30 maio 2015

Resenha Crítica: "The Humbling" (A Humilhação)

 "The Humbling" é um filme de desequilíbrios, sejam estes do seu protagonista, sejam estes inerentes ao argumento, sejam estes resultantes da cinematografia, sejam estes devido à capacidade de Barry Levinson tanto de nos apresentar alguns momentos de enorme intensidade e inspiração como logo de seguida deixar-nos diante de sequências insípidas. Por um lado, é positivo ver Al Pacino num filme que não é protagonizado por Adam Sandler ou realizado pelo especialista em incutir o seu toque de trampa: Dito Montiel. Já para não recordar aquele espalhanço ao comprido com Robert De Niro em "Righteous Kill" de Jon Avnet. Por outro fica a ideia que é um actor de excelência que procura em demasia demonstrar que ainda se encontra bem vivo e relevante na Sétima Arte, acabando muitas das vezes por servir como um eucalipto que seca quase tudo à sua volta em "The Humbling", uma obra cinematográfica que tem como base o livro homónimo da autoria de Philip Roth. Al Pacino desgasta-se, desgasta-nos, exibe uma multitude de emoções a interpretar um actor que não consegue muitas das vezes distinguir o fino traço entre a realidade e ilusão, uma situação que o conduz a entrar regularmente em situações desagradáveis. Este actor é Simon Axler, um indivíduo que outrora fora conhecido pelos seus êxitos que tem de lidar com a desconfiança da imprensa após se ter atirado do palco durante uma peça e procurado cometer suicídio "à Hemingway", encontrando-se numa crise pessoal e profissional. Falta-lhe a energia de outrora, falta-lhe a capacidade de decorar as falas, falta-lhe a noção de distinguir o que é realidade e ficção, falta-lhe a vontade de regressar aos palcos, ou seja, falta-lhe equilíbrio em várias vertentes da sua vida. Nesse sentido, acaba por ser internado numa clínica psiquiátrica, com o seu quotidiano neste espaço a ser abordado de forma superficial, assim como quase tudo ao longo do filme, com este local a servir acima de tudo para introduzir Sybil (Nina Arianda), uma mulher que pretende que Simon a ajude a eliminar o marido, enquanto percebemos que o protagonista encara muito do quotidiano que o rodeia como se de uma grande peça de teatro se tratasse, ao mesmo tempo que parece pensar que quase tudo gira em sua volta. Diga-se que o próprio Barry Levinson contribui para esse centrar das atenções, algo notório no momento de terapia de grupo onde encontramos Simon numa espécie de roda com outros doentes, com "The Humbling" a preocupar-se apenas com o que este tem para dizer, parecendo tudo feito para ser o grande espectáculo de Al Pacino. Essa situação acaba muitas das vezes por atribuir uma artificialidade ao enredo que prejudica mais do que beneficia a credibilidade do mesmo, parecendo existir uma tentativa excessiva de expor o talento do intérprete de Simon. Ao regressar a casa, uma luxuosa vivenda com dois andares e uma piscina, Simon recebe a inesperada visita de Pegeen (Greta Gerwig), uma mulher muito mais jovem, que manteve uma relação com Louise Trenner (Kyra Sedgwick), a directora na universidade onde esta lecciona, após ter conseguido o cargo devido a ter conquistado a sua superior. Pegeen é filha de um casal amigo do protagonista, tendo nutrido uma enorme admiração pelo mesmo desde sempre, sendo uma das várias personagens que vai aparecer na vida do actor durante este período caótico da sua mente e da sua alma, ao qual devemos juntar um corpo cada vez mais em decadência e um argumento que não consegue dar conta de tudo aquilo a que se propõe.

