13 maio 2015

Resenha Crítica: "La baie des anges" (A Grande Pecadora)

 O vício provocado pelo jogo no âmago da alma humana é exposto num misto de realismo e poesia em "La baie des anges", a segunda longa-metragem realizada por Jacques Demy, com este a deixar-nos diante de um estranho casal que procura a sorte no casino embora encontre neste local as mesmas reviravoltas que na vida, onde o azar pode chegar a qualquer momento e arrasar com qualquer boa fortuna do destino. Estamos numa área muito própria de Jacques Demy, onde a fantasia por vezes acerca-se da realidade, pelo menos no seu final, embora o realismo esteja maioritariamente presente, e os cenários naturais são aproveitados de forma exímia, enquanto a banda sonora de Michel Legrand, um dos colaboradores habituais do cineasta, bombeia a narrativa, seguindo o ritmo da mesma ou dando o mote para os acontecimentos, enquanto ficamos diante de Jean Fournier (Claude Mann) e Jackie (Jeanne Moreau), duas figuras complexas e solitárias, marcadas pela incerteza em relação ao futuro e pela capacidade de se darem à jogatana. Jean é um bancário que vive com o pai, um indivíduo viúvo que procura aconselhar o filho da melhor maneira, incluindo a afastar-se do jogo, dando o exemplo prático de Ripert, um indivíduo que viu parte do seu quotidiano ser destruído pelo vício de jogar. No entanto, parece tarde para conselhos. É certo que Jean inicialmente parece algo avesso à ideia de jogar, comparando-a com uma droga que se pode tornar viciante assim que experimentada pela primeira vez. Este é convencido por Caron (Paul Guers), um colega de trabalho, a experimentar entrar pela primeira vez na nova sala de jogos em Enghien, onde o personagem interpretado por Paul Guers conseguira uma maquia considerável, a ponto de comprar um carro. Jean parece relutante mas lá vai jogar, tem sorte e ganha uma quantia suficiente àquela que alcançaria a trabalhar ao longo de seis meses. Nem por isso fica particularmente entusiasmado mas também não perde o "bichinho" do jogo, resolvendo ir de férias para Nice, aproveitando o casino local para jogar e as praias para se bronzear e ver as belezas locais. O pai logo condena a atitude de Jean mas este não lhe parece dar ouvidos, seguindo em frente na sua aventura temporária em Nice. É neste local que Jean conhece a bela Jackie, uma jogadora inveterada, fumadora, sensual, divorciada, que raramente vê o seu filho devido a ter perdido a custódia do mesmo, considerando-o praticamente como uma aposta que perdeu. Mais do que jogar para ganhar dinheiro esta joga pela incerteza do resultado, com as dúvidas provocadas em relação ao resultado final da aposta a parecerem exibir as próprias fragilidades emocionais desta mulher que salienta: "Se eu amasse dinheiro, não o desperdiçaria. O que me atrai no jogo é essa distância idiota entre luxo e pobreza. E também o mistério, o mistério dos números. O acaso. Muitas vezes me perguntei, por exemplo, se Deus governa os números". Esta é uma mulher desconcertante que aparenta uma confiança e desapego iniciais que logo contrastam com os traços da sua personalidade que nos vão sendo expostos ao longo do enredo de "La baie des anges", com Jean e Jackie a formarem uma dupla marcada por um destino tão incerto como as fichas que apostam nos números da roleta.

