20 maio 2015

Resenha Crítica: "Kurt Cobain: Montage of Heck"

 Considerado símbolo de uma geração, líder de uma das bandas mais marcantes da década de 90, controverso e carismático, Kurt Cobain marcou milhares de fãs dos Nirvana, tendo em "Kurt Cobain: Montage of Heck" um documentário que procura abordar diversos períodos considerados relevantes da vida deste vocalista, guitarrista e compositor. Realizado por Brett Morgen, um cineasta com alguma experiência na realização de documentários, "Kurt Cobain: Montage of Heck" surge como a primeira obra cinematográfica do género a ter o total apoio da família de Kurt Cobain, uma situação que se repercute no magnífico material de arquivo de que o realizador conseguiu usufruir, com este a aproveitar o mesmo para criar um documentário que consegue honrar o enorme legado do cantor, sem que para isso tenha de fugir às questões polémicas. Não faltam vídeos caseiros, trechos de concertos, material de reportagens, entrevistas concedidas pelo grupo, montagens de som, excertos dos diários e apontamentos de Kurt Cobain, para além de depoimentos de elementos relevantes na vida deste, tais como os pais e irmã do líder dos Nirvana, bem como Courtney Love, a viúva do cantor, com Brett Morgen a saber utilizar o material que tem à disposição para nos colocar diante de uma figura complexa, rebelde e magnética. Apesar de se notar uma enorme admiração pela figura que retrata, Brett Morgen não foge à abordagem a elementos mais controversos da vida de Kurt Cobain, tais como o consumo de drogas, a relação complicada deste com os pais, a adolescência atribulada marcada por diversos problemas e actos marginais, a má reacção por parte do público em relação ao namoro e casamento do cantor com Courtney Love, entre outros temas. "Kurt Cobain: Montage of Heck" apresenta uma estrutura relativamente linear que segue uma lógica cronológica, sem grandes surpresas pelo meio, dinamizada sobretudo pela forma sagaz como Brett Morgen utiliza o material que tem à disposição. Inicialmente a narrativa parece demorar a arrancar, com o documentário a colocar-nos diante de depoimentos da mãe, do pai e da madrasta de Kurt Cobain, com a primeira a explicar o que falhou na relação com o segundo, enquanto percebemos que o divórcio causou uma enorme comoção naquele que viria a ser um dos músicos mais icónicos da sua geração. Diga-se que existe uma atitude algo revanchista por parte da mãe do cantor, com esta a salientar quase sempre os defeitos do ex-marido, embora também fique latente que Kurt não apresentava uma grande ligação com o progenitor (muito menos com a madrasta). A separação dos pais contribuiu para um sentimento de vergonha por parte de Kurt Cobain, numa época em que o divórcio ainda não estava tão banalizado, mas também para o alavancar da rebeldia, algo exposto através de trechos em animação, acompanhados com uma narração na primeira pessoa, que procuram transmitir as inquietações de Kurt Cobain. As cenas em animação permitem expor algumas das dúvidas de Cobain durante a juventude, com este a vir a ter na marijuana uma substância para relaxar e na música uma forma de se expressar embora, com o decorrer do documentário, pareça notório que este não se encontrava totalmente preparado para o sucesso junto do grande público. É certo que ambicionava algo mais do que tocar em bares, algo salientado por alguns intervenientes, mas também não parecia ter noção de que poderia vir a conquistar milhões de pessoas que se reviam nas canções dos Nirvana.

