17 maio 2015

Resenha Crítica: "Les demoiselles de Rochefort" (As Donzelas de Rochefort)

 Regresso de Jacques Demy aos musicais após o sucesso de "Les parapluies de Cherbourg", "Les demoiselles de Rochefort" transporta para a realidade francesa a atmosfera dos musicais produzidos na época em Hollywood, não faltando até a presença de Gene Kelly como um pianista e compositor oriundo dos EUA que se vai apaixonar por uma das protagonistas. É um musical cheio de ritmo, algum romance, humor, melodrama, números musicais relativamente bem elaborados, um tom algo naïve, ao mesmo tempo que Jacques Demy aproveita para abordar temáticas presentes em outros dos seus filmes e até efectuar referência aos mesmos. Veja-se a referência a Cherbourg (o local onde se desenrolara "Les parapluies de Cherbourg") por parte de Étienne (George Chakiris) e Bill (Grover Dale), dois vendedores ambulantes, ou a menção ao casamento da Madame Desnoyers, uma viúva presente em "Lola", a primeira longa-metragem de Jacques Demy, já para não falar na abordagem de temas como as mães que cuidam sozinhas das suas filhas ou dos seus filhos, as menções a outras obras cinematográficas (o assassinato de Lola-Lola em mais uma alusão ao filme "Der blaue Engel" de Josef von Sternberg, algo que Demy também efectuara em "Lola"), entre outros. Se em "Les parapluies de Cherbourg" todos os diálogos eram cantados ou entoados como se fossem uma canção, já em "Les demoiselles de Rochefort" assistimos a uma estrutura mais tradicional, onde os diálogos por vezes são interrompidos por números musicais, com Jacques Demy a nem sempre conseguir conjugar os momentos para estes surgirem de forma orgânica na narrativa de um filme que sobressai imenso pela dinâmica entre a sua dupla de protagonistas e pela forma eficaz como é construída uma intrincada teia narrativa marcada por muitos acasos e uma miríade de personagens. Quase todos os personagens acabam por ter uma ligação uns com os outros, sobressaindo desde logo as irmãs gémeas Delphine (Catherine Deneuve) e Solange (Françoise Dorléac), a dupla de protagonistas. Ambas ambicionam mais do que passarem toda a sua vida em Rochefort: Delphine é uma dançarina, de cabelos loiros, que desperta a atenção de tudo e todos, incluindo daqueles que não a viram, em particular Maxence (Jacques Perrin), um marinheiro que é poeta e pintor amador que desenhou o retrato da sua mulher ideal com este (pouco) surpreendentemente a corresponder exactamente à personagem interpretada por Catherine Deneuve. Protagonista de "Les parapluies de Cherbourg", Catherine Deneuve tem em "Les demoiselles de Rochefort" uma personagem mais leve, com um destino menos trágico, que procura encontrar a sua cara metade, tendo recentemente terminado o namoro com Guillaume Lancien (Jacques Riberolles), o dono de uma galeria de arte, ganhando a vida a dar aulas de ballet apesar de ambicionar trabalhar na ópera.

