11 maio 2015

Resenha Crítica: "Du rififi chez les hommes" (1955)

 O ditado popular costuma dizer que "o crime não compensa". "Du rififi chez les hommes", uma das obras maiores de Jules Dassin, assim o comprova ao deixar-nos perante um grupo de criminosos cujo destino promete ser tão pouco recomendável como o estilo de vida que os seus elementos praticam. Depois de ter entrado na "lista negra" de Hollywood devido à sua suposta ligação ao Comunismo, Jules Dassin encontrou em França o palco ideal para desenvolver uma das suas obras cinematográficas mais memoráveis, o filme de assalto "Du rififi chez les hommes", onde transporta para Paris os destroços do sonho americano. Existe muito dos filmes noir em "Du rififi chez les hommes", com Jules Dassin (um cineasta que se destacou também por filmes deste subgénero como "The Naked City") a deixar-nos perante um universo narrativo negro, marcado pelo crime e pessimismo, personagens fumadores, clubes nocturnos e femme fatales, onde um quarteto de criminosos se prepara para desenvolver com minúcia um assalto que parecia aparentemente impossível no interior de um território de Paris marcado por um clima invernoso incapaz de esfriar as almas inquietas. O que Jules Dassin nos propõe é seguir um conjunto de criminosos competentes no seu ofício, que apresentam personalidades muito próprias e não se encontram livres de contar com os seus problemas pessoais. O líder do grupo é Tony "le Stéphanois" (Jean Servais), um indivíduo que esteve preso durante cinco anos, especialista no assalto a cofres, que é convidado por Jo (Carl Möhner), um amigo pessoal, a participar num plano para assaltar a montra da joalharia Mappin e Webb. Tony é um gangster na casa dos seus cinquenta anos de idade, que ganha uma enorme credibilidade com a interpretação de Jean Servais, um actor capaz de evidenciar algum cansaço deste homem, um indivíduo que parece ser a sombra de outrora, mas também a sua lealdade para com o grupo que forma e a forte ligação com Jo, de quem é padrinho do filho. Jo é casado com Louise (Janine Darcey), de quem tem um filho, chamado Tonio (Dominique Martin), elaborando o plano inicial do assalto com Mario (Robert Manuel), um gangster italiano bastante expansivo que mantém uma relação com Ida (Claude Sylvain), uma mulher também de personalidade bastante aberta. Inicialmente Tony rejeita a proposta, procurando reunir-se com Mado (Marie Sabouret), a sua antiga namorada, descobrindo que esta se encontra envolvida com Pierre Grutter (Marcel Lupovici), um influente e perigoso dono de um clube nocturno chamado Age d'Or. Perante a descoberta do envolvimento de Mado com outros homens, Tony agride a antiga amada, decidindo participar no furto, com a condição do assalto não ser à montra da joalharia mas sim ao cofre, procurando assaltar o mesmo a partir do andar de cima da loja. A casa que fica por cima da joalharia pertence ao dono da mesma, com os criminosos a pretenderem actuar no fim de semana, quando este se ausenta para ir caçar. Para efectuar o assalto estes necessitam de alguém especialista em arrombar cofres, pelo que contactam César le Milanais (Jules Dassin), um dos maiores especialistas da área, um criminoso que tem a sua maior fraqueza no que diz respeito a mulheres. O assalto é meticulosamente preparado e executado, resultando em alguns momentos memoráveis de cinema, onde os silêncios permeiam o enredo (a banda sonora de Georges Auric é silenciada) e ficamos perante estes quatro homens a procurarem assaltar o cofre, com tudo a parecer correr na perfeição. Jules Dassin não poupa pormenores, permitindo que a nossa imaginação funcione em demasia: Será que vão conseguir assaltar o cofre? Será que vão falhar? Mas o que é certo é que conseguem concretizar o furto, embora esta não seja a fase final da narrativa, bem pelo contrário.