Uma das figuras que presta depoimentos relevantes é Tracy Marander, uma ex-namorada do protagonista, uma mulher que o ajudou no início de carreira, até se separarem após terem seguido caminhos distintos para as suas vidas. Esta parece apresentar ainda alguma admiração por Cobain, embora o discurso esteja sempre influenciado pela presença da câmara de filmar. É então que ficamos diante do sucesso meteórico da banda liderada por Kurt Cobain, composta ainda por Krist Novoselic (este é outro dos elementos que presta depoimentos) e Dave Grohl. O sucesso é inesperado e remete para a ambição de Kurt Cobain e para a sua busca incessante em dar o seu melhor, com o público a aderir em massa aos Nirvana, embora o vocalista pareça sempre desprezar vários dos elementos inerentes à fama, algo notório quando fica praticamente calado em entrevistas efectuadas ao grupo ou a demonstrar a sua pouca vontade para eventos do género (num momento chega mesmo a dizer que não tem o mínimo interesse em dar a entrevista). O relacionamento de Kurt Cobain com a imprensa é apresentado como complicado (uma descrição simpática), com as críticas positivas aos álbuns e músicas a contrastarem com a ferocidade com que eram apresentadas histórias sobre os problemas deste em relação ao abuso de drogas, com o envolvimento com Courtney Love a aumentar ainda mais a irrisão com alguns jornalistas e meios de comunicação social. Courtney Love é provavelmente uma das intervenientes que presta alguns dos testemunhos mais relevantes e paradigmáticos do quão estranha e intensa era a relação desta com Kurt, com os vídeos caseiros a corroborarem muito do que é exposto por esta. Diga-se que os vídeos caseiros contribuem não só para incrementar "Kurt Cobain: Montage of Heck" e atribuir um tom genuíno aos episódios retratados, mas também para despertar uma curiosidade quase voyeurista por parte do espectador ao mesmo tempo que o coloca diante da intimidade do cantor, algo que resulta em alguns momentos surpreendentes, onde ficamos quer diante da sua figura algo irascível perante a imprensa, quer perante um indivíduo sensível que ama a sua filha e a sua esposa. A relação entre Courtney e Kurt é uma das pedras basilares do documentário, com os vídeos caseiros a exibirem a proximidade entre ambos, bem como a personalidade bastante aberta da primeira (não faltam os seios da cantora a serem exibidos), para além da saudável loucura que os rodeava. Veja-se quando Courtney Love lê o "hate mail" relacionado com a sua pessoa, algo que é ironizado pelo casal, com Kurt a encontrar-se vestido de mulher a fingir praticamente que é um fantoche. O nascimento de Frances Bean Cobain marca um novo passo no casamento de Courtney e Kurt, com este a procurar apresentar uma postura distinta do seu progenitor, ou seja, ser mais caloroso e próximo da filha, embora o nascimento da criança tenha sido envolvido em polémica. Não faltaram manchetes a relatar o consumo de drogas de ambas as partes, com o casal a ficar visivelmente afectado com toda esta situação, embora Courtney tenha efectivamente ingerido heroína no início da gravidez. O consumo de drogas marcou o quotidiano deste casal, com ambos a parecerem não se conseguirem afastar totalmente das mesmas e das polémicas, algo que fazia as delícias dos tabloides. "Kurt Cobain: Montage of Heck" não tem problemas em explorar este período, remetendo inclusive para recortes de jornais e para momentos em que o cantor se encontrava visivelmente agastado. Temos ainda os vários momentos dos concertos, nos quais Kurt Cobain levava multidões ao delírio, tendo alcançado um sucesso que provavelmente não esperaria, com o documentário a não ter problemas em exibir a dificuldade que a banda tinha em lidar com as "consequências" da fama. Estes parecem desprezar a imprensa, a opinião da crítica (considerando que a música é algo demasiado pessoal para ser avaliado apenas por um jornalista), bem como alguns colegas de profissão, entre os quais os Aerosmith e Guns N' Roses (que são alvos de troça nos vídeos caseiros e nas reportagens de arquivo), ao mesmo tempo que procuram sempre melhorarem e evoluírem.

