27 maio 2015

Resenha Crítica: "Kreuzweg" (Estações da Cruz)

 De um rigor estético assinalável que se adequa na perfeição ao quotidiano dos elementos que povoam a narrativa, "Kreuzweg" é uma obra cinematográfica que simultaneamente é capaz de gerar a nossa incredulidade, revoltar e arrasar emocionalmente, ao mesmo tempo que deixa a certeza que quem vive fora do "Mundo" destes personagens certamente nunca irá compreender totalmente os mesmos. Somos colocado diante de um grupo de personagens principais que são, na maioria, católicos extremistas, que vivem de acordo com regras muito próprias, sobretudo a protagonista, Maria (Lea van Acken), uma jovem de catorze anos de idade, de tez bastante clara e voz calma, que foi educada no seio de uma família extremamente conservadora. Maria procura dedicar o quotidiano a Deus ao levar um estilo de vida marcado por diversas privações e uma série de regras que são inculcadas não só em casa mas também na unidade da Fraternidade Sacerdotal de São Paulo que esta frequenta. Esta unidade e os ideais que professa são apresentados desde logo na primeira das "catorze estações" de "Kreuzweg". A estrutura narrativa do filme é dividida em catorze estações, cada uma composta apenas por um plano de longa duração, por norma fixo, sem a presença de música não diegética, com uma austeridade que se adequa ao quotidiano destes personagens. Logo na primeira estação, intitulada de "Jesus é Condenado à Morte", encontramos Maria no interior de um grupo religioso, com esta a demonstrar junto do padre Weber (Florian Stetter) que é aquela que parece estar mais informada sobre os assuntos relacionados com a fé, com estes pupilos a preparem-se para serem crismados no Domingo. O extremismo deste padre fica desde logo assinalado nestas suas palavras: "Esta pessoa é um soldado de Jesus Cristo. O sacramento do crisma vai ajudá-los nisto. É uma graça que permite que mostrem uma grande prova de fé". Seguem-se reptos para os jovens evitarem roupas provocadoras, não verem as imagens obscenas que constam nos anúncios, não ouvirem música satânica (rock, pop e até gospel) nem assistirem a filmes considerados prejudiciais, para além de instigar a que incutam esses valores nos outros que os rodeiam (a fazer recordar aquela conversa de treta de que os ateus devem respeitar os crentes quando, por vezes, o contrário não acontece). Este salienta ainda a necessidade de terem de ser efectuados sacrifícios para abrir espaço a Deus para este entrar nas suas almas, mas também que estes jovens são soldados ao serviço de uma causa, criticando o Vaticano e boa parte da Igreja por se afastarem dos valores mais tradicionais. Maria parece levar a sério esses ensinamentos, a ponto de não querer tirar fotografias, nem se embelezar para as mesmas, utilizar apenas a roupa necessária (uma situação que a leva a andar de t-shirt quando o tempo aconselha à utilização de casacos e vestes quentes), confessar-se quando considera ter cometido pecados, travar uma aula de educação física por considerar que a música seleccionada é satânica, sendo obviamente alvo de troça da maioria da turma. A única excepção à regra é Christian (Moritz Knapp), um jovem crente que conhece na biblioteca que parece despertar a sua atenção, embora logo seja obrigada a afastá-lo devido à sua mãe ser contra esta amizade com rapazes, sobretudo com um elemento que frequenta uma igreja progressista ao ponto de cantarem gospel e soul. Maria fica interessada neste rapaz a ponto de mentir à mãe para poder participar nas aulas de canto coral com Christian mas logo acaba por se arrepender, com a progenitora a não poupar numa enorme reprimenda quando descobre a verdade em mais um momento onde os problemas entre estas duas ficam visíveis.