Jeanne Moreau interpreta uma espécie de diva em decadência, uma mulher que outrora tivera uma família e amigos mas o seu vício pelo jogo conduziu a que praticamente tudo e todos se afastassem, com a actriz a conseguir explorar as fragilidades desta personagem solitária, bem mais complexa do que inicialmente deixa a entender. Coloca à superfície uma capa de despreocupação que esconde a sua tremenda solidão, com as suas roupas e maquilhagem aprumadas a esconderem uma alma vazia em relação ao que fazer à vida, tendo na roleta uma forma brincar com o destino e ludibriar a entidade divina que esta julga controlar o jogo. Jackie forma uma estranha relação com Jean, com o jogo a uni-los embora esta não pareça desenvolver inicialmente os mesmos sentimentos que o jovem parece nutrir em relação a si, apesar dela também não ser totalmente indiferente ao mesmo. Jean é mais ingénuo, parecendo jogar apenas para ganhar o suficiente para se divertir nas férias até regressar a casa e tudo voltar ao normal, embora seja notório que Jackie descontrola os seus sentimentos. Aos poucos, a sorte em Nice, aliada à presença de Jackie, conduz a que este conheça a montanha russa de emoções vividas pelos jogadores, com a roleta do destino a brincar mais consigo do que aquela maquineta movida pelo croupier que se encontra no casino. A câmara de filmar por vezes adensa os momentos de incerteza de Jackie e Jean no jogo: ora filma o dado a bailar na roleta em direcção incerta a um número que poderá ou não ter sido o seleccionado pela dupla, ora filma os rostos num misto de receio e adrenalina de verem os seus destinos a serem jogados em meros segundos. Inicialmente ficam eufóricos com o que ganham, ficam desconsolados quando perdem tudo, recuperam a euforia quando regressam à boa sorte, voltam a perder quando se dirigem a Monte Carlo, enquanto estabelecem um estranho laço que varia entre a intimidade, o interesse e o amor. São ambos inseguros, procurando no jogo algo que não conseguem no quotidiano. Jean até parece conseguir aproveitar as praias de Nice, mas Jackie parece estar bem é nos casinos onde a adrenalina parece percorrer as suas veias de incerteza. É uma mulher viciada no jogo, que não parece ter coragem para abandonar Nice, regressar a Paris e rever o seu filho, tendo em Jean um estranho apoio. Este parece algo fascinado por esta mulher e por todo um estilo de vida marcado pelo luxo que apenas pensaria ser possível nos filmes. Diga-se que os sonhos criados pelos filmes são algo de comum a alguns dos personagens que povoam a narrativa dos filmes de Jacques Demy. Veja-se o caso de Roland Cassard (Marc Michel) em "Lola", fascinado pelo mundo que encontrou na obra cinematográfica "Return to Paradise", ou a menção da mãe de Geneviève (Catherine Deneuve) em "Les parapluies de Cherbourg" de que apenas nos filmes é que se morre por amor. No caso de Jean assistimos a este ficar fascinado pelos luxos proporcionados pelo dinheiro que ganha no casino embora logo o estoire por completo na companhia de Jackie, apesar de deixar sempre algo de reserva escondido desta para o caso de algum problema. Ele acredita que se deve parar enquanto a sorte acompanha. Ela acredita que se deve continuar quando se está numa maré de vencer. Tudo se perde e tudo se ganha num ápice, algo que estes personagens podem comprovar ao longo do filme, enquanto Jacques Demy procura efectuar um estudo sobre estes dois personagens e a forma como o jogo influencia as suas vidas. Se não fosse o jogo talvez nunca se conhecessem, nem formassem uma relação complicada cujo desfecho parece saído de um conto de fadas embora o seu desenvolvimento seja marcado por diversos solavancos e um realismo doloroso.

Tal como no jogo, também na vida tudo pode mudar num ápice ou pelo menos é isso que Jacques Demy parece querer dizer com o final desta obra cinematográfica, embora ao longo da mesma explore a multitude de sentimentos que o jogo pode gerar no ser humano. Os sentimentos de Jackie em relação e Jean nem sempre são claros, parecendo certo que o personagem interpretado por Claude Mann desde cedo sente algum fascínio perante esta mulher que parece simbolizar alguém fora do comum que este provavelmente não encontraria se não decidisse tomar a opção de viajar até Nice. Provavelmente está mais próxima das mulheres fatais dos filmes noir, mas também das ingénuas, com esta a certa altura a fazer-nos recordar a protagonista de "Lola", uma mulher tão sedutora e capaz de despertar à atenção mas igualmente tão naïve e frágil. Ambas têm um filho, embora Jackie raramente veja o seu, parecendo negligenciar tudo à sua volta, incluindo a sua própria pessoa. Esta associa a chegada de Jean à sua sorte no jogo, mas também parece notório que este lhe serve de companhia e em alguns momentos de barómetro moral, embora o próprio também se descontrole em algumas situações e pareça ceder às emoções e ao jogo. Claude Mann interpreta um jovem que decide tomar um acto inesperado para a sua vida, com o actor a explorar quer o lado mais calculista deste jovem na hora de colocar um travão no jogo, quer o lado mais sentimental quando está com Jackie. A dinâmica entre estes dois personagens é fulcral ao longo de "La baie des anges", com boa parte dos episódios da narrativa a centrar-se nas suas figuras. Jacques Demy, tal como em "Lola" e "Les parapluies de Cherbourg", volta a explorar com enorme acerto os cenários exteriores, bem como os interiores, com ambos a influenciarem e muito os protagonistas. Veja-se a chegada de Jean a Nice, onde este se instala numa espécie de pensão, conhecendo as praias do local, tal como o casino e um restaurante caro. É também em Nice onde conhece Jackie, com esta a perder muito ao longo do filme, embora a maior perda desta talvez seja o nosso ganho, quando esta deixa cair a máscara e exibe as suas fragilidades como ser humano. O jogo consome-a. Não para enriquecer, mas sim para dar uma dose de adrenalina e imprevisibilidade a uma vida que a própria parece ter desperdiçado com os seus erros. Esta é uma representante de um dos elementos que descura a educação dos rebentos, com a complicada relação entre pais e filhos ou ausência da mesma a ser uma temática presente em diversos filmes de Jacques Demy. O próprio Jean desobedece ao pai ao ir de férias para Nice e jogar, com o progenitor a pretender que o mesmo saia de casa embora este desejo pareça mais conversa acalorada do momento do que outra coisa. É sobre Jean e Jackie, bem como sobre o vício do jogo, que se centra o enredo de "La baie des anges", com Jacques Demy a realizar um drama humano sagaz a abordar as temáticas, longe de ser simplista, ao mesmo tempo que faz sobressair Jeanne Moreau e Claude Mann. 