Kurt Cobain é apresentado como um perfeccionista que lida mal quer com as críticas negativas, quer com o sucesso, tendo apresentado uma fase de enorme rebeldia na infância que parece ter sido transportada para as suas canções, com este a tornar-se num ídolo para os fãs do rock. A rebeldia na infância é exposta nos depoimentos relacionados com o facto deste ter sido enviado para a casa do pai, posteriormente para os avós e os tios, até ser obrigado a regressar à casa da progenitora, indo pelo caminho cometer alguns actos nem sempre recomendáveis tendo na música e na marijuana os seus modos de evasão. O vício pela heroína surge associado inicialmente às dores de estômago, com Kurt a tornar-se num viciado, tal como Courtney Love, com ambos a formarem um casal bastante peculiar que fez as delícias da imprensa da época. O casamento com Courtney parecia servir para Kurt finalmente ter uma família coesa, algo com o qual não contava desde a infância, embora o matrimónio tenha durado apenas cerca de dois anos devido à morte do cantor. Ao longo do documentário ficamos diante da complexidade de Kurt Cobain e da sua genialidade como cantor, com "Kurt Cobain: Montage of Heck" a contar com temas sonoros como "Smells Like Teen Spirit", "Come As You Are", "Lithium", entre outras músicas que fizeram e continuam a fazer um enorme sucesso e adornam um documentário de pleno interesse. O título remete para uma cassete com canções compiladas (como vem no site oficial: Recorded by Cobain , on a four-track cassette recorder, it's a free-form mash-up of song bites, manipulated radio recordings, elements of demos and disparate sounds created or recorded by Cobain), com Kurt Kobain a ter na música uma companhia, tendo uma mente aparentemente incessante: escrevia, desenhava, compunha, cantava, tocava guitarra, revelando uma ânsia de criar e um talento enorme que contrastam em alguns pontos com a sua atitude algo depressiva e em alguns momentos irascível, com o documentário a não procurar santificar uma figura que ficou conhecida não só pela sua genialidade mas também pela sua complexidade. A sua morte precoce, aos vinte e sete anos de idade, devido a ter cometido suicídio, não apagou os grandes feitos daquele que foi e continua a ser um dos grandes ícones da música rock, com Kurt Cobain a ter neste documentário mais uma prova que o seu nome dificilmente será apagado da História da Música e da cultura popular, com os seus trabalhos a conseguirem ainda comunicar com o público. Foi um ser humano complexo, capaz dos trabalhos mais geniais e de ter na sua própria figura o seu maior adversário, parecendo viver em constante conflito consigo próprio e com aqueles que o rodeiam, um rebelde que conquistou o Mundo e fez com que este não se esqueça de si. Com uma boa utilização do material disponível, adornado por uma montagem eficaz e um trabalho de pesquisa latente, "Kurt Cobain: Montage of Heck" surge como um documentário imprescindível que pode não trazer grandes revelações sobre o cantor mas é capaz de nos expor à figura icónica do mesmo, enquanto nos embrenha para o interior de alguns episódios relevantes da sua curta e marcante existência. Surge representado como um indivíduo criativo, incontrolável, sensível, aparentemente desapegado ao mundo do show business, um ser humano que carrega no seu interior toda a complexidade de uma alma fervilhante que é capaz de reunir milhões em volta da enorme admiração pela sua música. Este representa também uma fase distinta no mundo da música, onde a MTV era efectivamente um canal dedicado à mesma, as cassetes piratas eram uma realidade, assistia-se ao boom das revistas especializadas que pouco pareciam ser apreciadas pelo cantor, com Brett Morgen a abordar um pouco o ambiente da época, embora o foco pareça quase sempre procurar "encontrar" Kurt Cobain na multitude do seu ser. Foi como um meteoro que passou de rajada, causando marcas indeléveis naqueles que ficaram fãs do seu trabalho, com "Kurt Cobain: Montage of Heck" a contribuir ainda um pouco mais para a admiração que já temos em relação ao cantor e ao ser humano.

Título original: "Kurt Cobain: Montage of Heck". 
Realizador: Brett Morgen. 

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