A personagem interpretada por Greta Gerwig parece trazer alguma energia ao quotidiano de Simon, mas também diversas dúvidas, problemas e episódios rocambolescos, incluindo ameaças de Louise, embora esta personagem nunca passe praticamente da caricatura da ex-namorada que procura avisar sobre o efeito nefasto da antiga cara metade nos restantes seres humanos. Juntos, Pegeen e Simon cometem actos como construir uma rede de comboios de brincar, trocam alguns momentos de afinidade tais como dialogarem como se estivessem no meio de uma peça de teatro, reúnem-se com Prince (Billy Porter), outra ex-namorada da protagonista, agora um homem, enquanto o personagem interpretado por Al Pacino expõe os seus receios junto do Dr. Farr (Dylan Baker), o psiquiatra que contacta via Skype. Diga-se que os diálogos com o psiquiatra são, regra geral, uma forma preguiçosa de Barry Levinson expor os sentimentos e a inquietação do protagonista em relação aos episódios que vive. Podemos também encarar as conversas entre o Dr. Farr e Simon como um exemplo da enorme falta de confiança deste último em si próprio, com o médico a procurar muitas das vezes destrinçar os elementos que não jogam bem nas falas do seu interlocutor, algo visível quando o personagem interpretado por Dylan Baker questiona se Pegeen terá mesmo dito uma fala como o protagonista terá mencionado, ou se este ouviu apenas aquilo que pretendia ouvir (e não aquilo que realmente foi dito). Se "The Humbling" até se revela um interessante estudo de personagem, também não deixa de ser notório que lhe falta um universo narrativo credível a envolver o mesmo, algo que incluiria contar com elementos secundários de peso que alicerçassem uma história que está longe de ser novidade em Hollywood, embora possa sempre ser contada com competência. Veja-se a ilusão em que vive Norma Desmond (Gloria Swanson) em "Sunset Boulevard", as crises de Margo Channing (Bette Davis) em "All About Eve", a dolorosa queda no abismo de Myrtle Gordon (Gena Rowlands), a protagonista de "Opening Night", ou os mais recentes "Clouds of Sils Maria" e "Birdman", com todos a terem algo em comum: actores ou actrizes a viverem uma espécie de crise a nível profissional que se estende à vida pessoal. A diferença para todos os exemplos citados é que "The Humbling" é aquele que é mais frágil em termos de criação de um universo narrativo coerente, coeso (Barry Levinson dispara para todos os lados, indo desde os momentos mais introspetivos de Simon, passando por trechos meio non sense, tragédia e exageros, numa salada russa que é muitas das vezes colada com cuspo) e forte o suficiente para sustentar uma narrativa de quase duas horas. Essa situação é visível na falta de personagens secundários de peso, com excepção de Greta Gerwig, com esta a interpretar uma mulher algo indecisa em relação à vida, culta, irreverente, que muitas das vezes parece associada à própria imagem da actriz. Gerwig tem alguns dos seus melhores momentos ao lado de Al Pacino (este surge em quase todas as cenas), com a actriz e o actor a interpretarem uma dupla peculiar, que nunca chega a apresentar uma química verdadeiramente convincente mas também está longe de não prender a nossa atenção. São duas figuras distintas, em fases bem diferentes das suas vidas, com Pegeen a revelar um enorme desejo de descoberta, sobretudo a nível sexual, enquanto Simon parece cansado de tudo aquilo que o rodeia, embora Pegeen traga um elemento simultaneamente jovial e ainda mais destrutivo à sua vida, sobretudo quando os personagens que rodeiam o "universo" desta começam a orbitar junto do actor.

A relação entre Simon e Pegeen parece desde cedo fadada ao fracasso, sendo marcada por elementos que variam entre o mais dramático, o romântico e o cómico. Ela quer uma nova experiência e desfrutar de novas sensações, começando aos poucos a utilizar roupas mais femininas graças à acção e às finanças de Simon. Ele nem sabe bem o que é real e fantasia na sua vida, com a mente a pregar-lhe uma imensidão de partidas, algo que muitas das vezes nos deixa na dúvida sobre aquilo que estamos a ver (e a um desinvestimento gradual nos acontecimentos que rodeiam Simon). O medo em perder a companhia desta jovem conduz a que Simon gaste aquilo que tem e não tem para oferecer comodidades a esta professora de teatro. Pegeen não é a única figura feminina que rodeia a vida de Simon. Veja-se a visita de Louise, num momento em que Kyra Sedgwick nos brinda com um pouco de overacting, assim como Nina Arianda quando Sybil entra em cena. Diga-se que Nina Arianda interpreta uma personagem cujas razões para estarem na narrativa envolvem uma subtrama que poderia perfeitamente ter ido parar ao lixo na sala de montagem, com esta a dar vida a uma mulher desequilibrada que procura a todo o custo que Simon a ajude a eliminar o esposo. Não sabemos se tudo o que esta fala é realidade ou ilusão, embora os objectivos desta mulher sejam verídicos, apesar de não acrescentarem praticamente nada ao enredo, ou melhor, trazem uma dose ainda maior de loucura. Sybil é uma personagem completamente desinteressante de um filme que a espaços também merece esse adjectivo depreciativo, com Barry Levinson a não conseguir demonstrar a inspiração que teve em obras como "Good Morning, Vietnam", "Bugsy", "Rain Man" e "Wag the Dog". No caso de "The Humbling" assistimos Barry Levinson a procurar explorar as qualidades do seu actor principal para a interpretação, com o filme a surgir como um veículo para Al Pacino mostrar que ainda está aí para as curvas. Al Pacino interpreta um personagem que muito parece ter do próprio, um actor envelhecido, com uma carreira que já conheceu melhores dias, que parece algo cansado e sem paciência para representar. O cansaço é exposto de forma paradigmática, bem como a instabilidade deste personagem que de forma amiúde não sabe (por vezes nem nós sabemos) se o que está a ver e a dialogar é realidade ou ficção. Essa situação periclitante a nível profissional e pessoal conduz a que Simon quase chegue a ponderar dar a cara para um anúncio de um produto para perda de cabelo. No caso de Al Pacino resultou na participação num filme de Adam Sandler, para além de uma série de trabalhos medíocres onde este, a par de Robert De Niro, por vezes parece quase que andar a gozar com a cara daqueles que outrora admiraram as enormes qualidades que apresentavam para a interpretação, passando a viver da fama do passado. O lado positivo de "The Humbling" é que é muito melhor do que alguns trabalhos recentes de Al Pacino. O lado negativo é que tanto Pacino, como Barry Levinson, podem fazer muito melhor. No entanto, não deixa de ser curioso que, apesar de todas as suas limitações, "The Humbling" seja uma obra que nos desperte sentimentos tão mistos. Por um lado parece que existe material para muito mais do que aquilo que nos é dado, por outro também existem vários elementos positivos a se retirar.

