueira, ou quando se encontram junto dos elementos argelinos, aproveitando para efectuarem confidências e revelarem mais um sobre o outro, com a cinematografia, a banda sonora e o trabalho dos actores a contribuírem para a eficácia destes momentos em atribuírem maior dimensão a Mohamed e Daru. Juntos para uma jornada pelos áridos e perigosos territórios montanhosos argelinos, Daru e Mohamed lidam com dilemas morais, conhecem-se e dão-se a conhecer ao longo de um drama humano competente onde os sentimentos parecem na maioria das vezes ser expostos de forma sincera, enquanto Reda Kateb e Viggo Mortensen brindam-nos com duas interpretações que agarram o enredo pelos colarinhos e evidenciam o talento de ambos para a representação.

Título original: "Loin des Hommes".
Título em inglês: "Far From Men".
Realizador: David Oelhoffen.
Argumento: David Oelhoffen.
Elenco: Viggo Mortensen, Reda Kateb, Djemel Barek, Vincent Martin.

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