 Delphine apresenta um guarda-roupa leve, por vezes marcado por tons cor de rosa, a mesma cor das ombreiras da janela da casa que partilha com a irmã, um espaço simples, marcado pela presença do piano e violino, dois objectos musicais tocados por Solange, com o trabalho de Bernard Evian, responsável pela decoração dos cenários interiores, a fazer-se sentir pela positiva. Irmã de Catherine Deneuve na vida real, Françoise Dorléac tem em "Les demoiselles de Rochefort" um dos últimos filmes da sua curta carreira (é praticamente impossível não recordar o seu magnífico trabalho em "Cul-de-sac" de Roman Polanski), exibindo mais uma vez o seu carisma, talento e a capacidade de atribuir uma forte personalidade às personagens que interpreta, tendo falecido aos vinte e cinco anos de idade, vítima de um acidente de viação. Françoise Dorléac interpreta Solange, uma compositora que procura uma oportunidade para mostrar o seu talento, algo que parece complicado, tendo nas aulas de música uma forma de receber o ordenado ao final do mês. Ambas são filhas de Yvonne (Danielle Darrieux), a dona de um conhecido café desta cidade costeira, frequentado por marinheiros, artistas, reformados, entre tantas outras figuras. Yvonne é ainda mãe de Boubou (Olivier Bonnet), um jovem que é meio-irmão da dupla de protagonistas. O grande amor da vida de Yvonne é Simon Dame (Michel Piccoli), um homem que esta abandonara devido a ter vergonha do apelido ridículo do mesmo, apesar dele ser o pai de Boubou. Esta fingira que casara com um indivíduo com quem fora viver para o México, algo que nunca aconteceu, apesar de ter saído temporariamente da cidade de Rochefort até regressar a este local que simboliza simultaneamente um período de felicidade e de arrependimento. Também Simon abandonara o local e regressara recentemente, abrindo uma loja de objectos musicais, algo que o leva a formar uma relação de proximidade com Solange, procurando ajudá-la ao contactar o seu amigo, Andy Miller (Gene Kelly), apesar de não saber da ligação desta a Yvonne. O personagem interpretado por Gene Kelly regressou aos EUA após ter estudado no Conservatório ao lado de Simon, encontrando-se prestes a dar um conjunto de espectáculos em Paris, embora viaje surpreendentemente até Rochefort para visitar o amigo. Pelo caminho, Andy depara-se com Solange, sem saber que esta é a jovem recomendada por Simon, apaixonando-se à primeira vista pela mesma, algo que resulta num número musical onde Gene Kelly demonstra o seu enorme talento e à vontade a dançar, naquela que é uma das muitas coincidências que permeiam o enredo do filme. Veja-se que temos Simon a desejar um dia reencontrar Yvonne e vice-versa; Delphine a querer descobrir quem é o marinheiro-pintor que desenhou um ideal de mulher semelhante a si; os jovens Éttiene e Bill a demonstrarem interesse pelas protagonistas, não faltando ainda um caso rocambolesco e sangrento a envolver o pessimista Subtil Dutrouz (Henri Crémieux), um amigo do pai de Yvonne. O enredo de "Les demoiselles de Rochefort" a espaços quase que nos faz recordar "Lola", no qual estranhos acasos reuniam e separavam a imensidão de personagens que percorriam a narrativa, com diversos elementos a cruzarem-se e terem ligações entre si. Ambos os filmes, tal como é costume nas obras de Jacques Demy, tais como "La baie des anges" e "Les parapluies de Cherbourg", aproveitam paradigmaticamente os cenários exteriores e as suas características, com o território de Rochefort a ser praticamente um personagem no interior do enredo, ao mesmo tempo que assistimos a mais uma feliz colaboração do cineasta com o compositor Michel Legrand, com a banda sonora a ter um papel relevante a ritmar alguns episódios da história. 

Temos ainda os célebres números musicais, típicos de um filme do género, sobressaindo temas sonoros como "Chanson des Jumelles", onde Catherine Deneuve e Françoise Dorléac destacam-se com a magnífica dinâmica entre as duas, ou o número protagonizado por esta última e Gene Kelly, com as vozes a serem dobradas embora estes elementos convençam quer pelas suas expressões, quer pelos seus movimentos para a dança. Deneuve e Dorléac são a luz que abrilhanta este musical, com estas duas irmãs na vida real a apresentarem uma dinâmica assinalável a interpretarem estas duas jovens que pretendem ser felizes a nível profissional e na vida amorosa, despertando pelo caminho a atenção de várias figuras masculinas. Solange e Delphine ajudam ainda a mãe a cuidar de Boubou, embora muitas das vezes sejam outras figuras a irem buscar o jovem à escola, com Jacques Demy a apresentar uma dinâmica quase familiar entre os vários elementos que frequentam regularmente o café e este espaço de Rochefort, apesar de alguns perigos serem mencionados. Quase todos querem ser felizes ou recuperarem a felicidade, com o amor a pairar muitas das vezes no ar, seja nas memórias de um passado não tão distante, seja num encontro onde basta um simples olhar para nascer uma paixão fulgurante, com o elenco a conseguir encarnar com êxito esta atmosfera fantasiosa próxima dos musicais produzidos em Hollywood. A própria presença de Gene Kelly ajuda a essa ligação, com este a demonstrar um talento inolvidável para a dança e um enorme carisma, não faltando ainda a presença dos marinheiros, dos números musicais que servem por vezes para apresentar personagens ou avançar com o enredo, num universo narrativo delirante, de tonalidades claras e muito romance. O romance parece sempre pairar no ar na narrativa de "Les demoiselles de Rochefort", com Jacques Demy a colocar quase todos os seus personagens em busca do amor. Veja-se o caso de Yvonne, embora seja preciso desligarmos muitas das vezes o nosso lado mais pragmático para acreditar que esta esta nunca se teria reencontrado com o Srº Dame e vice-versa durante todo este tempo, enquanto temos ainda personagens secundários que conseguem sobressair, tais como Étienne e Bill, dois elementos que circulam o país a venderem motos, barcos e bicicletas, tendo um espectáculo de rua para atraírem clientes, acabando por convencerem as protagonistas a participarem no mesmo na feira local, com estas a cantarem, dançarem e encantarem (em mais um momento musical marcante do filme). Estas sonham ir para Paris, tendo objectivos mais ambiciosos do que se manterem no local ao lado da mãe, enquanto Yvonne sonha reencontrar o amor da sua vida. O desfecho não nos surpreende se tivermos visto obras como "Lola" e "La baie des anges", realizadas por Jacques Demy, embora em "Les demoiselles de Rochefort" o tom próximo a um conto de encantar não seja assim tão descolado em relação à restante narrativa, com o filme a nunca atingir uma elevada carga dramática. Não deixamos de ter a abordagem de temáticas como a relação entre uma mãe e as suas filhas, as aspirações profissionais dos jovens, a ansiedade de um marinheiro em ser dispensado do serviço, para além de muitos romances ao longo de uma obra onde o seu argumento pode nem sempre sustentar as duas horas de duração mas nem por isso o enredo deixa de captar a nossa atenção.

