15 maio 2015

Resenha Crítica: "Les parapluies de Cherbourg" (Os Chapéus de Chuva de Cherburgo)

 Provavelmente um dos musicais, sem números musicais, mais elogiados e marcantes da História do Cinema, "Les parapluies de Cherbourg" surge também como o segundo volume da chamada "trilogia romântica" de Jacques Demy, após "Lola", a primeira longa-metragem do realizador. Ao contrário de "Lola" que fora filmado a preto e branco, "Les parapluies de Cherbourg" é marcado por uma utilização efusiva da paleta cromática, com os cenários, o guarda-roupa e a iluminação a surgirem muitas das vezes prontos a evidenciarem os estados de espírito dos personagens, bem como as mudanças sazonais, com Jacques Demy a criar uma obra recheada de sentimentos bem vivos. Não falta romance, desilusões, afectos demonstrados e dúvidas reprimidas que se podem soltar e corroer uma relação, numa obra que mescla mais uma vez a capacidade do cineasta em explorar temáticas e sentimentos bem reais com uma atmosfera por vezes que parece saída de um conto de fadas. A temática dos filhos que cresceram sem o progenitor, presente em "Lola", mantém-se, bem como as desilusões amorosas e a menção à guerra, embora neste caso seja especificado que o conflito bélico é o da Argélia, com "Les parapluies de Cherbourg" a ser dos primeiros filmes franceses a abordar esta realidade. Pelo meio muita ilusão e fantasia, a começar pelos diálogos, totalmente cantados ao longo de um enredo que se desenrola entre Novembro de 1957 e o Natal de 1963, com "Les parapluies de Cherbourg" a deixar-nos inicialmente com o florescer do namoro entre Geneviève (Catherine Deneuve) e Guy (Nino Castelnuovo), dois jovens algo naïves em relação à vida que pensam estar a construir os alicerces para um envolvimento afectivo que irá durar para sempre. Guy trabalha numa oficina a reparar automóveis, tendo sido criado por Élise (Mireille Perrey), a sua tia e madrinha, uma mulher já envelhecida, que se encontra ainda aos cuidados de Madeleine (Ellen Farner), uma jovem calma, doce e discreta que terá uma relevância crescente ao longo do enredo. Geneviève vive e trabalha com a Madame Émery (Anne Vernon), a sua mãe. Émery é uma viúva que procurou cuidar da filha e possui a loja "Les parapluies de Cherbourg", um estabelecimento dominado pela tonalidade cor de rosa, onde são vendidos chapéus de chuva das mais variadas cores. Nos momentos iniciais do filme encontramos Élise e Guy a procurarem encontrar-se e saírem juntos, com os dois a desfrutarem de alguns momentos de convívio, quer numa ida a um espectáculo musical, quer numa saída a um bar onde aproveitam para dançar. A mãe de Geneviève não fica agradada com a situação, temendo que a filha tome uma decisão precipitada, já que o casal de namorados apresenta a intenção de casar e constituir família. Madame Émery tem ainda de enfrentar os problemas financeiros que assolam o seu lar, com esta a ver-se obrigada a ter de vender um precioso colar para pagar as suas despesas. Na ourivesaria, estas deparam-se com Roland Cassard (Marc Michel), um dos personagens principais de "Lola", agora um negociador de jóias, que se oferece para ajudá-las ao mesmo tempo que exibe o seu interesse pela bela Geneviève. Esta é uma jovem de longos cabelos loiros, uma face quase angelical, algo ingénua, surgindo como um dos primeiros papéis de grande destaque por parte de Catherine Deneuve, com a actriz a convencer-nos da multitude de sentimentos vividos por Geneviève ao longo de "Les parapluies de Cherbourg", com a protagonista a ir da euforia à desilusão e melancolia, passando por um duro realismo na forma de encarar o destino.