Os criminosos aguardam algum tempo antes de negociarem as jóias avaliadas em cento e vinte milhões de francos, procurando não ser descobertos, embora Mario deite tudo a perder ao oferecer um anel a Viviane (Magali Noël), uma cantora do clube nocturno de Pierre Grutter, uma mulher por quem se apaixona, algo que conduz o personagem interpretado por Marcel Lupovici a descobrir os elementos que perpetraram o furto. Grutter logo procura furtar as joias, contando o apoio Remi (Robert Hossein), o seu irmão, um indivíduo viciado em drogas, iniciando-se um jogo psicológico entre ambas as partes que promete trazer muitas mortes, emoção e violência exacerbada. Não existem grandes contemplações de Jules Dassin para com os personagens. Estamos diante de criminosos que se regem por regras muito próprias, por vezes incapazes de as manter, mas nem por isso as procuram deixar de respeitar, gerando-se laços de lealdade mas também de inimizade, algo que explica o confronto entre Pierre e Tony, dois criminosos com objectivos e atitudes antagónicas. Tony quer cumprir o assalto com sucesso e lucrar com o mesmo, enquanto Pierre quer vingar-se do primeiro e aproveitar o trabalho do grupo de criminosos, com Jean Servais e Marcel Lupovici a sobressaírem como estes indivíduos que estão longe de serem exemplos morais. Servais é capaz de expressar algum do cansaço deste personagem em relação ao mundo que o rodeia, um elemento lacónico, que no início do filme é-nos apresentado como alguém que já nem para o jogo tem dinheiro. Tony tanto é capaz de bater numa mulher, como de contar com fortes valores morais, algo visível quando elimina um elemento que traiu o grupo. A lealdade de Tony é ainda visível quando procura resgatar o filho de Jo, após este ter sido raptado pelos homens de Grutter, e transportá-lo para casa com vida, com os momentos finais em que conduz o carro em desespero a serem fenomenais com tudo a resultar na perfeição, desde a interpretação de Servais, passando pela cinematografia, montagem e banda sonora, com todos estes elementos a contribuírem para exacerbar o esforço do protagonista e os momentos de enorme aflição. É um criminoso com alguns valores morais mas pronto a cometer furtos para alcançar dinheiro fácil e sentir algum prazer em todas estas operações intrincadas, fazendo a espaços lembrar o protagonista de “Touchez pas au grisbi”, uma obra que certamente terá inspirado “Du rififi chez les hommes” (o protagonista envelhecido, os valores de lealdade, a adaptação dos elementos dos filmes de gangsters dos EUA à realidade francesa, entre outros). Curiosamente, Servais chegou a "Du rififi chez les hommes" numa fase algo descendente da sua carreira devido a problemas com o consumo excessivo de álcool, com o filme a reunir um elenco de nomes talentosos mas nem por isso de enorme estatuto devido ao baixo orçamento desta obra cinematográfica, algo que em nada travou a ambição dos envolvidos. Veja-se ainda a interpretação de Robert Manuel como o simpático italiano Mario, mas também o próprio Jules Dassin como César, um indivíduo mulherengo cujo vício para agradar às mulheres promete trazer a desgraça ao grupo. Vale ainda a pena salientar Carl Möhlner como Jo, um amigo pessoal de Tony, um indivíduo com família estabelecida que é colocado em desespero quando o filho é raptado, para além de Marie Sabouret como Mado, uma mulher de personalidade algo forte, que outrora tivera um caso com o protagonista, sendo leal ao mesmo apesar deste a ter agredido. Todo o universo narrativo destes personagens descontrola-se após o episódio do assalto, naquele que é provavelmente um dos grandes momentos de "Du rififi chez les hommes", com o filme a parecer ter "bebido" muito da sua inspiração em "The Asphalt Jungle", onde também tínhamos um assalto planeado e executado com enorme pormenor e os efeitos posteriores ao mesmo.

 Jules Dassin filma um assalto com a perícia que poucos realizadores conseguem e conseguiram alcançar, inquietando-nos, exibindo toda a minúcia inerente a este acto, ao mesmo tempo que nos deixa perante um universo narrativo negro e violento, onde a alegria parece impossível de triunfar e o crime exala por todos os seus poros. Os espaços citadinos de Paris são expostos, qual cidade yankee insegura dos filmes noir, onde as autoridades tardam em intervir e expor a sua competência e os criminosos parecem dominar muitas das vezes a seu bel-prazer. Veja-se os esconderijos secretos por onde estes se movem, criando regras muito próprias que não podem, nem devem ser quebradas, onde as lealdades são testadas e as vidas se encontram pouco seguras. Inicialmente, Dassin deixa-nos perante a reunião do grupo, até nos colocar diante do complexo furto e as consequências nefastas do mesmo e dos pequenos erros que podem deitar tudo a perder, sempre com alguma violência e uma cinematografia de se tirar o chapéu de Phillipe Larousse, visível desde logo na cena do assalto, onde os rostos inquietos e os gestos são expostos com destreza. Temos ainda os momentos em que cada um dos elementos visualiza as joias furtadas, com a câmara a expor em close-up os criminosos de forma individual, exibindo o deslumbramento destes diante do seu feito. A iluminação é utilizada de forma bastante eficaz, bem como as sombras, numa obra filmada a preto e branco que teve como base o livro homónimo de Auguste Le Breton, remetendo muito para as raízes noir e para os filmes de assalto. Veja-se desde logo a exposição dos cenários exteriores citadinos, mas também a atmosfera rodeada pelo crime, pela violência, pelos personagens fumadores e até pela presença do clube do nocturno onde assistimos a um memorável número musical protagonizado por Vivianne. Jules Dassin viria mais tarde a repetir a dose de filmes de assalto em "Topkapi", embora num tom bastante mais cómico e menos intenso. Se "Topkapi" destaca-se pelo seu humor, já "Du rififi chez les hommes" insere-se entre os mais memoráveis filmes de assalto da História do Cinema, não só pela sequência de cortar a respiração do furto, mas também pela capacidade de Jules Dassin em explorar as personalidades dos personagens, procurando dotar a narrativa de enorme realismo e sentimento. O assalto terá sido inspirado num episódio real que ocorreu em Marselha, em 1899, onde um grupo de assaltantes furtou uma agência de viagens ao entrar na mesma através do primeiro andar, algo muito semelhante ao que encontramos em "Du rififi chez les hommes". A tensão envolve o assalto, mas também os destinos destes personagens, ao longo de uma obra cinematográfica marcada por alguma violência onde Jules Dassin sobressai acima de tudo pela magnífica capacidade de agarrar a narrativa pelos colarinhos e torná-la igualmente interessante na preparação do furto, na sua colocação em prática e nos acontecimentos que se seguem, conseguindo surpreender-nos em alguns momentos e criar um filme que pode e deve ser tido em atenção.

Título original: "Du rififi chez les hommes". 
Título em Portugal: "Rififi".
Realizador: Jules Dassin.
Argumento: Auguste le Breton, Jules Dassin, René Wheeler.
Elenco: Jean Servais, Carl Möhner, Robert Manuel, Jules Dassin, Janine Darcey, Magali Noël.

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