 O café de Yvonne é um dos espaços interiores primordiais do enredo, com este local a surgir como um ponto relevante de reunião entre os personagens, incluindo no último terço, numa obra cinematográfica que não tem problema em jogar com os encontros e desencontros em diversos momentos da narrativa. Nos filmes de Jacques Demy os acasos têm uma relevância notável, que o digam os protagonistas de "Lola", mas também os de "Les demoiselles de Rochefort", com o destino a contribuir quer para se afastarem, quer para se reunirem de forma surpreendente. O único que não parece ter um destino lá muito agradável é Guillaume, o dono da galeria de arte, um indivíduo algo frio e rancoroso, que procura a todo o custo não revelar o paradeiro de Maxence, um jovem marinheiro algo ingénuo em relação à vida, a Delphine por temer perder esta mulher. Guillaume é dos poucos personagens rancorosos e cínicos a permear a narrativa, algo que talvez explique o seu destino amoroso menos aprazível, com "Les demoiselles de Rochefort" a premiar aqueles que têm amor para dar. Diga-se que existe uma aura de inocência a rodear o enredo de "Les demoiselles de Rochefort", com Jacques Demy a criar muitas das vezes uma realidade muito "cor de rosa" onde aborda as temáticas com algum acerto, sempre num tom muito próprio. Veja-se o caso de Michel Piccoli como o amargurado Dame, um indivíduo que procura recuperar as recordações do passado neste local, um pouco como Yvonne, enquanto Solange e Delphine parecem guardar nas suas pessoas o entusiasmo de alguém que tem uma vida inteira pela frente para tentar cumprir os objectivos delineados. Elas próprias são algo ingénuas, embora conscientes da beleza que têm, com Solange a parecer sempre um pouco mais arisca embora facilmente ceda perante o personagem interpretado por Gene Kelly. Jacques Demy parece interessar-se por estes personagens, sejam os principais ou os mais secundários (algo que explica a relevância de Josette, a empregada de mesa, no desfecho), uma situação que é transportada para o espectador e sentida por este. Todas estas situações desenrolam-se nesta cidade costeira, com Jacques Demy a afastar-se mais uma vez de locais como Paris, tendo aqui um exemplo de uma obra cinematográfica que, apesar de um ou outro elemento distinto dos musicais dos EUA, distingue-se e muito de trabalhos de cineastas contemporâneos da Nouvelle Vague, com "Les mademoiselles de Rochefort" a apresentar sempre uma faceta mais leve, menos preocupado em abordar abertamente questões políticas ou sociais. Marcado por alguns números musicais que ficam na memória, uma miríade de personagens que despertam a nossa atenção, em particular Solange e Delphine, "Les demoiselles de Rochefort" surge como uma obra cheia de vida, cor e sentimento, compensando o seu tom por vezes excessivamente fantasioso com a capacidade de Jacques Demy em nos fazer acreditar no mesmo.

Título original: "Les demoiselles de Rochefort".
Título em Portugal: "As Donzelas de Rochefort".
Realizador: Jacques Demy. 
Argumento: Jacques Demy.
Elenco: Catherine Deneuve, Françoise Dorléac, Danielle Darrieux, Gene Kelly, Jacques Perrin, George Chakiris, Michel Piccoli, Grover Dale.

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