Geneviève passa da euforia de uma relação que parece promissora à depressão por ver Guy partir para cumprir o serviço militar na Guerra da Argélia, com este a ser obrigado a ficar fora durante dois anos. A despedida é marcada por um esbatimento das cores, parecendo notório que a alegria deu lugar à desesperança, enquanto a jovem descobre esta grávida do amado. Entretanto, Roland Cassard aperta o cerco a Geneviève, com a segunda parte a ser marcada pela procura deste em convencer a jovem a casar consigo, uma ideia que aos poucos parece agradar à mãe da mesma. Geneviève não coloca inicialmente esta hipótese, nem a parece levar muito a sério, mas a passagem do tempo, associada às cartas enviadas de forma esporádica por Guy e à solidão, conduzem a que esta aos poucos pareça ceder, com o filme a não nos poupar a uma decisão surpreendente por parte da jovem quando aceita casar com Roland. A mãe de Geneviève procura incitar a filha a casar com Roland, procurando que a mesma tenha alguma estabilidade financeira e emocional, bem como algum apoio para quando o rebento nascer, numa situação que tem tanto de desumana como de pragmática, parecendo certo que esta apenas procura zelar pelos melhores interesses da personagem interpretada por Catherine Deneuve. Guy fica desfeito com a notícia, bem como com a da morte de Élise, acabando aos poucos por formar uma relação de crescente intimidade com Madeleine. É nestes personagens que se concentra o enredo de "Les parapluies de Cherbourg", com Jacques Demy a utilizar esta atmosfera que muitas das vezes parece saída de um conto de fadas para abordar temáticas mais sérias como as relações que se desfazem diante do conflito na Argélia, os traumas causados no corpo e na alma pela participação no conflito, as dificuldades económicas de alguns elementos, com o cineasta a criar um musical envolvente, capaz de explorar os intrincados relacionamentos que envolvem os personagens e alguns temas melindrosos para a época. O caso da Guerra da Argélia é o mais flagrante, com "Les parapluies de Cherbourg" não só a demonstrar como a ida para a mesma era vista como uma obrigação por muitos jovens, como também nos exibe os efeitos secundários da mesma, quer no corpo do protagonista (que passa a coxear de uma perna devido a uma lesão no palco de guerra), quer na alma, afastando obrigatoriamente estes elementos dos seus entes queridos. Nino Castelnuovo consegue transmitir de forma exímia os traumas do personagem que interpreta, mas também a desilusão com todo o contexto que encontra, após a euforia inicial onde protagonizara algumas cenas magníficas ao lado de Geneviève. A química entre Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo é notória, com ambos a protagonizarem alguns momentos coloridos, quer a nível sentimental, quer a nível dos próprios espaços pelos quais circulavam, para além do próprio guarda-roupa desta, por vezes marcado por tonalidades cor de rosa e amarelas. A despedida entre Guy e Geneviève acontece numa atmosfera mais fria e sombria, como se o comboio que marca a partida surgisse como o transporte para um conflito e para o final de uma relação. Grávida de Guy, Geneviève luta outro combate em casa, com a mãe a procurar convencê-la a aceitar os avanços de Roland, enquanto este salienta que outrora também já sofreu por amor.

Roland, a par de temáticas como a ausência da figura paternal masculina, o mesclar entre temáticas bem reais e uma atmosfera que por vezes parece saída de um conto de fadas, é a ligação entre "Lola" e "Les parapluies de Cherbourg", com aquele personagem a surgir mais decidido em relação à vida e ao amor, após ter sido rejeitado por Cécile no primeiro filme. Diga-se que estamos longe do jovem que se entediava por tudo e por nada, sem grandes projectos para a vida, com Marc Michel a incutir um tom mais ponderado e decidido ao personagem que interpreta. O relacionamento entre Roland e Geneviève nunca encontra o calor sentido por esta e Guy na primeira parte do filme, tal como o personagem interpretado por Nino Castelnuovo iniciará uma relação com Madeleine que lhe dará segurança e estabilidade, embora pareça que aquele romance da juventude já não se possa repetir. Em "Lola", Roland divagava sobre o primeiro amor e como nenhum outro é igual, salientando que pode igualmente ser bom, mas será sempre diferente da primeira experiência amorosa. No caso de "Les parapluies de Cherbourg", Jacques Demy volta a abordar a temática, embora de forma prática, ao mesmo tempo que nos deixa diante de um musical que muito parece ter tirado inspiração nos filmes do género de Hollywood, incluindo em "Singin' in the Rain", com a cena inicial dos vários guarda-chuvas quase em sincronia no início do filme a indicar isso mesmo. Ao contrário de "Singin' in the Rain", "Les parapluies de Cherbourg" é totalmente cantado (algo que lhe dá características próximas de uma ópera), com as vozes dos actores e actrizes a terem sido substituídas tendo em vista a suprir algumas lacunas dos mesmos, nem conta com números musicais propriamente ditos, com a banda sonora composta por Michel Legrand, um colaborador habitual de Jacques Demy, a ter mais uma vez um papel fulcral na narrativa adequando-se e exacerbando os ritmos da mesma. Diga-se que os próprios cenários interiores foram decorados de acordo com os elementos mencionados no argumento sobre o enredo, tal como o guarda-roupa foi seleccionado para exacerbar cada momento, naquela que é uma obra cinematográfica que sobressai imenso neste quesito. Veja-se desde logo a loja de guarda-chuvas onde trabalha Geneviève e a sua mãe, marcada por paredes cor de rosa e chapéus das mais diversas cores, com as tonalidades vivas deste espaço a contrastarem com o esbatimento de cores e luz nos momentos do casamento entre Roland e a personagem interpretada por Catherine Deneuve. A própria casa de Geneviève é marcada por tonalidades cor de rosa, com esta inicialmente a parecer saída de um conto de fadas, angelical e naïve, apaixonada pelo príncipe encantado, até ceder ao pragmatismo da vida real. O próprio guarda-roupa de Geneviève entre a primeira e a última parte do filme exibe paradigmaticamente as suas mudanças comportamentais, com esta a deixar de lado a faceta de jovem rebelde e apaixonada para apresentar uma postura mais séria e responsável, já mãe de família. Também Guy irá conhecer diversas alterações com o desenrolar da narrativa, com o trauma após a participação da guerra, do abandono de Geneviève e da morte da sua familiar mais próxima a ditarem um período menos positivo, tendo em Madeleine um apoio relevante.