Parece existir algum desejo típico dos adolescentes entre a protagonista e Christian, mas Maria logo procura travar esses ímpetos, com a sua alma a parecer estar em conflito a ponto desta confessar-se junto do padre, num dos raros planos onde ficamos diante de um demorado close-up. A iluminação é diminuta, os pecados que esta tem para expurgar são maioritariamente situações normais para a idade, mas o estilo de vida que a família, o padre e a própria impuseram conduz a regras castradoras da liberdade, com o final do filme a ser o ponto máximo do resultado deste extremismo injustificável. Maria pretende oferecer-se como sacrifício a Deus, encarando este gesto como uma possibilidade do seu irmão mais novo poder começar a falar, algo que ainda não aconteceu, uma situação preocupante se tivermos em conta que este já tem quatro anos de idade (os médicos especulam que este tem autismo mas a mãe da protagonista não parece levar o diagnóstico a sério). Existe algo de genuíno e ingénuo na fé e crença de Maria, independentemente de podermos ou não concordar com a mesma, sobretudo quando esta entra em extremos perigosos que colocam a sua vida em risco. A personagem interpretada por Lea van Hacken habita ainda com mais um irmão e uma irmã, bem como com Bernadette (Lucie Aron), e os seus pais (Franziska Weisz e Klaus Michael Kamp), numa casa marcada por rígidos valores que têm de ser seguidos de forma impreterível. A própria disposição dos personagens numa mera refeição como o jantar demonstra a rigidez dos mesmos, com esta família a apresentar uma visão transviada dos valores que defende de forma extremista, com os vários elementos a parecerem algo desunidos e pouco afectuosos. Veja-se quando Maria se vê na contingência de ir parar ao médico devido ao seu estado grave de saúde, com a mãe a não deixá-la falar, uma situação reveladora da personalidade possessiva e cerceadora da personagem interpretada por Franziska Weisz. Esta actriz sobressai como uma mulher religiosa e conservadora que procura fazer de tudo para que os filhos não se afastem dos valores preconizados por si e pela Igreja que frequenta, uma situação que conduz a alguma fricção com Maria, apesar desta última procurar sempre respeitar a progenitora devido a fazer parte das "leis" religiosas que pratica e professa. Maria é uma personagem difícil que, por vezes, ainda consegue ser mais extremista que a sua progenitora. Por um lado parece querer demonstrar sinais naturais de uma jovem que está na adolescência e a formar a sua personalidade, por outro procura reprimir os seus desejos e entra em extremismos que, associados ao meio em que habita, ainda pioram a sua condição, com a sua saúde a deteriorar-se a olhos vistos. Aceitar quem acredita na religião, tal como quem é ateu, é algo que deveria ser natural. Quando a situação entra em extremismos tudo se complica, algo que "Estações da Cruz" apresenta de forma arrasadora, com Dietrich Brüggemann a realizar com acerto um drama que não nos deixa indiferentes. 

Acima de tudo deixa-nos algo estupefactos ao vermos uma jovem a desperdiçar o seu quotidiano e juventude em extremismos, com o argumento de Dietrich Brüggemann e Anna Brüggemann a retirar inspiração numa instituição real, em particular a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, frequentada pelo pai destes dois irmãos durante uma fase da sua vida. Diga-se que os irmãos Brüggemann não procuram, ou pelo menos não parecem, querer julgar os personagens que criam, nem a sua profissão de fé, deixando essa tarefa para o espectador, embora isso não implique que deixem de procurar questionar este sistema, algo salientado pelo cineasta no press kit: "(...) But I would like to pose a more radical question: Where is abuse in the system? What happens when no one steps beyond his firmly delimited boundaries? When the parish priest gives his confirmation lessons and parents raise their children in conformity with what their conscience dictates? Isn’t this already abuse in itself, not sporadic or sexual, but global and spiritual?". A questão dos abusos sobre o espírito ou sobre a alma remete para a forma como esta rigidez afecta o quotidiano destes personagens, em particular o de Maria, com esta a degradar-se física e mentalmente sem dar por isso, ou talvez até a desejar esta auto-punição para se comparar a Jesus Cristo. Diga-se que em parte esta situação resulta não só da interpretação que esta faz dos ensinamentos a que está sujeita, mas também a quem lhe expõe os mesmos, com o padre na "primeira estação" do filme a exibir paradigmaticamente ser um manipulador nato. Maria não só deseja viver de acordo com a religião como parece disposta a um sacrifício máximo que envolve entregar-se a Deus, com "Estações da Cruz" a surpreender-nos com a jornada descendente desta jovem. A personagem interpretada por Lea van Hacken é uma figura complexa e aparentemente inteligente que nem sempre consegue despertar a nossa simpatia. Por vezes irrita-nos, por vezes faz-nos perceber os seus ideais, com Lea van Hacken a ser essencial para que nunca desistamos de seguir esta jovem bastante distinta da adolescente típica que encontramos regularmente representada nos filmes, tal como não é uma figura que encontremos frequentemente na realidade. Lea van Hacken consegue expor paradigmaticamente o deteriorar físico da personagem que interpreta, as dificuldades que por vezes apresenta em manter-se fiel aos seus valores, ao exibir a curiosidade genuína de Maria em relação a Christian, mas também o amor que esta tem pelo irmão mais novo, as dificuldades que tem em integrar-se junto dos restantes colegas, embora o talento da actriz não chegue para que muitas das vezes criemos empatia para com esta personagem. A relação de Maria com a mãe é complicada, parecendo ainda existir pouco diálogo com o pai, com esta família a defender acirradamente valores que nem sempre cumpre, tal como estão longe de serem um exemplo a seguir. É verdade que estão a defender os seus valores mas, quando estes afectam o bem estar e a saúde física e mental, será que são assim tão benéficos? "Estações da Cruz" levanta-nos uma série de dúvidas de ordem moral em relação a estes personagens, com o filme a tocar em temáticas melindrosas como a fé, a religião e a forma como cada um as encara, interpreta e professa.