A interpretação de Al Pacino é um desses factores positivos, pese um ou outro exagero, com o actor a deixar expor a decadência do seu corpo e da mente do personagem que interpreta, não tendo grandes complexos em que possamos catalogar os problemas que Simon padece com os seus. Outro dos elementos positivos é Greta Gerwig, com a actriz a interpretar uma mulher a viver uma fase confusa da sua vida, algo que promete trazer ainda mais incerteza ao quotidiano de Simon mas também ao enredo, com a relação entre estas duas figuras a prometer alguns momentos delirantes, envolventes e explosivos, com algum erotismo pelo meio. Veja-se quando Simon falha na cama e esta saca do vibrador, enquanto este para variar continua a falar como se fosse o centro das atenções e esta geme sem grandes problemas em ignorar o discurso do interlocutor. A relação entre estes dois personagens, embora nem sempre seja explorada na justa medida, é um dos elementos que mais sobressaem ao longo do filme, ao contrário da constante necessidade de Barry Levinson em colocar Simon a falar com o seu psiquiatra via Skype, uma situação que torna muito do que é exibido redundante. Barry Levinson parece ter receio que o espectador seja idiota, ou pelo menos tenta tratá-lo como tal, ao ponto de repetir elementos da narrativa, utilizar a banda sonora para expor aquilo que já estamos a ver, ao mesmo tempo que atira com personagens em direcção ao enredo para muitas das vezes não saber o que fazer com os mesmos. Veja-se o já citado caso de Sybil, ou a presença de Dylan Baker como um psiquiatra que praticamente apenas aparece via Skype, ou a própria introdução na narrativa de Prince que permite gerar alguns momentos caricatos embora tenha pouca influência no enredo. Temos ainda a presença dos pais de Pegeen que logo ficam revoltados com o facto de Simon encontrar-se envolvido com a filha, algo que resulta em mais momentos de histeria, com Barry Levinson a parecer de forma amiúde pretender utilizar alguns exageros por vezes associados às interpretações teatrais que nem sempre resultam bem no enredo de "The Humbling". A puerilidade de muitos dos personagens secundários exibe a instabilidade de um argumento que nem sempre tem capacidade para explorar os elementos introduzidos na narrativa, com a própria cinematografia a nem sempre conseguir sobressair como esperamos. Um desses exemplos pouco inspirados tem lugar quando Simon encontra-se a padecer de enorme nervosismo, enquanto a câmara se movimenta em direcção aos seus pés para demonstrar os movimentos nervosos do protagonista. É giro, percebemos a ideia, mas na prática é mais um momento redundante que, infelizmente, é exposto de forma artificial, sobretudo pela forma como Barry Levinson deixa muitas das vezes escorregar esta temática principal para se envolver em subtramas. A certa altura de "The Humbling" assistimos ao personagem interpretado por Al Pacino a falar sobre a dificuldade em decorar as falas, bem como a "falta de apetite" e desejo para voltar a representar, naquele que é um dos vários "quase monólogos" do protagonista. Em "The Humbling" assistimos à procura de Al Pacino em exibir-se como um actor ainda relevante, embora a sua carreira demonstre que já não tem o apetite de outrora, isso ou teremos de começar a abrir o debate de que em Hollywood não só faltam bons papéis para mulheres mas também para homens a partir de uma certa idade. Embora o argumento tenha quase tantos problemas como a mente do seu protagonista, "The Humbling" surge como um interessante estudo de personagem, permitindo a Al Pacino expor alguns dos seus vastos recursos para a interpretação, embora este já nos tenha dado muito melhor, com o actor a mostrar que merece mais e melhores trabalhos.

Título original: "The Humbling". 
Título em Portugal: "A Humilhação". 
Realizador: Barry Levinson.
Argumento: Buck Henry e Michal Zebede.
Elenco: Al Pacino, Greta Gerwig, Dianne Wiest, Charles Grodin, Kyra Sedgwick.

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