Ellen Farner começa algo apagada no início do filme mas a relevância crescente ao longo do enredo conduz a que a actriz tenha mais espaço para sobressair a interpretar esta personagem algo tímida e doce que aos poucos consegue conquistar Guy e o espectador. A própria mudança desta personagem é traduzida no seu guarda-roupa, mais leve a partir do momento em que Guy parece genuinamente estar interessado em si, com Ellen Farner a ter um desempenho em crescendo que, mesmo não tendo o magnetismo de Catherine Deneuve, consegue elevar-se ao longo do filme. Vale ainda a pena realçar Anne Vernon como a protectora mãe de Geneviève, com a actriz a conseguir expressar eficazmente o lado pragmático da personagem que interpreta, uma viúva que procura cuidar da filha e evitar que esta tenha de sofrer situações semelhantes à sua. Diga-se que Jacques Demy volta a recuperar a temática da mãe viúva que nos tinha apresentado através da figura de Madame Desnoyers em "Lola", com o próprio Guy a não ter sido criado pelos pais, tendo ficado órfão quando era jovem. A cantoria é um estado natural destes personagens, enquanto estes expõem os seus sentimentos neste território exibido com especificidades muito próprias, com os cenários interiores a serem decorados a rigor, enquanto os exteriores são utilizados com perícia, quer na cena do carnaval, quer quando no início do filme o jovem casal se encontra a caminhar à chuva ou pelo solo molhado e uma luz parece iluminar os seus corpos de forma discreta, enquanto a lua e o espectador são testemunhas da paixão entre Guy e Geneviève. É um amor juvenil que talvez tivesse possibilidades para se desenvolver numa relação para toda a vida, mas as decisões de Geneviève, associadas à partida obrigatória de Guy, conduziram a uma inevitável separação. Jacques Demy transporta-nos para esta história marcada por relações amorosas efusivas e separações dolorosas, cores eufóricas e esbatidas, músicas marcadas por um tom alegre ou de uma desilusão deprimente, conseguindo abordar temáticas mais sérias no meio de um tom por vezes marcado por muita ilusão. O final é marcado por esse mesclar de irrealismo e fantasia, com Jacques Demy a ser fiel ao destino que traçou para com os seus personagens, numa obra cinematográfica que é um deleite para os sentidos, sendo capaz de despertar uma miríade de emoções. A forma desencantada como é apresentado o final do romance entre Guy e Geneviève é de um realismo doloroso, com o primeiro amor a marcar os mesmos embora não tenha a solidez para se manter, com os personagens a irem da euforia à tristeza, até encontrarem a estabilidade com outros cônjuges, apesar de provavelmente nunca regressarem a sentir aquele fervor inicial que parecia capaz de mover montanhas mas, infelizmente, foi incapaz de alterar o destino. Visualmente belíssimo, marcado por uma forte presença musical ou os diálogos não fossem todos cantados ou entoados como se fossem uma canção, "Les parapluies de Cherbourg" justifica o estatuto de figurar em vários tops de musicais mais marcantes, com Jacques Demy a mesclar estilo e conteúdo num filme que facilmente nos envolve, marcado por interpretações dignas de nota e momentos que ficam na memória.

Título original: "Les parapluies de Cherbourg".
Título em Portugal: "Os Chapéus de Chuva de Cherburgo".
Realizador: Jacques Demy. 
Argumento: Jacques Demy.
Elenco: Catherine Deneuve, Nino Castelnuovo, Anne Vernon, Ellen Farner, Mireille Perrey, Marc Michel.

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