Provavelmente, para não afirmar arrogantemente e de forma peremptória, é Moreau quem mais sobressai, com aquele momento onde revela as razões pelas quais joga a ser potente e inesquecível, com a parede branca que a rodeia a parecer indicar a transparência pura de sentimentos que são transpostos por um mulher frágil com uma enorme propensão para errar. É complexa. Gosta de luxo mas também não se importa de perder tudo para jogar, quer ganhar mas o que lhe interessa é voltar ao casino, voltar a colocar a roleta a andar, pretendendo controlar o destino embora seja este que o controla. Inicialmente parece estar com Jean porque este lhe dá sorte e ambos ganharam uma fortuna, ou pelo menos é o que ela diz, pois parece certo que sem a presença deste indivíduo Jackie cairia ainda mais em desgraça. Se em "Les parapluies de Cherbourg", Jacques Demy utilizaria a paleta cromática e um requinte notório a nível de cenários interiores, já em "La baie des anges" o que encontramos é uma obra visualmente mais austera, talvez mais próxima dos trabalhos de Robert Bresson, uma das suas referências, não faltando a espiritualidade, com a alusão ao divino a surgir através de Jackie, numa obra surpreendente de um cineasta contemporâneo de vários nomes da Nouvelle Vague, tais como Jean-Luc Godard, François Truffaut e até da sua esposa Agnès Varda. É certo que este parece ter sido algo encarado de soslaio por alguns cineastas da Nouvelle Vague (até Godard a certa altura passou dos elogios à crítica, mas também as mudanças deste cineasta ao longo da carreira estão longe de poderem ser consideradas consensuais a não ser pelos seus fãs mais acérrimos), até por mesclar temas bem reais com alguma fantasia, assumindo um estilo mais próximo de Hollywood, menos directamente político, embora não deixe de apresentar elementos também típicos de alguns dos filmes dos realizadores mencionados, tais como os personagens algo à margem da sociedade, as cenas filmadas em cenários exteriores embora, como podemos ver no final, para Jacques Demy a vida também pode ser doce e fantasiosa. Em "Les parapluies de Cherbourg" mesclaria com um sucesso notório uma atmosfera de conto de fadas com temáticas bem reais, naquela que é provavelmente a sua grande obra-prima. No caso de "La baie des anges", Jacques Demy ancora boa parte do enredo na realidade, sem descurar a ilusão e mostrar-nos que as suas obras contêm um estilo que transcende catalogações iniciais e quase que nos "obrigam" a sonhar, a sentir e a viver ao lado dos personagens que este cria. Ou pelo menos é isso que acontece ao longo deste filme, onde Jeanne Moreau aparece intensa, carismática e talentosa, dominando o ecrã, fazendo que este se torne pequeno diante da sua figura, surgindo bem acompanhada por Claude Mann, com estes a interpretarem dois jogadores nem sempre capazes de controlarem os sentimentos. Filmado a preto e branco, com uma enorme beleza, "La baie des anges" apresenta-nos a dois elementos reunidos pelo jogo, enquanto Jacques Demy aborda questões ligadas com o vício proporcionado por este e nos deixa diante das estranhas vicissitudes do amor e das complexas relações entre seres humanos.

Título original: "La baie des anges".
Título em Portugal: "A Grande Pecadora". 
Realizador: Jacques Demy.
Argumento: Jacques Demy.
Elenco: Claude Mann, Jeanne Moreau, Paul Guers, Henri Nassiet.

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