A cinematografia contribui para esta atmosfera de alguma austeridade a nível de sentimentos, com a cena no confessionário a ser belíssima, ao mesmo tempo que parece notório que as próprias tonalidades são discretas o suficiente para se adequarem ao enredo. Veja-se desde logo a primeira estação, marcada pelos alunos na sala com o padre, um local algo despojado de adereços, marcado por uma cruz saliente na parede, onde os jovens recebem os ensinamentos e são instigados a espalhá-los para fora do local, com este elemento que os lidera a considerar que parte da Igreja actual encontra-se corrompida a nível de valores, com a Fraternidade Sacerdotal de São Paulo a funcionar como um dos últimos bastiões da defesa da tradição (felizmente não assistimos a queima de livros ou de infiéis ou ao regresso aos tempos da Inquisição). O título original de "Estações da Cruz" (Kreuzweg), remete especificamente para o trajecto seguido por Jesus a carregar a cruz, que vai do Pretório até o Calvário. No caso do filme, ficamos diante de uma adolescente cuja vida é apresentada com alguns paralelismos em relação a Jesus Cristo, uma jovem nem sempre fácil de compreender, algo que por vezes nos faz prender ao enredo, embora seja praticamente impossível abraçar por completo este universo narrativo. Podemos não concordar com os ideais desta e da sua família, mas também não deixamos totalmente de a procurar compreender, questionar e perguntar o que faríamos se nos deparássemos com figuras do género. São elementos complexos, que tomam atitudes nem sempre compreensíveis, com "Estações da Cruz" a nem sempre ser uma obra fácil de acompanhar, com o seu excessivo rigor, apesar de um ou outro momento de maior leveza, a muitas das vezes impedi-la de retirar um golpe de asa que a faça sobressair ainda mais, apesar das várias questões pertinentes que instiga junto do espectador ao expor um caso inerente a uma instituição que nem anda assim tão distante de outras do género. Os cenários e a composição dos planos remetem muitas das vezes para uma estética teatral, com os personagens a estarem durante um longo período nos mesmos espaços ao longo de cada "estação" da narrativa, notando-se todo um enorme cuidado, incluindo na disposição dos elementos. Diga-se que a devoção de Maria a espaços nos faz recordar o protagonista de "Journal d'un curé de campagne", um padre que procurava viver de acordo com os ideais religiosos, que levava uma vida de privações, de gestos e atitudes nem sempre compreendidas pelo espectador, nem por aqueles que o rodeavam, com a protagonista de "Estações da Cruz" a poder figurar claramente nestes personagens bressonianos. Maria é incompreendida pela mãe, embora procure a sua aprovação, é praticamente ignorada na escola, tendo na fé e na Igreja dois baluartes que a consomem de maneira indelével. Com uma cinematografia praticamente imaculada, "Estações da Cruz" surge como uma obra cinematográfica filmada com grande rigor, capaz de nos fazer questionar sobre o extremismo religioso e os personagens que povoam a narrativa, ao mesmo tempo que nos apresenta a Lea van Hacken, uma agradável surpresa a nível da interpretação, embora a adolescente a quem esta dá vida nem sempre seja uma figura fácil de gerar empatia.

Título original: "Kreuzweg".
Título em inglês: "Stations of the Cross".
Título em Portugal: "Estações da Cruz". 
Realizador: Dietrich Brüggemann.
Argumento: Dietrich Brüggemann e Anna Brüggemann.
Elenco: Lea van Acken, Florian Stetter, Franziska Weisz, Ramin Yazdani, Lucie Aron, Moritz Knapp.

1 comentário:

Miguelsalgado disse...

Genial. Um dos grandes filme da história do cinema, quanto a mim